Notas iniciais
One Shot inspirada na música "Dê Carinho" do grupo Hermom, musical "Eternamente Natal" (aliás, minha igreja fez esse musical e eu participei!). Eu espero de coração que gostem.

Música da fic:
https://www.youtube.com/watch?v=BwCj5exelss

Uma jovem anda pela rua a noite. Calça jeans surrada, uma camisa branca leve e simples, tênis velhos... se quer parecia a mais nova milionária do país. Seu pai havia falecido e deixado todo o dinheiro que ela se quer sabia que tinha. Era surpreendente. Mas logo na noite de natal? Não poderia ser em qualquer outro dia? Ela não sabia que tinha um pai e quando descobriu, suas esperanças morrem junto com ele, deixando apenas o frio dinheiro. Ela nunca teve uma mãe para se apegar e agora, nem um pai poderia ter. Então, quando estava perto da praça onde havia um pequeno lago, ouviu uma criança cantar:

- "É natal. É natal. Calmo está ao redor. És Maria com seu bebê, tão humilde é, Santo e Rei. Dorme um sono de paz. Dorme um sono de paz."

O cantar infantil era feminino e doce. Com a pureza e a inocência que a jovem um dia já teve. Ela se aproxima e vê perto do lago uma garotinha cantando. Era uma imagem angelical: vagalumes, um lago e um vestido branco na garotinha de cabelos médios, lisos e castanhos, também de laço branco no cabelo. A mesma olha para trás e pergunta:

- Quem é você?

- E... eu não quis incomodar. — falou sem graça — Você canta bem.

- Obrigada! — sorriu a garota – Sou Agatha.

- Selina. — respondeu a jovem – O que faz aqui sozinha?

- Fugi do orfanato durante a festa de natal. — deu de ombros – Agora estou aqui cantando e curtindo uma madrugada do recém chegado 25 de dezembro!

- Fugiu do orfanato?! Você é maluca, garota?! — questionou.

- Eu era maltratada lá! Não me culpe! — pediu a garotinha de olhos azuis erguendo as mãos, então as deixou cair ao lado do corpo e disse – Deus disse à Abraão para sair da zona de conforto e buscar mais. É o que eu vim fazer aqui, Samanta.

- Selina. — corrigiu – E é o seu melhor argumento?

- Claro que sim! — respondeu Agatha – Estou com fome agora, mas sei que é temporário. Acredito no fundo do meu coração!

- É... eu também acreditava. — Selina bufou e se sentou em um banco da praça que estava ao lado.

- O que aconteceu?

- Nada, pirralha. Assuntos pessoais.

- Hey! Não me chame de pirralha! Eu tenho onze anos, sou quase uma adolescente!

- Ah, onze anos? Sou oito anos mais velha que você. — exibiu a jovem de cabelos preto-azulados e olhos castanhos.

- Eu não estava fazendo comparações. — Agatha respondeu, se sentando ao lado dela.

As duas se encararam e bufaram. Selina olhou para o céu e viu as estelas. A cidade estava em festa, então não viam muitas, pois eram muitos fogos de artifício de muitas cores diferentes.

- É, a vida me deu um baita presente de natal. — suspirou após dizer.

- Nunca tive ninguém para me dar um. — retrucou a pequena — Agradeça a Deus porque o presente não foi esperado, mas foi pelo menos um presente.

- O meu pai morreu sem se quer eu o conhecer!

- Se tivesse conhecido seria pior! Você perderia alguém com quem passou a vida toda. Deus tem um plano para tudo.

- Por que não para de falar de Deus?!

- Natal! O nascimento de Jesus Cristo! Se eu for a única a lembrar o verdadeiro sentido do natal, que assim seja!

- O sentido no Natal é passar com a família.

- Então o que faz longe da sua?

- Simples: eu não tenho uma família!

Agatha ficou espantada ao encarar Selina com lágrimas. As duas tinham muito em comum. Não tinham família e estavam vagando por aí em plena noite de natal. Sozinhas.

- Eu tô com fome. — Agatha pensou alto.

- Com a grana que eu tenho, posso acabar com a fome do mundo. — comentou Selina.

- E você reclama da vida? — questionou Agatha.

- Dinheiro não é tudo, sabia?!

- Eu sei, mas pelo menos você não é uma criança com fome que precisa de amor e carinho.

Selina deu um sorriso irônico e perguntou:

- A pequena Adelie está carente?

- Sou órfã. O que você acha? — e depois de uma pausa – E meu nome é Agatha.

- De nada. — respondeu Selina.

