O mês de setembro já tinha passado, e Hogwarts começava a parecer menos intimidadora para Lucy. Os corredores, que antes pareciam enormes e cheios de ecos do passado, agora eram apenas o caminho familiar para as aulas e o salão comunal. Ainda assim, cada passo carregava memórias que insistiam em permanecer, lembrando-a de tudo o que perdera e de tudo o que ainda precisava reconstruir.

Apesar da rotina já conhecida, pequenos encontros com Harry tornavam cada dia diferente. Ele surgia aqui e ali, com um sorriso contido ou uma palavra de incentivo, e cada breve interação deixava uma marca silenciosa, quase imperceptível, mas impossível de ignorar. Lucy sentia algo crescer no peito, uma mistura de curiosidade, afeição e uma estranha antecipação pelo que ainda não sabiam nomear.

Cruzaram-se algumas vezes no salão comunal, e um simples “olá” transformava-se em horas de conversa. Às vezes estavam sozinhos, outras vezes Hermione e Ron participavam. Hermione tornara-se uma boa amiga e, com a sua ajuda, Lucy começará finalmente a entender poções, chegando até a apaixonar-se pela matéria.

Um dia, enquanto caminhava por um corredor pouco frequentado, Lucy reparou numa porta que antes jamais tinha visto. Curiosa, aproximou-se e, sem pensar muito, pronunciou mentalmente o que parecia o seu desejo mais urgente: um lugar onde pudesse estudar, descansar e estar só.

A parede mudou, expandiu-se, e à sua frente abriu-se um espaço amplo, acolhedor e iluminado. Havia estantes com livros de todos os tamanhos, sofás confortáveis e uma lareira que crepitava suavemente, aquecendo o ambiente. Lucy percebeu, com uma pontada de surpresa e alívio, que a Sala Precisa finalmente a tinha reconhecido.

Ela passou a visitar o refúgio sempre que precisava de concentração ou simplesmente de um momento para si. Cada visita reforçava a sensação de segurança que há muito não sentia, e a Sala tornou-se um pequeno segredo, um espaço só seu.

Minerva já lhe tinha falado da sala e do fogo que se assolou na mesma durante a guerra mas que depois de muito trabalho conjunto entre professores e aurores foi finalmente extinto.

Algumas semanas depois, surgiu a primeira ida a Hogsmeade desde o fim da guerra e Harry chegou acompanhado com Ron, Hermione e Ginny pouco depois do meio-dia. A aldeia estava diferente — ainda marcada pela guerra, mas viva outra vez. As lojas exibiam janelas reparadas à pressa, havia risos tímidos no ar e o cheiro reconfortante de cerveja amanteigada misturava-se com o frio que começava a anunciar o inverno.

Foi Hermione quem a viu primeiro.

— Lucy… — murmurou, apontando discretamente.

Harry seguiu o olhar dela e sentiu o coração dar um salto inesperado. Lucy estava perto do Três Vassouras, acompanhada por duas colegas. Tinha o cachecol bem apertado ao pescoço e ria de algo que uma delas dizia, mas havia nela aquela mesma serenidade melancólica que ele aprendera a reconhecer.

Antes que tivesse tempo de pensar melhor, Lucy ergueu o olhar — e viu-o.

O sorriso dela demorou um segundo a surgir, como se tivesse sido apanhada de surpresa. Harry sentiu-se estranhamente aliviado quando ela se despediu das amigas e se aproximou.

— Olá — disse Lucy, a voz suave, mas segura.

— Olá — respondeu Harry, com um sorriso que surgiu sem esforço. — Não sabia que vinhas a Hogsmeade hoje.

— É a primeira vez — confessou ela. — Os meus pais nunca me deixaram vir… — calou-se por um instante, depois encolheu ligeiramente os ombros. — Achei que estava na altura.

Hermione sorriu-lhe de imediato.

— Fizeste bem. Faz falta… voltar a viver.

Lucy assentiu, e por um momento o grupo ficou em silêncio confortável. Mas Ginny observava tudo com atenção excessiva. Reparava na forma como Harry olhava para Lucy — atento, genuinamente interessado — de um modo que já não via há algum tempo.

