E Agora?

3 Capitulo 3 - Quando eu soube


Notas iniciais
Olha quem aproveitou esse carnaval para atualizar a fic! =D Quero agradecer muito a todos que comentaram no capítulo anterior, vocês são incríveis!!! Vivi linda obrigado por betar minha fic e por existir na minha vida ♥ Esse capítulo está diferente e... bom leia conversamos lá em baixo.

PVO Camus

Olá... vi que Milo está contando essa história e decidi contar alguns trechos, pois existe muita coisa que o Milo não saberia como dizer já que ele não estava presente.

Uma dessas vezes foi quando aquele idiota teimoso caiu do telhado da velha fábrica.

Como você já sabe o Milo chutou a bola do Argol para cima daquele telhado velho, tentei impedir que ele subisse pra pegar bola, tentei mesmo quando ele falou para todos que eu apanhava em casa, mesmo assim, ainda tentei impedi-lo de subir, mas aquele burro não me deu ouvidos e subiu.

Não satisfeito ele ainda tentou fazer pouco de mim lá de cima.

— Consegui! Eu sempre consigo! Viu só?!

Ele falou olhando para mim como se me desafiasse, eu estava com os olhos vidrados nele, apreensivo, uma sensação ruim tomava conta do meu peito, quando percebi que alguma coisa estava errada, vi Milo perdendo o equilíbrio e caindo para trás, gritei seu nome desesperado. — MILOOO!!!

Um barulho de algo caindo e se espatifando lá dentro se fez presente, nos deixando paralisados.

Meu coração batia forte e lentamente, um paradoxo eu sei, mas é exatamente essa a sensação, ele fica tão acelerado que parece que vai sair do peito e ao mesmo tempo as batidas são ritmadas e tão lentas que dói.

Eu precisava sair do torpor do susto e fazer alguma coisa pra salvar o Milo.

Olhei em volta, só tinha garotos da minha idade, e não poderíamos fazer muita coisa. Então pensei em quem poderia ajudar o Milo, sei que eu arcaria com as consequências de chamá-lo, mas não tinha alternativa.

Enquanto Aldebaran e Aioria correram para subir no telhado, eu corri para o outro lado.

— Covarde! — Ouvi o Argol me xingando, mas não tinha tempo para aquele babaca.

Corri com toda força que eu tinha, e chegando próximo a minha casa comecei a gritar. — Pai! Pai!!

Meu pai que estava mexendo no carro, parou e me viu correndo até ele. — O que houve Camus? Que escândalo é esse?

— Pai, o Milo ele caiu do telhado, falei pra ele não subir, mas ele subiu, o telhado caiu, lá na fábrica velha. — Eu dizia rápido, querendo que meu pai viesse comigo, quando vi o Sr. Klauss, pai do Milo, entrando no meu campo de visão, acho que ele tava ajudando o meu pai com o carro.

— O que houve com o Milo? — Ele Perguntou sério, nessa hora vi Degel sair de dentro de casa com o celular na mão e Kárdia saindo da casa dele, que ficava de frente a minha, também com o celular, acho que eles tavam conversando.

Degel veio em minha direção, e comecei a falar rápido outra vez, eu estava desesperado. — Rápido! O Milo ele caiu do telhado da fábrica, corram! Vocês precisam ajudar ele.

— Meu filho! — O Sr. Klauss falou antes de sair correndo para a fábrica, sendo seguido pelo Kárdia.

Meu pai me olhou feio antes de dar a ordem. — Fique aqui, Camus, depois nós conversamos.

Não sei como é com o seu pai, mas o meu... quando dizia isso "depois conversamos" ele queria dizer "Eu vou matar você quando estivermos sozinhos", mas eu já tava ferrado mesmo, então resolvi desobedecer meu pai pela primeira vez na vida e fui atrás deles.

Quando chegamos ouvi meu pai gritando para o Debas e por Aioria, que tentavam subir no telhado. — Desçam daí agora vocês dois, vamos já!

Eles obedeceram, coisa que eu agradeci mentalmente já que eu pagaria pela desobediência deles também.

