Dust Devil

4 Rosa dos ventos


Num cenário apocalítico, quando os via em filmes ou animes, papos como aquele de propagar e preservar a especie, sentimentos de liberdade, noções distorcidas de certo, errado, lícito, ilícito, legal e ilegal são recorrentes, chegam a ser «cliché» vulgar, mas têm um fundo de verdade.

Como diria Beccaria:

‘Homens só se arriscam na proporção do lucro que o êxito possa proporcionar-lhes.’

‘O receio que as leis inspiram é saudável, o receio que os homens inspiram é uma fonte nefasta de delitos.’

Posto isto, quantos crimes seriam cometidos em uma época onde o êxito é certo e não existem leis para inspirar receios? É inevitável que a fonte nefasta jorre como nunca antes e suas águas sejam imponentes e abundantes, além de pútridas.

Bom… Era nisto que sempre acreditava, se eram uma parte das minhas crenças e pensamentos, lógico que em uma alucinação seriam presentes.

Levantei-me e dei dois passos temerosos a frente, olhei mas atentamente o quarto.

Estava lá, ao lado da cama…

Inacreditavelmente, a coisa semelhante a um casulo estava lá, mais de perto pude ver o líquido esverdeado, igual ao do qual emergi, espalhado pelo chão.

No entanto, ainda não podia ver claramente o que ou quem estava sobre a cama, mas não estava muito confiante em me aproximar ainda mais… Eu poderia morrer, no caso de não ser uma alucinação.

Francamente, este papo de alucinação ou realidade, já estava me dando nos nervos, um assunto repetitivo e irritante, contudo o que poderia fazer, já que fui eu quem o trouxe à tona?

— Ei, já disse quem sou, agora não seria educado me dizer quem você é?

— Babaca, eu sou uma garota doente! Não está vendo?! Por que mais eu ainda estaria sozinha neste hospital de merda, hã?!

Que era uma garota ou pelo menos tinha a voz de uma eu já sabia, desde quando a ouvi pela primeira vez, mas não era bem isso que eu queria perguntar.

— Posso me aproximar? Ou você ira me arremessar novamente? Se for assim, não precisa se dar ao trabalho, eu irei procurar por alguém menos violento.

— Se você tiver algo de comer sinta-se livre para entrar, se não… Sinta-se livre para ir embora!

Que garota arrogante, este não era um tom educado para se dirigir a alguém que acabara de conhecer, alias, é típico dos idiotas arrogantes que mais odiava, antes de ser tão apático.

— O que é você? Vendendo-se por um pouco de comida, um animal adestrado?

Um animal adestrado, isso mesmo, neste caso o adestrador seria um imbecil, pois o bicho não serviria nem para ser um cão de guarda, bastava um bife e o caminho estaria livre para o assaltante.

— Humpf! É você que está quase morrendo de fome?!

— Que seja, farei como quer.

Não era por estar interessado em saber mais ou conhecer aquela pessoa irritante, mas ela poderia ser a chave para encerrar com o assunto de alucinação que era ainda mais irritante, devo dizer que não foi por esta única razão, mas eu também não poderia simplesmente deixar uma pessoa doente morrer de fome — se fizesse isto, não poderia mais encarar meus pais.

Ainda bem que peguei algumas barrinhas de cereais e uma garrafa d’água, ela não pediu, mas se está com fome, deve estar com muito mais sede.

Eu preferi tirar as coisas da mochila, antes de entrar no quarto, andar com as mãos e o que estava segurando a mostra, ela poderia se assustar quando eu revirasse a mochila e me atacar sem piedade, já que poderia desconfiar das minhas ações.

Quase não resisti a tentação de provocá-la, balançando a comida como se estivesse a oferecendo a um gatinho tolo, mas não seria uma boa ideia.

Finalmente, entrei no quarto, senti um pouco de temor, era como pisar no território de uma leoa, não de um gatinho doméstico, ainda bem, estou feliz por ter resistido a tentação, não se deve brincar com animais selvagens, cutucar um felino quer com vara curta, quer com vara longa, pode-se acabar sem um braço ou perder a vida.

Ela estava coberta até os ombros com um lençol, digno de um hospital daquelas dimensões, ao seu lado, a coisa esparramada — embora parecesse com o filme A Coisa de 85, estava muito alegre por não ser da mesma cor e eu não ter vontade de comê-la, apesar de também ser um pouco parecida com a coisa rosa de A Bolha estava ainda mais feliz por não poder se mexer, quem diria então o quanto estava feliz por não haver um Alien ou o oitavo passageiro por perto.

