E Agora?
5 Capítulo 5 - O Sonho
Notas iniciais

E Agora? — Capítulo 5
"Voltei!
Será que consigo contar minha história sem o Camus me cortar? Não sei, mas vou tentar!.”
Eu estava de volta ao colégio e já passara dois meses desde o acidente, eu tava usando boné por causa da cicatriz na cabeça, sei que eu era popular, mas digamos que na minha volta eu parecia um astro de cinema, todo mundo queria me ver ou falar comigo. Era legal isso, as meninas ficavam me dando bola, acho que finalmente deixaria de ser BV.
O Camus é que estava estranho, não sei explicar ele vivia tenso, parece que nunca relaxava. O que será que houve com ele?
Nunca vou saber, o Camus é muito ranzinza para a idade dele, acho que ele vai ser um velho insuportável, sabe? Daqueles que furam as bolas que caem no seu quintal? Então prevejo Camus assim no futuro.
— O que foi, Camus? Por que tá assim?
— Assim como, Milo? — Ele me respondeu com aquela voz enfadada.
— Assim... estranho, quieto... poxa é um saco isso, sabia? — Falei bravo, o Camus estava na minha casa me passando as matérias da escola, minha mãe me obrigava a estudar mesmo doente! Um absurdo isso.
— Milo, eu to tentando te ensinar matemática, não sei como fazer isso rindo. — Camus respondeu do seu jeito monótono, sinceramente não sei por que eu insistia em ser amigo daquele chato.
— Vai ter festa na casa da June, é o níver dela, você vai? — Perguntei mudando de assunto.
— Não sei ainda. — O cabeça de tomate respondeu sem empolgação.
— Vamos, Camus, vai ser legal, acho que vou deixar de ser BV, vou beijar a Sheena. — Contei entusiasmado, mas o Camus simplesmente me olhou com cara de paisagem, a mesma que ele fazia muito ultimamente, quando ele abriu a boca para responder, ouvimos o barulho de alguma coisa caindo no quarto do meu irmão e corremos pra lá. “Corremos” é modo de dizer, eu estava de muletas, ainda com a perna engessada.
— Kárdia, o que aconteceu? Abre a porta! — Pedi batendo na porta com o Camus atrás de mim.
Meu irmão abriu a porta e eu vi o Degel, irmão do Camus, todo descabelado e vermelho como um pimentão.
— O que aconteceu? Que barulho foi esse? — Perguntei olhando para os dois com os olhos estritos.
— Seu irmão é sem noção, Milo! — O Degel respondeu se recompondo.
— Mas, o que aconteceu afinal? — Camus perguntou também confuso.
Os dois se olharam, mas foi o Kárdia que respondeu. – Camus... seu irmão caiu, mas não tenho culpa dele ter dois pés esquerdos.
— São piores que nós, Camus, — Falei e meu irmão me pegou desprevenido, acertando um travesseiro na minha cara. — Ah! Seu...! – Gritei batendo com outro travesseiro na cara dele.
Degel e Camus nos observavam sorrindo, acho que não estavam acreditando na bagunça que estávamos fazendo ali.
De repente meu pai apareceu na porta do meu quarto. — Mas que diabos é isso?
Vi o Degel e o Camus se levantando da cama e encostando-se à parede tensos com os olhos baixos, mas acho que o papai não reparou nisso, pois ele entrou no quarto e começou a brincar comigo e com Kárdia, de guerra de travesseiro.
Camus e Degel não acreditavam no que estavam vendo, eles se entreolhavam e riam.
ooOoo
Eu já estava com quatorze anos, ainda era BV dá pra acreditar?
Não consegui ficar com a Sheena na festa da June, ela não foi.
Poxa, que raiva. O Aioria já tinha beijado a Marin, mas eu e o Camus ainda éramos BV.
Dois patéticos, isso sim. Sério, eu estava subindo pelas paredes, e Já tinha começado a ter sonhos er.. Como dizer? Sonhos nada castos... mas um dele me deixou bem grilado.
...Eu tava sozinho no meu quarto quando o Camus chegou reclamando que tava muito calor e tirou a camisa.
— Milo, tá calor! Tira a sua também. — Ele sugeriu me ajudando a tirar a minha camisa.
