Notas iniciais
Essa é minha primeira história original. Eu espero que gostem. Críticas e sugestões são aceitas. Boa leitura.

Senhor Yeo, o dia está simplesmente lindo hoje. Você não vai querer se atrasar para seu primeiro dia de aula desse ano não é?

A voz eletrônica cantarolou alegremente. Meus olhos abriram com dificuldade. Não tinha conseguido dormir com qualidade. Meu médico disse que ia corrigir a dosagem dos medicamentos para dormir. Minha mãe também possuía insônia, acho que herdei isso dela o que é estranho, aparentemente consertamos todos os defeitos genéticos. Acho que aquele gene não havia sido consertado.

Como o senhor deseja seu café da manhã? Temos duas opções de café balanceado hoje. Frutas vermelhas com iogurte diet ou sulco de laranja com torradas.

—Quero a segunda opção por favor.- Respondi ainda sonolento.

O senhor não parece saudável. Dormiu confortavelmente?

—Infelizmente não, obrigado por perguntar. Inclusive falei com o doutor ontem a noite, ele disse que me enviaria novos medicamentos. Ele o fez? -indaguei me levantando.

Sim, o envelope chegou as 6 da manhã.- Respondeu abrindo um compartimento na parede acima de minha escrivaninha.

O envelope caiu sobre ela e me dirigi até o banheiro. Haviam banheiros mais modernos que o meu que faziam todo o serviço por seu dono, mas eu gostava de tomar banho a moda antiga com um chuveiro convencional com a exceção de que a água estava modificada, planejada para ter a quantidade correta de minerais, antimicrobianos e microbiota para uma perfeita saúde física. Assim que terminei passei pela secagem rápida e vesti minhas roupas, de estilo casual e com fibras que se adaptavam ao meu corpo. Tomei meu café, e tomei as 7 pílulas coloridas.

*Violeta para os pesadelos*
*Anil para a sonolência*
*Azul para a cicatrização de qualquer acidente perfuro cortante*
*Verde para a ansiedade*
*Amarelo para a tristeza*
*Laranja para potencializar as conexões neurais*
*Vermelho para inibir impulsos irracionais que pudessem turvar os objetivos como raiva, violência, paixão, desejo sexual...*

Seu exame de sangue semanal está pronto. Por favor insira seu dedo no espaço.- Disse a voz eletrônica em minha casa abrindo um pequeno espaço em minha mesa.

Coloquei meu dedo no espaço indicado e senti uma pequena pontada. Logo depois, escutei o resultado. Tudo dentro da normalidade. Eu havia tomado todas as pílulas diariamente. Coloquei minha mochila nas costas.

Tenha um dia iluminado Senhor-cantarolou a voz eletrônica.

Sai pela porta e caminhei para a esquerda. O dia realmente estava lindo, iluminado pelo sol forte.

—Vai caminhar novamente Jin Goo? -falou uma voz conhecida. Era a voz de Winston, meu melhor e único amigo.

—Vou sim. -falei esperando por ele. Ele me alcançou.

—Por que você não faz como as pessoas normais e pega o trem? Você se cansa desnecessariamente. -ele disse me segurando pelo ombro.

—Eu gosto de caminhar, além disso caminhar me mantém em forma. -respondi dando de ombros.

—Era só ir até o SPA, eles te deixam com o corpo que você quiser. -Ele falou fazendo músculo com o braço.

Ri do gesto.

Winston preferiu pegar o trem. Fui com ele até a estação e depois continuei meu caminho até a Universidade de Seul, a melhor universidade do mundo e uma das últimas que restou. A humanidade enfrentou conflitos nas últimas décadas até que a Sociedade Phoenix chegasse ao poder com a cura das doenças da humanidade: câncer, Aids, fome, ódio, amor. Tudo foi curado com algumas pílulas e um pouco de melhoramento genético. Os desejos eram o grande motivação para guerras, a escassez de alimentos então vamos acabar com todos eles, disseram. Eles estavam certos. Afinal, faziam 21 anos desde o último crime registrado, o ano em que finalmente a pílula vermelha foi implantada. O ano em que eu nasci, fruto de uma inseminação artificial e não dos desejos que poderiam turvar a consciência. Todas as crianças eram assim desde então, porque tomavam as pílulas.

