E Ainda Assim, Amor
21 Capítulo 21 – Sussurros e Segredos
O final de abril instalava-se em Hogwarts de forma quase enganadora. Os dias eram mais claros, o ar mais leve, e os jardins começavam a recuperar cor depois do inverno. Ainda assim, para Ginny Weasley, nada parecia verdadeiramente luminoso. Sentada junto a uma das janelas do salão comunal da Grifinoria, observava distraidamente o movimento no exterior enquanto segurava um pergaminho já aberto havia vários minutos, sem conseguir forçar-se a ler novamente o conteúdo.
As palavras estavam gravadas na sua mente.
O plano está em andamento?
Já começou a preparar a poção necessária?
Encontrou algum rapaz que a possa ajudar na execução?
Ginny fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquelas perguntas pressionar-lhe o peito. Marcus Hawthorne não era homem de paciência. Cada carta que enviava vinha mais direta, mais exigente, como se a distância entre eles não diminuísse a autoridade que ele julgava ter.
Dobrou o pergaminho com cuidado e pousou-o ao lado, respirando fundo.
— Está tudo sob controlo… — murmurou, mais para se convencer a si própria do que a qualquer outro.
O salão comunal estava relativamente tranquilo àquela hora. Alguns alunos estudavam em silêncio, outros conversavam em pequenos grupos. Ginny manteve-se imóvel, atenta, como se cada sombra pudesse ouvir os seus pensamentos. Foi então que sentiu uma presença aproximar-se.
— Posso sentar-me? — perguntou uma voz baixa.
Ginny levantou o olhar apenas o suficiente para reconhecer o rapaz. Não respondeu de imediato, limitando-se a acenar com a cabeça. Ele sentou-se à sua frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, mantendo a postura discreta.
— Recebeste outra carta — disse ele, não como pergunta, mas como constatação.
Ginny soltou um sorriso breve, sem humor.
— Ele quer resultados.
— E tu? — perguntou o rapaz. — O que queres?
Ela hesitou. Era sempre ali que tudo se tornava mais perigoso.
— Quero que as coisas voltem a fazer sentido — respondeu, finalmente. — Quero corrigir algo que nunca devia ter acontecido.
O rapaz inclinou-se ligeiramente para a frente.
— E isso envolve aquela poção?
Ginny desviou o olhar para a lareira.
— Envolve várias coisas. A poção é apenas uma parte. Uma peça essencial… mas não a mais visível.
— Já começaste a prepará-la?
— Ainda não totalmente — admitiu. — Mas estou a reunir tudo o que preciso. Ingredientes, tempo, contexto. Nada pode falhar. Amanhã começo a preparação.
Ele assentiu lentamente.
O silêncio que se seguiu era denso. Não era desconfortável, mas carregado de implicações.
— Tens a certeza disto, Ginny? — perguntou o rapaz, mais baixo. — Seja lá o que for… depois não há volta atrás eu quero tê-la nos meus braços mas preciso que tenhas a certeza.
Ela levantou o olhar, firme.
— Há coisas que, quando avançam demasiado, já não permitem recuos. — Fez uma pausa. — E eles avançaram longe demais.
O rapaz não insistiu. Limitou-se a assentir e a levantar-se.
— Quando precisares de mim, sabes onde me encontrar.
— Sei — respondeu Ginny.
Quando ele se afastou, Ginny voltou a pegar na carta de Marcus Hawthorne. Desta vez, leu-a com atenção, linha por linha. Depois, puxou outro pergaminho e começou a escrever, a pena movendo-se com precisão calculada.
O plano está em andamento.
A preparação começou.
Estou a observar e a aguardar o momento certo.
Tudo será feito com cuidado.
Não entrou em detalhes. Não precisava. Marcus compreenderia que o silêncio também era uma forma de estratégia.
Nos dias que se seguiram, Ginny tornou-se ainda mais atenta. Observava à distância, anotava mentalmente horários, rotinas, hábitos. Nada escapava: quem se sentava ao lado de quem nas aulas, quem chegava primeiro ao salão, quem costumava desaparecer após o jantar.
Mantinha-se sempre discreta. Sempre presente, mas nunca em destaque.
À noite, no dormitório, fingia dormir cedo enquanto a mente trabalhava incansavelmente. Revivia conversas, planeava possibilidades, ajustava pormenores invisíveis aos olhos dos outros. Cada detalhe tinha de encaixar com perfeição.
As cartas para Marcus continuaram, espaçadas mas consistentes. Ele pressionava, perguntava, sugeria. Ginny respondia apenas o suficiente para manter a confiança dele, sem nunca revelar demasiado.
No fundo, sabia que estava a construir algo maior do que qualquer simples intriga. Era uma teia, fina e cuidadosa, que exigia paciência e precisão.
— Ainda não — murmurava para si própria nas noites mais silenciosas. — Mas em breve.
Enquanto Hogwarts avançava tranquilamente para maio, ninguém suspeitava do que se movia sob a superfície. Risinhos nos corredores, aulas normais, visitas a Hagrid, dias aparentemente comuns.
Mas Ginny sabia: o que estava em curso não precisava de pressa. Apenas do momento certo.
E esse momento aproximava-se, silencioso, como uma sombra que cresce sem ser notada.
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