Dust Devil
2 Olho do ciclone
Notas iniciais
Nunca pude contar com meus pais ou qualquer um da minha família, não esperava por ajuda ou simpatia de ninguém, muito menos pena, mas de todos só desejava que não me causassem problemas.
Não era nada demais, apenas me ignorar já bastava, algo muito simples, porém que ninguém entendia ou fazia.
Um pedido fácil de ser realizado, mas parecia ser recusado por todos.
Em vez de me ignorar, uns sufocavam-me com seus olhares de misericórdia, como se fosse o ser mais patético e digno de piedade, outros me viam como seu saco de pancadas, algo que foi feito apenas para sofrer.
Por isso eu os odiei e desprezei no abismo mais profundo da minha alma, então o ódio se transformou em chamas, foram catalisadas pelo desejo de vingança e por fim incineraram minhas mágoas.
Com o tempo todos os meus sentimentos foram destilados e evaporaram, naqueles dias perdi o que chamam de coração, que se tornou o combustível daquelas chamas negras.
Da pira construída por meu espírito, só restou as cinzas, os restos que nem mesmo as labaredas mais sombrias podem extinguir, delas eu renasci, pronto para suportar as mais difíceis das situações.
Era isto que eu pensava, porém era um pensamento frívolo e poético, para esconder e fugir dos meus verdadeiros sentimentos, para suportar a dor que sempre senti.
Aquele parecia ser um dia normal, começou e continuava assim, mas a roda do destino é volúvel e ninguém sabe qual é o próximo evento deste sistema caótico.
Eu estava na escola, mas não tinha esperanças de que algo de bom ou similar a uma comédia romântica fosse acontecer.
Eu não tinha conhecidos, amigos, muito menos uma namorada ou interesse amoroso, além disso amor eu já não sentia mais, foi algo que abandonei e deixei para trás, há muito tempo.
Decerto, minha presença era tão marcante quanto o ar, o gás invisível e ignorado, contudo diferente dele eu não era necessário.
Estava sentado em uma das carteiras menos notáveis, no fundo da sala ao lado da janela, gastando meu tempo observando o horizonte.
Diferente de mim, meus colegas de classe estavam conversando sobre os assuntos mais banais, mas mesmo que aos meus olhos fossem assuntos tão tolos e infantis, eles pareciam estar se divertindo.
Assuntos como a morte de um precioso cachorrinho ou um gato preto que aparecia na janela sempre à meia-noite em ponto.
Temas realmente infantes e que não merecem atenção ou foco.
Para pessoas que não são hipócritas, a morte de um estranho é tão chocante quanto o pôr do sol, se não fosse assim não haveria lágrimas o suficiente, porque numa estimativa grotesca, cerca de cem pessoas morrem por minuto.
Por isso para mim que não se importa com a morte de um semelhante desconhecido, quanta dor a morte dum cachorrinho pode causar?
Além disso, a morte faz parte do ciclo da vida e gatos pretos são tão distintos dos outros gatos quanto não são pretos.
Enfim… O professor entrou na sala, interrompendo minhas reflexões e pensamentos inúteis.
Mais um período letivo, onde seria atormentado, usado para benefícios próprios e surrado como um saco de areia ou o rosto de um boxeador.
Não quero falar sobre estes momentos, digamos que quero preservar minha decência e dignidade como homem, além de não descrever com mais detalhes — isso fere meu orgulho.
Não que eu não pudesse ou não tivesse forças para revidar, mas isso não iria tomar um rumo muito satisfatório.
Sem dúvidas, em uma briga as chances de não levar um único murro são próximas a zero, os números, as circunstâncias e a quantidade de adversários eram gritantes e estavam contra mim.
Se de qualquer jeito eu iria apanhar, por que não da forma menos complicada e dolorosa? Acabaria mais rápido assim e não tenho nenhum motivo para criar uma reputação ou fachada, apesar disso ser vergonhoso.
Deixando de lado minhas humilhações…
As aulas estavam na metade, minhas forças e resistência no fim.
O sono, cansaço e os hematomas estavam me atormentando, além de trabalhar para sobreviver, fazer as tarefas domésticas e arrumar minhas coisas, ainda tinha de suportar ser tratado desta forma.
A vida é realmente dolorosa e impiedosa, talvez sejam os mecanismos descobertos por Darwin realizando seu papel em eliminar os seres mais fracos e menos adaptados.
