Duplicidade
15 Redemoinho
Notas iniciais
— Cullen, precisamos no encontrar. – A voz grave de Riley Biers do outro lado da linha me deixa em alerta. – é urgente.
— Certo, hoje à noite. – Eu confiro meu relógio de pulso para confirmar quanto tempo ainda tenho. São 16h14. – 20h, no meu apartamento.
— Estarei lá! – Ele confirma e desliga em seguida.
Eu solto o ar que estava prendendo e largo o meu IPhone sobre a mesa. O aparelho cai com um baque surdo sobre o dossiê a minha frente ainda lacrado. Caso Lincoln.
O casal Lincoln me procurou a cerca de um mês atrás para falar de sua história. Eles tiveram uma filha sequestrada aos 16 anos e já faziam quase 10 anos que não tinham qualquer tipo de informação sobre o crime. A polícia nunca conseguiu encontrar pistas para ter sequer um suspeito. É como se a garota houvesse simplesmente sumido do mapa.
Porém eles sempre tiveram a suspeita de que o namorado da menina na época estivesse envolvido. Ninguém deu muita importância pois o garoto era filho de uma família muito rica e tinha um álibi sólido. A questão é que depois de quase 10 anos, os pais de Madison Lincoln querem uma resposta concreta sobre o que aconteceu a sua filha ou então entrarão com um processo contra o estado de Illinois.
Porém este caso está se tornando cada dia mais uma surpresa e um inferno pessoal.
Eu rompo o lacre e abro a primeira página do dossiê, uma foto toma toda a primeira capa e me embrulha o estômago. A mesma foto que Biers já havia me mostrado a cerca de 5 dias atrás. Uma tecnologia avançada ‘envelheceu’ uma foto da filha dos Lincolns, Madison, para que nos desse uma ideia de como seria seu rosto atualmente. Olhar para aquele rosto agora foi tão ruim quanto olhar da primeira vez, mesmo depois de solicitar que o processo fosse feito com uma outra foto para ver se haveria o mesmo resultado. E teve.
Eu estava olhando para o rosto da mulher que eu amo.
Lembro que no domingo mesmo eu mandei que Riley fizesse uma investigação sobre os Winter e os Swan. Ele disse que já havia coisas sobre os Winter no dossiê dos Lincoln, visto que ele era o namorado da Madison Lincoln, e que ele iria em busca de mais. Viro a página com total rapidez, afastando o embrulho no meu estômago. Encaro a ficha completa que está na segunda folha.
Madison Elle Lincoln, 16 anos (atualmente 26 anos), loira, olhos verdes, 1,64m. Desaparecida em 17 de agosto de 2011. Vista pela última vez saindo de uma festa neste mesmo dia, por volta das 21h, cerca de 3km de distância de sua residência. A mesma contou para uma amiga que estava indo para casa pois não estava se sentindo bem. Saiu sozinha do local segundo testemunhas e câmeras de segurança da casa em frente.
Eu suspiro. Viro a página para encontrar o Boletim de Ocorrência feito pelos pais no dia seguinte. Nas páginas que se seguiram, as folhas sobre a investigação que não deu em nada. Numa delas há o depoimento do suposto namorado. Meu sangue ferve.
James William Winter, 18 anos (atualmente 28 anos), loiro, olhos azuis, 1,87m. Em seu depoimento relata ter estado fora da cidade no dia em questão. Álibi confirmado: o garoto esteve todo o fim de semana na casa de campo da família em East Village, há 14km de distância de Chicago como confirmam os pais, o irmão mais novo e dois empregados do local.
Na última folha, há um relatório arquivando o caso sem nenhum acusado por falta de provas. Eu me afundo na cadeira. Como aquilo pode ser possível? Me levanto frustrado e me encaminho para a janela de meu gabinete. Afinal, porque me interessei por este caso?
