Déjà Vu
2 Capítulo 2
Marvel acordou na sala do hospital. Uma bolsa de sangue pendurada ao lado de sua maca, o que significava que, mais uma vez, ele tivera uma crise anêmica. Tinha somente 5 anos (faria 6 dali a alguns meses), porém, sabia que tinha uma doença ruim ligada ao seu sangue.
Sua mãe abriu a porta do quarto, e entrou, carregando uma bandeja com o café da manhã. Ela tinha a mesma aparência de sempre: um rosto depressivo, com marcas de tantos sorrisos forçados que ela deu.
O garoto ouvira sua mãe soluçar à noite, falando o nome do pai e murmurando sobre bombas. E toda vez que eles iam para o hospital, sua mãe olhava para o banco do passageiro e dizia algo como "Odeio hospitais, por quê tenho que ir pra lá?", o que fazia Marvel achar que a mãe via o bicho-papão e conversava com ele.
A mãe passou as mãos nos cabelos de Marvel que ainda não tinham caído e beijou sua testa.
– Preciso te contar uma coisa, filho. Eu sei que você é muito novo para isso, mas precisa saber. É sobre o dia que você nasceu...
***
Muriel ficou apagada por cerca de 5 minutos. Voltou ao mundo com o som de uma explosão. Não respirou, não abriu o olho, a primeira coisa que fez foi dizer:
– Aonde está meu filho?!
Médicos e enfermeiras corriam dentro da sala, levando pacientes para fora. Do lado dela, a cortina caiu e ela viu uma mulher linda, talvez a mulher mais perfeita do mundo. Seus cabelos, lisos e castanhos (e brilhantes) aparentavam ter sido penteados recentemente, e caíam pelos seus ombros, cobrindo suas mãos... Ensaguentadas, cobrindo seu rosto. Ela chorava, freneticamente.
De repente, Muriel sentiu um aperto forte no coração. Primeiro pensou em Marvel, mas logo percebeu que não era isso, não SÓ isso:
– Meu marido! Onde ele está?! — outra explosão, dessa vez mais próxima.
Um dos médicos chegou perto de Muriel, tirou o fio ligado a ela e a carregou no colo para fora da sala.
O que ela viu ao sair foi uma das coisas mais terríveis que um ser humano poderia ver. Montes de pessoas caídas ao chão, em meio à poeira e às pedras. Crianças, idosos, gestantes, adolescentes, recém-nascidos, médicos... O choro e o desespero invadiam Muriel, mas ela não conseguiu falar nada antes de desmaiar.
Acordou, de novo, numa ambulância, com o pequeno Marvel em seus braços. Olhou ao redor, em busca de seu marido, mas havia apenas um enfermeiro, que olhou para ela, triste, e apenas balançou a cabeça.
***
E a mãe tornou a chorar, e o choro foi interrompido pelo barulho do aparelho cardíaco e um monte de pessoas vestidas de verde adentrou o quarto, correndo.
A bandeja de café da manhã caiu, a visão de Marvel foi ficando turva. A última coisa que ouviu foi uma xícara se quebrando.
Tudo ficou preto, escuridão cem por cento. E então uma luz surgiu ao fundo, e foi crescendo... Marvel olhou para baixo, suas pernas se moviam sozinhas para dentro da luz. Ele estava indo para dentro do túnel, o túnel da morte.
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