O Camus estava estranho, me encarava todo sexy, com um olhar faminto, de repente sem aviso se ajoelhou aos meus pés e foi passando a mão na minha virilha por cima da bermuda, em seguida ele puxou minha bermuda pra baixo, olhando fixo pro meu p...
Cara, quando o Camus colocou “ele” na boca... quase gritei de prazer.
— Hung... Camus! Isso... assim... assim! Cara, que delícia! — De repente senti algo estranho dentro de mim, como se fosse explodir, sem aviso meu corpo começou a convulsionar e uma sensação de prazer que eu nunca havia sentido antes se apoderou de mim...
— Caralho, que isso? – Gritei, acordando todo molhado.
Que sonho estranho! Mas que merda! Será que mijei na cama?
Kárdia entrou no meu quarto, acho que ele me ouviu praguejando.
— O que aconteceu, Milo? — Meu irmão perguntou.
Morrendo de vergonha, respondi. — Acho que mijei na cama, mas não conta pra mamãe.
Ele ficou me analisando e depois sorriu. — Você tava sonhando com o quê?
Fiquei muito vermelho, jamais revelaria aquele sonho para alguém!
— Garotas? — Kárdia perguntou e confirmei sem graça, como poderia falar que tive um sonho erótico com meu melhor amigo?
Então meu irmão me explicou, para minha vergonha eterna, que meu corpo estava mudando e eu tinha tido um “orgasmo molhado”, que de agora em diante meus orgasmos sempre seriam molhados e que era comum ter sonhos molhados na minha idade.
Depois que me troquei e meu irmão saiu do meu quarto, fiquei pensando no sonho, "que estranho... tanta menina pra sonhar, e sonhei logo com o Camus?"
— Milo, você tem que arrumar uma namorada urgente! — Falei pra mim.
ooOoo
Estávamos fazendo um trabalho de química, sentei de frente para o Camus e pro Aioria, analisando os dois, é... eu tava estranho depois do sonho que tive, eu achava o Aioria boa pinta, sabe?
Todo fortão e tal, mas o Camus era diferente, mesmo sendo um garoto o Camus tinha uma beleza diferente, o cabelo vermelho contrastando com a pele branca, ele é mais magro e um pouco mais baixo que eu.
Não sei explicar, mas o Camus tinha algo que me intrigava e também me fazia querer protegê-lo, diferente do Aioria que também era meu grande amigo, mas não despertava isso em mim. Acho que é pelo fato do Camus ter essa cara de cachorro que caiu da mudança.
— O que foi, Milo? — Ouvi a voz do Camus e sai do transe, eu ficava observando ele desde o sonho que tive, sei lá... foi muito estranho aquele sonho.
— Hã? O quê? Ah! Nada, eu tava distraído. — Falei sem graça.
— Então fica distraído olhando para outro lado. — O rabugento ordenou.
— Mas você é chato, hein! — Reclamei.
— Meninas, vamos voltar ao trabalho, sim? — Aioria falou sem paciência, eu e o Camus vivíamos discutindo por besteiras e o Aioria sempre nos chamava à realidade.
Fiz uma careta para o Camus que me olhou com a cara de paisagem dele, e continuamos o trabalho.
Quando voltei pra casa vi uma cena bem estranha, o Kárdia estava chorando, mas não de tristeza, ele conversava com o papai e a mamãe, ouvi meu pai dizer que ia amar meu irmão sempre houvesse o que houvesse.
— O que tá acontecendo? — Perguntei querendo saber o que se passava.
Meu irmão me olhou sorrindo, — Conversa de gente grande, pirralho, mas um dia você vai saber.
Droga! O Kárdia nunca me contava nada!
Ele ia pra faculdade, estava de mudança, ele e o Degel iam dividir uma quitinete, os dois tinham entrado para a mesma faculdade em Atenas, Degel ia cursar Letras, e o Kárdia Bioquímica.
Eles realmente eram bem próximos.
ooOoo
— Está com a June! — Aioria falou e todos correram para se esconder, estávamos de férias e por isso brincando na rua, já era noite, mas o Camus estava brincando também o pai dele ainda não tinha vindo os chamar.
Evidentemente estávamos brincando de pique-esconde e estava com a June.