— Degel, chame uma ambulância e os bombeiros! — Meu pai começou a ordenar as coisas, ele era muito bom nisso, sempre mantinha a cabeça fria para pensar no que fazer, — Klauss eu vou subir para sentir como está o telhado, fique aqui.

— Não, Crystal! É meu filho! Tenho que ir... meu filho! — O pai do Milo falou, entendi que meu pai temia pelo que o Sr. Klauss pudesse ver lá de cima.

Meu coração estava apertado, eu estava com medo com muito medo.

Escutei meu irmão chamando os bombeiros e Kárdia ficando estressado. — Não podemos ficar aqui parados! Meu irmão tá lá dentro!

Eu não queria chorar, raramente faço isso em público, mas quando vi meus olhos estavam ardendo, eu sabia que não conseguiria resistir por muito tempo.

Aioria também estava pálido, acho que ele estava se culpando por não ter tentado impedir o Milo, o Aioria era popular, se ele falasse, o Milo teria escutado, digo o mesmo do Aldebaran que era um armário, ninguém falava nada contra o Debas, o Milo talvez tivesse escutado algum deles.

— Kárdia não podemos correr o risco de subir sem os devidos cuidados, podemos cair em cima do Milo e a coisa pode ficar pior, esse telhado está muito velho. — Meu pai falou para o Kárdia, acho que o papai estava tentando ganhar tempo até a chegada dos bombeiros.

— Vocês tem que fazer alguma coisa pra tirar o Milo de lá! — Gritei pra eles, poxa, que demora para tomar uma decisão.

OK, não foi muito esperto da minha parte, pois meu pai estreitou os olhos para mim como se percebesse minha presença e lembrasse que eu estava desobedecendo ele.

Mas fui salvo pelo som do carro dos bombeiros entrando na rua, papai e o Sr. Klauss foram falar com eles.

Fiquei próximo ao meu irmão, mas Degel estava atento ao Kárdia como se estivesse a postos para o caso do irmão do Milo surtar.

Os bombeiros colocaram a escada, e um dos homens subiu.

— O telhado está condenado, não podemos arriscar, ou ele pode cair. — Um dos bombeiros falou lá de cima.

— Tá vendo o garoto? — Outro perguntou cá de baixo.

O homem confirmou e passou as instruções pelo rádio, eu ouvi.

— O garoto está imóvel, desacordado, impossível definir sinais vitais, mas está com a perna ferida e há sangue na cabeça.

Chorei em silêncio, o Milo não podia estar morto, não podia.

Eles ergueram uma maca para o resgate, os bombeiros subiram pela escada e desceriam de rapel até o Milo.

— Está vivo! — Ouvi o bombeiro falando pelo rádio.

Conseguimos respirar aliviados com essa notícia.

— Qual o quadro?

— Inconsciente, fratura exposta na perna direita, braço esquerdo ....

Não consegui escutar mais nada, pois a ambulância chegou neste momento fazendo um barulho enorme.

Em alguns minutos vi eles aparecendo com Milo do alto do telhado, meu amigo estava inconsciente, com uma coisa estranha no pescoço, todo coberto de sangue, sua perna estava imobilizada assim como seu braço, eles colocaram o Milo na ambulância o Sr. Klauss foi com eles, mas deu uma ordem ao filho antes de sair: — Pegue meus documentos e os de Milo e me encontre no hospital.

Kárdia foi correndo pra casa e Degel foi correndo atrás dele.

Um dos bombeiros pegou a bola e deu na minha mão, talvez por eu estar chorando.

Quando vi aquela bola senti tanto ódio... olhei para o Argol que tava lá com aquela cara insuportável dele, não pensei apenas joguei a bola na cara dele com tudo, ele só não retrucou por que meu pai me puxou pelo braço de um jeito nada paternal.

— Mas que diabos é isso? Nós vamos ter uma conversa séria, Camus! De hoje não vai passar! Essa vai ser a última vez que você me desobedece, não mandei que ficasse em casa? Por que me desobedeceu? — Papai falava me chacoalhado, nunca tinha visto o meu pai tão bravo assim, ele foi me levando pra casa assim, me sacudindo pelo braço.

