E Ainda Assim, Amor
14 Capítulo 14 – Entre o Amor e a Inveja
Notas iniciais
O mês de Janeiro passara num ápice, quase sem que Ginny desse por isso. Fevereiro aproximava-se do fim, e Hogwarts parecia viver num estado permanente de inquietação. Os corredores enchiam-se de alunos apressados, livros apertados contra o peito, rostos tensos, conversas sussurradas sobre matérias, feitiços e fórmulas que pareciam nunca mais acabar. Os alunos do quinto e do sétimo ano sentiam o peso dos O.W.L.s e dos N.E.W.T.s a aproximar-se, e o castelo, que em tempos fora palco de uma guerra, agora respirava uma ansiedade diferente — mais silenciosa, mas não menos sufocante.
Ginny Weasley sentia-a todos os dias.
Mas não era por causa dos exames.
Sempre fora boa aluna. Não excelente como Hermione, mas suficientemente aplicada para não temer o futuro. O que lhe apertava o peito não vinha dos livros nem das aulas — vinha das tardes passadas a observar, sem querer observar, Harry e Lucy.
Via-os no salão comunal, sentados perto da lareira, inclinados um para o outro, falando em murmúrios como se o mundo à volta deixasse de existir. Via-os a estudar juntos, a rir de coisas pequenas, a trocarem olhares que diziam mais do que qualquer feitiço. E via, acima de tudo, a forma como Harry olhava para Lucy — um olhar que Ginny conhecia demasiado bem.
Era o mesmo olhar que, em tempos, fora para ela.
Harry e Lucy não eram exceção à rotina intensa daquele ano. Dividiam o tempo entre aulas, trabalhos de casa, sessões de estudo e longas tardes na Sala Precisa, onde treinavam feitiços defensivos… e onde, Ginny sabia, faziam muito mais do que isso. A relação tornara-se cada vez mais forte, mais segura, mais visível. Já não era apenas uma proximidade discreta — era amor em construção, sólido e tranquilo.
E isso corroía Ginny por dentro.
Tentava dizer a si própria que já ultrapassara Harry. Tentava lembrar-se de que tinham seguido caminhos diferentes, de que a guerra mudara tudo, de que já não fazia sentido agarrar-se ao passado. Mas cada sorriso que ele dava a Lucy, cada gesto de cuidado, cada olhar cúmplice, fazia-a sentir-se invisível. Substituída. Esquecida.
E a inveja, silenciosa e persistente, começava a misturar-se perigosamente com a dor.
Foi numa tarde aparentemente banal na biblioteca que tudo mudou.
Ginny estava sentada com algumas amigas, livros espalhados pela mesa, fingindo concentrar-se numa redação de Feitiços quando, ao levantar-se para ir buscar um livro a uma prateleira próxima, ouviu vozes conhecidas. Parou instintivamente.
Era Lucy.
Estava sentada com Harry, Ron e Hermione. Falava baixo, mas a biblioteca estava estranhamente silenciosa, e cada palavra parecia ecoar. Ginny não queria ouvir. Disse a si própria que devia afastar-se. Mas não conseguiu.
Lucy falava do passado.
Falava dos pais, Ethan e Eliza Lane. Da forma como tinham sido obrigados a juntar-se aos Comensais da Morte para a proteger. Da loucura de Voldemort, da família destruída, da culpa que nunca conseguira afastar completamente. Falava do tio — irmão de Eliza — e da tia, que se tinham afastado dela após a morte dos pais, acusando-a em silêncio… e, por vezes, nem tão em silêncio assim.
— Diziam que, se eu não tivesse existido, nada disto teria acontecido — confessou Lucy, a voz firme, mas carregada de uma dor antiga. — Que os meus pais ainda estariam vivos.
Ginny sentiu o estômago revirar-se.
Não por compaixão. Ou talvez… não só.
Aquela informação ficou-lhe cravada na mente como uma lâmina. Um tio. Uma tia. Familiares vivos. Pessoas que culpavam Lucy. Pessoas que a viam como um erro.
Quando Lucy terminou, Hermione apertou-lhe a mão com carinho. Harry disse algo em tom baixo, reconfortante, e Lucy sorriu — um sorriso pequeno, mas genuíno.
Ginny afastou-se antes que alguém a visse. Voltou para a mesa com as amigas, mas já não conseguia ler uma única palavra. A ideia formava-se lentamente, ganhando contornos perigosos.
Se aquelas pessoas odiavam Lucy…
Se acreditavam que ela não merecia felicidade…
Então talvez não fosse assim tão difícil…
Durante dias, Ginny tentou afastar o pensamento. Disse a si própria que era cruel. Que era injusto. Que Harry merecia ser feliz. Mas a imagem dos dois juntos voltava sempre, insistente, dolorosa.
E, pouco a pouco, a certeza instalou-se.
Aquela relação tinha de acabar.
Não por ódio — dizia ela a si própria — mas por amor. Pelo amor que sentira por Harry. Pelo amor que, no fundo, acreditava ainda existir. Convencia-se de que Lucy era apenas uma fase. Uma distração nascida da guerra e da dor partilhada. Convencia-se de que estava a fazer o que era certo.
Só ainda não sabia como.
Mas agora sabia com quem falar.
Nessa noite, sozinha no dormitório, Ginny olhou para o pergaminho em branco à sua frente. A pena tremia-lhe ligeiramente na mão. Respirou fundo.
O primeiro passo era sempre o mais difícil.
Dobrou o pergaminho antes mesmo de escrever uma palavra, como se já soubesse que, a partir daquele momento, nada seria simples. Nem limpo. Nem reversível.
Entre o amor e a inveja, Ginny fizera a sua escolha.
E Hogwarts, ainda adormecida sob a neve de Fevereiro, não fazia ideia da tempestade que começava a formar-se.
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