Dékes
10 Seja a Si Mesmo
SEMANAS DEPOIS
A minha rotina na D.E.L.T.A. havia se estabelecido, finalmente. Em sua maioria, eram estudos com a Zero durante a manhã e treinamento com Oceano a tarde, com pausas e alguns dias de folga aqui e ali. Desde então eu havia saído em algumas missões menores, mas nada tão importante como em Daisy ainda, o que esperava que fosse algo bom.
No momento eu estava na Cafeteria, comendo pudim de caramelo. Angie ao meu lado, mexendo no celular, distraída com algo. Sigma e Hunter do outro lado da mesa, conversando entre si sobre algo que não conseguia ouvir.
“Hey, Dékes. Quando é seu aniversário mesmo? 30 de Novembro?” Angie pergunta, focada na tela.
“É, por quê?” Pergunto, olhando para ela, curioso.
“Final de Novembro... Hm... Aqui!” Ela sorri, lendo algo. “Signo de Serpentário. As pessoas desse signo são sábias e gentis, normalmente buscando ajudar o próximo... Igualzinho você!”
Inclino a cabeça, confuso.
“Quê? Do quê você tá falando?”
“Seu signo, olha aqui!” Angie mostra a tela para mim, porém era difícil de ver algo, energia de telas são irritantes de se ler.
“Não é possível...” Hunter respira profundamente, mãos no rosto, parecia irritado. “Pelo amor de Deus, não começa a ler esse tipo de merda. Não quero você virando uma louca dos signos.” Ele fala, apontando para ela.
“Quê? Não exagera, é divertido! Aqui, deixa eu ver... Seu é 11 de Novembro. Libra!” Angie lê, animada. “As pessoas desse sig-“
Antes que ela pudesse continuar, seu celular voou de sua mão, indo para a mão de Hunter, que a encara.
“Eu juro que se você continuar com uma porra dessas eu taco seu celular na parede e boto controle parental no próximo!” Ele ameaça.
“Ei, devolve meu celular!” Ela reclama. “Para de ser chato, por que dessa do nada?”
Sigma ri levemente.
“Tá bravo com astrologia desde semana passada.” Ele explica, sorrindo ainda mais. “É porq-“
“Ei, não precisa falar disso.” Hunter corta, tentando cobrir a boca de Sigma, que apenas segura o braço dele. “Ei!”
“É sério, semana passada ele foi pra... Uma festa...” Sigma tenta continuar porém Hunter continua tentando impedir ele, os dois praticamente lutando. Hunter tenta segurar Sigma, mas o homem apenas ri, como se brincando de lutinha com uma criança. “O Hunter foi numa festa seman- semana passada... E ele... Foi...” Hunter tenta cobrir a boca dele, mas Sigma desaparece, reaparecendo de cabeça para baixo no teto. “Ele foi numa festa semana passada e...” Ele tenta se segurar para não rir. “Ele foi rejeitado CINCO VEZES, por umas três mulheres e uns dois caras. Sabe por quê? Por causa do SIGNO DELE!” Sigma diz, enquanto ria sem parar.
Hunter cruza os braços, irritado, corando levemente.
“Negócio idiota. Quão estúpido você tem que ser pra usar algo assim pra tomar decisões.” Ele resmunga.
Angie já estava rindo também, e não consegui conter uma risada, cobrindo minha boca para disfarçar.
“Ei, não ri de mim, cara! Até você? Traição!” Hunter reclama.
“Nada! Foi só... Tosse.” Finjo uma tosse.
“VOCÊ SEQUER TEM PULMÃO! Não é possível...” Hunter cobre o rosto com as mãos, tentando esconder a vergonha. “Odeio vocês.”
“Dramático.” Angie diz, tentando recuperar o fôlego.
“Relaxa! Perda deles.” Sigma consola Hunter, voltando a se sentar ao seu lado.
“Sinceramente... Eu sou a literal reencarnação da Deusa do Cosmos, planetas e astronomia é minha área! Aí vem um doente, provavelmente drogado, que deve nem ter coragem de sair de casa sem ler o horóscopo antes, falar que ‘Librianos são muito indecisos e superficiais’, ou ‘Librianos são muito dependentes’, ou ‘Libra? Nem ferrando, o último libriano com quem fiquei roubou minha casa e meu cachorro, arrumou dívida no meu nome e entupiu minha privada’. O QUE ISSO SEQUER TEM A VER COM SIGNO?” Hunter reclama, incrédulo e inconformado. “Tomara que esteja entupida ainda, piranha...” Ele murmura, emburrado.
Não dava mais para segurar, comecei a rir. Angie caiu na gargalhada, se segurando em mim. Sigma sorrindo, massageando os ombros de Hunter.
“Tá tudo bem, shh. Quer um pudim?” Ele oferece, fazendo um aparecer na frente de Hunter.
“Tudo bem. Não, não, tá tudo bem...” Hunter diz, mais para si mesmo do que para nós, antes de comer um pedaço de pudim e se acalmar.
“Melhor?”
“Melhor. Bem melhor.” Hunter devolve o celular para Angie. “Só não fica lendo isso demais, se não seu cérebro vai ficar lisinho igual os deles.”
“Só acho engraçado. Não sou tão idiota assim, caramba. Mesmo que... Será que não é possível parte ser verdade?” Angie pergunta, curiosa. “Não seria o mais estranho que a gente já viu.”