Não respondi nada, tava preocupado com Milo, achei que apanharia assim que chegássemos em casa, mas ele adiou a surra novamente, acho que os pais fazem isso por puro sadismo, assim ficamos pensando na surra que está prometida por mais tempo, sabe... tortura psicológica?

— Vá para o seu quarto e não saia de lá até eu voltar ou você vai se arrepender de ter nascido! — Eu não me mexi de imediato, precisava saber do Milo.

— Anda, para o quarto! — Papai falou me dando um tapa na bunda.

Subi as escadas correndo, mas não entrei no meu quarto fiquei na cabeceira da escada tentando escutar alguma coisa.

Mamãe ouviu os gritos e foi perguntar o que tinha acontecido.

— Crystal! O que está havendo? Por que está bravo assim?

— O menino dos Scorpions se feriu aprontando, fazendo o que não devia, -Papai explicou olhando para mim bravo, — Vou até o hospital para saber como ele está, o Camus está de castigo! Vá para o seu quarto agora! — Papai ordenou batendo a porta sem dar muita explicação para a mamãe que abriu a porta e tentou mais uma vez falar com ele.

Eu corri para o meu quarto e olhei pela janela.

— Venha Kárdia, eu levo você, já pegou o que seu pai pediu? — Papai perguntou ao irmão do Milo que saia de sua casa com Degel ao lado.

— Obrigado, Sr. Versau! Já peguei tudo sim, mas não consegui falar com minha mãe, ela está no shopping com a Sônia.

— Tentaremos novamente do hospital, vamos! — Meu irmão falou gentil.

— Natassia, se a Cassandra chegar você avisa a ela, nós tentaremos do hospital. — Papai disse antes de sair com o carro.

ooOoo

Eu havia contado pra mamãe o que tinha acontecido, ela estava apreensiva, não me tirou do castigo, mamãe raramente ia contra uma ordem do papai.

Não era primeira vez que eu sofria injustiças em casa, já chorei muito escondido por causa disso, mas dessa vez não tinha nem cabeça para protestar, meu melhor amigo estava morrendo e me sentia culpado por não ter impedido ele, eu tentei, mas não consegui.

Vi que o Hyoga havia entrado no quarto, mas não dei atenção pra ele.

— Camus, trouxe uns biscoitos recheados pra você, vamos... coma antes que mamãe veja. — Ele falou tirando os biscoitos do bolso.

Só para você entender, na minha casa quando estávamos de castigo nós ficávamos sem comida. Não, calma! Não ficávamos sem as principais refeições, tínhamos café, almoço e jantar, mas não tínhamos nada além disso, doces e biscoitos eram proibidos.

— Obrigado, Hyoga, mas não quero.

Recusei, estava sem fome alguma e sentia um nó na garganta.

— Não fica assim, talvez ele nem bata em você, quando ele chegar vai estar mais calmo tenho certeza. — Hyoga disse tentando me animar.

Eu o olhei com carinho e sorri triste. — Tudo bem, não tô pensando nisso. — Falei sincero.

Estava sentado numa cadeira com os braços apoiados na janela, olhava para a casa de Milo que ficava em frente a nossa, queria que alguém chegasse, que alguém desse alguma informação.

Era horrível ser criança.

Hyoga ainda ficou um pouco comigo antes de sair.

ooOoo

Adormeci naquela posição e acordei com os gritos do meu pai vindo da sala.

— Camus! Isaak e Hyoga, aqui na sala agora!

Lá em casa era assim, quando um ia levar uma bronca papai reunia todos na sala para que todos aprendessem o que era errado e não cometessem o mesmo erro.

Quando desci vi Hyoga e Isaak parados de frente para meu pai, me posicionei ao lado deles na esperança que meu pai falasse algo sobre o Milo.

— Quantas vezes já falei que não quero vocês brincando com coisas perigosas? Quantas vezes já disse que vocês podem se machucar fazendo essas coisas? — Papai falava enquanto andava pela sala, vi que ele deixou a cinta pendurada na cadeira.

Eu não gostava disso, aliás, detestava essa mania que meu pai tinha de "conversar" deixando à mostra aquela cinta, poxa, não era justo e nos impedia de argumentar qualquer coisa.