Na brincadeira estavam eu, Camus, Aioria, Marin, Sheena, Argol, Aldebaran, Issak irmão do Camus, e Hyoga, era café com leite porque ele nunca se escondia direito então o Degel levou ele para passear e meu irmão foi junto com eles.
Eu me escondi num armário de vassouras que ficava na minha garagem, estava aberta, vi que o Camus não tinha encontrado um lugar para se esconder ainda, “Ai! Como é lerdo!”- pensei revirando os olhos.
— Ei, Camus! Vem, se esconde aqui comigo, rápido! — Ofereci antes que a June terminasse a contagem. Ele veio e se apertou na minha frente.
Eu juro que quando o chamei não tinha maldade nenhuma na minha mente! Juro!
Mas o armário era muito pequeno, apertado, e o Camus encostou "em mim," sabe como é? Um adolescente com os hormônios em ebulição, "meu corpo" reagiu na hora.
Camus curvou o corpo para olhar na fresta da porta se June estava vindo, e esse gesto piorou minha situação, pois seu corpo, digo sua bunda me prensou contra a parede.
Porra, eu tava com o pau duro, e tentei disfarçar, pelo menos achava que sim.
— Camus, veja se a June tá vindo. — Eu sussurrei no ouvido dele, que me obedeceu e novamente se inclinou para frente para espiar pela porta.
Rocei meu pau na bunda dele, não sei se ele percebeu, acho que sim, pois ele ficou imóvel por um momento, eu já estava esperando ele me xingar, mas ele voltou a pressionar seu corpo contra o meu.
Puta que pariu! Aquilo era muito bom. Eu o segurei pela cintura enquanto roçava meu corpo contra o dele.
Eu senti o cheiro dos cabelos dele, que estavam limpos, tinha um cheiro muito bom...
Camus fingia que não estava percebendo e eu fingia que não estava fazendo nada, soltei um gemido baixo no ouvido dele e ele jogou a cabeça pra trás, meu coração estava acelerado, ele virou o rosto olhando nos meus olhos.
Sei que pode parecer loucura, mas eu estava até cogitando a ideia de beijar meu amigo, estávamos numa fissura erótica muito intensa, claro que tudo por cima da roupa, mas do nada ouvimos o Sr. Crystal chamando os filhos para entrar.
Camus deu um pulo como se voltasse à realidade, ele se recompôs rápido e saiu do armário correndo, me deixando lá com o coração acelerado, e o pau duro pedindo um alívio.
Percebi que na esquina o Argol me observava, não sei se ele percebeu alguma coisa, acho que não, mas ainda assim sustentei seu olhar como se dissesse "se meta com sua vida".
Eu me recompus e também fui pra casa, precisava me aliviar.
Claro que não toquei nesse assunto com o Camus, teoricamente era como se nada tivesse acontecido.
Só uma coisa mudou, comecei a reparar que o Camus tinha um bunda apetitosa, e confesso que bati muita punheta em homenagem àquela bunda.
ooOoo
— Sinto falta do meu irmão! — Camus falou deitado na minha cama enquanto eu e o Aioria jogávamos no meu PlayStation.
— Ah, Camus deixa de coisa, acho ótimo ser o irmão mais velho, a Sônia sempre me obedece. — Comentei rindo.
Camus ponderou no que eu disse e continuou. — Não sei, não queria que ele fosse estudar tão longe.
— Não é tão longe, são apenas algumas horas de viagem. No feriado ele vem, o Kárdia tava muito feliz, realmente nunca vi meu irmão feliz em ir estudar, acho que o Degel operou milagres com ele.
— Ei! Vamos falar da festa na casa da Marin, vai ser neste fim de semana! Olha, Milo, a Sheena tá muito na sua! Cara, tenho certeza que você desencalha. — Aioria falou rindo, ele ficava sempre com a Marin.
Vimos o Camus estalar a língua e olhamos pra ele. — O que foi? — O Aioria perguntou.
— Nada, não sei se vou. — Ele avisou meio zangado.
— Ah, Camus, não inventa! Você vai sim, não vou ficar lá sozinho, o Aioria vai ficar se agarrando com a Marin e eu fico de vela.
— Você vai ficar com a Sheena, não vai? — Ele falou como se me acusasse de alguma coisa.
— Não sei, Camus, mas preciso de você lá, vamos, por favor! Por favor! — Implorei.