“Mesmo que seja, você acha que quem escreve essas coisas sequer consegue ler algo nas estrelas? É só uns idiotas escrevendo qualquer merda que vem na cabeça.” Hunter responde, girando a colher e a apontando para Angie. “Então é, não acredita no que lê aí não.”
“Tem razão... Mesmo se algum for real, não dá pra saber.” Ela concorda, suspirando. “Hmm, esse site que eu tô lendo é famoso. Vi numa propaganda num vídeo sobre o Festival das Flores em Blackthorn. Olha.” Angie adiciona, mostrando o celular.
Hunter o pega novamente, dedos movendo na tela, enquanto ele lia. Sua alma mudou por um instante, surpresa? Reconhecimento.
“Madame Brylliant... Vidente e taróloga, famosa mundialmente por suas previsões precisas e charme irresistível.” Hunter lê em voz alta, uma risada fraca escapando. “Modesta, em... Que vadia.” Irritação. Por quê...?
“Engraçado, foi como você me chamou ontem a noite.” Sigma comenta, comendo uma colherada de pudim casualmente.
O rosto de Hunter ficou vermelho imediatamente.
“Dá pra cê calar a boca, cacete?” Ele exclama, extremamente envergonhado.
Angie cobre a própria boca, tentando se segurar, porém falhando, caindo na gargalhada rapidamente. Eu apenas respirei profundamente, comendo meu próprio pudim.
O Sigma sempre tem algo pra acalmar todo mundo, ne? Mesmo que seja algo vergonhoso. Ele sempre foi assim? Nenhuma resposta. Hunter tinha se distraído ao menos, porém o motivo de sua reação ao ler aquele site era... Estranha.
“Esquece isso! Pelo jeito ela vai tá no Festival também, que merda.” Hunter grunhe, incomodado, antes de devolver o celular para Angie. “Tanto faz, Blackthorn é grande o suficiente, a gente não tem que lidar com gente estranha.” Ele adiciona.
“A gente? Você quer dizer...?” Angie pergunta, olhos se arregalando, antes dela sorrir.
“Quê? Não tinha dito ainda? Eu tava pensando em levar vocês pro Festival das Flores.” Hunter explica, sorrindo. “Cê queria ir faz um tempo, e tem se esforçado pra caramba, então é. Se vocês quiserem ir, é claro.”
“É óbvio que eu quero!” Angie exclama, se levantando em um sobressalto, antes de olhar para mim. “Vai ser tão divertido, a gente tem que ir. Cê vai né?”
“Parece legal. É, por que não?” Concordo, rindo levemente com a animação dela.
“Opa, viagem em grupo? Agora sim, isso vai valer a pena.” Sigma inclina a cabeça. “Tô dentro!”
“Quem disse que você pode ir?” Hunter pergunta, cruzando os braços.
“Ei! Só dessa vez, qualé. Você não pode me parar, não é meu pai!” Sigma reclama, antes de abrir um sorriso malicioso. “Bom, talvez D-“
“Ok, ok, você pode ir! Só cala a boca.” Hunter corta, envergonhado novamente.
“Max também? Beleza, esse vai ser o melhor feriado de todos. A gente tem que se preparar.” Angie diz, pensativa. “Ou talvez descansar pra aproveitar ao máximo? Não, pera, combinei de treinar com o Oceano de novo... AAAAH! Eu preciso treinar um pouco pra esvaziar a cabeça. Dékes, vem comigo?”
“Claro, vamo.” Aceno com a cabeça, a seguindo em direção ao Domo Central.
ARENA GREEN
Eu estava diante a parede de escalada da arena. Cerca de 15 a 20 metros de altura, com dificuldades diferentes. O lado a esquerda obviamente era o mais simples, com pedras em distâncias relativamente curtas e um caminho reto até o topo. O do meio era mediano, distância maior entre pedras e certos obstáculos. E o da direita... Sinceramente? Provavelmente deveria ser um crime.
A parede da direita era instável, pedras irregulares, certos buracos de espaço, algumas pedras que entravam na parede aleatoriamente, certas ventilações escondidas que lançavam rajadas de vento de vez em quando e a sessão final, que se curvava para fora, se tornando quase que o teto, obrigando o escalador a praticamente se pendurar para chegar ao fim.
E Angelyne estava fazendo tal PERCURSO que só poderia ser ideia de um PSICOPATA com uma das mãos nas COSTAS, porque obviamente ela estava. Gosto dela. É... Ela continua maluca.
Angie olha para baixo, SORRINDO. Ela acena com a mão livre, RINDO, sim, RINDO. Eu realmente adoro ela. Ela vai ser meu fim um dia.
“Eeeeei! Sobe aqui, vem, cê consegue, é facin.” Ela chama, acenando para que eu me aproximasse.
Uma rajada de vento a atinge, seu cabelo balançando. Angie? Completamente calma e confortável com o fato de estar 15 metros acima do chão, com a única coisa para parar sua queda sendo uma pequena camada de água no chão que mal ultrapassaria a sola de meus tênis. Se eu chegasse perto desse crime contra minha existência, obviamente.
“Dá pra parar de se mostrar e terminar isso logo? É perigoso!” Grito, inconformado.