- Isso foi infantil. — falou Agatha – Errar o nome da pessoa de propósito não é a coisa mais racional do mundo.

- Dane-se.

- Beija a mão da sua mãe com essa boca?

- Nunca tive uma mãe pra beijar a mão dela.

- Faz sentido.

- Escute aqui...! — mas Selina é interrompida.

Um homem de roupas rasgadas sujas e mal cheirosas se aproxima, abatido e com barba mal feita. Não era velho como os outros mendigos, mas parecia tão necessitado quanto.

- Senhoritas, vocês nem imaginam o quanto alguns centavos podem melhorar o natal de alguém.

- Sinto muito, senhor. — falou Agatha – Eu não tenho nem para mim. Mas minha companheira tem de sobra.

Selina encarou Agatha com raiva. Era só o que faltava! Agora, além de uma órfã, um mendigo tinha lhe aparecido! Ninguém merece... Selina suspirou e pensou em fugir dos dois, mas algo tocou em seu coração. Ela se lembrou de seu tio, que não a deixou dar a metade que sobrou de seu joelho para um morador de rua. Na manhã seguinte acabou sabendo de sua morte.

- Eu queria ajudar, mas... eu não sei.

- Todos precisam de carinho. — Agatha sorriu para ela — Até mesmo o senhor...

Uma pausa e a pequena encara o homem, que entende sua deixa.

- Ah... Pietro.

- Até mesmo o senhor Pietro! — completou a pequena.

Selina bufou. Ela podia ajudar. O que a impedia? Sua tristeza e amargura? Que sentido isso fazia? Não o dinheiro, mas o simples não passar o natal só. Eles estavam sós em um feriado que era para ser compartilhado com amigos e entes queridos.

- Olha... eu tive uma ideia. Sigam-me.

Assim, todos seguem naquela madrugada de natal para seja lá onde Selina os levava. Agatha tinha um certo medo de Pietro. Sim, era uma pessoa que precisava de ajuda, como a própria havia dito, mas não esperava ter que andar pela cidade com ele. Era um tanto assustador. Mas Pietro parecia sempre olhar para o chão. Quando pensava em puxar assunto, logo desistia.

A caminhada deu em um muro branco e um grande e belo dourado, onde o guarda permitiu a estrada dos outros só quando Selina disse que eram convidados. Era um jardim gigantesco e maravilhoso o que eles tiveram que atravessar. Mas quando chegaram na parte de dentro da mansão, perceberam que não tinham visto nada ainda.

- Isso é incrível. — falou Agatha.

- Vi pela primeira vez ontem. Meu pai morreu hoje de manhã... quer dizer, ontem de manhã, já que já é dia 25. Sendo assim, conheci o lugar inteiro antes de ontem.

- Madrugadas confundem nossa mente. — Pietro comentou.

As duas concordaram. Certamente estava difícil até para elas se adaptar ao fato de que não era mais o dia em que acordaram de manhã.

- Pietro, vou chamar a Neena para lhe arrumar roupas melhores.

- Mas... não precisa! Depois eu vou voltar para a rua mesmo.

- Essa mansão tem dez quartos. Eu não tenho família. Moro sozinha cm alguns dos meus empregados. Há espaço de sobra. — declarou Selina, pegando o telefone e ligando para Neena.

Enquanto isso, Agatha se aproxima de Pietro e pergunta:

- Esperava um natal assim?

- Nunca nem sonhei com isso. — respondeu o loiro.

- Okay, galera. Neena está vindo. — avisou Selina.

- Você não a liberou para o natal? — questionou Agatha.

- Ela fez questão de ficar. — afirmou a dona da mansão — Agatha, quer se trocar também?

- Não, eu gosto dessa roupa. — ela afirmou – Quando vamos comer?

- Quando a mesa estiver pronta e a Neena chegar. Acho que vou chama-la também. E aquele guarda, o Sam.

- Tá bem, se resolveu dar uma de altruísta nada. — Agatha deu de ombros.

Então uma mulher de cabelos ruivos e olhos verdes se aproximou com uma expressão fria. Ela segurava uma muda de roupas masculinas que pertenceram ao pai de Selina e usava um vestido preto formal.

- Neena, um favor: leve Pietro à um dos banheiros e depois me ajude com a ceia de natal.

- Você não falou nada de ceia de natal! — questionou a mulher.

- Sim, mas tem coisa o bastante aqui para isso. — afirmou a jovem — Não se preocupe, eu ajudo.