Madison! O nome brilhou em minha cabeça. A garota desaparecida tinha o mesmo nome da minha primeira paixão. Senti uma conexão com aquilo que não consegui explicar. Agora eu estava diante de um redemoinho gigante. Isso porque a tal Madison Lincoln parece ser idêntica a Bella Swan. Parece não, é ela!
Bella! Meus olhos fecham ao lembrar dela.
Seu sorriso suave, hora inocente, hora safado. Uma verdadeira pimentinha. Faz um pouco mais de um mês que ela entrou na minha vida, mas parece que nos pertencemos desde sempre. Jasper estava certo. A nossa conexão é forte e poderosa, nós temos aquilo.
Eu a amo!
Ainda não pude conversar francamente com Bella, mas preciso ser honesto com ela. Em nossos jogos, nunca há tempo para isso. Nós jogamos todo fim de semana, como um vício. Eu preciso dela, ela precisa de mim. Seja somente nós dois, seja com outros, mas estamos sempre juntos. E amanhã não será diferente. Nós marcamos um jogo muito especial para amanhã. Jogaremos com Emmett e Rose e passaremos a noite juntos novamente.
De amanhã não passará, eu concluo. Preciso falar com Bella sobre o que sinto por ela. E também sobre Madison Lincoln.
Desde que vi a foto envelhecida de Madison pela primeira vez eu passei a observar Bella com mais nitidez. Percebi que há uma estranha conexão entre as histórias dela e da filha dos Lincoln. Fora, é claro, o fato de que Madison seria igual a Bella nos dias de hoje.
Madison e Bella são a mesma pessoa de fato? A pergunta ecoava no meu cérebro. Era surreal e cruel demais!
Eu sou um juiz do Supremo Tribunal. Sei até que nível pode ir a maldade humana. Mas isso... é maldade demais!
Conversei com Nessie sobre a família de Alec. Não podia perguntar nada diretamente sobre Bella, Nessie desconfiaria. Então comecei pela família ne seu noivo para que ela mesma direcionasse a conversa até Bella. Estudei diplomacia, afinal.
Nessie me contou informações valiosas. Bella é filha de Charlie e Renée Swan, que foram motorista e governanta dos Winter por muitos anos, até que enriqueceram o suficiente para não precisarem mais trabalhar. Segundo Ness, Charlie ganhou uma alta quantia numa aposta e investiu numa empresa que lhe rendeu ainda mais dinheiro, com isso, em um ano ele já não trabalhava mais para os Winter, comprando inclusive a casa ao lado da família. Aquilo me deixou zonzo. Uma aposta?
Perguntei sobre Bella e Ness abriu o jogo:
“Aquele casamento não é um casamento, Edward. James não é um bom marido. Não sei o que há com Bella para permanecer naquilo, mas sei que ela não é feliz. Ele agora insiste em ter um filho com ela e está enlouquecendo ela com isso. Mas, de uns tempos para cá, ela mudou sua rotina, tem saído mais e tem estado bem melhor desde então. Nos tornamos amigas sabe, ela é incrível. Me preocupo com ela, ela tem umas dores de cabeça muito fortes às vezes, me assusta um pouco. Ela diz que sente isso desde que sofreu um acidente na adolescência, com 16 anos.”
E foi isso que me deu um nó ainda maior na minha cabeça. Alec Winter, noivo de minha irmã, sabe a verdade?
Eu sei que Bella continua casada com James pelo mesmo motivo que os Swan enriqueceram tão rápido, que não tem nada a ver com essa história de aposta. James realmente estava longe quando Madison sumiu? Madison e Bella são a mesma pessoa? O que aconteceu naquele fim de verão? Será que Alec compactua com essa história? Ele não me pareceu ter este tipo de índole, muito pelo contrário. Mas sei que as pessoas mentem, são falsas. E se for o caso, jamais deixarei que minha irmã case com ele.