“Para de ser mole, só tenta uma vez!” Angie exclama, pulando de uma pedra para outra como se não fosse nada.
“Eu não vou chegar perto dessa atrocidade.” Nego, balançando a cabeça.
“Sossega, são umas pedrinhas!” Angie retruca, rolando os olhos.
“EU NÃO TÔ FALANDO DESSA PAREDE DO CARALHO!” Eu respondo, gesticulando agressivamente para a água aos pés da parede.
“Fresco! Uma água não vai te matar, tem só uns 5 centímetros de profundidade ou sei lá.” Ela devolve, agora na parte final, se pendurando com a facilidade de um macaco.
Sinceramente, essa parte final era aterrorizante. Oceano era louco de criar algo assim sem proteção?
“Vai rápido antes que você caia! Sinceramente...” Digo, nervoso.
“Relaxa, eu não vou cair-“ Angie começa, antes de sua mão escorregar e ela cair em queda livre.
“ANGIE!” Grito, tentando a alcançar, porém era tarde demais.
Angie atingiu a água e... A atravessou? Parei na beira da água, percebendo como ela era escura, parecendo até mesmo profunda. Hesitei por um segundo, antes de toca-la. Era quase sólida, meio gelatinosa, não água comum.
Antes que eu pudesse fazer algo mais, Angie reaparece, sendo jogada para fora da água e caindo sobre mim. Rindo, ela estava RINDO. Eu amo ela. Eu odeio você.
“Haha, te assustei? Foi mal.” Angie diz, gargalhando como uma criança travessa.
“Ai... Socorro... Dá pra sair de cima? Você é pesada!” Reclamo.
“Eu? Que nada.”
“Você é literalmente puro músculo, deve pesar o triplo que eu!”
“Tecnicamente você também é puro músculo.” Angie lembra.
Abri a boca para retrucar, antes de rolar os olhos.
“Tá, tecnicamente. Só tenho músculos e pele, com os órgãos e ossos tendo sido consumidos pelas minhas chamas e tal...” Sacudo minha cabeça. Não é hora para isso. “Independente! Eu peso, sei lá, uns 30 quilos? Você definitivamente tá na casa dos 100.”
“Pelo menos você é uma boa almofada.” Angie ri, antes de finalmente se levantar e me ajudar.
“Como você sequer fez isso?” Pergunto, me recuperando do susto, olhando para a água, novamente rasa e cristalina.
“Você não esperava que o Oceano ia deixar a gente se machucar, né?” Ela questiona, mãos na cintura. “Sossega sofazinho, essa água toda pelo lugar é coisa dele.”
Sofazinho? Porque ela- Calada.
“Alguém me chamou?” Oceano pergunta, se aproximando. Ela... Ela? Não, por que a alma do Oceano tá... Não importa. Ele estava tomando um pote de sorvete napolitano como se fosse normal.
“Todos os deuses são viciados em doce por aqui?” Pergunto, antes de suspirar.
“O Dékes não sabia sobre sua habilidade divina.” Angie explica.
“Você não fingiu cair de novo, ne?” Oceano questiona, levantando uma sobrancelha.
Angelyne sacode a cabeça em negação.
“Óbvio que não...”
“FEZ SIM! Pelos deuses, você quase me mata do coração.” Respiro profundamente, me acalmando.
“Desculpa, é só que é engraçado fazer esse tipo de pegadinha com gente nova.” Angelyne ri novamente, colocando seu braço em meu ombro. “Mas viu? Completamente seguro.”
“Como que isso sequer funciona?”
“Flux Weaver. Minha habilidade. Não só eu consigo controlar a água, mas consigo manipular seu estado para qualquer um que eu quiser. Não só os básicos, mas outros também.” Oceano explica, ainda comendo o sorvete como se sua vida dependesse disso. “É meio complicado, mas basicamente a água na arena toda é assim. Líquido normalmente, mas quando algo a atinge com força? Se transforma em uma forma gelatinosa que absorve todo o impacto.”
“É praticamente um trampolim!” Angie adiciona, sorrindo.
“Não explica como aquilo tava tão fundo do nada...”
“Isso também, é praticamente um oceano portátil, ajuda na absorção e tudo mais.”
“Isso não vai ficar fundo do nada e me puxar pra dentro se eu chegar perto, né?” Pergunto, aterrorizado, dando alguns passos para longe dos dois.
“Prometo nada.” Oceano dá de ombros, sorrindo, antes de comer outra colherada.
“Juro que eu vou pegar esse seu sorvete e transformar em sopa se isso acontecer.” Ameaço, uma corrente se formando por conta própria.
Oceano comeu uma colherada generosa, antes de apontar a colher para mim, abrindo um sorriso arrogante.
“Duvido.”
Ela não ousou... Encarei Oceano, boca aberta, surpreso. Mais correntes se formaram, duas, quatro, oito. Uma expressão de indignação em meu rosto, antes de abrir um sorriso.
“Me dá isso agora!” Digo, lançando uma corrente para tentar pegar o pote, mas Oceano já estava se movendo, correndo pelo percurso, rindo e me provocando, ainda tomando o sorvete.
“Tá com medo de uma aguinha? Vem pegar vem!” Ele diz, mostrando a língua, antes de pular por uma sessão de plataformas giratórias com facilidade.
