Dócil Vingança
1 Dócil Vingança - Capítulo Único
Era uma sorte que o dia estivesse lindo, Matthew pensou. Era o dia mais importante de sua vida – o dia de seu casamento. O sol brilhava e as flores do jardim da casa dos seus pais sorriam para ele, refletindo o seu excelente humor.
Sua mãe e irmã haviam ido para o salão de beleza se preparar para o grande dia e seu pai estava na sala, servindo uma dose de uísque para os dois.
Matthew desceu as escadas e sentou-se ao sofá com Joshua, seu progenitor, pegou o copo que lhe era oferecido e sorriu.
– Cowboy! – Disse, olhando para a bebida antes de tomar um gole.
– Como tomam os homens de verdade. – Joshua levantou seu copo em uma espécie de brinde. – Está na hora daquela conversa de homem para homem.
– Sobre casamento e responsabilidade... Já sei disso tudo, pai. O senhor vem falando sobre isso desde que fiquei noivo. – Matt bufou baixo, sorvendo um gole generoso de sua bebida.
– Matthew, casamento gera responsabilidade. Você será responsável por outra pessoa além de si mesmo, pela felicidade de outra pessoa, pelo bem-estar dela. Tem certeza de que está preparado?
– Já disse mil vezes que sim, pai, estou completamente preparado. Agora, chega! Meus amigos vão me levar para tomar um drink antes da Igreja. Vemos-nos lá. – Matthew virou o resto de uísque de seu copo, levantou-se e deu as costas ao pai.
– Matthew, espere um minuto. – Joshua chamou quando o filho alcançou a porta, mas Matt não parou. O homem preferia pensar que o filho não havia escutado, mas no fundo sabia que fora ignorado.
Preocupado, levantou-se do sofá com um pouco de dificuldade. Sentiu uma tontura e apoiou-se na mesa. Sentia-se estranhamente fraco... Sentou-se na cadeira mais próxima e abaixou a cabeça, permanecendo assim por uns instantes. Quando, por fim, levantou-se, seu corpo de quase quarenta anos tinha adquirido toda a força e agilidade que não possuía nem quando Joshua havia vivido apenas vinte décadas.
– Tenho muito a fazer. – Sussurrou a si mesmo, olhando para o espelho do outro lado da sala e sorrindo ao perceber uma sombra vermelha em seus olhos.
(...)
– Está preparado? – Perguntou John, o melhor amigo e padrinho de Matt, horas depois, em frente à Igreja.
– Claro que sim! – Matthew disse dando de ombros. – Vai querer uma conversinha de homem para homem como meu pai? – Matt riu e seu amigo o acompanhou na risada.
– Victoria está demorando muito, não? – John perguntou olhando o relógio, ligeiramente preocupado.
– Nada! – Matthew respondeu desinteressado. – Noivas sempre atrasam!
O noivo e seu padrinho continuaram em sua conversa despreocupada. John estava achando seu amigo ligeiramente bêbado, mas resolveu não fazer comentários, seu amigo nunca soube beber.
Ambos calaram-se ao ver Joshua subindo as escadas da Igreja em uma velocidade anormal para um homem de sua idade.
– Oi, filho! – Joshua falou com sua voz mais esganiçada do que o normal. Em muitas coisas, não se parecia com o senhor sério com quem estavam acostumados, mas o amigo apenas achou que o pai havia bebido tanto quanto o filho. – Preciso falar com você! — John, imediatamente, acenou com a cabeça para Joshua e Matt, e afastou-se.
– Vai vir de novo com a conversinha de responsabilidade? – Matthew bufou para o pai enquanto girava os olhos com despeito.
– Não, nada disso. – Joshua falou tentando disfarçar um sorrisinho. – Tenho que te entregar uma coisa muito importante. Está no meu carro, pode vir comigo?
Os olhos de Matthew brilharam de ganância. Acreditava que seu pai lhe daria um carro, ou talvez uma casa, afinal era seu casamento. Seguiu o pai até uma rua mais calma, ao lado da Igreja. Talvez, pensou ele, seu pai fosse, finalmente, lhe dar sua herança, ou uma viagem de lua-de-mel.