— Ah! Tá bom, mas não sei se meu pai vai me deixar ir, sabe como ele é. – Camus aceitou meio a contragosto, batendo a mão no celular que caiu no chão em baixo da minha cama. — Droga!
O Camus falou se agachando para pegar o aparelho que ao cair no chão a bateria foi para um lado, o celular para outro além da tampa traseira, tudo em baixo da minha cama, ele se ajoelhou e não teve jeito, ficou de quatro tentando pegar as peças.
Sério, eu senti uma fisgada no baixo ventre quando o vi daquela forma, senti o Aioria me cutucando e apontando para bunda do Camus com cara de safado.
Cara! Fiquei indignado e dei um soco no ombro dele fechando a cara, que falta de respeito ficar olhando um amigo assim! Francamente! Hunf!
— Merda, será que tá funcionando? — O Camus falou pegando o celular e ligando para testar. — Ufa! Funcionou. Que foi? — O cabeça de tomate perguntou ao ver eu e o Aioria nos estranhando.
— Nada. — O Aioria respondeu virando para o Camus. — Vamos voltar a jogar, o Milo tá nervoso porque tá perdendo.
Sentei e continuamos a partida, não acredito que o Aioria tava olhando mal-intencionado pra bunda do Camus! É muita falta de respeito isso.
ooOoo
Finalmente chegou o dia da festa de aniversário da Marin, os pais do Camus deixaram ele ir com a condição de voltarmos todos juntos, então marcamos de nos encontrarmos na minha casa e iríamos juntos até lá.
Eu estava com uma calça jeans escuro, tênis e uma camiseta de listas azul, o Camus disse que realçava meus olhos, eu não ligava muito pra essa coisa, mas o Camus era do tipo engomadinho e sempre se arrumava muito bem, então eu sempre seguia seus conselhos.
O Aioria também vestia jeans, camiseta e tênis, a dele era branca com um desenho de um leão na frente, e o Camus era o mais arrumado, pra variar, ele estava com uma blusa polo azul escuro, calça preta e um sapatênis preto.
Chegamos à casa da Marin e a galera já estava quase toda lá, tinha refrigerante e bastante comida, os pais da Marin ficaram na cozinha preparando as coisas e nos deixaram à vontade na festa.
— Eu vou beijar a Sheena hoje! — Avisei ao Aioria que riu.
— Ela tá lá fora, eu já vi, vai lá e não perde tempo. — Aioria falou. — Vou te ajudar a dar um perdido no Camus, senão você não vai ficar sozinho.
Eu pisquei pra ele o vi chamando o Camus para pegar refrigerante e eles saíram, eu estava nervoso ia perder meu BV, cheguei lá fora e encontrei a Sheena, ela estava com as meninas que começaram a dar risadinhas.
Bom, as meninas entraram e eu fiquei sozinho com ela...
ooOoo
"OK, prefiro narrar os fatos daqui se não se importa!"
"Camus, você ainda tá bravo por causa disso?"
"Não, Milo, não estou bravo, mas quero contar isso do meu ponto de vista, posso?"
"Tudo bem, Camus. Fique à vontade".
Eu estava lá na festa da Marin, tinha um pessoal dançando, eu particularmente não gostava de dançar então fiquei num canto observando, o Aioria logo estava pendurado na Marin, resolvi andar pela festa procurando o Milo que havia sumido, "será que ele já foi embora?"— pensei enquanto cruzava a sala, vi que tinham algumas pessoas no quintal e resolvi ir lá ver se encontrava o Milo, poxa, eu estava sozinho ali, era um saco isso.
Vi Jabu conversando com o Debas e fui pra perto deles. — Ei vocês viram o Milo? — Perguntei inocente.
O Debas deu uma risadinha e apontou para uma direção que segui com os olhos, lá estava o Milo quase engolindo a Sheena.
Minha vontade era ir até lá dizer uns desaforos para ele, xingar ela, quebrar tudo em volta, mas não fiz nada.
Fiquei apenas parado olhando os dois, sem ação, com a minha cara de paisagem.
— Vixi, o Milo te trocou pela Sheena? Não chora não, seu bichinha. — O Argol falou no meu ouvido e rindo encostou-se ao muro de braços cruzados me observando.