Sociedade Phoenix, há 21 anos fazendo da Terra um lugar seguro para se viver. Você é livre para não tomar as pílulas, mas elas fazem de você um ser humano melhor, livre de distrações e não violento...—O letreiro continuava a falar.

Depois de cerca de meia hora de caminhada cheguei ao Campus da Universidade. Era um lugar enorme e repleto de árvores, jardins, salas, bibliotecas, piscinas, quadras. Entrei e logo cheguei até minha sala que era a mesma desde que havia sido selecionado para o curso de Neuroengenharia humana, em alguns anos seria eu a criar as novas pílulas tornando a vida de todos ainda melhor. No dia que fui selecionado minha mãe estava presente, foi a última vez que a vi, no meu aniversário de 15 anos quando todos eram levados para uma sala.

—Achei que não chegaria a tempo. -falou Winston me indicando a cadeira a seu lado.

Sentei ao seu lado, logo retirando alguns livros da minha biblioteca virtual que ficava na carteira e começando a ler.

—Temos uma pessoa nova. -disse Winston sussurrando pra mim.

—É um transferido? -indaguei sem tirar os olhos dos livros.

—É uma transferida. Uma coreana através dos mares? Roupas diferentes, cabelo diferente. -falou Winston.

Levantei meus olhos momentaneamente e eles pairaram para a criatura que se encontrava a minha frente. Eu já havia visto pessoas com cabelos loiros antes em imagens, mas era a primeira vez que eu testemunhava aquilo pessoalmente.

—Magnífica. -Pronunciei.

—É diferente mesmo. -Winston falou.

—Classe, temos uma aluna transferida diretamente da antiga Paris, Reina. Sejam receptivos e garantam que ela tenha uma ótima experiência enquanto durar seu intercâmbio. -ele disse.

A sala era organizada como um anfiteatro com degraus. Raina se sentou no degrau diretamente abaixo do meu. Ela prendeu seus cabelos e vi uma inscrição em seu pescoço. Uma tatuagem? Eu queria conseguir ler, mas a aula começou, tenho que prestar atenção. A aula se passou como sempre. A garota a minha frente mexia a perna com agitação, ela estava agitada? Mas nós tomamos pílula para a concentração.

—O futuro depende de cada um de vocês. -encerrou o professor no final da tarde. Peguei minha mochila e a coloquei no ombro. Winston e eu combinamos de ir até uma cafetaria que ficava próxima a nossas casas. Nos sentamos na mesa de costume. A garçonete nos deu um sorriso enorme.

—Pedirão o de sempre? -ela indagou mostrando todos os dentes com o seu sorriso.

—Sim. -respondi por nós dois.

Cinco minutos depois os cappuccinos com creme chegaram. Todas as bebidas eram sem cafeína para não ocasionar efeito contrário das pílulas verdes.

—Aquela fórmula estava realmente complicada, mas se pudermos trocar o somatório podemos facilitar. -disse Winston.

—Se trocarmos também o delta, pode deixar tudo mais rápido. -respondi.

Nossa conversa foi interrompida por uma risada alta. Olhei ao redor a procura do som e ele estava sendo emitido por Reina, que ria não comedidamente enquanto Choi Eunji, nossa presidente de classe ria timidamente. Eu nunca havia visto alguém sorrir daquela forma, sem se preocupar com os outros. Um sorriso verdadeiro?

Reina pareceu perceber os olhares sobre ela e se desculpou. Todos voltaram a seus cafés.

—Vamos?-indagou Winston.

—Sim. -concordei me levantando. Logo estávamos em casa. Troquei de roupa, fiz a desinfecção do meu corpo. Tomei as pílulas para o sono e me deitei na cama. Naquela noite meu sono não foi vazio, ele estava completamente preenchido por finas linhas douradas.