Enquanto Matthew deixava seus pensamentos vagarem pelos sonhos gananciosos, seu pai pegava uma garrafa de água que estava jogada no banco do carro.
– Filho, você bebeu bastante, hoje. Beba um gole de água. – Joshua disse, sorrindo para o filho e tentando entregar-lhe a garrafa.
– Pai, não vim até aqui para você me dizer que estou bêbado. – Matt revoltou-se e preparou-se para virar as costas e voltar à Igreja.
– Mas, se você não beber um pouco de água, agora, não vou poder lhe dar o que estou guardando para você. – Joshua falou, calculista.
Matthew parou, voltou para o pai e tomou a garrafa de sua mão. Bebeu metade do conteúdo em um gole. Olhou para o pai, confiante, antes de começar a sentir-se tonto.
– Pai, não estou me sentindo muito bem! – Matt disse, coçando os olhos que começavam a ficar embaçados.
– Sente-se aqui, filho. – Joshua falou, sem conseguir esconder o sorriso e direcionando-o ao banco do carona. Matthew apoiou a cabeça no encosto do assento e fechou os olhos. Ouviu seu pai mexendo-se ao seu lado e fechando a porta do carro. Não deu importância. Estava sentindo-se tonto, achava que desmaiaria a qualquer momento. Estranhou quando ouviu seu pai entrando no carro e ligando-o, mas não tinha forças para protestar.
(...)
Matthew sentia-se enjoado. Um barulho nauseante o havia acordado, mas não se recordava de ter dormido. Um misto de gemidos e um zumbido estranho invadiam seus ouvidos. Ou seriam gritos? A confusão de Matt era tamanha. Não conseguia abrir os olhos, seu corpo doía... Tentou buscar na memória o que havia acontecido. Lembrava-se, apenas, de beber uísque com seu pai. Todavia, essa era uma lembrança muito distante, parecia mero passado. Ele tinha certeza de que se conseguisse lembrar o que havia acontecido, tudo ficaria bem. Porém, o barulho o impedia de pensar. Um barulho buliçoso como se algo estivesse sendo enfiado em um balde de água, seguido de plangores e uma risada fria.
O noivo sentiu uma coceira absurda nas pernas. Tentou alcançá-las com as mãos e as descobriu presas. Estava preso, e a coceira só piorava, alastrando-se. Tentou puxar os braços, novamente, e algo que lhe pareceram cordas queimou seus pulsos. Mais uma vez, tentou abrir os olhos, porém algo o impedia, também. A coceira que se espalhava, gradativamente, havia alcançado seus joelhos. Aquela situação estava ficando insustentável. Insuportável!
Um pensamento invadiu sua mente, ao ouvir novamente os gemidos. Conhecia aquela voz. Conhecia a voz que gemia, mesmo com a cabeça estourando de dor. Era Victoria, aqueles gemidos só podiam ser de sua noiva. Por que ela está gemendo? Matt tentou soltar-se, e novamente as cordas queimaram seus pulsos. No impulso em conseguir livrar-se, caiu de lado no chão. Seu rosto tocou algo que parecia terra e grama. Tentou mexer os pés e percebeu-os amarrados. A coceira alcançara suas coxas. Ao menos os gemidos e gargalhadas pararam.
Agora, tudo o que ouvia eram os pios das corujas e passos abafados pela terra e pela grama. Sentiu que alguém se aproximava e o medo o dominou. Tentou fugir, se mexer. Mais uma vez, sentiu as cordas em seus pulsos e tornozelos. Os passos pararam e Matt começou a sentir a respiração de alguém em seu rosto. Mãos fortes o retiraram do chão, sem parecer fazer esforço. Matthew sentiu seu corpo ser jogado em uma cadeira. Um risinho que transpirava nojo alcançou seus ouvidos, enquanto uma mão de pele grossa passava pelo seu rosto. Matt tentou gritar, mas seus gritos saíam abafados. A mão, que antes lhe acarinhava, sumiu por um instante, e voltou com o zumbido e estalo de um tapa. A mão retirou a mordaça e, em seguida, tateou o rosto em busca da ponta da fita que lhe cobria os olhos e puxou-a sem dó. Matthew sentindo a pele ao redor de seus olhos arder, gritou.