No geral eu ficava quieto nesses momentos, falar era sempre pior, mesmo quando ele me batia eu mantinha minha cara blasè, não deixava ele ver o quanto me magoava.

Aprendi a agir assim com o Degel, e notava que o Isaak e o Hyoga também tentavam fazer o mesmo, mas sem sucesso, Isaak era respondão e Hyoga sempre chorava.

— Camus, por que me desobedeceu?

Eu não sabia o que responder, ele estava falando de não ter ficado em casa quando ele mandou? — Pai... Eu... Eu...

Vi ele pegando a cinta meu coração falhou, arregalei os olhos e vi o Isaak puxando o Hyoga para longe de mim, já que eu era o alvo.

Ainda tentei dar alguns passos pra trás, mas meu pai me puxou pelo braço e começou.

— Eu já falei! Nada de brincadeiras que coloquem a vida de vocês em risco, agora o filho dos Scorpions está morrendo e poderia ser você! — Papai falou essa frase já me batendo com a cinta, eu não ia reclamar, mas quando ele falou que meu amigo tava morrendo não pude evitar eu gritei.

— Não! Não, eu não fiz nada! Eu nem tava jogando bola, falei pro Milo não subir, eu... Ele não vai morrer!! Diz que ele não vai morrer... — Eu pedi chorando, acho que essa foi a primeira vez em anos que eu chorava daquela forma enquanto apanhava.

— Podia ter sido você, e o que eu faria, hein? Não pensou em mim ou na sua mãe? — Papai dizia enquanto dava com a cinta nas minhas pernas e nas minhas costas, ele não costumava ser assim tão rígido, ele sempre parava na terceira cintada, mas agora acho que ele já estava na décima.

Eu gritava e chorava, por três motivos: Porque eu tava com medo pelo Milo, porque tava magoado com a injustiça do papai, e porque tava começando a doer de verdade.

As surras do papai em geral eram três cintadas na bunda, mas dessa vez ele bateu em tudo quanto foi lugar, tentei me afastar, mas ele me pegou pelos cabelos e tornou a bater, o Hyoga foi correndo chamar a mamãe, enquanto o Isaak estava no canto apavorado com medo da surra chegar até ele.

Mamãe chegou na sala no mesmo momento em que meu irmão Degel chegou em casa.

— PARE COM ISSO! — Os dois falaram ao mesmo tempo e papai parou com a mão no ar.

Degel veio correndo e me abraçou evitando olhar para o papai, pois ele sabia que seria pior enfrentá-lo agora.

— Crystal, o que pensa que está fazendo espancando o Camus desse jeito? — Mamãe perguntou furiosa.

— Natassia eles precisam de disciplina, o garoto Milo está morrendo, com traumatismo craniano, todo quebrado, e por quê?? Porque ele não tem limites, porque são criados soltos, mas meus filhos não! Meus filhos terão disciplina, nem que seja à força! — Papai respondeu nervoso.

Só me importei quando ouvi "morrendo", "traumatismo craniano", não sei você, mas pra mim esse negócio de traumatismo craniano era tipo, "tá morrendo".

Me desesperei. — Não pai, não deixa o Milo morrer, por favor, diz que ele não vai morrer. — Eu pedia chorando e segurando a mão dele.

Acho que meu pai percebeu que tinha passado dos limites quando viu meu estado de nervos, ele abrandou a voz e falou. – Filho, isso não depende de mim.

— Os quatro para o quarto, agora. — Mamãe ordenou.

Isaak subiu primeiro parando no meio da escada esperando por nós, Hyoga logo se juntou a ele e Degel me ajudou a levantar do chão, eu estava dolorido, mas nada se comparava ao medo de perder meu amigo.

Ainda estávamos no meio da escada quando ouvimos a mamãe e papai começarem a discutir.

— Como ousa fazer isso com meu filho? — Ela perguntou possessa.

— Nosso filho! Ele é meu filho também, os quatro são, e é nosso dever educar esses meninos, eu não vou permitir que ponham a vida deles em risco desse jeito, você não viu o estado do Milo! E se fosse um dos nossos, Natassia? — Ouvi papai perguntando antes de meu irmão fechar a porta do quarto.