*********

O dia estava lindo e eu me sentia especialmente revigorado, já que meu coração batia forte. A maioria dos meus colegas não gostava daquela sensação de agitação no coração que não éramos acostumados, mas eu a adorava. Não que eu estivesse reclamando da minha vida, não havia o que reclamar, sou extremamente feliz e não tenho motivos para não o ser.

Contudo, sentir meu coração batendo tão rápido era como não ser um humano, mas um beija-flor mesmo que só por um dia. Era terça feira, dia de exercitar o corpo. Aquele era o único dia em que nós podíamos não tomar as pílulas verde e laranja, afinal tínhamos que fazer com que o nosso coração bombeasse o sangue necessário para a atividade e tínhamos que dar um descanso as nossas mentes. Mesmo com os avanços, a necessidade de um dia livre para o descanso do cérebro ainda não foi modificada.

—Crianças, vocês devem nadar de uma margem a outra da piscina. Depois disso faremos escalada e jogaremos Ping pong. -disse a Senhora Choi sorridente.
Ela era baixinha e sorria com os olhos o que a deixava mais angelical. Todos assentimos. Winston suspirou ao meu lado retirando a camiseta.

—Cara, eu sei que se não fizermos isso nossos músculos e articulações irão atrofiar, las deveriam inventar logo uma pílula para isso. Não é nada confortável ter que se movimentar dessa forma e não sei o que isso nos acrescenta. Não há nada nessas atividades que possam aumentar nossas chances de conseguir entrar no grupo principal de Neuroengenharia humana. Outro dia ouvi que um estudante morreu enquanto praticava escalada, ele possuía acrofobia não diagnosticada e só a descobriu enquanto escalava. Se algo acontecer conosco também? -ele disparou com aqueles pequenos olhos em minha direção.

Winston era fruto de melhoramento genético como muitos de nós então ele possuía exatamente as características que seus pais desejavam: pele negra e olhos asiáticos, ele era um pouco mais alto que eu e tinha um corpo do padrão de modelos. Já minha mãe havia sido selecionada pelo programa de povoamento da terra da Phoenix onde mulheres de baixa renda e que tinham um banco genético de interesse eram chamadas para serem cobaias em suas pesquisas na busca do ser perfeito saudável, pesquisa está que foi substituída pela do melhoramento genético. No caso dela apenas fez a inseminação artificial com um feto que não possuía defeitos genéticos, mas nenhuma de minhas características físicas foram modificadas.

—Se acabarem com essa aula, ficarei extremamente triste. -respondi sorrindo.

Winston deu um sorriso de lado.

—Como pode saber se nós nem sabemos o que é tristeza? -ele falou se alongando.

Ri um pouco alto.

—Você tem toda razão. -concordei dando um salto na piscina.

A grande maioria dos alunos apenas entrava e ficavam na borda mexendo as pernas. Eu gostava de nadar e era sempre eu e os sons das minhas braçadas. Nadei os 50 metros da piscina tranquilamente. Cada braçada e eu sentia meu coração bater e meus pulmões se apertarem implorando por oxigênio. Foi então que notei que eu não era o único a estar realmente nadando.
Quando cheguei a borda oposta levantei a cabeça e avistei Reina também completando o percurso no sentido oposto ao meu. Sorri momentaneamente, era bom ouvir o som das braçadas de outra pessoa. Reina pareceu perceber meu olhar sobre ela e sorriu para mim. Sorri automaticamente em resposta. Ela então fez sinal para que eu esperasse e nadou mais 50 metros até mim. Ela chegou ofegante e voltou a sorrir. Ela sorria com seus olhos, mas não era como o sorriso da Senhora Choi montado por uma pílula. O sorriso de Reina era formado pelos músculos de seu rosto, todos eles trabalhando em conjunto para formar o sorriso mais lindo de que tenho consciência de ter visto.

