Dystopic
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Aceitei a aposta de Reina movido por uma chama que eu nem sequer sabia que existia dentro de mim, eu iria provar a ela que estava errada. Eu tinha controle mental suficiente para não provocar nenhum acidente, mas não possuía tanta certeza sobre meu problema de insônia, problema este que muitas vezes era acompanhado de movimentos violentos enquanto eu dormia. Certa vez acordei com arranhões por todo meu corpo e da outra com cortes profundos nos pulsos que eu não tinha ideia de como os tinha feito. Todavia, eu fazia tratamento há anos, eu tenho certeza que melhorei de alguma forma. Afastei o medo de minha mente, uma semana e minha vida estaria de volta ao normal. Naquela noite eu não tomei minha pílula para dormir.
Pela manhã, a claridade não me afetou, o céu estava nublado e demorei a levantar.
—O dia está lindo Senhor Yeo, está aqui em meus dados que não tomou sua pílula para dormir, teve uma boa noite de sono?
—Verídico, mas consegui dormir muito bem, obrigado.
—Entendo, ainda assim, insisto que não repita o ato, sua saúde por ser prejudicada.
—Obrigado, mas eu estou realmente bem. -falei me dirigindo até o banheiro e tomando um longo banho quente. Vesti-me e sentei a mesa da cozinha.
—Temos duas opções para o café da manhã: Torradas com manteiga e leite ou geleia com biscoitos e sulco.—cantarolou.
—Eu vou querer geleia com biscoitos e sulco.
Após o café olhei para as pílulas e respirei fundo. Tomei meu café da manhã e saí de minha casa. Ao chegar à esquina encontrei Reina sorridente.
—Está pronto robô? –ela indagou colocando as mãos em sua cintura.
—Pronto para o que?- devolvi a pergunta.
—Para a semana mais louca da sua vida, é claro, para se tornar um ser humano completo. Não está empolgado? Mas é claro que você não está, não faz nem 24 horas que está sem a pílula.
—Vamos nos atrasar para a faculdade. –disse andando em direção ao caminho já tão conhecido.
Ela segurou meu braço.
—Não iremos para a faculdade hoje. –ela disse me observando.
—O que?!
—Acha mesmo que eu ia te mostrar o que é ser um ser humano de verdade te levando aos mesmos lugares que você costuma ir normalmente?
—Mas não podemos faltar, sentirão nossa falta e saberão que não tomei as pílulas.
—Que saibam. Você tem medo? Se tomar as pílulas é uma escolha, qual o problema de saberem que você não as toma?
Tudo o que ela falava fazia sentido, mas eu não queria que fizesse. Nunca havia faltado a uma aula sequer desde que nasci e imaginar faltar me assustava, todos deviam estudar pelo bem de nossa sociedade, foi para isso que fui criado.
—Então para onde vamos?
—Esse é o espírito meu caro Jin Goo. É uma surpresa. –Ela sorriu lindamente e me peguei sorrindo de volta.
Ela colocou seu braço no meu e senti meu corpo estremecer. Fomos até a estação de trem e compramos uma passagem para uma cidade afastada do centro do país, quase em sua fronteira para o mundo destruído pelas guerras. Compramos dois assentos em um vagão separado de todos, Reina informou seu desejo ao bilheteiro de abrir a janela durante a viagem e o mesmo com o rosto contrariado optou por nos separar dos demais passageiros para mantê-los confortáveis. Sentamo-nos nos locais indicados, frente a frente, e ela automaticamente abriu a janela ao seu lado. Assim que começamos a nos afastar dos prédios e entramos na zona rural ela encostou sua cabeça na janela e fechou os olhos respirando fundo. Tente repetir o ato e senti o cheiro de grama verde, nunca havia percebido aquele cheiro apesar de ter um gramado em frente a minha casa. Abri os olhos e a observei, seus cabelos loiros balançavam com o vento. Ela deu um sorriso ainda de olhos fechados.
—Para onde estamos indo? –indaguei.
—Você não consegue ficar sem ter sua vida planejada a cada segundo não é?-ela falou suspirando.
—Só estou querendo saber se você não pretende me levar até o norte. –respondi rindo.