Minha cabeça lateja com tantas informações. Preciso de um uísque, concluo. Sabendo que não renderia mais nada no trabalho, enfio o dossiê na minha pasta, visto meu blazer e rumo para casa. Nem mesmo a vista do lago Michigan me acalma. Estou uma pilha. Preciso entender tudo isso.
É vital que eu entenda tudo isso, por Nessie, por Bella e por mim!
Tomo um banho para relaxar e bebo umas 3 doses de uísque puro. Mais relaxado, mas não menos ansioso, eu fico aguardando Biers chegar encarando a foto envelhecida de Madison. Que poderia ser uma foto atual de Bella tranquilamente. A campainha soa alto.
— Cullen!
— Biers. Entre, por favor! – Eu digo indicando a sala.
— Vejo que já conferiu todo dossiê. – Ele diz e coloca outro dossiê ao lado do que estava lendo na mesa de centro.
— Sim.
— Pois bem. Eu investiguei a família Winter, como me pediu. – Ele fala apontando para a pasta que depositou na mesa. – Eles são muito escorregadios, as pessoas que eles contratam são realmente boas no que fazem, quase não achei uma brecha. – Ele assente quando lhe ofereço um copo com uísque – Mas ninguém é 100% perfeito. – Ele finaliza com um sorrisinho deixando-o ainda mais jovem do que ele é. Biers é um jovem investigador profissional. Habilidoso, sagaz e discreto.
Eu sorrio satisfeito.
Eu alcanço o dossiê com minhas mãos e sinto uma espécie de onda de nervosismo. Na primeira folha há uma foto de uma família de 4 pessoas, pai, mãe e dois meninos muito parecidos. Levo uma meia hora para ler tudo e ouvir algumas explicações de Riley. Os Winters eram podres. Faziam todo tipo de negócio ilícito que você pode imaginar. Todo o império era construído numa rede de mentiras tão grande que se uma só viesse à tona tudo ruiria em segundos.
No final do dossiê há uma pasta mais fina. Swan, está escrito na capa. Engulo seco antes de abrir.
— Esteja preparado para o que você vai ver aí, Cullen. – Ele diz quando eu abro na primeira folha. Uma foto. Pai, mãe e filha. Charlie, Renée e uma garota de pele clara e cabelos escuros, gordinha e que nunca poderia ser Bella. Não com aqueles olhos castanhos escuros colo um chocolate derretido. Eu arfo e encaro Biers.
— Quem é ela? – Pergunto já sabendo a resposta.
— Está é a verdadeira Isabella Marie Swan. – Ele diz – Esta foto foi retirada em 2010, quando ela tinha 15 anos. – Ele hesita e eu o encaro numa pergunta muda que ele responde prontamente – Um ano antes de morrer.
Porra!
— Não! – Eu digo, me levantando num rompante – Eu conheço Isabella Swan, conversei com ela. Ela está viva! – Eu digo alucinado. Muito viva, eu completo na minha cabeça. Ele me encara, se inclina para o dossiê sobre a mesa e abre na primeira página. A foto envelhecida de Madison Lincoln. A foto de Bella.
— Esta Isabella Swan? – Ele aponta para a foto, mas me encara. Sinto meus músculos formigarem e minha língua se tornar seca em minha boca. Largo o dossiê dos Winter e a pasta dos Swan na mesa com um baque e começo a andar pela sala. – Esta foi a Isabella que eles colocaram no lugar da original.
— Não... isso é... – Passo a mão pelos meus cabelos. Sei que pareço um louco, mas não me controlo
— Eu sei, Cullen. É insano, mas é real. – Solto um gemido sofrido e ela me encara – Você está bem?
— Não. – Eu o encaro de volta – Eu conheço esta Isabella Swan. Intimamente.— Digo firme e incisivo.
— Puta que pariu, Cullen. – Ele exclama e sorve um gole de seu copo.
— Mas tem algo que não bate nesta história! – Eu digo nervoso – Alec Winter. Ele não achou a nova Isabella estranha? Ele me disse que eles eram amigos, como não ver essas diferenças cruciais entre as duas garotas?