Levou alguns segundos até que conseguisse abrir os olhos. Quando, enfim, pode fazê-lo, olhou ao redor e viu-se em uma clareira no meio da floresta. Avistou o carro de seu pai logo ao lado. Nervoso, abaixou o olhar procurando descobrir de onde provinha a coceira que se alastrava pelas suas pernas. Não conseguiu conter o horror e o nojo ao ver centenas de baratas subindo por elas e vomitou. A risada escarnada que havia escutado, momentos antes, transformou-se em uma gargalhada repleta de sarcasmo. Matt procurou a fonte daquele motejo arrepiante e sentiu um calafrio na espinha ao ver seu raptor.
– Pai?
Joshua bloqueava a visão de Matthew do resto da clareira. Deu um sorriso de desgosto, enquanto acenava com a cabeça negativamente.
– Pai, por que está fazendo isso comigo?
– Não sou seu pai. – Joshua respondeu com uma voz que não era sua. Fria, arrepiante. – Você merece sofrer como eu sofri. Você merece sentir a dor que eu senti.
– Quem é você? Quem? – Matthew perguntou desesperado e começou a debater-se e tentar se soltar. – Você não é meu pai, mas é igual a ele, quem é você?
– Como você é idiota Matt! Sempre foi burro. Não sei, até hoje, por que me apaixonei por você. – Os olhos de Joshua entravam e saíam de foco enquanto ele falava. – Vou lhe mostrar umas coisinhas antes que a gente continue nossa conversa.
Joshua deu-lhe as costas e caminhou até o outro lado da clareira, ainda bloqueando a visão de Matt. Qual não foi sua surpresa quando aquele que parecia seu pai deu um passo para o lado. Matt, então, viu Victoria amarrada a uma árvore. A maquiagem que usava para seu casamento estava borrada, deixando feias marcas pretas ao redor de seus olhos, que suplicavam a Matthew por ajuda. Seu vestido branco estava manchado de terra, grama e uma água escarlate. Um filete viscoso de sangue saía pelo canto de seu lábio, enquanto tentava livrar-se de sua mordaça e gritar.
Victoria caiu aos seus pés, quando Joshua desamarrou-a. Tentou levantar-se. Queria fugir dali, sair correndo, mas foi segurada pelo homem que deixava um sorriso de escárnio brincar solto em seus lábios. Victoria voltou a gemer quando os braços fortes de Joshua a seguraram perto de um grande tonel de água lamacenta. Com os olhos, ela implorava ao sogro que a deixasse ir, que a largasse. Contudo, o olhar que recebia em troca era impiedoso.
– Essa é a sua noivinha. – Joshua com os olhos desfocados, disse sorrindo. – Essa é a piranha com quem você queria se casar. Essa é a vaca por quem você me trocou.
O pavor de Matt aumentou ao ouvir a última parte. Seu pai não poderia ser uma pessoa morta, poderia?
– Agora, vou mostrar a você o que eu posso fazer com sua doce noivinha. — Os dedos de Joshua entranharam-se nos cabelos de Victoria e, enquanto a noiva implorava por piedade, seu sogro enfiava sua cabeça no tonel de água suja.
Mais uma vez, podia-se ouvir a gargalhada escabrosa e desmedida. Os espasmos de Victoria eram percebidos por seus pés e mãos. Enquanto a moça fazia força para cima tentando livrar-se da água, Joshua fazia pressão para baixo e gargalhava.
Matthew desesperou-se, voltou a debater-se, gritou por ajuda, por socorro. Nada! Nada adiantava. Ninguém parecia ouví-lo.
As baratas continuavam se espalhando, alcançando seu colo. Seu estômago se embrulhava, cada vez mais, ao ver sua amada noiva sofrendo daquela maneira.
– Tenho uma pergunta para você, Matt. – Joshua olhou-o tresloucado. – Gostaria de assistir a morte de sua doce Victoria?
– Pai! Não, pai, por favor. – Matthew entrou em desespero. – Por favor, papai, não mate Victoria.
– Não sou seu pai, idiota. – O homem gritou enraivecido. – Sou a Kath. Será que você não vê? – Matt olhou para o pai, confuso e amedrontado. – Ou você simplesmente não se lembra de mim? Responda, Matthew!