Tentei o perseguir, porém eu não possuía o mesmo nível de habilidade e coordenação, pulando de plataforma em plataforma com cuidado.
Oceano estava já no outro lado das plataformas, um sorrisinho irritante nos lábios.
“Sorvetinho bom, ainda bem que não tem ninguém aqui pra tirar de mim.” Ele comenta, fazendo sons exagerados de satisfação só para me provocar.
No meio do caminho, eu acabo tropeçando, quase caindo, sendo salvo por duas das minhas correntes me segurando no lugar. Para de tentar ser normal. Normal? Do que você tá falando? Usa. Seu. Poder. Meu... Poder?
Parando para pensar, eu não costumo usar meu poder fora de combate ou treino. Hunter está sempre manipulando a gravidade. Sigma andando nas paredes e teto como se as leis da física fossem uma simples sugestão – o que em seu caso, realmente é. Angie usando sua dimensão de bolso para carregar suas coisas por aí. Eu não faço o mesmo.
Eu sei que ainda tem medo... Hel, eu... Só confia em mim. A voz dela não era mais a minha fazia algum tempo. Feminina, nostálgica, como alguém que eu conhecia faz muito tempo.
“Certo... Vou tentar.” Respirei profundamente, me concentrando. Se for para fazer isso, que seja do jeito certo.
Criei duas correntes, as usando para me estabilizar, antes de me mover. Com elas, consegui me manter nas plataformas, pulando de uma para outra.
O sorriso de Oceano aumentou, antes dela se virar e seguir para o próximo percurso. Barras, metros acima de uma piscina profunda. Ele se moveu usando apenas uma mão e as pernas, carregando o pote de sorvete com a outra.
Oceano já estava no meio do caminho quando cheguei nas barras.
“Foda-se essa merda.”
Ignorei as barras, correndo em direção a Oceano. Minhas correntes se formaram abaixo de meus pés, em plataformas sólidas no próprio ar.
“Dois podem jogar esse jogo!” Exclamei, pulando tentando pegar o pote de sorvete.
Os olhos de Oceano se arregalaram ao me ver tão próximo, centímetros de pegar o pote, quando ele se soltou, caindo em queda livre para a água abaixo e desaparecer na escuridão.
Ele não estava em lugar algum por alguns segundos, até ser cuspido da água no outro lado da piscina, rindo.
“Tá aprendendo com o Max, é? Física pra quê?” Oceano toma outra colherada de sorvete. A consistência estranha da água não parecia molhar, que irritante. Se bem que... “Boa tentativa, ainda não conseguiu me pegar. Vou terminar esse pote inteiro desse jeito, se você continuar sendo uma lesma.”
Grunhi, frustrado, antes de voltar a persegui-lo. Agora ele estava indo em direção a parede de escalada, onde Angie estava, só observando.
Oceano começou a escalar a parede mais difícil rapidamente, seu conhecimento do percurso era óbvio, e habilidade inquestionável, porém eu não iria deixar ele se livrar de mim tão fácil.
Lancei duas correntes o mais alto possível, me puxando em direção a Oceano diretamente. Ele conseguiu desviar, subindo alguns metros.
“Quase! Agora tenta me alcançar, haha.” Ele mostrou a língua novamente, se aproximando da área final da parede.
Irritante. Se é assim... Espera, não! Sim. Vamos ver se ele consegue desviar disso.
Oceano estava se pendurando na parte final quando olhou para baixo, me vendo tropeçar e cair, comigo desaparecendo na água. Ele teve que conter a risada, se contendo para não acabar caindo.
“Ei, Dékes! Você tá bem?” Angie pergunta, parada a beira da piscina, preocupada.
“Pelo jeito eu sou demais pra ele.” Oceano ri. “Melhor puxar ele antes que-“
Uma das minhas correntes se lança de dentro da água, atingindo o topo da parede de escalada e me puxando em velocidade máxima até Oceano. O ataque surpresa e sua própria distração o assustou, o fazendo cair. Ele fez seu melhor para desviar de mim no meio do caminho antes de atingir a água, enquanto eu consegui chegar no topo, usando minhas correntes para me manter firme.
Oceano foi cuspido da água, caindo no chão, surpreso. Ele se sentou, olhando ao redor, antes de olhar para mim. Eu havia alcançado o topo da parede de escalada, sentado na beirada, com o pote de sorvete em minhas mãos. Dei uma colherada generosa, antes de sorrir.
“Pelo jeito eu ganhei. Chupa essa, trouxa.” Cai na gargalhada.
Não gostei. Relaxa. NÃO PRECISAVA SE JOGAR NA ÁGUA. Estratégia. O ataque surpresa não seria o mesmo de outra forma. Você confiou demais que não ia se molhar. Funcionou, shiu.
“Não acredito nisso. Você usou meu poder contra mim. Na cara dura. E realmente roubou meu sorvete.” Oceano deita no chão, rindo, incrédulo.
“Ele te pegou de jeito.” Angie sorri, oferecendo uma mão. “Usou minha pegadinha ainda. Dá até um orgulho.” Ela adiciona, o ajudando a se levantar.
“Isso tudo foi de propósito, né? Só pra me forçar a usar minhas correntes.” Pergunto, usando minhas correntes como escadas para descer. “Você sabia.”
