Naquele Domingo, Hogwarts amanhecera toda coberta de branco. Nevara com vontade durante a noite, e o castelo parecia mais silencioso do que o habitual, como se até as pedras tivessem decidido dormir um pouco mais.

Harry acordou tarde. Passara quase toda a madrugada às voltas na cama, a pensar em Lucy e no encontro inesperado que tivera com a nova amiga. A lembrança do sorriso dela no Três Vassouras não lhe saía da cabeça, nem a forma natural como conversara com todos, como se sempre tivesse feito parte do grupo.

Já eram quase horas de almoço quando decidiu ir dar uma volta pelo castelo. Agasalhou-se bem, por instinto, embora os corredores não estivessem verdadeiramente frios. Os feitiços de Hogwarts mantinham a temperatura amena, e apenas o ar que entrava pelas janelas denunciava o Inverno lá fora.

Quando desceu ao salão comunal, encontrou Hermione a estudar, concentrada sobre uma pilha de pergaminhos, e Ron a jogar xadrez com Neville. Acenou-lhes, tentando parecer desperto, e saiu sem rumo definido.

Caminhou durante algum tempo, deixando que os passos o levassem. Foi então que a viu — Ginny. Estava com Luna, junto a uma das muitas janelas do castelo, observando o jardim transformado num mar de neve. As duas conversavam baixinho, e o cabelo ruivo destacava-se contra o vidro como uma chama.

Harry respirou fundo e aproximou-se. Talvez fosse a oportunidade de perceber o que acontecera na noite anterior.

— Bom dia, Luna — disse o moreno a sorrir.

— Oh, bom dia, Harry — respondeu ela com o seu ar sonhador. Logo se afastou aos saltinhos pelo corredor. — Adeus, Harry!

Ficaram apenas os dois.

— Bom dia, Ginny… podemos conversar? — perguntou, receoso ao ver a expressão fechada da ruiva.

Ela cruzou os braços.

— Não.

Virou-lhe as costas e começou a afastar-se.

— Por favor, é rápido — implorou Harry, seguindo-a com o olhar. — Preciso mesmo falar contigo.

Ginny parou e voltou-se devagar. Havia ciúmes no rosto dela, mas também algo mais fundo, uma raiva que ela se esforçava por controlar.

— Muito bem. Tens dois minutos, Harry. Só dois.

— Só queria perceber se estás bem — começou ele. — Ontem saíste de repente, como se estivesses chateada com alguma coisa. Confesso que… pareceu-me que ficaste com ciúmes da Lucy se ter juntado a nós no Três Vassouras.

A ruiva soltou uma pequena gargalhada amarga.

— Ciúmes? — repetiu. — Tens uma forma engraçada de ver as coisas.

— Então enganei-me?

Ginny aproximou-se um passo. O olhar dela faiscava.

— Talvez eu só esteja cansada de ser invisível quando aparece alguém novo e interessante — disse em voz baixa. — E tu, Harry, tens talento para não reparar no que tens mesmo à frente.

Ele ficou sem resposta por um instante.

— Eu não queria magoar-te.

— Mas magoaste — respondeu de imediato. — Nem tudo gira à volta de ti e da Lucy.

O nome dela saiu quase como um desafio.

— Os dois minutos já devem estar a acabar — concluiu, tentando manter a compostura. — Era só isso?

Harry percebeu que a perdera outra vez, mesmo estando ali.

— Não… há mais coisas que quero dizer.

— Fica para outro dia — atalhou Ginny. — Hoje não consigo.

E retomou o caminho pelo corredor, deixando Harry sozinho.

Ele ficou a remoer as palavras dela. Pela primeira vez percebeu que os ciúmes da Ginny não eram simples birra de adolescente — tinham história, tinham memória. Sentiu uma pontada de culpa a apertar-lhe o peito.

Deu por si a querer encontrar Lucy. Talvez porque precisava de entender o que sentira no pub. Talvez porque queria provar à ruiva que ela se enganara. Desceu ao Salão Principal com essa intenção disfarçada, mas a cadeira de Lucy estava vazia. Observou a porta durante longos minutos, como se ela pudesse surgir a qualquer instante.

Não surgiu.

Naquele domingo branco, a única coisa que Harry encontrou foi o eco dos próprios passos e a certeza inquieta de que o castelo era grande demais para um coração confuso.