Porém eu não tenho a intenção de ceder para eles, com certeza não serei um ser mal sucedido, se estou tendo problemas basta me adaptar e evoluir para resistir a pressão.
Enquanto estava totalmente imerso em minhas atividadeS, em estado de fluxo, fui forçado a interrompê-lo por um forte estrondo.
Minha concentração era tanta que sequer me lembrava de ter feito o que fiz.
O barulho se repetiu incontáveis vezes, impactos… Impactos… Impactos… Procurei a origem daquele som abafado e de madeira cedendo.
Até que a encontrei, mas já era tarde para considerar como eficiente minha constatação, já que a esta altura a porta praticamente havia sido destruída.
Todos voltaram seus olhos, apreensivos e aflitos, pensando sobre o que estaria do outro lado.
Enquanto eles se afundavam ainda mais em temor e aflição, eu acalmava e me recuperava do choque do susto inicial.
Ter medo é algo bom, mas reduz a capacidade de raciocínio para apenas duas ou três alternativas: fugir, enfrentar ou em extremos paralisar.
Eu não estava extinguindo meu medo, mas o controlando, afinal como disse é uma coisa boa, porém não quero que meu raciocínio seja dominado por ele.
Estava numa daquelas situações, onde somente quem participa a entende, um observador não poderia achar lógica em nossas ações, porque estávamos pensando em cavalos, não em zebras, ao passo que ouvíamos os sons de seus cascos.
Por fim a porta veio ao chão, junto com os gritos estridentes, típicos das garotas e dos rapazes covardes.
Um homem extremamente estranho revelou sua forma repulsiva.
Apesar de que isso possa dar a impressão de que a porta estava trancada, ela não estava.
Não era uma daquelas portas com dobradiças, mas de “correr”, por mais que ele tentasse empurrar, mesmo que estivesse destrancada não iria abrir.
Entretanto, não era necessário pô-la ao chão, qualquer um com um QI maior que o de um bebê tentaria abri-lá de outra maneira.
Deveras ele não era um bebê, mas suas ações eram mais estúpidas que a de um, posto isso o primeiro pensamento que tive é que ele possuía algum dano ou deficiência mental.
Duas características preocupantes foram predominantes ao observá-lo: Desprovido de inteligência e violento.
— O que você…?! —
O professor mal teve tempo de fazer sua pergunta e já foi atacado por aquela fera selvagem, cuja qual não poderia descrever como um ser humano comum.
Cada veia de seu corpo estava visível e saliente, pulsando junto com seus batimentos cardíacos, sua pele tinha uma aparência desumana, extremamente avermelhada e descascando, quase como se ele tivesse sido assado em um forno solar.
Não tinha uma fisionomia atlética, pelo contrário era esquelético, mas tinha uma força sem igual, era como se seus músculos estivessem sendo levados ao limite e sendo destruídos em prol de obter força.
Seus movimentos eram descuidados e desajeitados como os de uma criança pequena, mas eram dotados de extrema força.
Como os humanos são hipócritas, apenas assistindo a cena sem se intrometer, enganando-se que não fazem parte dela, divertindo-se ou meramente fugindo de medo.
De todo jeito, eu não era muito diferente.
Vendo outrem ser espancado em sua frente e não fazer nada, apenas negligenciando seus valores e princípios, isto é, no caso de terem.
Todavia eu sabia o que fazer, eu também iria ignorar aquela cena, aproveitar a oportunidade e ir para casa.
Mas eu não podia simplesmente sair e ignorar tudo por completo, minha consciência iria me incomodar, não conseguiria dormir direito, já que minha mãe e meu pai enraizaram alguns valores e princípios em mim que mesmo que queira não posso desconsiderar.
Peguei meus pertences e fui embora, mas antes disso, dirigi-me à sala ao lado.
Duas perguntas começaram a incomodar latentemente minha mente: Por que ninguém na sala ao lado saiu para saber sobre o barulho? Eles por acaso são uma sala especial de deficiente auditivos?
Porém não eram tão relevantes.
Bati na porta e mesmo sem ouvir resposta abri-a.
Isso é sério? Todos estavam…
...Bem, sentados normalmente e fazendo suas lições.