“Como ele sabia? Digo, como aquele infeliz sabia dos meus sentimentos? Nem eu mesmo tinha noção dos meus sentimentos. Será que mais alguém conseguia perceber isso em mim?” Olhei para os lados, ninguém me olhava, os garotos conversavam entre eles, só o idiota do Argol me olhava sorrindo debochado.
Ele não falava sobre isso com ninguém só me chamava de viado, bichinha quando estávamos sozinhos, ou só pra eu escutar.
Me afastei, fui ao banheiro, sentia vontade de chorar, de gritar, mas de certa forma já estava preparado pra isso, estava preparado para ver o Milo ficar com alguma garota, eu era diferente, ele não.
Lembrei no dia do armário de vassouras, aquilo foi tão surreal que eu cheguei a duvidar que realmente tinha acontecido, nunca falamos sobre aquilo, eu cheguei até a ter esperança que... eu era um tolo, isso sim.
Lavei o rosto e com toda a calma e classe do mundo voltei pra festa, não podia ir embora sozinho, prometemos que iríamos juntos e voltaríamos juntos, papai me mataria se eu andasse sozinho tarde da noite.
As horas não passavam, eu já estava ficando sem paciência, quando meu pai passou um torpedo dizendo que já estava na hora de voltar, fui chamar o Aioria e o Milo.
Foi difícil fazer eles voltarem, mas falei que eu voltaria sozinho se não viessem, pois, meu pai já havia sinalizado duas vezes que estava na hora de voltar e eu não queria ficar de castigo por causa deles.
— Camus, você é um chato empata. — Milo falou enquanto voltávamos para casa.
Eu estava sem paciência pra ele agora, e respondi bravo, — Eu não queria vir, lembra? Você falou pra eu vir, você insistiu, e pra quê? Pra ficar aos beijos com a Sheena a festa toda e me deixar sozinho num canto, muito obrigado por isso.
— Ei, não fique bravo, Camus. — Aioria pediu.
— Ele tá bravo porque é o único BV agora! — O Milo falou rindo.
— Vá à merda, Milo, você é um idiota! — Xinguei antes de entrar na minha casa e deixar eles lá fora, sem entender nada.
Papai estava na sala quando entrei e assim que me viu olhou para o relógio.
— Por que demorou tanto? Passei a primeira mensagem há quase uma hora, você tem quatorze anos não pode chegar meia-noite e meia em casa como se isso fosse normal! — Meu pai começou a bronquear.
— Por mim teria vindo bem antes, mas o senhor falou que não era pra voltar sozinho, daí tive que esperar o Aioria e o Milo, me desculpe. — Pedi calmo e baixo, eu estava uma pilha, mas aprendi a não demonstrar meus sentimentos, ninguém percebia o que se passava na minha mente, essa era minha defesa.
Meu pai me olhou por um tempo e antes de me mandar subir falou. — Vai ficar este mês sem brincar com estes dois, se eles prezam sua companhia na próxima vez não se farão mais isso.
— Mas pai! — Eu falei triste, minha vida era uma merda.
— Sem mais, pra cama, Camus, já.
Subi triste, tomei um banho e chorei no chuveiro, era o momento que eu tinha pra relaxar, sabia que mais cedo ou mais tarde veria o Milo com alguma garota, não podia culpá-lo, mas não sabia que ia doer tanto.
Deitei na minha cama e passei uma mensagem para o meu irmão,
"Degel, eu tô sentindo muito sua falta".
Logo ele me respondeu,
"Eu também, mon pettit, o que aconteceu?”.
Eu não queria perturbar ele então só respondi,
"Nada, só saudade mesmo".
Nessa hora chegou uma mensagem do Milo.
"Ei, cara, tá bravo comigo?"
— Idiota! — Eu falei antes de enviar
"To de castigo por sua culpa, um mês sem brincar com você e com Aioria. Sim estou muito bravo com você".
Claro que meus motivos eram outros, mas este também servia.
" Porra, Camus! Um mês? Cara, que viajem do seu pai, desculpa aí, cara"
Ele me respondeu.
Logo chegou uma mensagem do Degel.
"Darei um jeito para ir até aí neste fim de semana, OK?"
"Mano, não se sacrifique por mim, eu to bem"
Respondi rápido.
"Não é sacrifício, sinto sua falta também, o papai tá se comportando?"