“Que você tem medo de si mesmo? Sim. Eu entendo o sentimento de não ser a si mesmo as vezes. Talvez por razões diferentes, mas ainda assim.” Oceano dá de ombros. “Não sei porquê você se segura tanto, mas vai ficar tudo bem. A gente tá junto nessa.” Ele me dá um tapinha nas costas.
“É, talvez, vou tentar. Aqui, pode ficar.” Devolvo o pote para ele. “Eu vou descansar agora, tô precisando.” Digo, antes de ir embora.
“Opa, aí sim! Valeu.” Oceano pega o pote, animado, antes de olhar dentro e fazer uma expressão de pura incredulidade. “Ele derreteu todo! Ei, isso é sacanagem, cara!” Ele reclama, mas eu já havia saído, segurando a risada.
“Ele te pegou direitinho. O Dékes falou que ele ia fazer isso, não devia ter duvidado.” Angie lembra, rindo.
“Ei, me ajuda aqui? Congela meu sorvete de novo?”
“Ah, é verdade! Combinei de ajudar o Max com aquilo lá, e tal. Tenho que ir, tchau!” Angie sai correndo da Arena também.
“OH, VOLTA AQUI!” Oceano chama, inconformado. “VOCÊ É UMA PÉSSIMA MENTIROSA!” Ele bufa, frustrado. “Meu sorvetinho, poxa... Foda-se, vou comprar mais.”
Eu estava caminhando pelos corredores em direção a saída, quando passei em frente a Oficina de Zero, as portas um pouco abertas e vozes vindo de dentro.
“O Festival devia ser pra tirar um tempo, principalmente pra Angie!” A voz de Hunter diz, claramente irritado. “Já não basta o trauma dela ter voltado por causa do que aconteceu em Daisy...”
“E continua sendo.” Zero responde calmamente.
Eu espio com cuidado, vendo Zero trabalhando em seu robô como sempre. Hunter andando de um lado para o outro, claramente frustrado, antes de se virar para ela.
“Não mete uma de idiota pra cima de mim, Abby.” Hunter responde, girando um dedo, fazendo uma ferramenta que Zero segurava sair voando e cair no chão. “Eu devia ter suspeitado quando você só aceitou minha ideia sem pensar duas vezes. Você sempre tem algo pra falar! ‘Desperdício de tempo’ e ‘outras prioridades’.” Ele puxa uma cadeira, se sentando, mãos no rosto. “Eu já falei pra Angie, não quero cancelar tudo e desapontar ela.”
Zero suspira, antes de se virar para ele.
“É só uma investigação, certo? Nada mais. Angelyne não precisa se envolver, eu posso cuidar disso sozinha.” Ela diz, séria, pegando a ferramenta e a colocando sobre a mesa. “Madame Brylliant está em nossa lista faz alguns meses. A dúvida sobre seus poderes, relações e possível ligação com os Filhos do Abismo é algo que necessitamos de uma resposta urgentemente, especialmente se sua reputação a precede.”
“Sozinha o caralho. Cê sabe que eu não vou deixar você se arriscar sozinha.” Hunter a lembra, girando seu anel saturno como fazia quando estava nervoso. “Vou pedir pro Sigma tomar conta dela. Ele, a Angie e o Dékes merecem aproveitar o festival.”
“Certo. Você pode investigar a assistente.” Zero pega seu tablet, seus dedos se movendo rapidamente pela tela, antes dela a mostrar para Hunter. “A chamam de Stella, uma astróloga brilhante pelo que dizem. Não possuímos muitas informações da garota, apenas que aparenta estar com Madame Brylliant por muitos anos, e é tão extravagante quanto.”
“Astróloga? Sério? Caralho, tá. Eu vou cuidar disso.” Ele bufa, antes de se levantar. “Se for pra Angie aproveitar o Festival, então vale a pena.”
“Não deixe opiniões pessoais-“
“Opiniões pessoais afetarem o trabalho.” Hunter imita, rolando os olhos. “Que tal não deixar sua obsessão com o trabalho afetar os outros? Porque isso só te faz mal, Abby.”
Zero suspira profundamente.
“Você sabe o porquê...”
Eu tentei prestar mais atenção no que estava acontecendo, quando senti respiração perto da minha orelha.
“Ficar espiando não é muito educado.” A voz de Sigma sussurra, me assustando.
Me viro, não vendo nada. Cego. Acima. Óbvio, sou cego mesmo. Espera, o quê? Olhei para cima, vendo Sigma agachado na parede, porque obviamente ele estava na parede, agachado, como se fosse normal.
“Cuidado pra não se entregar, Fagulhinha.” Sigma sorri, caminhando até estar novamente no chão, antes de acenar com a mão para que o seguisse.
“Fagulhinha...” Sussurro. Por que isso parece tão familiar? Sacudo minha cabeça, antes de o seguir. “Por que esse nome?”
“Hm? Sei lá, combina. O fogo e tudo mais. Não gosta?” Ele pergunta, olhando para mim.
“Não, eu... Quer dizer. Sim, eu gosto. É só... Parece familiar.” Explico, um pouco confuso, antes de focar nele. “Pra onde a gente tá indo?”
“Eu queria fazer uma coisa hoje, tava pensando se você gostaria de ir comigo. Só nós dois.” Sigma diz, indo em direção ao Dormitório.