— Olhe o dossiê novamente, Cullen. – Eu me sento e pego a pasta novamente. – O garoto que confirmou que James estava em East Village não era Alec Winter. Eles nem tiveram o trabalho de tapar este buraco. – Riley ri irônico — O garoto estava num acampamento de férias e foi de lá diretamente para o internato militar que estudava. Ele só conheceu a nova Isabella no verão seguinte.
— Existe provas disso? – Eu pergunto ainda lendo a folha.
— Sim, várias. – Ele responde – Na verdade, Cullen – Ele muda o tom e eu ergo meu olhar para encará-lo – Ninguém estava em East Village no sábado. Não há provas disso. As imagens de câmeras da região só registram coisas do dia 18 de agosto, o domingo. Para o sábado, eles só contam com os depoimentos e pura dedução da polícia. Que eu acredito ter recebido uma boa quantia para “deduzir” isso.
— O depoimento do irmão foi falsificado, os dos pais tendencioso e o dos empregados... – Eu enumero e um click se dá em minha mente. – Comprado! Foram os Swans!
— Sim. – Biers diz empolgado.
Porém dentro de mim outras peças se encaixam. Eles pediram dinheiro e o casamento da filha em troca de cobertura do desaparecimento da garota Lincoln. Ou há algo mais...
— Você disse que a garota Swan morreu...
— Sim, disse.
— Como pode afirmar isso? – Eu pergunto sério
— Na pasta há uma cópia do laudo da autópsia da garota. – Biers aponta – e depois de muito procurar achei o registro de um túmulo com este nome em East Village. Passei dois dias lá esta semana. Mas as documentações usadas no funeral foram adulteradas.
— Céus...
— Em East Village, também achei um registro médico no nome de Isabella dando entrada no hospital da cidade no início da madrugada do dia 18. No registro está como acidente de carro. Porém os exames de sangue não batem.
— Como assim?
— A filha dos Swan era B+, como o pai, Charlie. Renée é O+. A garota que foi registrada neste dia do suposto acidente era AB-. – Biers dá um sorrisinho – Sangue, ás vezes, é que nem impressão digital.
— E ainda prova que essa garota não era filha deles. Para alguém ser AB os pais precisam ser necessariamente um do tipo A e outro do tipo B.
— Exato. – Biers diz dando um gole no uísque – A garota que eles levaram ao hospital é a Madison. Ela é AB-, está na ficha. Só precisamos agora entender como as coisas aconteceram.
— Como a garota Swan morreu, como colocaram a Madison no lugar e porquê fizeram tudo isso? – Eu digo jogando a pasta em minha mão sobre a mesa e me jogando no sofá.
— Você realmente a conhece?
— Sim – Eu digo passando a mão pela cabeça – Está Isabella está casada com James. A questão é que segundo ela, ela perdeu a memória num acidente de carro aos 16 anos e não se lembra de absolutamente nada de sua vida antes disso. – Ele me olha atento – Digamos que estamos nos envolvendo romanticamente. – Ele assente – Estivemos conversando. Ela disse que a mãe surtou quando ela falou em se divorciar de James.
— Surtou? – Biers devolve interessado.
Conto a história que Bella me contou resumidamente para ele.
— Caralho! É por isso que ela nunca voltou para casa, Cullen. Ela perdeu a memória e foi sequestrada. Usada para substituir a filha dos Swan.
— Céus! Como eu vou contar isso para ela? – Passo a mão pelos meus cabelos.
Ficamos um tempo em silêncio. Depois Biers me conta quais serão seus próximos passos em buscas de provas, inclusive, viajando por uns dias para East Village novamente.
— Lá eu encontrarei mais respostas Cullen, te manterei informado. – Ela diz e se despede, me deixando no limbo das descobertas mais surreais da minha vida.
Bella é Madison Lincoln!
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