—É bom não estar sozinho nadando. -soltei de supetão. Meu coração estava acelerado. Por que diabos estou nervoso? Meu corpo está sentindo falta das pílulas? Mas já tão rápido? Geralmente meu corpo demora algumas horas para sentir a falta delas.

—Também acho. Você é a primeira pessoa que eu conheço que realmente nada na terça-feira.

—Já estava começando a pensar que eu era o único ser humano estranho nesse planeta. -ela respondeu.

—Eu sou estranho? -indaguei contrariado.
—Ah, não se preocupe, foi um elogio. É que todos são padronizados, mas você não parece assim. -ela falou.

—"Padrão é bom, evita desvios de conduta que possam...-comecei a recitar o que me foi ensinado e aprendido desde sempre.

—...gerar violência e acabar com a sociedade perfeita que nós criamos a tanto custo."-ela falou imitando uma voz anasalada que supus que deveria representar a voz do vídeo que tínhamos que assistir quando éramos criança. -Sei sei. Qual o seu nome?

—Eu me chamo-Pronunciei sem completar a frase.

—Não importa o seu nome. Você é igual a todos os outros. -ela falou cortando minha fala e nadando para a margem oposta da piscina.

Aquela era a criatura mais grosseira de que se tem notícia. Nunca ninguém cortou uma fala de outra pessoa, como ela era capaz? Ela disse que eu era igual a todos como se fosse uma ofensa. Mas padrão é bom, evita desvios de conduta que possam gerar violência e acabar com a sociedade perfeita que nós criamos a tanto custo. Então por que não parecia algo bom quando ela falou? Sacudi a cabeça a fim de não ter mais aqueles pensamentos, eles não eram bons para meu cérebro. Saímos da piscina e passamos para a escalada. Novamente o resto de meus colegas se recusava a subir ali com exceção de mim e novamente daquela garota. Dessa vez ela não olhou para mim e começou a escalar com destreza e facilidade. Eu não era tão habilidoso na escalada então eu fazia tudo ao meu ritmo, uma pedra de cada vez. Quando olhei para cima, Reina já estava chegando ao topo então apressei o passo. Por que eu estava fazendo aquilo? Com que objetivo? Assim que Reina chegou no topo ela olhou para baixo e suspirou. Eu chegou cerca de 3 minutos após ela com mais pressa do que eu me acostumara a escalar. Assim que cheguei Reina suspirou e começou a olhar para o horizonte. Olhei para ela e para onde ela estava olhando. Ela parecia decepcionada. Eu tinha estudado aquela fisionomia na aula de anatomia e eu tinha certeza que era uma expressão de decepção.

—Eu gostaria tanto de acreditar que você estava sendo competitivo ao tentar subir aqui com pressa, mas isso não faz sentido. Faz menos sentido ainda o fato de você ter começado a subir. -ela começou a falar mais para si mesma do que para mim.

—Você fala coisas que não entendo. -respondi.

Reina virou o rosto pra mim e deu um breve sorriso.

—Não importa o que eu falar para você. Aliás, não importa o que eu vá falar para nenhum de vocês. Vocês são todos iguais. Tão felizes, sem nenhuma preocupação. O seu mundo é tão perfeito. -ela disparou com o tom de voz firme e doloroso (?).

—O mundo é perfeito. -sorri pra ela.

—O mundo está doente e ninguém verá isso até que eles tomem tudo. Bom, eles já tomaram a alma de todos então não há mais como evitar. -ela respondeu pulando no abismo que nos separava do chão.

O mundo não está doente. O que ela quis dizer? Sem dúvidas, a criatura mais grosseira que conheci. Após isso, aconteceria o Ping pong, mas ninguém estava disposto a jogar, nem mesmo eu. Meu corpo começava a sentir a falta das pílulas e estava formigando e um cansaço começou a me atingir. Partimos para os chuveiros. Todos tomávamos banho no mesmo banheiro e nos trocávamos no mesmo banheiro, pois como tomávamos a pílula vermelha não havia necessidade de nos separar. Não nos desejávamos, éramos apenas seres humanos iguais e esse conceito me confortava e alegrava.