– Kath-Katherine? E-eu nunca entendi, eu nunca entendi... O que aconteceu com você? – Matt começou a gaguejar e balbuciar. – Você se matou Kath, vo-você morreu. Não pode ser você, você morreu!
– Matt, como você é bobinho, querido. – Katherine riu. – Você me traiu, Matthew. Você me traiu com essa vagabunda. – Ao dizer isso, Kath jogou Victoria no chão e pisou em seu vestido. – Você devia me achar muito idiota mesmo.
– Kath, nunca achei você idiota. Não! Por favor, não faça nada com a Victoria...
– Depois disso tudo, você ainda tenta defender essa nojenta? – Katherine se enche de transtorno e seus olhos ficam vermelho como sangue. A morta cospe no rosto da noiva e ri de seu desespero sob seus pés. – Eu era apaixonada por você. Eu faria tudo por você. Eu fiz tudo por você. E você me deixou. Traiu-me. Por quê? Por que fez tudo isso? Eu dei meu sangue para ser a pessoa que você queria que eu fosse e me matei para pagar minha dívida com o Senhor das Trevas. E, agora, vou entregar mais uma alma a ele.
Katherine prendeu os pulsos de Victoria com suas mãos. Os dedos esguios apertaram-lhe a pele da noiva, fazendo a veia ali presente pulsar, arroxeando aos poucos e tornando-se uma mancha vermelha ao longo da marca dos dedos da mulher que habitava o corpo maltrapilho de Joshua. Kath arrancou-lhe a mordaça de seus lábios avermelhados, devido aos ferimentos que os próprios dentes causaram. Olhava nos olhos de sua vítima e via as lágrimas deslizarem de seus olhos, chegando até o queixo pontudo. E, então, caíram ao chão, silenciosas, assim como o pavor contido no olhar de Victoria que nada precisava dizer, pois sabia que nada do que proferisse agora faria sentido, ou traria resultados. Era o fim.
Pensamentos de uma vida sem razões inundaram a mente pobre de Victoria. Flashes, lembranças... E somente agora se dera conta de quão inútil fora na vida, de quão supérfluos foram seus hábitos fúteis. Não houve um momento sequer em que se recordara de seus pais, desde menina, retribuindo-lhe o amor que nutrira por eles de outra forma que não fosse presentes, regalias e bugigangas que a fariam feliz momentaneamente. Seus pais nunca se deram conta do que a filha estaria se transformando, dos costumes que levaria para a vida, e o resultado estava ali, como um animal pronto para ser abatido em frente à Katherine.
Era assim que ela sentia-se. E, de certa forma, não via mal em se ver exatamente desta forma, pois não poderia fugir desta realidade. Era, de fato, aquilo que ela era: Um animal. Sem coração, frio, rude, gélida e sem alma. Pronto para o abate. Não poderia negar tal razão, e disto tinha ciência.
Kath, como se tivesse a faculdade de ler os pensamentos de Victoria, humilhando-a ainda mais, lançou-a com toda sua força adquirida contra o tronco de uma árvore, graças aos poderes herdados que lhe permitiam tal façanha. Victoria necessitou levar a mão à cabeça que batera contra o local, e observou que sangrava. Tentou rastejar, cravando as unhas contra o lamaçal, na intenção de assim içar-se à frente. Porém, Katherine fora mais rápida, quebrando-lhe a perna com um só golpe. Victoria abriu os lábios de dor, gritando em desespero com a dormência sob seu tornozelo e rumou o olhar para baixo, incrédula de que poderia haver dor maior do que aquela que sentia, até então.
Ao notar o sangue jorrando de sua perna, cobrindo o gramado esverdeado e a lama presente por baixo do mesmo, enquanto o osso se fazia exposto para fora de sua pele, rasgando-a e exigindo espaço para fora de si, seus olhos esbugalharam-se, de tal forma, que pareciam sair de suas pálpebras. Sua cabeça passou a rodar, e sentiu-se nauseada. Não conseguia vomitar, e por mais que sua visão se tornasse turva e cada segundo mais escurecida, não acreditava ter, de fato, desmaiado, para sua completa decepção.