“Ah, okay? Eu tava pensando em descansar um pouco...”
“Melhor ainda. Isso vai ajudar então.” Ele ri levemente. “Vai valer a pena, confia em mim.”
“Certo.” Concordo com a cabeça, o seguindo.
Sigma me guia até o Dormitório, mas ao invés de entrar, ele começa a subir a parede, antes de olhar para mim e gargalhar.
“Eu te ajudo, vem.” Ele segura minha mão, me puxando com ele. Consegui ficar de pé na parede e o seguir, não esperava por isso. “O quê? Achava que eu não poderia quebrar as regras pros meus amigos também não?”
Nós chegamos no topo do edifício, onde estava o terraço. Uma área larga e simples, ampla e sem muita coisa. Duvido que alguém subia naquela área com frequência.
“Eu gosto de vir aqui as vezes... Tá, bastante. Venho aqui com frequência.” Ele acena novamente para segui-lo, indo até uma área em específico escondida atrás de ventilações.
Sigma corta o ar com a mão, invocando dois sacos de dormir e os colocando no chão com cuidado, antes de se deitar em um. Dei de ombros, me deitando no outro.
“Por que me trouxe aqui?” Pergunto, confuso.
“Relaxar. Conversar. E ver uma coisa.” Ele responde, sorrindo, olhando para o céu.
“Boa sorte com o último.” Digo, gesticulando para meus olhos.
Sigma ri, antes de suspirar.
“Por que você acha que seus olhos são assim?” Ele questiona.
Franzo o cenho, pensativo, antes de olhar para cima. Escuridão absoluta. Minha visão não era o suficiente para ver tão longe como o espaço.
“Só nasci assim. Não sei quão raro é.”
“Divindade em corpo humano.” Sigma diz, virando o rosto para mim. “Acontece se um deus renasce em corpo humano. Não é todas as vezes, mas é normal ter algum tipo de mutação em seus olhos se isso acontece.” Ele coloca os braços embaixo da cabeça, voltando a olhar para cima. “Obviamente não é qualquer um com olhos diferentes, mas acontece bastante. Tipo o Hunter. Ele é um deus nascido em corpo humano.”
“Por isso a heterocromia...”
“É, no caso dele e no seu, sim. Os olhos são a janela da alma afinal.” Sigma contempla, sorrindo levemente. “Você não vê com os olhos, porque você só vê a verdade abaixo do mundo físico. Igual a Hel.”
A Justiça é Cega. Meus olhos se arregalam.
“Faz sentido... Inconveniente pra caralho pra jogar videogame ou ver anime, mas faz sentido.”
Sigma cai na gargalhada, sacudindo a cabeça, antes de olhar para mim, sorrindo. Nostalgia.
“Você realmente me lembra muito dele...” Ele suspira, limpando uma lágrima que ameaçava cair.
“O seu filho?”
Ele concorda com a cabeça, voltando a olhar para o céu.
“Como ele era?”
Sigma respira profundamente.
“Me diz. Por que você acha que nós existimos? Nós deuses?” Ele pergunta ao invés de responder.
“Por quê...?” Abro a boca para responder, fecho novamente, indeciso. Era uma pergunta difícil. “Eu... Não sei. Normalmente são criadores de tudo. Ou só uns babacas com poder.”
Sigma ri novamente, sorrindo.
“É... Humanos costumam mostrar deuses assim. Ou a razão de tudo, ou idiotas arrogantes com poder demais.” Ele pensa por um tempo, antes de oferecer a mão. “Segura.”
Levanto uma sobrancelha, antes de segurar são mão. Fria, igual a Angie. Provavelmente por causa de seus poderes.
“Fecha os olhos, e não os abra.” Sigma ordena.
Fico um pouco confuso, mas obedeço, os fechando, deixando a escuridão preencher minha visão.
Aos poucos, algo diferente se forma. Poucas luzes, que se multiplicam, centenas, milhares, milhões, cores diversas, únicas, uma beleza tão única e diferente das almas que costumo ver.
A vontade de abrir meus olhos apareceu em minha mente, porém a mão de Sigma segurou um pouco mais forte. Resisti, os mantendo fechados.
“Como...”
“É o que eu vejo.” Sigma explica. “Normalmente mais, mas bom, minha situação atual me limita bastante.”
“É tão... Lindo.” Digo, maravilhado, algumas lágrimas queimando minhas bochechas.
Sigma aponta para o céu, para uma parte em específico.
“Você lembra do que aprendeu na escola?” Ele pergunta. “O começo de tudo?”
“O Big Bang?”
Ele concorda com a cabeça.
“Escuridão sem fim. O Deus do Abismo, A Legião. Era o que tomava conta de absolutamente tudo.” Seu dedo gira no ar, suas chamas criando uma pequena esfera. “No meio da escuridão, uma única luz começou a brilhar, e então...” A esfera explodiu em uma pequena chuva de faíscas. “Faça-se a luz, certo?” Ele ri levemente. “Deus. Bem no centro do Universo. Ele criou tudo, trouxe a luz onde só havia escuridão... E então criou nós cinco.”
“Cinco...”
