Notas iniciais
Voltei com a continuação de Onde Mora o Coração, gostaria que todas as pessoas que curtiram a primeira história, também curtissem essa.

Washington — DC.

POV ON Wendy Hotchner

20 de março, era o primeiro dia de primavera, a minha estação do ano favorita, pois ela representa o “nascimento”, o início de um novo ciclo. E aqui estou eu, deitada na minha cama, na casa de meus pais, olhando para o teto e pensando de como seria esse novo ciclo. Dizem que a energia da primavera nos impulsiona a analisarmos nosso jeito de ser e aquilo que aprendemos na vida e acima de tudo, a analisarmos nossos preconceitos aquilo nos serve e aquilo que devemos deixar cair.

FLASHBACK ON

Era o primeiro dia de aula depois das férias de verão. Quando entrei na escola, todos os olhares se voltaram para mim, eu era a garota mais bonita e mais popular da escola, bem ou mal todos estavam falando de mim, todos queriam ser meus amigos, estar perto de mim e naquele dia não foi diferente. Estava organizando meu armário, quando ouvi uma voz feminina me chamar.

— Wendy Hotchner!

— Prentiss, por favor, Wendy Prentiss — respondi pedindo para me chamar pelo sobrenome da minha mãe, já que estava muito magoada com eu pai, mas nem me dei ao trabalho de olhar para quem estava falando e continuei arrumando meu armário.

— Desculpe, mas eu queria muito falar com você — dizia a garota sorrindo um pouco nervosa, enquanto eu não dava a menor importância e continuava focada no trabalho de organizar as coisas do meu armário — eu me chamo Rachael Baxter, também sou americana, cheguei esse ano em Londres e vim terminar meu último semestre letivo aqui. Acabei de vir da sala do diretor Brown, eu falei que estava um pouco nervosa por seu meu primeiro dia, as coisas na outra escola não foram muito bem e ele me falou de você...

— O que quer exatamente? — perguntei ainda sem olhar para ela.

— É que quando vi seu sobrenome e que você era americana, imaginei que fosse filha de Aaron de Hotchner

— Conhece meu pai? — indaguei parando de arrumar o armário e ficando imóvel por alguns segundos.

— Não é que eu o conheça, já o vi alguns vezes lá em casa em Washington — ela fez uma pausa e depois continuou — é que meu pai também trabalha no FBI, assim como o seu — falou Rachael mais segura de si, quando finalmente resolvi olhar para ela.

— Então seu pai é amigo do meu? — perguntei percebendo a aparência medonha daquela garota: sobrancelhas mal feitas, com aquele cabelo que nunca viu uma hidratação na vida, sem contar aquelas roupas, que mais pareciam as roupas de uma velha e não de uma jovem de 17 anos. Ela segurava os livros com se os abraçasse e esboçava um sorriso.

— Sim, meu pai foi chefe de seção da BAU — respondeu ela empolgada.

— Então quer dizer que seu pai foi chefe do meu? — a olhei começando a me interessar pela conversa.

— Tecnicamente sim, mas era seu pai que liderava a equipe toda. Meu pai disse que o agente Hotchner é homem de grande coração, sempre dedicado em ajudar as pessoas. Sabia que ele vai receber outra menção honrosa semana que vem, por ter salvo a vida de três dos nossos veteranos da marinha de um ataque de um serial killer.

Imediatamente baixei a cabeça, pois o que ela disse a respeito do meu pai me deixou pensativa, eu sabia que meu pai era um grande homem, apesar de ser um pai ausente. E tudo que eu queria era fazer parte da vida dele. E estando ali, diante de uma pessoa estranha que mais sabia da vida do meu pai que eu, me deixou triste.

— Algum problema? — ela perguntou carinhosamente percebendo a tristeza que tomou conta de mim.

— Não, é que... — eu estava começando a querer desabafar quando levantei a cabeça e percebi que a escola toda nos olhava, os olhares eram de reprovação, conversar com aquela garota era suicídio social, então sem pensar duas vezes, derrubei os livros que ela segurava — aff, garota idiota... acha mesmo que uma garota horrorosa como você pode vir aqui falar comigo — falava alto para que todos ouvissem.

— Me perdoe, eu não tinha intenção... — dizia ela enquanto se agachava para pegar os livros do chão.

— Você se olhou no espelho quando saiu de casa hoje de manhã? Aposto que não, pois se tivesse com certeza não tinha saído. Aliás, ficaria em casa todos os dias para nos poupar de ver a coisa horrorosa que você é — na mesma hora sai em direção a sala de aula sem olhar para trás. 20 minutos depois, começou a primeira aula, ela entrou na sala com os olhos vermelhos, com certeza havia chorado, mas descontar a minha raiva nela de certa forma me trouxe um alívio, apesar de não ter me sentido bem em saber que ela chorou.

