Durante o Fim
30 Segundo Dia - Hermione
Notas iniciais
E lá iam eles novamente. O coração inquieto, o medo os sugando como uma esponja, o desejo que o pesadelo findasse. Lá iam eles novamente pelas estradas da Flórida, cegos pelo que as próximas horas poderiam trazer. Rony queria atravessar o estado e se reunir a sua família na casa de Gui. Hermione gostaria muito de poder contatar os próprios pais e se assegurar da segurança de Jane e John Granger. E os dois acabaram por tomar a decisão de se abrigarem em Jacksonville, ao norte, na base militar mais próxima, oferecendo proteção. Eles simplesmente não podiam fazer o que queriam e colocar seus filhos em risco. Não havia opções.
Hermione assumiu o volante para Rony poder descansar um pouco enquanto o sol continuava a pino. O esposo, entretanto, não conseguia cochilar. Ele suava um bocado e olhava nervosamente janela à fora, a todo instante. Era como se um tsunami estive perseguindo-os.
A morena trocou de marcha e aproveitou para pegar na mão dele, carinhosamente.
ー Já estamos bem longe de lá ー piscou e disse com suavidade para confortar à ambos.
ー É, estamos ー ele concordou embalando no mesmo otimismo superficial dela ー Quer que eu assuma a direção?
ー Não, quero que você durma um pouco.
ー Tá bem, vou tentar, sua mandona ー sorriu.
ー Eu? Nem um pouco ー ela brincou.
Rony apoiou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos. Hermione deu uma leve espiada pelo retrovisor e viu seus filhos, que haviam dormido pouco na noite anterior e acordado de madrugada, adormecidos pela monotonia profunda da viagem de carro.
Ela só queria preservar todos assim, em segurança, pensou, voltando a atenção para a pista.
Sua cabeça começou a cavar divagações aleatórias ao volante, e Rony lhe dizer que ela era mandona remeteu a outras lembranças do seu casamento:
ー Você por um acaso viu a fatura do cartão de crédito este mês? ー ela perguntou agudamente sem se dar ao trabalho de dar boa noite ao esposo que acabara de chegar, exausto, do seu trabalho detestável.
ー Olá pra você também ー ele retorquiu, reclinando da ideia de dar um beijo de boas vindas nela.
ー Eu disse que não deveríamos comprar aquela televisão. Isso foi imprudente e desnecessário! ー Hermione somou o orçamento várias vezes e em todas as suas probabilidades não seria mais possível pagar um aparelho odontológico para Rose naquele mês e nem no próximo, devido ao gasto luxuoso dele com uma porcaria de televisão de cinquenta polegadas.
ー Vou dar um jeito, tá legal… ー o ruivo suspirou indo para a geladeira.
Foram exatamente essas as palavras dele quando compraram a cafeteira, a viagem para Disney, a bicicleta cheia de parafernálias. A confiança dele de que tudo mudaria, que a qualquer momento a porcaria do emprego no porto que conseguiu, as únicas coisas que apareciam devido a sua preguiça de estudar, o levaria a uma promoção em qualquer droga de cargo lá dentro, vinha enervando a morena.
ー Eu não vou conseguir sustentar essa família com tantas despesas extras ー ela vociferou jogando a fatura do cartão longe.
Rony parou diante da geladeira, a caixa de suco de laranja nas mãos e disse:
ー Você tá jogando na minha cara, outra vez?
ー Estou! ー disse Hermione desafiadora.
ー Vou pagar essa droga de televisão sozinho, Hermione! Pego algum empréstimo com meu irmão, dobro no porto, concerto o telhado do vizinho. Qualquer merda, mas vou esfregar o pagamento dessa bosta na sua cara.
A mulher cruzou os braços e franziu o cenho, escarnecida. Lá vinha ele querer virar o jogo contra ela.
ー E nada disso estaria acontecendo se “um”: você tivesse me dito que iria comprar essa televisão. E “dois”: fosse menos acomodado e resolvesse estudar para ter uma profissão melhor.
Rony largou o suco no balcão, suas bochechas e orelhas pegando fogo:
ー Mil perdões se não sou o homem que você almejou. Se odeio ler, se não tenho “cultura” e decidi não cursar engenharia e ser o melhor da minha empresa ー ele desdenhou da carreira dela ー Mas sabe de uma coisa? Você sabia que eu era assim e quis do mesmo jeito. Por que está reclamando agora?
ー Por que eu não aguento mais abrir mão do essencial devido a suas extravagâncias. Você parece um moleque que nunca vai crescer. Não pensa nos gastos, não mede as consequências, não mostra voz ativa com Hugo e Rose, e me deixa sempre assumir o papel da carrasca, da mãe megera, da mulher controladora. Eu não suporto mais tocar esse barco sozinha.
ー Então não suporte, Hermione. Tome uma decisão brilhante como sempre fez e só lembre de me comunicar com alguma antecedência ー Rony debochou e saiu intempestivamente pela porta da rua.
Ela ainda o seguiu, pisando duro e gritou do hall:
ー E nem pense em pedir dinheiro para sua família... ! ー e completou mais baixo, para si ー Eu faço hora extra e pago essas porcarias. Acaba assim mesmo.
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