Entrei por último nos chuveiros quando todos já haviam ido, pois gostava do barulho da água caindo por meu corpo. Fechei meus olhos deixando a água cair.

—" Quando eu te deixar
Vou levar papel em branco
Espalhar por cada canto um barco de papel
Sei
Que o amor é fácil de afogar
E se você tem um barco
Maior chance de se salvar." -cantarolou uma voz.

Abri meus olhos e vi Raina no último chuveiro do banheiro cantando. Era a primeira vez que eu ouvia aquela música. Ela cantava de forma suave, não era como nas músicas clássicas que nos eram indicadas.

Não a interrompi embora meu coração estivesse acelerado por ouvir aquela voz.

Um coração poderia responder a uma voz? Ela não pareceu perceber minha presença e continuou a cantar até terminar seu banho. Aquela era a melodia mais linda que meus ouvidos ousaram ouvir. Ela saiu pela saída oposta à minha em direção ao vestiário. Eu a segui de forma silenciosa. No vestiário, ela continuou a ignorar a minha existência e a se vestir de forma vagarosa e ainda a cantarolar aquela música.

—Reina, que música é essa? -indaguei sorridente.

—Não é música clássica. Não está dentro das coisas que lhe interessam. Não vai ser útil para a Neuroengenharia humana. -respondeu de costas pra mim vestindo uma saia.

—Ainda assim, eu gostaria de saber. -respondi sem sorrir dessa forma.

—Você não se importa. Você é igual a todos os outros. -ela disse vestindo sua blusa.

—Por que você fala dessa forma comigo? -falei segurando seu ombro.

—Como eu deveria falar com alguém que nem mesmo está vivo?

—Do que está falando? Meu coração está batendo. Eu estou vivo.

—Você está? -ela indagou com sarcasmo? — Então me diga, o que você sente quando eu te trato com desprezo?

—Eu não sei, eu não me sinto com a felicidade completa.

—Você deixa de tomar duas dessas coisas uma vez por semana, nada alguns metros em uma piscina e sente seu coração bater mais forte, sente finalmente seu sangue correndo nas veias. Dessa forma você tem a certeza que está vivo?

—Sim. É exatamente como me sinto.

— Você não sente nada. Você não se sente felicidade completa porque não tomou suas duas malditas pílulas hoje. Você não sente amor, ódio, ou tristeza. Você não tem dias ruins, todos os seus dias são ensolarados. Mesmo que esteja chovendo as pílulas não deixam que você perceba. E acha que nadar alguns metros faz de você um ser humano? A diferença entre você e qualquer uma das máquinas que convivemos, a diferença entre você e a máquina que comanda sua casa é que você tem um coração feito de carne. Substitua isso por uma placa mãe e vocês serão o mesmo. -ela falou rangendo os dentes.

Eu abri a boca e a fechei algumas vezes. Eu não sabia a resposta correta para aquilo, eu não havia sido treinado para esse tipo de relacionamento social.

—Está pensando em como responder, mas você nem ao menos foi treinado para esse tipo de situação não é? -ela falou. Como ela sabia o que eu estava pensando?

—Você não passa de um lixo. Ser humano. Que piada. Esse conceito não se aplica a nenhum de vocês. -ela deu de ombros indo embora.

Eu sentei no chão. O que havia acontecido? Eu não sou uma máquina, eu sou um ser humano. Um ser humano não precisa sentir tudo aquilo, é perigoso para a sociedade. Ela estava errada, padrão é bom, evita desvios de conduta que possam gerar violência e acabar com a sociedade perfeita que nós criamos a tanto custo. Fui para a casa, mas todas as coisas que ela me disse não saiam da minha mente.