— Degel perguntou.
"Camus, o que você acha da Sheena? Eu acho ela legal, ela disse que gosta de mim faz tempo"
O Milo me perguntou, droga, eu era o melhor amigo dele, era normal que me perguntasse essas coisas. — Droga Milo! — Falei sentido meus olhos arderem.
Respondi ao Degel, -
"Um mês de castigo porque me atrasei ao voltar de uma droga de festa que eu nem queria ter ido".
Tomei coragem e perguntei ao Milo,
“você gosta dela?”.
"Sinto muito, Camus, mas ele não bateu em você, bateu?"
Meu irmão me perguntou.
"Não, foi só o castigo mesmo"
Respondi ansioso pela resposta do Milo.
"Não sei, acho ela bonita e ela é legal também"
O idiota me respondeu.
"Você devia namorar com ela"
Enviei com desdém e raiva.
"Pelo menos isso, darei um jeito de ir ver vocês semana que vem. Beijo e vá dormir"
Degel se despediu.
"Namorar? Será? Vou pensar nisso, acho que pode ser legal, o Aioria namora a Marin, poderemos sair os quatro juntos"
O sem noção, idiota, burro do Milo respondeu para o meu desespero.
— Como você é burro, Camus, burro! — falei sozinho colocando o travesseiro no rosto para abafar meu choro.
Eles não começaram a namorar, para o meu alívio, mas eles ficaram várias vezes, daí o Milo começou a ficar com outras meninas também, fracamente, meu amigo estava se saindo um tremendo galinha.
ooOoo
Certo dia eu estava em casa, era feriado e o Degel tinha vindo para passar o fim de semana com a gente, o Kárdia que morava com ele veio também, eu ia ficar lá fora para ler meu livro sossegado, já era começo da noite quando eu vi o Degel discutindo com o Kárdia, não era minha intenção ouvir a discussão deles, mas...
— Não é tão fácil assim, Kárdia! Minha família não é igual a sua, eu não posso. — Meu irmão falava.
— Não vejo dificuldade Degel, é só falar com eles, tenho certeza que tudo se resolve. — O irmão do Milo falou.
— Meu pai me deserda, não sem antes me dar uma surra. Você não faz ideia de como ele é, Kárdia, ele vai me proibir de voltar pra casa, de ver meus irmãos e minha mãe. — O meu irmão falou para o meu desespero, do que eles estavam falando afinal?
— E sua mãe? Ela não te apoiaria? Será que não pode contar com ela? — Kárdia falava gesticulando.
— Minha mãe, ela jamais iria contra meu pai, ainda mais num assunto desses Kárdia, por que isso é tão importante pra você? — Meu irmão perguntou triste.
— Por que eu te amo e não quero esconder isso de ninguém, minha família já sabe que sou gay, mas quero apresentar pra eles meu namorado. — O Kárdia falou para meu choque, eles se abraçaram e trocaram um beijo.
— Vou tentar, prometo! — O Degel respondeu, me afastei, aquele momento era pessoal demais eu não quis interromper.
Na realidade precisava pensar, eu não era o único diferente, meu irmão era igual a mim. Eu estava muito feliz, muito feliz com isso.
Eu iria conversar com ele quando estivéssemos sozinhos, saindo para a entrada da frente vi o Milo chegando.
— Milo!
— Oi, Camus, que foi? — Ele falou olhando para a minha cara com olhos estreitos.
— Não foi nada! Eu hein, por quê?
— Porque você tá com uma cara estranha. — Ele me estudou.
Fiz meu tradicional olhar blasè antes de perguntar: — Que milagre, não tem nenhuma garota pendurada no seu pescoço!
— Ah! Não enche! — Ele me respondeu bravo, eu vivia atormentando ele com isso. — Vamos lá pra casa jogar?
Podem me chamar de masoquista, mas eu sempre aproveitava as oportunidades de estar com meu... amigo... a sós.
— Tudo bem, vamos. — Avisei minha mãe e fomos pra casa do Milo.
ooOoo
— Nossa você tá com a cabeça aonde? Já perdeu três vezes pra mim. — O Milo me perguntou.
— Em lugar nenhum, acho que não tô no clima pra jogar, só isso. — Respondi.