“Os Cinco Deuses Primordiais.” Sigma levanta a mão, levantando um dedo para cada. “O Primeiro, o Deus do Caos e Ordem. A Segunda, a Deusa do Cosmos. O Terceiro, o Deus da Existência. Então por último, os gêmeos, meu irmão e eu. O Deus do Tempo e o Deus do Espaço.”
“Você é velho pra caramba.”
Sigma ri, concordando.
“É. Até demais. Nós cinco fomos criados por Deus, sabe por quê?” Ele pergunta novamente.
Penso por um momento, antes de finalmente responder.
“Tomar conta de tudo?”
“Sim, basicamente. Deuses não são simplesmente os criadores de tudo, nós somos os pilares que mantém a ordem. Nosso objetivo desde o nascimento é proteger nossos domínios, e ter certeza de que tudo funcione propriamente. Nossa própria existência é o que mantém tudo em ordem.” Ele vira o rosto para mim.
Era estranho ver a mim mesmo, não era algo que fazia com frequência por razões óbvias. Nesse caso, entretanto, era diferente. Conseguia me ver perfeitamente, ao invés das imagens fracas e borradas que apareciam em minha mente. Meus cabelos negros longos e bagunçados, que escondiam meu rosto parcialmente, um hábito, para esconder meus olhos dos outros. A pele clara, um pouco pálida. Estava vestido apenas com calça jeans e uma camiseta de banda que Hunter havia me comprado. As roupas novas realmente tinham sido escolhidas a dedo por ele, para combinar comigo.
“Isso é solitário, né?” Pergunto.
Sigma concorda com a cabeça.
“Foram tantos anos apenas criando e mantendo as leis da física e tudo mais, e depois disso? Só... Existindo.” Ele suspira. “Alguns planetas nasceram e morreram, espécies nasceram e morreram, mas nada, por muito tempo, até que... Vocês vieram.” Sigma sorri. “Humanos e seus ancestrais, bem complicados, cometeram erros, acertos. Algumas vezes vocês me davam nojo, e outras, vocês me davam tanto orgulho. Foi difícil não se apegar, se aproximar, ajudar. Amizades, inimigos... Amores.” Uma risada escapa de seus lábios, junto de lágrimas. “Vocês são tão frágeis. Toda vez, toda maldita vez. Era só piscar meus olhos, então... Todos se foram. De novo e de novo e de novo e de novo.” Sigma estava chorando sem parar agora. Não consegui evitar. Abri meus olhos, me sentando, segurando sua mão firmemente.
“Eu...” O que falar? Para um deus tão velho como o universo? Só consegui segurar sua mão mais forte.
“Tá tudo bem.” Ele limpa as lágrimas, respirando profundamente para se acalmar. “Depois de acontecer tantas vezes? Eu só... Parei de sentir. Amor, dor, tristeza, felicidade. Só... Nada. Era mais fácil. Não me apegar, só existir, mantendo tudo funcionando como sempre. Como antes.”
Sigma olha para mim, sorrindo. Nostalgia.
“Então um dia... Kronos veio até mim. Uma sugestão... Criar um novo deus.” Ele diz. “Sabe, a principal forma de um deus nascer, é ser criado por outro deus. Adão, o Deus da Existência, é pai e criador da Perséfone, Lúcifer e Hel. E a Perséfone é mãe e criadora de alguns deuses menores como Oceano.” Sigma suspira. “Esse processo envolve usar parte de seu poder para criar algo novo, e normalmente é inferior ao criador. Só que no caso de Kronos e eu, foi diferente.”
Sigma se senta, levantando uma mão, suas chamas flutuando acima de sua palma.
“Quando dois deuses criam um deus juntos, eles combinam seu poder divino em um único ser. Esse processo normalmente tem o efeito contrário. Criam um deus ainda mais poderoso.” Ele fecha sua mão, apagando sua chama. “Tempo e Espaço. Criamos o deus da realidade.”
“Deus da realidade? Quão forte ele era?” Pergunto.
Sigma ri.
“Ele era um pestinha. Nasceu como humanos, um bebê. Eu tomei conta dele, criei ele. Eu... Sorri pela primeira vez em séculos quando o segurei em meus braços.” Lágrimas voltam a cair de seus olhos. Não, algo dourado, ícor, seu sangue, escorrendo de seus olhos. “Ele vivia se teleportando por aí, fazia animais falarem. A quantidade de lendas que vocês tem, várias delas foram pegadinhas dele. Brincando com a lógica como se não fosse nada.” Seus punhos se cerram, cabelos se movendo com o vento pela primeira vez desde que eu havia chego na D.E.L.T.A. “Ele era tão doce, travesso, mas um garoto gentil. Ele se importava com os outros, ajudava, curava, protegia. Sorria para todos gentilmente, especialmente para aqueles que estavam sofrendo. Porque ele queria que todos acreditassem que bondade ainda existia, queria ter certeza de que ninguém perdesse esperança.”
“O que... Aconteceu?” Me arrependo da pergunta imediatamente, abrindo a boca para tentar mudar de assunto, mas Sigma me interrompe.
“Ghost. O líder dos Filhos do Abismo.” Ele responde, o ar ao nosso redor treme levemente. “Eu tentei, tentei tanto, mas... Eu falhei. Que tipo de pai inútil não consegue proteger o próprio filho?” Suas mãos se movem até seus olhos, fechados como sempre, com o sangue dourado escorrendo deles como lágrimas. Sigma olha para mim, antes de pela primeira vez os abrir.