– Não fuja! Nem mesmo tente... – Katherine alertou, pegando o rosto de Victoria com uma única mão, apertando-lhe as maçãs do rosto e cravando as unhas em sua pele fina, quase ao ponto de perfurar. – Você não pode contra mim! — O espírito sorriu em vitória ao exclamar, e então se virou bruscamente na direção de Matthew, exibindo o rosto ferido da noiva. — Vê isso, querido? Vê o quanto sua “noiva” está debilitada por sua causa? – Sorriu cinicamente, exibindo todos os dentes.
Socou o estômago da mulher, que se contorceu, gemendo e ofegando em busca de ar. Matthew agitou-se em pavor, gritando a plenos pulmões, tentando salvar sua mulher e desgraçando o dia em que fora se envolver com Katherine.
Sem o mínimo dó ou piedade, Kath envolveu ambas as mãos sobre o pescoço de Victoria, que se debatia em desespero, sentindo o ar ser puxado contra seus pulmões com maior dificuldade, e forçou ainda mais a garganta da noiva, impossibilitando-a de respirar.
Lágrimas ainda empoçavam-se nos olhos agora escurecidos, tingidos de dor de Victoria, e seu olhar disparou na direção de Matthew. Um adeus. Um olhar que transmitia tudo o que, um dia, sentira por aquele que seria seu marido. Ele a olhava intensamente nos olhos como que em um pedido de desculpas, enquanto seus gritos eram abafados ao longo da floresta.
O rosto de Victoria foi tingindo-se de roxo, e incapaz de dar um último suspiro, seus lábios foram empalidecendo-se e o olhar, sempre tão ambicioso, perdendo seu brilho, perdendo sua cor, até que seu coração parasse de bater, e a vida abandonasse o corpo de Victoria, enquanto a morte fazia seu caminho de busca para aquela alma já sem esperanças.
Matt sentiu-se perplexo com a cena que acabara de presenciar. Soluçando, desesperado, sentia o ar faltar em seus pulmões, as pernas fraquejarem e a cabeça girar. Ouvindo as gargalhadas de Kath, sentiu-se enojado com aquela situação e colocou para fora as únicas substâncias que tinham em seu organismo: álcool e sangue. Muito sangue!
Sentiu-se como se tivesse tirando algum pedaço do seu corpo. A sensação de algo perfurando, era desconfortante. Percebeu Kath se aproximando, com os olhos queimando com sede de vingança.
– Gratificante! — Disse Kath. — Acho que agora você entrou no verdadeiro espírito da brincadeira. — Falou, virando-se para o lado oposto da floresta. — Porém, não chega nem perto da quantidade de sangue que vou fazê-lo colocar para fora esta noite.
Matt não conseguiu olhar para ela. Estava com medo de sentir alguma ameaça naqueles olhos desfocados, possuídos. Sem saber, exatamente, o que fazer, tentou se livrar das baratas que subiam em seu corpo. Balbuciou sacudir-se para fazerem-nas sumir, mas percebeu que suas tentativas eram inúteis.
Avistou Kath ir a uma mesa, que até aquele momento não tinha notado ao teu redor, pegar um canivete e testar, verificando se estava o suficiente amolado na mão do corpo que havia possuído e voltar até ele.
– Sabe, foi muito interessante ver suas expressões de horror ao me ver matar a sua querida vadia. — Disse passando a lâmina gelada pelo rosto de Matt. — Fico imaginando sua expressão quando eu fizer muito pior com você.
Ao terminar de falar, introduziu o canivete na bochecha esquerda dele, rasgando até o canto dos lábios, deixando um corte profundo na área. Matt sentia muita dor, e ficou mais atordoado do que estava. Sentir a lâmina dilacerando seu rosto, não era nem um pouco parecido com todas as outras dores que Kath o fizera passar. Sentiu muito sangue jorrar e sujar de vermelho toda a sua camisa branca.
– Sua louca, demoníaca! — Gritou Matthew, com certa dificuldade.
– Oh, meu amor, demoníaca até que sim. Mas, louca? Isso eu fui quando me apaixonei por você. — Debochou Katherine, lambendo o sangue de Matt que estava impregnado no canivete, voltando a ferí-lo. Desta vez, por todo o braço. Rasgou o tecido da roupa e adentrou ainda mais, alcançando a pele.