Dita essas palavras, todos foram se aprontar. Agatha ajudava Neena e tentava conversar, mas a ruiva era uma mulher fria e não gostava muito de distrações além do trabalho. Selina chegou para arrumar a mesa trajando um vestido

curto e vermelho, com as alças caindo do ombro, saia rodada e um belo decote coração.

Logo que a mesa estava pronta, por volta de uma hora da manhã, Pietro chegou à sala de jantar limpo e de barba feita. Selina estava distraída ameaçando demitir Theodor se ele não participasse da comemoração, mas quando o guarda aceitou e ela desligou o celular se virando, dando de cara com um homem de aparência encantadora. A troca de olhares era intensa e tanto Neena como Agatha puderam ver que era muito mais do que apenas um olhar entre eles.

- Pi...etro? — perguntou Selina surpresa.

- Há muito tempo não uso algo assim. Dês de que fugi de casa. — falou ele sorrindo – Obrigado, Selina.

O comentário de Pietro causou alguma coisa em Neena. Como se estivesse se lembrando de alguma coisa. Quando Theodor, o guarda careca de pele negra, chegou para a comemoração. Todos sentaram à mesa. Mas antes...

- Precisamos dar graças! — falou Agatha — Vocês têm algo contra eu fazer uma oração?

- Na verdade, eu faria a mesma pergunta. — comentou Theodor.

- Sou ateu, mas respeito. — comentou Neena.

- Não me importo. — falou Pietro.

- Nem eu. — Selina deu de ombros.

Então, por exigência de Agatha, todos deram as mãos.

- Senhor, somos gratos a Ti por não estarmos sozinhos em algum canto. Seja triste por ter perdido alguém ou por nunca estar com essa pessoa. Obrigada pela comida, pelos meus novos amigos e por colocar em nossa vida alguém tão bom quanto a Selina, que nos trouxe para a casa dela. Mas, acima de tudo, agradeço pelo Seu filho, que veio ao mundo morrer em nosso lugar para nos dar a salvação. E que sirva o dia de natal pra nos ensinar que o amor é o maior presente pra se dar. Em nome de Jesus, amém.

Todos olharam uns para os outros antes de comerem. Todos estavam a refletir nas palavras. Abaixaram a cabeça e refletiram.

- Eu é que agradeço. — falou Selina – Agradeço a Deus por você ter entrado na minha vida, mesmo que há tão pouco tempo.

Então, todos se alimentaram. Ao longo do jantar, todos conversavam. Theodor comentava sobre sua família, esposa e filhos, mas Neena não abria a boca. Fria ao encarar o próprio prato, não demorou muito para Agatha reparar.

- Hey! Neena! Interaja!

- Se quer saber, garotinha, eu não gosto de natal.

- Esse ser existe? — brincou Pietro.

- Por que? — perguntou Theodor.

- Apenas nunca me importei. Puro comércio e as pessoas falando cada uma de uma coisa. Alguns dizem que é o Papai Noel, outros que é a família, outros que é o nascimento de um salvador esperado, mas é tudo comércio.

- Eu não ligo. — afirmou Selina – Se é um feriado, fique em casa, se divirta e dê de ombros para o comércio. Eu acabei de perder meu pai, mas... eu escolhi sorrir pelo menos agora.

- Não sei o que é me divertir há muito tempo. — confessou a mulher.

Selina fingiu ignorar, mas logo que o jantar acabou, ela se retirou, dizendo que logo iria voltar. Tomou arrancar um sorriso de Neena como um desafio. Em seu quarto havia seu velho violão, de antes de se tronar rica. Ela desce e começa a tocar músicas divertidas e Agatha convida a todos para dançar. Neena não quis se misturar, mas não resistiu.

Todos pareciam felizes, mas Agatha sentiu que Selina também queria dançar, assim como Pietro não tirava seus olhos da jovem. Perguntou a dona da casa, que confirmou por pura sorte: ela tinha um violino que comprou, mas nunca aprendeu a tocar. Agatha, há muito custo, achou o quarto de Selina e pegou o violino. Agatha pôs-se a tocar, fazendo Selina deixar o violão em um canto e começar a dançar. Pietro a segurou pela mão e começaram a dançar juntos, mas nem repararam no grande milagre da noite: Neena Sorria.

E eles dançaram e cantaram até o amanhecer do dia de natal.

Notas finais
Espero que tenham gostado!

Essa one foi inspirada na música da cantata Eternamente Natal. Foi uma das músicas que mais me tocou no musical. Espero que todos em seus lares se lembrem do verdadeiro sentido do natal: Jesus Cristo.

Feliz Natal!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!