— Não temos que ouvir a briga deles, não é? — Degel falou carinhoso.

— Como está o Milo, Degel? Ele vai morrer? — Eu perguntei entre lágrimas.

Meu irmão me olhou carinhoso e me abraçou, — Não, não vai... tenho certeza que ele vai ficar bem, não chore.

Eu tentava não chorar, mas tava difícil, Hyoga, que era o mais novo, ficava fazendo carinho na minha cabeça, e Isaak ficou sentado do meu lado esquerdo em silêncio.

— Por que ele é tão mau às vezes? — Isaak quebrou o silêncio.

— Ele não é mau, esse é o jeito dele de se preocupar, mas ele nos ama. — Degel tentou defender meu pai, contudo sem muita convicção.

— Quem ama não faz isso, faz? — Isaak perguntou mostrando o vergão no meu braço.

Ficamos todos em silêncio, eu sabia que meus irmãos menores estavam assustados com tudo que tinha acontecido, então fiquei em silêncio como se nada daquilo tivesse importância.

Os gritos lá de baixo haviam cessado.

Logo a porta do meu quarto se abriu assustando nós quatro.

— Meninos, quero ficar sozinha com o Camus, vão para o quarto de vocês sim, sem bagunça que o pai de vocês está com dor de cabeça. — Mamãe pediu com aquele jeito bondoso dela.

Assim que meus irmãos saíram mamãe sentou na cama ao meu lado, eu estava quieto, quer dizer ainda tinha aquele soluço involuntário que a gente tem quando chora muito, sabe?

Constrangedor!

— Seu pai te ama muito Camus. — Começou a minha mãe.

Não respondi, não em voz alta, somente em pensamentos. "Ama? Se ele me ama e fez isso, imagine o que ele faria se não gostasse de mim?"

— Sei que ele agiu errado com você, sei que foi injusto, mas ele tem tanto medo que aconteça algo com vocês, ele ficou em pânico por causa do Milo, você entende? — Mamãe falava bondosa.

"Claro, ele tem tanto medo que eu morra por aí, que ele prefere me matar com as próprias mãos, não é?"— Eu continuava em silêncio, apenas olhava pra ela, mas na minha mente estava tendo um bom debate sobre meu conceito do que é amor paterno.

Ela desceu os olhos pelo meu corpo e viu os vergões no meu braço e na minha perna.

— Camus, tá na hora do banho, vamos, vou esfregar suas costas hoje. — Mamãe falou séria.

Mas como assim, vai me dar banho? " Claro que não, mas que viagem"— pensei.

— Nem pensar! Não vou ficar nu na sua frente! — Protestei em voz alta pela primeira vez desde que minha mãe entrou no quarto.

— Ora, Camus não seja bobo... já te vi nu várias vezes, sou sua mãe! Vamos, tire a roupa. — Ela ordenou.

Eu odiava ser criança!

Levantei da cama e comecei a me despir, eu não tinha ideia que minha mãe queria apenas ver o estrago da surra na minha pele branca.

Fui para o banheiro só com a roupa de baixo, poderia levar outra surra, mas jamais deixaria minha mãe me ver nu. Não depois de grande, não mesmo!

Quando sai do banho minha mãe estava com um pote de gel, aquele que passamos quando batemos em alguma coisa, no caso eu bati meu corpo na cinta do papai.

Isaak veio me chamar para jantar, desci porque não queria criar mais confusão, mas não estava com fome alguma, o clima na mesa estava bem pesado, papai sabia que tinha passado dos limites comigo, mas na cabeça dele assumir isso tiraria a autoridade dele como pai.

Juro que tentei comer, mas não descia, eu estava tão preocupado com o Milo... o que estaria acontecendo com ele agora?

Logo nossa campainha tocou. Era a mãe do Milo com a Sônia, ela veio falar com a mamãe para que ela cuidasse de Sônia, pois ela passaria a noite no hospital com o marido, e Kárdia, uma coisa me deixou menos triste, o Milo estava vivo.

A Sra. Cassandra falou que tudo dependia dessa noite e de como o Milo reagiria.