Matt tentou gritar, mas o grito sumiu de sua garganta. A dor estava se tornando ainda mais abominável. Queria suplicar à Kath que parasse, mas sabia que seria em vão. A única coisa que ele viu nos olhos da sua torturadora, foi o desejo pela sua morte, e um sorriso entre os lábios.
Kath voltou à mesa, e trouxe de lá um alicate.
– Matt, estou achando suas unhas um pouco grande. — Avaliou. — A sua amada Kath vai dar um jeito nisso...
Ao deduzir o que ela estava querendo dizer com essas palavras, tentou fechar os punhos que estavam amarrados, ao máximo, porém, isto só deixou a situação ainda mais divertida para a mulher endiabrada à sua frente. Katherine abriu, forçadamente, suas mãos, segurou um de seus dedos e prendeu o alicate na ponta da sua unha. Puxou lentamente, deliciando-se com os gritos de dor que Matt soltava. Repetiu o processo em todas as unhas, uma após outra, demoradamente, sentindo prazer a cada força que lançava na ferramenta de tortura.
– O que você prefere agora? Queimar ou perder?
– Você está mesmo me pedindo para escolher? — Disse num sopro de voz.
– Então está bem, eu escolho por você. — Fingiu pensar. — Eu escolho queimar!
Andou em direção à mesa, novamente, pegou uma colher, colocou-a sob a chama de uma labareda. Esperou esquentar suficiente para o que pretendia fazer, dirigiu-se até Matt, abriu sua camisa e passou a colher quente por seu abdômen.
Matthew já não conseguia suportar, e achava impossível ficar pior. Porém, a situação tomou uma proporção irreversível. Kath subiu a colher até seu olho direito, e forçou-a tirando-o de órbita. A dor foi exorbitante. Matt não conseguia mais distinguir seus pensamentos. Sentiu um torpor em demasia, capaz de anular-lhe a dor dos ossos de sua perna sendo quebrada em três pedaços, pela aterrorizante Kath.
– Por que está fazendo isso comigo? — Falou, sem saber de onde arrumou força para tal ato. — Por que não me mata logo?
– Por que não te matei ainda? — Katherine perguntou a Matthew inocente. — Porque você, mais do que qualquer outra pessoa, merece sofrer. Eu fui burra, me apaixonei por você e você nunca me deu valor. Entreguei-me a você achando que me amava e você só se interessava por beleza e riqueza. Nunca gostou de mim! Até hoje, não sei por que você namorou comigo.
O único olho de Matthew encarava Kath com arrependimento e medo.
– Então, usei magia negra. Assinei um contrato com o Diabo, o Todo Poderoso, Mestre das Sombras, Senhor das Trevas, como preferir, prometendo minha alma, pelo seu amor. Quão burra sou! Ele, claro, me traiu. Vi o homem que eu amava com outra. Pior! Vi-me sendo traída por você, por motivos de beleza e dinheiro! Fui traída duas vezes... Eu sabia que minha alma já estava comprometida, sabia que ela pertencia ao Demônio... E então, — deu de ombros. — ... A entreguei em troca de minha vingança. Quero que saiba... — Observou-o com afinco. — Olhe para mim! — Gritou, agarrando pelo queixo o rosto de Matt, que agora olhava desolado para o céu, forçando-o encará-la, novamente. — Minha vingança não acaba com sua morte. Ela será eterna. Ficaremos juntos para todo o sempre, meu amor. Como eu sempre quis, e no inferno.
Katherine olhou o que sobrou do corpo de seu querido Matthew e sorriu. O rosto de Joshua se contorceu, fazendo com que ele parecesse louco. Ela sabia que ele morreria em pouco tempo. Bastaria que esperasse, mas não queria. Desejava levá-lo com ela o quanto antes. Pegou, enfim, o facão sobre a mesa e arrancou-lhe o coração.
– Seu coração sempre foi meu, Matt, querido! — Sussurrou ao corpo sem vida de seu namorado, antes de abandonar o corpo de Joshua e seguir para continuar sua vingança nas profundezas.
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