— Então… — disse Ginny, cruzando os braços — parece que estás bem integrada, Lucy.

O tom era educado, mas havia ali uma tensão difícil de ignorar.

— Estou a tentar — respondeu Lucy, sem perceber completamente o subtexto. — Hogwarts ajuda.

Harry ia dizer algo, mas Ginny voltou a falar, agora mais seca:

— Não sabia que também vinhas conosco hoje.

Harry franziu ligeiramente o sobrolho.

— Ginny…

— Não faz mal — interrompeu ela. — Só achei curioso.

O silêncio caiu pesado. Hermione lançou um olhar significativo a Ron.

— Ginny, estás bem? — perguntou Hermione com cuidado.

Ginny desviou o olhar, visivelmente incomodada.

— Preciso de ar. — Pegou no casaco com um gesto brusco. — Não estou com disposição para isto.

Olhou para Harry por um segundo mais longo — havia raiva contida, mas sobretudo mágoa. Como se esperasse que ele dissesse algo. Harry abriu a boca, mas não encontrou palavras a tempo.

Ginny virou costas e saiu apressada, a porta do Três Vassouras fechou-se com mais força do que o necessário.

Hermione suspirou fundo.

— Vou atrás dela antes que expluda — disse, levantando-se de imediato.

— Eu vou contigo — acrescentou Ron, já a seguir-lhe os passos.

E, de repente, Harry e Lucy ficaram sozinhos.

Durante alguns segundos nenhum dos dois falou.

— Lamento… — começou Harry. — Ela não costuma ser assim.

Lucy abanou a cabeça devagar.

— Não tens de pedir desculpa. — Hesitou. — Consigo perceber.

Terminaram de beber a cerveja amanteigada em silêncio trocando alguns olhares tímidos e depois saíram para a rua. Começava a nevar levemente, flocos pequenos e preguiçosos que se depositavam nos cabelos e nos ombros. O frio intensificava-se à medida que caminhavam sem um destino definido.

— Nunca pensei que fosse gostar tanto daqui — disse Lucy, quebrando o silêncio. — Parece… normal. Quase me esqueci de tudo o resto por umas horas.

Harry sorriu.

— Às vezes é isso que precisamos.

Pararam perto de uma rua mais calma. Lucy esfregou os braços discretamente.

— Tens frio — observou Harry.

— Um pouco — admitiu ela, envergonhada.

Sem pensar demasiado, Harry tirou o casaco e colocou sobre os ombros dela. Os dedos tocaram-lhe de leve no braço, e ambos sentiram o gesto mais intensamente do que esperavam.

— Obrigada — murmurou Lucy. — Não precisavas…

— Sem problema— respondeu ele, simplesmente.

Caminharam assim, lado a lado, mais próximos agora. Lucy acabou por contar-lhe um pouco da sua história — de como os pais foram obrigados a virar comensais para a proteger mesmo sendo contra Voldemort, da noite em que morreram. Falou de Lupin, da forma como a salvara, de como fora mais do que um padrinho.

Harry parou.

— O Lupin era teu padrinho? — perguntou, genuinamente surpreendido.

Lucy assentiu.

— Foi a pessoa que me ensinou o que era sentir-me segura, com ele e com a Tonks encontrei novamente uma família.

Harry engoliu em seco. Aquilo aproximou-os de uma forma silenciosa e profunda.

Quando se aperceberam, o céu começava a escurecer e a neve tornara-se mais intensa.

— Devíamos voltar — disse Harry, a contragosto.

Lucy concordou. O caminho de regresso a Hogwarts foi feito num silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos passos na neve. À entrada do castelo, Lucy devolveu-lhe o casaco, mas demorou um segundo a mais a largá-lo.

— Obrigada… por hoje.

— Eu é que agradeço — respondeu Harry.

Separaram-se ali, com a sensação clara de que algo tinha mudado. Não era ainda amor, mas era mais do que amizade. Era o início de algo que nenhum dos dois ousava nomear — mas que já não podia ser ignorado.