Eu já não estava com fome antes, agora então que não descia nada.

— Camus, se não vai comer mais nada pode voltar para o seu quarto. — Papai falou me sobressaltando, acho que a visita da mãe do Milo fez papai lembrar dos motivos dele para o meu castigo.

Obedeci, sem falar nenhuma palavra voltei para o meu quarto, sentei na cadeira e cruzei os braços sobre a janela, observar a casa do Milo era o que me restava... a qualquer hora ele podia voltar.

Não sei quanto tempo passei ali, acho que adormeci, tive a impressão de que papai entrou no meu quarto, me pegou no colo e me colocou na cama, acho que ele me deu um beijo na testa e pediu perdão, mas talvez tenha sido só impressão minha, de qualquer forma acordei na minha cama.

ooOoo

No dia seguinte tinha aula, era segunda-feira, apesar do calor coloquei uma calça e uma blusa de manga comprida, por motivos óbvios.

Estava triste e por isso fiquei mais quieto que o habitual, a carteira atrás de mim o do Milo ficou vazia até que o Argol sentou lá pra me azucrinar.

— Ouvi dizer que o Milo não passa de hoje. — Ele comentou me atormentando.

— Isso é mentira, ele vai ficar bom. — Respondi entrando no jogo idiota dele.

— Não sei não. — Ele continuou.

Virei pra frente, resolvi ignorar aquele imbecil, a professora de Química perguntou: — Então gente, estudaram a matéria? Hoje teremos sabatina, ou como preferem um Quiz de Química, e vai valer nota.

Escutei vários colegas reclamarem, eu mesmo não havia estudado nada ontem, mas me lembrava de algumas coisas.

— Argol, em qual temperatura tudo pode ser congelado? E como se chama esse fenômeno?

Escutei o Argol xingando baixo.

— Er, não sei... abaixo de zero, zero grau?! — Ele respondeu perguntando sem muita certeza.

A professora negou com a cabeça e fez a mesma pergunta para boa parte da turma e ninguém acertou, ela olhou pra mim e pediu: — Camus tenho certeza que sabe a resposta, me socorra, por favor!

Eu olhei sem graça e respondi sem emoção, — Zero absoluto, ou zero kelvin corresponde à temperatura de -273,15°C ou -459.67°F. O zero absoluto faz parte dos princípios e das leis da termodinâmica utilizado para medir a temperatura absoluta de um objeto, com zero absoluto sendo 0 K, tudo pode ser congelado nesta temperatura.

Meus colegas me olharam feio, e o Argol com um olhar ameaçador disse entre dentes, — Seu nerd puxa saco do caralho.

Eles ficaram bravos porque se ninguém acertasse a professora mudaria a pergunta e se alguém acerta quem errou fica negativo, mas eu não entendia bem o motivo deles, se outra pessoa acertasse não daria no mesmo? E eu sabendo a resposta teria que errar só por que eles não estudaram, ou melhor, não prestaram atenção na aula já que a professora explicou isso em sala.

Fiz o meu melhor olhar blasè e virei pra frente sendo alvo de várias bolinhas de papel que realmente estavam me perturbando.

No final da aula todos saíram sem falar comigo, realmente não me importei com isso, quer dizer me importei um pouco, parecia que o fato do Milo não estar lá comigo me deixou vulnerável.

Eu não era o único "CDF" da escola, tinha o Shaka um garoto muito mais metido que eu, e certamente muito mais inteligente, mas as pessoas gostavam de pegar no meu pé.

Fui embora sozinho, nem o Aioria quis vir comigo, por mim tudo bem, eu só queria chegar e ter notícias do Milo, estava distraído em meus pensamentos quando ouvi a voz do Argol.

— Então está sozinho hoje?

Continuei a andar sem dar importância a ele, mas o Argol me segurou pelo braço me fazendo parar.

— Você tá se achando muito, não é, Camus? Jogando a bola na minha cara, sendo o sabe-tudo na sala. Vou colocar você no seu lugar, agora que o Milo vai morrer, não vai ter ninguém pra te defender, seu viadinho.