Meus olhos se arregalam. Surpresa, horror e incredulidade em meu rosto. Ele não possuía olhos, ao invés disso, dois buracos profundos preenchidos com sombras estavam no lugar. As sombras se moviam e rastejavam como parasitas, o mesmo tipo de sombra que preenchia a alma de Septem. As Sombras do Abismo.
“Ghost não é normal. Ele é um monstro. Carrega o poder do Deus do Abismo consigo, algo que nem eu consigo lutar contra.” Ele fecha seus olhos novamente. “Eu tentei proteger meu filho, mas Ghost me venceu. Matou ele na minha frente, e destruiu meus olhos com essas sombras. Elas consomem eternamente. Eu consigo resistir o suficiente para que não se espalhem ainda mais, mas não consigo me livrar delas. Essa dor é o preço que pago todo dia por ter falhado.”
“Não... Você não pode se culpar pelo que aquele filho da puta fez.” Digo, segurando a mão de Sigma novamente. “Não é justo.” Uma corrente se forma, se movendo até seu rosto e limpando o sangue que escorria gentilmente. Ele sorri.
“Perder ele foi tão doloroso, e todo dia eu continuo desejando acordar. Abrir meus olhos, ver meu filho e seu sorriso gentil. Perceber que tudo foi apenas um pesadelo.” Sigma confessa.
“Eu pensava que deuses eram só alguns seres poderosos, que existiam na fantasia...” Seguro a mão de Sigma mais forte. “Mas no fim, nós somos a mesma coisa. Poder ou não. A sua alma é linda, Max.”
Max ri, olhando para mim.
“Gosto desse nome. Era como chamava ele. Maximillian. Max. Depois que ele morreu, foi difícil me adaptar. Só que com o tempo, depois de ver ele crescer, eu aprendi a ver a vida de uma forma diferente.” Max explica. “Ainda dói, mas... Eu comecei a aproveitar cada segundo. Mesmo que seja tão pouco tempo, eu aprendi a sorrir novamente.” Seus lábios formando um sorriso genuíno. “Por isso eu estou sempre sorrindo. Porque eu quero poder dar a mesma gentileza que ele sempre deu para os outros. Não quero deixar essa dor me consumir.”
“Eu gostaria de ouvir mais sobre ele e de pessoas que você conheceu.” Falo, sorrindo de volta. “Essas memórias merecem ser lembradas.”
“Você tem razão. A dor passa, as memórias se mantém. Falar sobre seria divertido, aproveitar a noite estrelada, comer pudim.” Max se deita novamente em seu saco de dormir.
“Ia ser bom.” Concordo, deitando novamente também. Olho para ele. “Pode fazer aquilo de novo? Espera... Se você perdeu seus olhos, como...?”
“Hm? Eu nunca mostrei, né?” Max sorri, antes de levantar a franja branca em sua testa.
Em sua testa, ele havia um olho vertical. Um orbe em múltiplos tons profundos de azul, com um símbolo estranho e em constante mudança em seu centro. Uma forma impossível e sem sentido.
“Meu terceiro olho. Vê usando meus poderes, além do que olhos normais fazem. Tive sorte de não perder ele também.” Sua franja o cobre novamente. “É o que sobrou.”
Max segura minha mão, fecho os olhos e novamente vejo por seu terceiro olho. O céu noturno limpo e belo, mesmo aqui.
“Obrigado por me ouvir.” Ele diz, segurando um pouco mais forte. “Espero que não tenha sido demais.”
“Nunca. Eu tô aqui se precisar.” Respiro profundamente, sorrindo. “É bom saber que até mesmo alguém tão antigo é tão gentil. Que não somos tão diferentes... E choramos igual.”
“Sim... A responsabilidade as vezes é demais, mas no fim somos iguais.” Ele hesita por um momento. “Eu sei que você tá preocupado com a Angie. Ela passou por muita coisa, sabe? Eu não quero falar sobre sem permissão, mas eu tenho certeza que ela vai te dizer um dia. Só...”
“A alma dela é linda.” Corto. “Ferida, mas linda. Eu confio nela. Em você. Todos daqui. Entendo que as coisas são bem mais complicadas do que eu sei, e a responsabilidade que todo mundo carrega.” Viro meu rosto para ele. “Eu não vou desistir tão fácil. Se meu poder pode ajudar, então eu vou lutar até o fim. Como minha irmã fez... E no dia que eu tiver que enfrentar esse Ghost... Eu vou meter a porrada nele por você e pelo Max.”
Max gargalha, limpando algumas lágrimas que ameaçavam cair.
“Eu tenho certeza que sim. Um soco bem dado.”
“Fazer ele cuspir os próprios dentes.”
“Obrigado. De verdade.” Max agradece. “Por você ser você... Eu tô orgulhoso de você, Dékes. Sempre que precisar de algo, eu vou estar aqui por você.”
“Valeu, Max.”
Nós dois conversamos por horas. Max contando histórias. De múltiplas pessoas que conheceu, e sobre seu filho. E também me ensinou sobre as diferentes constelações no céu, estrelas, planetas.
Quando me dei por mim, eu já havia caído no sono. Sentindo uma calma que não sentia a semanas. Finalmente tive uma noite de sono tranquila.
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