****************

—Se trata de um trabalho em dupla em que vocês devem criar um neurônio. Eu darei notas e a maior nota delas em todos os cinco quesitos de julgamento dará o direito da dupla vencedora a poder apresentar seu projeto na frente dos diretores da Phoenix. Lembrem-se, não é uma competição, esse trabalho é um passo importante para a cura do alzheymer. Dessa forma embriões que possuem os genes não serão descartados e poderão ter uma vida perfeita como todos nós. -disse o Senhor Lee. Sorri com a ideia de poder salvar vidas para que elas pudessem ter uma vida tão perfeita quanto a nossa.

Eu fiquei com Winston que já estava cheio de ideias. Todos estavam em duplas com exceção de Reina porque a turma ficava com um número ímpar de alunos. Ela não pareceu se incomodar com aquilo e sorriu concordando quando o professor perguntou se ela se importaria de estar só. Winston e eu combinamos de nos encontrarmos em minha casa para que começássemos o trabalho o quanto antes.

Desculpe a interrupção Senhor Yeo, mas devo lhe informar que a junta médica pediu para lhe avisar que o Senhor Winston não poderá comparecer à nossa casa. Ele teve problemas hepáticos.
Ao que parece ele tomou uma cápsula a mais por engano e não está muito bem. Ele terá que passar uma semana no hospital para desintoxicação. Sua universidade disse que indicou que a Senhora Livié será sua nova parceira nesse trabalho. Seu professor disse ainda que espera que vocês dois trabalhem bem, pois são os dois melhores alunos da universidade, ele tem grande expectativas em vocês.

—Obrigado por me avisar. -respondi.

Fazia 2 semanas desde o ocorrido no vestiário, fazia duas semanas que eu não falava com Raina. Ela voltou a me tratar como tratava a todos e isso não me incomodava, já que eu não tinha motivos para me incomodar pois vivo em uma sociedade perfeita. Às 3 da tarde em ponto, Raina chegou a minha porta e eu ordenei a casa para que abrisse e a deixasse entrar. Ela logo estava em minha sala de trabalho.

—Olá, aceita um chá? -ofereci.

—Não, obrigada Jin Goo. -ela respondeu sentando-se na cadeira a minha frente.

—Você agora sabe meu nome. -falei.

—O professor me informou quando transferiu. Não tive escolha. -ela respondeu. -Bom, vocês já tinham algum projeto em mente?

—Sim. -respondi abrindo o computador de mesa. Depois de apresentar completamente ela parou para pensar um pouco.

—Eu gosto do seu projeto, mas acho que ele é um pouco básico demais.

—Como assim?

—Bom, ele faz apenas conexões emocionais básicas, da forma como ele está ele não precisará tomar as tais pílulas, ele não sentirá nada fora do padrão.

—Exatamente.

—Mas ele precisa fazer conexões emocionais completas para ser humano. Do contrário vai se tratar de um cachorro humano adestrado.

— Mas padrão é bom, evita desvios de conduta que possam gerar violência e acabar com a sociedade perfeita que nós criamos a tanto custo. Se conseguirmos fazer com que ele já nasça com todas as características boas para a sociedade, evitaria problemas hepáticos por exemplo.

—Mas retiraria qualquer chance de livre arbítrio dessa pessoa.

—Então o grande problema não é o projeto, mas o seu conceito de humanidade. -falei.

—Não, o grande problema é o seu conceito de humanidade.
—Bom, eu possuo livre arbítrio.

—Não você não possui.

—Então prova, amanhã vamos nos encontrar novamente. Não tome essas pílulas por uma semana. Dessa forma eu posso provar que todo ser humano precisa sentir tudo que essas pílulas inibem.

Pensei um pouco. Eu iria provar a ela que ela estava errada.

—Feito. Vou lhe mostrar que não há necessidade de sentirmos essas coisas. Casa, se eu ficar violento, você injeta de forma endovenosa.

Sim senhor.

Reina e eu apertamos nossas mãos em sinal de concordância. Ela foi embora com um sorriso vitorioso. Eu iria provar para ela que não havia nada de bom naquilo que nos era bem impedidos pelas pílulas.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Estou pretendendo postar de 15 em 15 dias, de preferência aos domingos. Beijos e até a próxima.