Eu cheguei a pensar que seria como em um filme de terror, onde todos estariam mortos e a sala ao lado repleta de corpos ensanguentados.
— Professora, desculpe-me por interromper sua aula, mas preciso que você chame a polícia. Tem um louco espancando o outro professor na sala ao lado… Hum!? Vocês são surdos?
— Hã?!
Hã?! Isso é tudo o que ela tem a dizer, numa situação destas? Mas não a condeno, o tom em que falei não combinava com o conteúdo, acho que fui muito frio.
Ao passo que caminhava em destino a minha casa, uns dez minutos depois, alguns carros de polícia estavam fazendo o caminho contrário.
Penso que seja muito tarde, uma vez que o professor já deve ter apanhado a ponto de não poder comer sem uma sonda.
Neste instante, algo veio a minha mente.
(Ah, acho que hoje havia uma visita surpresa para promover um novo parque de diversões…)
Isso mesmo eu me lembrei de ouvir a conversa de alguns professores avisando que teria algo assim.
Artistas da casa mal-assombrada de um parque, fariam uma visita na escola para promover sua inauguração.
Não tem sentido pensar mais sobre isto, somente quero voltar para casa e dormir.
Minha mente estava entorpecida pelo sono, quase como se estivesse embrigado, mesmo sem nunca ter provado o álcool.
Passei em uma loja de conveniêcias no caminho para comprar algumas besteiras industrializadas, são melhores quando se quer obter uma comida tão rápido quanto apressar a morte.
Se bem que não me interesso em ter uma vida longa, porquanto isto é o mesmo que ter um martírio prolongado.
Não sei o que fiz para merecer tanto aborrecimento, entretanto eles me perseguem mais insistentemente que minha sombra.
Enquanto escolhia os piores alimentos com o melhor sabor, os meus preferidos, uma explosão me assustou.
Um acidente de carro, o motorista deveria estar bêbado ou algo similar, pois a rua estava praticamente deserta, não havia carro algum.
Talvez, no momento houvesse um gato ou outro animal, mas por que bater num poste, não era mais fácil frear?
Ah! Este é um assunto que eu não poderia opinar, posto que nunca dirigi um automóvel.
Aquele dia estava sendo muito cansativo, quantas desgraças deveria testemunhar antes de dormir como uma pedra?
Deixei este assunto para o atendente e as autoridades lidarem, fui para casa e fingi que nada aconteceu.
Andando mais um pouco senti um clima pesado, acho que chamam isto de pressentimento ou algo parecido, contudo senti que aconteceria mais coisas ruins antes de dormir.
Já estava a uns cinquenta metros da minha casa e mais uma vez não resisti ao costume de observar o horizonte, especificamente o céu mais longe que poderia ver.
Era de uma cor curiosa, um degradê do rosa avermelhado ao amarelo, as nuvens completavam a visão quase como a de uma pintura a óleo.
Alguns segundos depois, pensei ter visto algo como uma estrela cadente, alias, um meteoro, mas… Não! Devo estar apenas vendo coisas, por estar com tanto sono.
Finalmente cheguei em casa, um apartamento simples, ou diria, uma caixa apertada.
A janela era tão grande quanto a mais pequena de um automóvel, não é bom ser tão depreciativo com as conquistas, mesmo que sejam tão pobres, mas é a verdade.
Logo após entrar e trancar a porta, comecei a me sentir estranho, minha cabeça doía como jamais doeu, era como se meu cérebro estivesse derretendo.
Meus pés e mãos começaram a gelar e tremer, minha visão a distorcer e escurecer, sem dúvidas eu estava perdendo a consciência.
Exceto por meus pés e mãos, meu corpo estava ardendo, cada centímetro estava queimando de dentro para fora, eu realmente acreditei que fosse a combustão espontânea que no passado desejei aos outros.
Esse seria meu fim, morreria sozinho, num apartamento decadente, sem ninguém para me ajudar ou chorar pela minha morte.
Um daqueles casos onde o corpo é descoberto em descomposição, é triste imaginar que alguém descobriria a minha morte, porque o fedor estava incomodando.
No final, estes seriam meus últimos pensamentos antes de morrer.
Porém ainda tive esperanças, antes de cair inconsciente no chão duro, esta não seria uma doença fatal, porque eu ainda queria vê-los uma última vez…
— Mãe, pai!…
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