Deixando os clássicos e trash de lado…

Ela estava ansiosa e aflita, não poderia tampouco imaginar o quanto ela desejava comer aquelas barrinhas ou beber aquela água, se houvesse mais uma pessoa na mesma situação que a dela, com certeza haveria uma batalha mortal.

— Me dá! Me dá! Me dá! Me dá!…

O que é esta mudança drástica de personalidade, ela virou uma criança mimada com sede por doces?

Fiz a volta, para não ter contato com a gosma verde e dei a comida e a água para ela, qualquer professor de etiqueta condenaria e reprovaria com desgosto as ações daquela jovem, embora comesse como um brutamontes faminto e mal-educado, não desperdiçava uma gota d’água ou uma migalha de comida.

Eu nem ao menos me atrevi a interromper sua refeição, como um cão protegendo sua tijela de ração, eu tinha convicção de que se desse a miníma impressão que tocaria na sua comida, ela me morderia como uma vira-latas sarnenta.

Mas não seria tão incômodo esperar até ela terminar, antes que pudesse começar a ficar entediado ela já tinha engolido, sem tão-pouco mastigar.

— Como recompensa por ter de dado minha comida, poderia responder algumas perguntas?

— Chi! Todos são assim, sempre fazem algo esperando por alguma coisa em troca.

— Isso é bom, você também já sabe como este mundo podre funciona. Então, diga-me isto é uma alucinação?

— Ha ha ha ha ha ha…

Ela não parava de rir…

— ?…

— Uma alucinação?! Quem dera que fosse! Isto é o inferno.

Creio que pensei em algo assim antes, lembrar-me de Dante não foi simples coincidência… Porém se isto é real, que diabos aconteceu?

— Entendo, nós morremos…

— Ha ha ha ha ha…

Mais uma vez não parava de rir…

— Você gosta de rir ou eu pareço um palhaço?

— Se você parece um palhaço eu não sei, nunca gostei, por isso nunca vi um de perto… Mas você adora piadas! Nós morremos?! Se fosse isto seria melhor. Eu não sei o que aconteceu, mas isto não é uma alucinação ou fantasia e com certeza não morremos!

— O q-que? Mas…

— Só ouvi algumas explosões, as luzes se apagaram, todos começaram a correr em pânico, eu não posso andar, mas tentei sair da cama para ver o que estava acontecendo… Não me senti bem e acabei desmaiando… Quando acordei estava dentro daquela droga, me desesperei, consegui sair e com esforço voltei para cama… O resto você deve imaginar.

Isso era real, tudo? O que estava acontecendo, como as coisas tomaram este rumo? Este era o fim do mundo ou apenas da humanidade?

Questionamentos se empilhavam como peles num matadouro, sem respostas eu continuava no escuro, não podia mais ver nada além de dois metros a frente, nos sentidos real e figurado.

Escuro? Isso… Por que ela não se espantou ou mencionou as chamas que saíam da minha mão? Por quê?…

— Por quê?

— Hun!?

Levantei a mão de onde saíam as chama e apontei para ela com a outra.

— Por que isto não te incomoda?

— Ah! Porque eu também descobri que posso fazer algo parecido, você já sentiu na pele, quer sentir de novo para entender?

Agora entendi, não foi uma explosão, mas aqueles fenômenos inexplicáveis. Uma porta desaparecida, chamas saindo da mão e ondas de choque, isto é um mangá? Um manhwa? Ou um manhua? Será que eram resultados daquela gosma verde?

— Não, já foi o suficiente… Então como você faz isso?

— Vai saber… Só imagino, desejo e pronto, acontece.

Acontece? Hum… Bem… Não posso discutir, afinal comigo foi parecido…

Eu pensei: ‘Como queria que esta porta desaparecesse.’, pronto, ela sumiu.

E também: ‘Como queria luz, nem que fosse duma tocha’, bastou, ela apareceu.

— Mas… É como se tivesse que ‘pagar’ por isso. Antes da explosão acontecer, meu corpo parece absorver bastante ar, só depois tudo no que me foco desaparece. Além disso eu fico muito cansada.

Então pelo menos algo semelhante a uma das leis da física permanece neste efeito sobrenatural: “Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma.”

Porém parando para pensar, ainda não tinha feito uma pergunta em especial que me atormentava.

— Faz quanto tempo desde que isso aconteceu?