—Olha só, ele tem senso de humor. –ela disse chutando levemente minha perna. –Não se preocupe, o que precisa saber é que preciso te purificar antes de te mostrar tudo que você pode e tem direito de sentir Senhor Yeo.
Não nos falamos mais, Reina dormiu e eu também, fomos acordados pela sinalização da última parada do trem, o fim da linha. Tratava-se de um lugar completamente rural, cercado por matas e montanhas. Segui Reina por uma estrada de terra, estávamos sozinhos naquele lugar. O caminho possuía árvores dos dois lados formando um túnel. Havia flores e olhei para o céu. A luz do sol passava por entre as folhas, era uma visão linda de se ver. Caminhamos por cerca de uma hora e meus pés já estavam cansados quando pude ouvir pessoas a conversar. Chegamos a uma clareira, no meio das montanhas. Deveria haver mais de mil pessoas ali. Mais ao longe havia um palco improvisado, com instrumentos musicais em cima deles. Eu nunca havia visto instrumentos pessoalmente. Meus olhos passearam para as pessoas, todos estavam sorrindo como Reina sorria, não como Winston e eu sorríamos.
—A primeira lição Senhor Yeo é que a música liberta, ela era a forma mais simples de se chegar a alma de alguém. Não sei por que eles só lhes mostram música clássica, mas gostaria de te mostrar algo um pouco diferente. –falou ela me tirando de meus devaneios. –Venha. –ela disse segurando em minha mão e me puxando para mais perto do pequeno palco.
Quatro homens com barbas subiram ao palco, era a primeira vez que eu via homens com barbas tão proeminentes. Não éramos incentivados a ter barbas, pois elas poderiam acumular sujeira e propagar doenças. Eles não pareciam se importar.
♪♫♬
Eles começaram a tocar e havia uma letra, estavam cantando e o jeito que tocavam o violoncelo era diferente de tudo, o piano. Estavam completamente absorvidos pela música. As notas dançavam as letras, as batidas. Meu coração batia ao mesmo tempo, como era possível. Meus pés não me obedeciam mais e eu girei. As pessoas ao meu redor também cantavam. Minha cabeça girava. Olhei para Reina, ela estava de olhos fechados e cantava assim como os outros. Fechei meus olhos também, era como se minha alma também estivesse cantando. Eles tocaram várias músicas. Era como se eu estivesse flutuando, ou estivesse nos céus que eu só tinha ouvido falar nos livros. Quando terminaram todos aplaudiram e eu os acompanhei usando todas as forças que ainda me restavam. Eu não estava em meu corpo. Meus pés não eram meus e caminhei lentamente e de fora inconsciente até o palco.
—Temos que ir embora, está escurecendo. –disse Reina segurando meu braço. Olhei para o seu rosto.
A segui de volta a estação junto com as outras pessoas. Não disse uma palavra até o fim do caminho. Já passava das nove quando chegamos a porta da minha casa. Eu estava completamente confuso. Sei que a pílula impedia a violência, mas não deveria impedir aquela forma de expressão, deveria? Que mal poderia fazer? Todos deveriam ouvir aquilo, ter aquela sensação.
—Não precisa se sentir confuso. –disse Reina como que lendo meus pensamentos. –Todos se sentem assim ao serem tocados pelo sinal de humanidade. Está tudo bem. Bom, espero que você não tenha desistido da aposta hoje. –ela falou.
Não respondi. Ela se virou e foi embora. Entrei em casa e tomei um longo banho, sem conseguir tirar aqueles momentos de minha cabeça.
—Está na hora de tomar seus remédios para insônia Senhor Yeo. Parece cansado, dormirá muito melhor com eles.
—Obrigado, mas por hoje não os tomarei. –disse deitando-me em minha cama.
Ainda que aqueles momentos tenham sido incríveis, ainda não era justificado não tomarmos as pílulas. Os seres humanos eram capazes de coisas lindas, mas há maldade em todos nós. Maldade esta que não podemos ignorar, não pode fingir que não existe. Destruímos o nosso mundo uma vez e faríamos novamente se nos fosse dado a mínima oportunidade. Mataríamos uns aos outros, seríamos tomados pela ganância, a raiva e o egoísmo nos consumiriam. O sono me dominou e meus sonhos marcados pelas cenas naquela clareira, as vozes.
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