FLASHBACK OFF

Lembrar da Rachael me faz entender que sim, eu preciso renascer, preciso me tornar uma pessoa melhor e a chegada da primavera reforça ainda mais essa necessidade. Eu não queria que as coisas com a Rachael tivessem acabado da forma como acabou e eu sei que um dia teria que pagar por esse erro, mas o sentimento de culpa já me colocou em uma prisão difícil de me libertar, que aprisionou minha alma.

Levantei-me e fui em direção a janela e a abri. Olhei e fiquei admirada, vi que já podia-se ver algumas flores brotando no jardim lá de casa. No conceito da visão de tribos indígenas antigas, a primavera é a estação do despertar. É quando enxergamos através da ilusão, ou quando descobrimos novas informações, trazendo clareza para o caos ou confusão. Desse modo, recomeçamos rompendo velhos padrões, renovamos nossa intenção, propósitos e nos preparamos para um novo ciclo, que traz o equilíbrio em nossas energias.

Nesta estação, saímos da introspecção do inverno e passamos a florescer e a despertar em nossas vidas. É a chegada da energia que nos faz abrir novas fontes de criatividade, nos tornar mais otimistas, observadores e determinados. Nossos antepassados respeitavam os momentos de Equinócios e Solstícios, pois sabiam que estes ciclos são importantes para a vitalidade de todos os seres que habitam a Terra.

E era isso que eu estava buscando: recomeçar. Os últimos meses da minha vida foram marcados por grandes acontecimentos dramáticos. Fui sequestrada pela amante do meu ex-padrasto que tentou me matar, mas graças à intervenção do meu pai junto com sua equipe, o pior não aconteceu. Nisso acabou acontecendo que meus pais reataram o casamento e meu ex-padrasto, Phillip, acabou sendo preso por ter sido cúmplice de sua amante em todos os crimes que ela cometeu.

Faz uma semana que Phillip foi condenado à prisão perpétua, isso me trouxe um alívio grande. Foram sete anos convivendo com esse ser asqueroso que me torturou psicologicamente, o que fez com que eu me tornasse uma pessoa da qual não tenho orgulho de me lembrar, cometi muitos erros, mas tem um que me atormenta mais do que os outros, pois este não tem como corrigi-lo, uma dívida eterna que tenho, que cedo ou tarde terei que pagá-la.

Mas para esse novo ciclo eu prometo a mim mesma que farei de tudo para ser uma pessoa melhor, vou tratar todo mundo bem, independente da forma como sou tratada. Vou tirar parte do meu tempo para me dedicar a alguma obra de caridade e ajudarei pessoas que são excluídas socialmente, começarei por Vanessa Woods e Spencer Reid, pessoas que gosto muito, mas que sofreram nas mãos de pessoas como eu. Sem contar que vou ajudar mais minha mãe que está grávida de quase 5 meses de um menino que se chamará, Jack, nome escolhido pelo meu pai.

Esse é o momento de aprender a olhar novos desafios como oportunidades de crescimento pessoal, e apesar do meu erro, eu buscarei seguir em frente e espero que um dia eu consiga o perdão da Rachael.

POV OFF Wendy Hotchner

***

Quantico — Virgínia.

Hotch havia acabado de chegar de Cary no Estado da Carolina do Norte. Eles haviam resolvido um caso de um homem de 27 anos que foi vítima de bullying na época da escola e que estava matando vários jovens estudantes em toda cidade, sempre os mais bonitos e populares. Hotch sabia que esses casos mexiam muito Reid, mas ele não achou que o rapaz chegaria ao ponto de se colocar no meio do fogo do cruzado para salvar um assassino. Parecia que ele se importava mais com o assassino do que com as vítimas.

Então logo que chegaram a Quantico, o chefe chamou Reid para conversar na sua sala. Hotch estava muito irritado, mas resolveu manter a calma com rapaz, por mais difícil que isso pudesse ser. Spencer entrou na sala calado, como se já soubesse que iria pegar uma bronca. Então logo sentou-se na cadeira em frente à mesa do chefe, que assinava uns papeis, mas parou assim que o jovem entrou.

— Vou direto ao ponto — disse Hotch seriamente — no que estava pensando quando entrou na frente de um fogo cruzado para proteger um assassino?

— Hotch, ele também foi uma vítima — falou Reid elevando um pouco o tom de voz.

— Ele matou jovens que nada tiveram a ver com o que aconteceu com ele no passado — retrucou o chefe firme.

— Mas que faziam mal a outras pessoas da mesma proporção que fizeram a ele.

— Quer dizer que ele se tornou um assassino por culpa das vítimas? — ironizou Hotch.

— Não, o que quero dizer é que se não existissem pessoas que para se sentirem bem, precisam humilhar outras, com certeza teríamos bem menos psicopatas assassinos.

— Reid, a psicopatia possui várias vertentes, não é tão fácil explicar que determinada coisa causou ou não o desenvolvimento dela. A maioria dos psicopatas nasceram assim e não se tornaram um.

— O psicopata pode sim ter herdado geneticamente algumas tendências, mas pesquisas comprovam que a maioria deles sofreram algum tipo de violência física ou psicológica durante a infância.