— Não sei, eu acordei têm três dias, mas deve ter passado mais tempo…

Compreendi, ela estava nas mesmas circunstâncias, entretanto eu poderia afirmar que já se passaram muito mais de três dias, desde de que perdi a consciência.

— Certo… Obrigado. Você respondeu algumas das perguntas que mais me preocupavam… Até mais, alias, até depois da morte, se tiver e formos para o mesmo lugar.

Não sei por que, mas naquele momento lembrei duma citação de Xhevat Hasani: «O movimento é, para mim, além da alimentação, ar e amor uma necessidade vital — sem movimento não há vida!»

Certo, concordo com tudo, exceto com amor. Amor pode ser um privilégio ou uma necessidade para outrem, mas para mim nunca foi vital, apesar de poder estar me enganando novamente, já que em algum lugar ainda me restava um pouco deste sentimento inútil.

Naquela ocasião, após encontrar as duas primeiras coisas que estava procurando — outra pessoa e de ajuda não precisava mais — só me restou o curativo, uma vez que por causa daquela mulher primitiva, meu sangramento havia aumentado — o fato de não poder perder mais de quinze por cento do meu sangue pela ferida, que seria mais bem denominada como: cortocontusa; tranquilizava-me, pois, não haviam riscos dum choque hipovolêmico.

Sobretudo, eu decidi, posto a citação, cuja qual aceitava como verdadeira — não me importava se de alguma forma, mesmo remota, isto não passasse de uma falácia — daquele instante em diante iria priorizar, respectivamente: alimentos (o que inclui a água), movimento e mais informações.

Estava prestes a dar o último passo para fora daquele quarto sufocante e para longe daquela garota irritante.

— Ei! Você vai para onde? Vai me deixar aqui sozinha? Vai deixar uma garota indefesa e frágil que não pode andar morrer?! Você não tem coração?

Encheção… Encheção… Encheção… Eu encontrei um saco de garota, inacreditavelmente maçante.

Ajudar ou levá-la comigo era o mesmo que reduzir drasticamente minhas chaces de sobrevivência, creio que a pessoa que disse: ‘pessoas doentes não tem mais espaço neste mundo’; estava completamente certa, porém seu julgamento era apenas um fragmento, na verdade, no mundo não havia mais mais espaços para os fracos, os idosos e o doentes.

É a lei da natureza, cujo os humanos tentam não enxergar, mas está presente em todo lugar, desde as savanas aos centros comercias, mesmo que desfigurada ou mascarada ela está lá, todos os seres vivos são os carrascos que as aplicam, mesmo inconscientes disto.

Porém, eu não poderia ir para onde desejava, se a abandonasse para morrer, não teria mais o direito de erguer a cabeça sem se lembrar do que havia feito. Droga! Pais são realmente influentes, não consigo me abster de seus ensinamentos, seus valores e princípios forçados em mim.

— O que você pretende? Ser levada como uma criança, sem direito de opinar sobre o destino ou caminhos que eu possa escolher?

— Não! Você irá me levar até a minha irmã!

Que garota arrogante, nunca vi ninguém pedir ajuda deste jeito, o que ela pensa? Que ajudá-la não é uma escolha, no entanto uma obrigação.

— Quanto egoísmo, você acha que eu irei fazer isto por você? Ou melhor, nós nem sabemos o que aconteceu, para onde foram todos e se ainda estão vivos.

— Então, para onde você vai? Eu não quero acreditar que essa é a verdade!

Como se eu também quisesse acreditar, se fosse assim eu não teria pensado que tudo não passava de uma ilusão.

— Eu vou ver meus pais…

— O que eles têm de diferente da minha irmã?!

— Eles estão num lugar seguro.

— Minha irmã também! Ela está em um lugar seguro e nada do que você diga irá mudar, porque eu não preciso de você, de nada e de ninguém! Não preciso que você tenha pena de mim, me olhe com piedade ou fique falando asneiras!

Que coisa mais idiota para ser dita por uma pessoa que não pode nem sair da cama, não precisa de mim? Não foi isso que me pareceu a um instante atrás.

— …

— Por que está sorrindo?! Eu disse algo engraçado?!

— Não estou sorrindo!

Será que eu sorri? Impossível, faziam anos desde a última vez que sorri! Ela estava apenas vendo coisas, talvez ambos estávamos vendo coisas.

Ou será… Foi o que ela disse? Humpf! Essa garota é mesmo um saco, inacreditavelmente problemática.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.