Essa não era a primeira vez que o Argol me xingava ou me ameaçava, sempre que o Milo não estava por perto o Argol me dizia essas coisas, só porque eu não me sujava, ou porque não gostava das brincadeiras deles eu era um viadinho? Claro que não!

— O Milo não vai morrer! — Rebati entre dentes a coisa que o boçal falou que mais me desagradou.

— UI! Preocupado com o namoradinho? Vou te dar uma surra para você aprender a me respeitar. — Argol falou me empurrando. — Pois o Milo já era, logo vai tocar harpa no céu, e você não vai ter ninguém pra te defender.

— Cala boca, seu imbecil! — Eu falei empurrando ele de volta, sei que não foi muito sábio da minha parte, pois logo o Argol me derrubou no chão e começou a me socar.

Protegi meu rosto o escondendo entre os meus joelhos e senti o Argol chutando minhas costas, pernas e tudo mais, então fui salvo.

Saga que estava passado na rua naquele momento.

— Ei moleque, para com isso! — Ouvi o irmão do Kanon gritando, o Argol deu mais um chute antes de correr.

Eu estava bem machucado e dolorido quando o Saga me ajudou a levantar, o Saga era quase da idade do meu irmão e era bem respeitado no bairro, eu achava ele mais legal que o Kanon até um pouco mais sério e muito inteligente, admirava o Saga porque ele trabalhava na associação de moradores e tava sempre dando ideias para a melhoria da rua.

— Você tá bem, Camus? — O Saga perguntou me ajudando a levantar.

— Ai...ui...tô sim... só um pouco dolorido... acho que ele quebrou minha costela. — Respondi levantando cheio de dor.

— Sério? Vamos te levo em casa e a gente fala com seus pais, isso não pode ficar assim. — O Saga sugeriu.

— NÃO! Não precisa, estou bem. — Falei rápido me ajeitando. — Não precisa, o Argol é um babaca só isso, tá tudo bem.

— Camus, você precisa aprender a se defender, não pode deixar esses moleques agirem assim com você.

— O que me sugere?

— Não sei... Karatê ou Jiu jitsu! Pode ser bom pra você.

Confesso que nunca tinha pensado em fazer nada do gênero, mas hoje essa ideia me agradou muito, só precisava convencer meu pai disso.

ooOoo

Apesar de machucado e mancando, cheguei em casa tentando parecer normal, tinha conseguido tirar grande parte da poeira do chão, por sorte eu estava de preto.

Guardei meu material no meu quarto e desci para almoçar. Confesso que estava andando com um pouco de dificuldade.

Todos já estavam sentados quando cheguei.

— Mamãe, alguma notícia do Milo? — Perguntei enquanto ela fazia meu prato.

Mamãe sorriu para mim. — Sim, ele acordou e os médicos disseram que o pior já passou, Cassandra falou que até o fim da semana ele terá alta.

Eu sorri aliviado e mamãe continuou.

— Ela pediu para te agradecer, pois a mãe do Aioria falou que o filho disse que você tentou convencer o Milo não subir lá, mas ele não te deu ouvidos. — Mamãe falou olhando feio para o papai que manteve o rosto sério.

ooOoo

Eu estava tão feliz que o Milo estava melhor! Tomei banho e estava me trocando, não tinha trancado a porta e meu pai entrou vendo meu corpo machucado, claro que eu estava bem pior do que quando minha mãe viu afinal, agora estava com as marcas da agressão do Argol.

— Camus! — Meu pai me chamou me assustado, parado na porta.

— Pai. — Respondi colocando a roupa rápido tentando esconder meu corpo.

Ele ficou me olhando. — Já pode sair do castigo. — Ele falou baixo, com a voz carregada de culpa.

Sei que ele pensou que minhas marcas eram todas por causa da surra dele, e o deixei pensar assim.

Fui malvado? Dane-se!

— Pai, quero pedir uma coisa. — Falei num impulso, talvez eu conseguisse tirar algum proveito da culpa dele.

Meu pai entrou no quarto e sentou na minha cama. — Diga Camus.