Hotch passou as mãos na cabeça como se pedisse ajuda aos céus, depois novamente voltou a falar com Reid, mas dessa vez mais calmo, tomando a postura mais de pai do que de chefe.

— Mas nem todas as pessoas que crescem em meio a violência física e psicológica se tornam assassinas, algumas crescem para capturá-las.

Reid nunca havia falado dos seus “problemas” na escola para seu chefe, mas de certa forma o rapaz sabia que Hotch deveria imaginar o que ele sofreu. E mesmo estando ali, com a vida ganha, trabalhando como analista de perfis do FBI, esse passado sempre o incomodava, ser zoado e humilhado por ser quem você é, não era fácil. E por mais mal que este serial killer fez a estas pessoas, Reid não conseguia deixar de sentir empatia por ele.

— É estranho não é? — perguntou Hotch.

— O que? — retrucou Reid.

— Quando nos identificamos mais com o vilão do que com as vítimas.

— Isso me torna um vilão?

— Não, te torna bom no seu trabalho.

Reid sentiu que a conversa estava encerrada, então levantou-se para sair.

— Só mais uma coisa — disse Hotch antes que ele saísse — se aprontar mais uma dessas, eu te demito... você pode ser o agente mais inteligente, mas eu continuo sendo o chefe.

— Entendi — disse Reid, em seguida saiu. E Hotch voltou analisar os papeis que estavam sob sua mesa.

***

Morgan ,assim que avistou Reid descendo às escadas, correu ao encontro dele.

— Como foi lá com Hotch? — perguntou Morgan enquanto os dois se dirigiam a um canto da sala para ficarem isolados dos demais.

— Você pode imaginar...

— Deve ter levado uma bronca daquelas — retrucou Morgan tentando dar leveza a conversa, mas Reid ainda parecia incomodado. Então ele colocou a mão do ombro do amigo na tentativa de acalmá-lo — relaxa, cara.

— Para você é fácil falar... sempre foi popular e teve as mulheres que sempre quis aos seus pés.

— Opa cara, eu nem sempre fui popular, não... já sofri bullying — respondeu Morgan alterando o tom de voz, ficou um silêncio por alguns segundos e ele voltou a falar, só que mais calmo — eu sofri muito na escola também, apanhava muito dos grandalhões, só que um dia, nas férias de verão, resolvi começar a malhar, voltei mais forte, então entrei pro time e nunca mais me incomodaram.

— Sabe o que fizeram comigo? — indagou Reid enquanto Morgan ficava atento a tudo — Alex, a menina mais bela da escola, me chamou para um encontro atrás do ginásio depois aula — Reid baixou a cabeça e continuou — e eu fui...

— Quando chegou lá, ela não estava — falou Morgan interrompendo Reid.

— Estava... estava sim, ela e a escola inteira. Todos começaram a rir de mim quando perceberam que eu cai na história. E então, o time de futebol veio até mim, zombaram por eu ter achado que a Alex estaria a fim de mim, depois me despiram e me amarraram no poste, onde fiquei, até todos os adolescentes irem embora.

— Eu sinto muito, Reid — falou Morgan consolando o amigo — mas isso passou, ficou para trás.

— Eu queria acreditar nisso, eu queria...

***

Londres — Inglaterra

No hospital de Londres, Daniel Parker, um jovem de 20 anos, alto, loiro, olhos verdes, corpo atlético e de boa aparência, estava num quarto da UTI. Ele estava do lado da cama de uma senhora que estava adormecida com vários aparelhos ligados que a mantinham viva.

Bip. Bip. Bip

Daniel olhava o aparelho que media os batimentos cardíacos. O som dos alarmes pareciam vir de muito longe, mas ao mesmo tempo pareciam vir de perto. Há dias sem dormir, então seus pensamentos estavam longe, estava difícil segurar a barra, parecia tão fácil quando Rachael estava ao lado dele, mas infelizmente ela não estava mais.

A dor parecia que o perseguia nos últimos meses, tudo dava errado e seu desespero só aumentava. Mas ele acreditava que no fim das contas tudo ficaria bem.

Sua ansiedade aumentava a cada segundo, o som dos bip’s pareciam o incomodar.

De repente o som dos alarmes mudaram, não eram mais os bip’s, mas um som linear contínuo, os batimentos cardíacos pareciam estarem cessando. Daniel ficou imóvel, quando a enfermeira veio junto com o médico e pediu que ele se retirasse.

Eles trouxeram o desfibrilador. De longe, o rapaz ficou observando as várias tentativas de ressuscitação. O médico posicionava as pás do aparelho no peito da senhora e aplicava várias séries de choques.

Daniel chorava, pois a cada tentativa frustrada da equipe médica, suas esperanças iam diminuindo.

Os médicos então desistiram, fazendo um sinal negativo para o rapaz. Sim, sua mãe havia morrido. E agora? O que seria dele?

Notas finais
Obrigada mesmo por ter lido, espero que tenha gostado.

Aqui vai o link da fanfic “Onde Mora o Coração”: https://fanfiction.com.br/historia/686197/Onde_Mora_o_Coracao/