—Hum, — Ele começou, — Camus posso te falar uma coisa, você não fala pra ninguém?
— Alguma vez eu saí falando suas coisas? — Perguntei indignado.
Ele negou com a cabeça e abaixou a voz. — Hoje peguei nos peitos da Sheena.
Como um garoto normal reagiria? Falaria "Uau, que legal" ou perguntariam "Como foi?" Mas eu não sabia o que dizer, então fiquei olhando pro Milo.
— Sabe, acho que a gente vai transar! — Ele me falou deitando na cama cruzando os braços atrás da cabeça.
— Milo! Vocês são muitos novos pra isso, e a Sheena só tem treze anos, seu tarado! — Eu falei bravo e ele riu.
— Eu sabia que você ia falar isso! Cara, ela é muito jogo duro, a gente já tá ficando há uns seis meses e só consegui pegar nos peitos hoje, AFF. — Milo reclamou.
— Milo, vocês são muito novos, e você fica com várias garotas, se fosse eu no lugar dela nem olharia mais na sua cara. — Falei bravo.
— Ah! Camus, você diz isso porque ainda é BV. — Ele falou gozando da minha cara. — Aliás, meu amigo, você precisa tirar esse BV logo, isso tá pegando mal.
Levantei irritado, eu ainda estava sentado no chão com o controle na mão, — Pegando mal por quê?
— Porque você é um molenga! Mas não se preocupe, vou te ajudar a deixar de ser boca virgem. — O Milo falou sorrindo malicioso e meu coração disparou, pisquei algumas vezes.
—Vai... como? — Perguntei confuso.
— Arrumando uma garota pra você né, cabeção! — Ele me respondeu como se fosse óbvio.
Foi quando escutamos gritos! Alguém estava brigando na rua, meu coração gelou ao reconhecer a voz do meu pai.
Eu e o Milo saímos correndo, ao passarmos pela sala do Milo vi o Sr. Klauss segurando o Kárdia enquanto a Sra. Cassandra saia para ver o que acontecia, eu e o Milo a seguimos.
— Uma vergonha! É isso que você é! Uma vergonha! — Meu pai gritava para o meu irmão, minha mãe tentava segurá-lo, Degel estava com a boca sangrando, acho que meu pai tinha socado ele ali.
— Pai, não sou vergonha nenhuma, sou eu, seu filho, nada mudou! — Meu irmão tentou argumentar com a voz trêmula. – Mãe, fala pra ele.
Minha mãe chorava, não conseguia falar nada, só tentava segurar meu pai.
— Não é meu filho! NÃO É MEU FILHO! — Meu pai berrou para o meu irmão que chorava, corri e abracei meu irmão, ele sempre vai ser meu irmão.
— Entre agora, Camus! — Meu pai gritou e me agarrei mais ainda ao meu irmão.
— Camus, entre cuide do Isaak e do Hyoga, agora você é o mais velho. — Meu irmão falou segurando meu rosto e confirmei que cuidaria deles, daí meu pai veio e me puxou machucando meu braço.
— Não o machuque, seu monstro! — Degel gritou bravo com meu pai, por um momento achei que eles iam se agredir, mas minha mãe entrou no meio.
— Parem os dois! Por favor, Crystal, não. — Mamãe pediu olhando pro meu pai que foi pra dentro me arrastando pelos braços, deixando minha mãe com meu irmão lá fora.
Assim que entramos vimos o Isaak junto com o Hyoga no andar de cima, assim que o papai me soltou eu subi e abracei meus irmãos, fomos pra o meu quarto, da minha janela vimos minha mãe chorando abraçada ao meu irmão, a Sra. Cassandra se aproximou e o Kárdia saiu da casa dele e abraçou meu irmão.
Minha mãe como se entendesse algo levou a mão à boca e entrou deixando meu irmão lá fora.
Os Scorpions levaram o Degel pra casa deles.
Eu sentia meu mundo desabando.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem para o Degel.
“Eu o amo, você é meu irmão e isso é o que importa pra mim”.
Lá embaixo meus pais começaram uma discussão horrível, mamãe raramente ia contra meu pai, mas dessa vez eles estavam discutindo feio, ela dizia que não ia ficar longe do filho, e o Degel sempre seria o filho dela.
Fiquei com meus irmãos, agora cabia a mim protegê-los.
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