Comecei um tanto sem jeito, odiava pedir qualquer coisa, principalmente depois das coisas que ele fazia, mas não tinha jeito. — Eu... Pai eu queria fazer algum esporte sabe? Não gosto de futebol, nem nada dessas coisas, mas também não acho saudável ficar sem atividade física, sabe a gente fica... Esqueci a palavra.

— Mas o que você me sugere? Natação, tênis? — Papai perguntou.

— Eu queria fazer Jiu jitsu!

Meu pai arregalou os olhos e depois os estreitou, — Camus, sabe o que eu farei com você se ver você usando esses golpes nos teus irmãos, não sabe?

Baixei a cabeça e consenti.

— Certo! Amanhã nós vamos procurar alguma academia boa. — Ele falou se levantando, eu quase não acreditei! Aprenderia a me defender, e o melhor: Ele não falou nada em não usar os golpes contra os moleques da rua.

ooOoo

A semana se arrastou muito, custou a passar mesmo. Ir para escola era uma mistura de tédio e adrenalina, tédio durante as aulas, que sem o Milo para atrapalhar com alguma bobagem ficava muito sem graça, e adrenalina porque tinha que me esconder do Argol, ele me pegou outros dois dias, aquele imbecil, eu estava todo quebrado e cheguei a pegar remédio de dor escondido da mamãe, se meu pai soubesse que eu estava passando por isso, não sei o que ele faria.

O Argol não era tão babaca antes, não sei, mas acho que ele tava piorando comigo à medida que íamos crescendo.

Eu dormia todas as noites na cadeira olhando para a casa do Milo na esperança de ver ele chegando, mas não tive sucesso, apesar de ter saído do castigo, preferia passar meu tempo livre no meu quarto sempre no mesmo lugar.

— Camus, — ouvi Degel me chamando e olhei para ele que, sem eu notar estava sentando na minha cama.

— Oi, desculpa, tava distraído. — Respondi sem graça.

— Você gosta dele, não é? — Meu irmão me perguntou.

— Claro que sim, o Milo é o meu melhor amigo, que pergunta boba. — Respondi sem entender, meu irmão sorriu como se entendesse das coisas melhor que eu.

ooOoo

Sete dias depois do acidente, cheguei em casa depois da aula e mais uma surra do Argol, que foi até calmo comigo dessa vez, acho que ele estava com cansado de me bater. Então minha mãe falou: — Camus, adivinha quem teve alta do hospital e já está em casa?

Não acreditei! Sorri de alegria, — O Milo! Mãe, jura? Vou lá agora mesmo.

— Nada disso, mocinho! Vamos almoçar, depois você vai.

Eu realmente odiava ser criança!

Quando cheguei na casa do Milo meu coração batia tão acelerado que eu achava que ia sair pela boca, pode parecer bobagem, mas me arrumei, vesti minha roupa casual mais bonita, blusa de manga comprida (sou muito branco e qualquer coisinha já marca minha pele e uma semana de agressões não era exatamente uma coisinha).

O Milo tava dormindo, mas a Sra. Scorpion me deixou ficar no quarto dele esperando.

Quando entrei me deu vontade de chorar, o Milo tava com a cabeça raspada e enfaixada, seu braço engessado e sua perna cheia de pinos, fiquei olhando para aquele rosto perfeito, apesar de machucado, o contorno perfeito de sua boca e enquanto encarava seu lindo rosto, Milo abriu os olhos e me encarou com aqueles olhos azuis cor de céu que possuíam um brilho único.

E olhando dentro daqueles olhos, naquele momento eu soube.

Notas finais
Antes de qualquer coisa quero colocar aqui como eu vejo o Crystal. Ele é um pai que faz errado achando que está fazendo o certo, o coloquei aqui assim, pois eu já passei por momentos de injustiças semelhante a este que o Camus passou. E para refletir, quantas vezes não somos injustos com as crianças que nos rodeiam? Curiosidades bobas, o nome do pai do Milo: Klauss é o nome do vocalista da banda Scorpions =p Cassandra a mãe do Milo é o nome da mocinha do filme O Escorpião Rei! =P É isso grande beijo a todos me diga o que achou, não seja um leitor fantasma, venha me conte o que achou isso é muito importante pra mim.