Os dedos das minhas mãos estão começando a endurecer, por causa deste frio congelante. Está cada vez mais difícil segurar minha espada. E isso não é o mais grave. Essa maldita neve, que não para de cair, está transformando o campo de batalha em um lamaçal. Esse barro misturado ao lago de sangue em que estou pisando está fazendo minha armadura pesar uma tonelada.

Não posso pensar nisso agora, tenho que me concentrar na batalha. Lá vem uma nova legião de soldados querendo matar a mim e meus bravos compatriotas. Apesar do cansaço, sinto que tenho forças para matar mais mil homens, quanto aos outros, não sei quanto tempo mais resistirão.

O primeiro inimigo que vem correndo na minha direção está com sua espada pronta para me cortar ao meio, porém detenho seu golpe com meu escudo ao mesmo tempo que corto uma de suas pernas, decepando-a. Ele cai em agonia, mas sua dor logo termina ao sentir minha lâmina entrando em sua armadura como se fosse manteiga, acertando-lhe a carne e perfurando seu coração.

Que delícia é a morte! É um prazer imenso ver esses bastardos turcos morrerem sob minha espada. Acredito que meu elmo deva estar cheio de sangue, pois posso sentir o sabor do líquido rubro de todos que já matei em meus lábios. É tão saboroso que aumenta minha sede por mais mortes consideravelmente.

Outros três guerreiros me cercam e já não tenho muito tempo de pensar. Depois de tantas batalhas, faço tudo por instinto. Decepo os dois braços de um, em seguida, faço um giro de cento e oitenta graus decapitando o outro, ao mesmo tempo que protejo meu corpo contra um golpe do terceiro com meu escudo, depois enfio minha espada na base da barriga dele rasgando seu tronco de uma ponta a outra.

Nem me lembro do motivo dessa guerra. Não! Na verdade, me lembro sim. É em nome do Criador. Foi em nome Dele que reivindicamos a terra do nascimento de seu filho, no entanto perdemos feio. Agora, é em nome Dele que estou protegendo meu reino, além de todo o ocidente contra a invasão do Império Otomano.

Mas... espera... eu não sou esse guerreiro destemido. Sou uma garota! Subitamente, sinto meu corpo flutuar e já não estou dentro da batalha. A vejo de cima, o guerreiro que antes pensei ser eu, tira seu elmo, posso ver seus olhos e... Nossa! Estão vermelhos como sangue, além disso, está sorrindo como se realmente estivesse sentindo um prazer imenso.

Ele luta ferozmente contra vários inimigos, enfiando sua lâmina em suas entranhas. Vez por outra, deixando-a dentro de um ou outro, trocando-a por lanças em seu caminho, empalando suas vítimas. Nossa! Estou perplexa com essa batalha, por causa da trilha de morte e sangue que é deixada pelo guerreiro de olhos vermelhos ao longo do caminho por onde passa.

Eis que tudo desaparece em uma névoa escura. Quando ela se dissipa, noto que estou flutuando sobre um edifício em uma cidade grande, aparentemente. É noite, chuva cai torrencialmente me encharcando por completo. Apesar da escuridão, consigo distinguir uma figura que parece ser a minha mãe no topo da construção.

Começo a aproximar-me dela, graças a vários relâmpagos que rasgão o céu de ponta a ponta por várias vezes seguidas, tenho a certeza de que é minha velha. Ela está chorando sobre o corpo de um homem e... Nossa! O rosto dele se assemelha bastante com o guerreiro que lutava agora a pouco, ele parece que está morrendo. Ou será que já está morto?

— Sara?! – ouço minha mãe me chamar e bater na porta, no mesmo instante que o sonho se desfaz em uma névoa escura – Acorda! Senão, você vai chegar atrasada!

Abro os olhos, me deparo com a claridade do novo dia que está começando a entrar pela janela do quarto. Esfrego as mãos no rosto, dou aquela espreguiçada. Que droga! Ainda estou com sono! Esses malditos sonhos de guerras sempre me deixam cansada e sonolenta. Fora isso, ainda tem essa imagem da minha velha com esse guerreiro estranho gravada em minha mente.

Sento na cama, dou uma olhada geral no meu quarto. Diversos livros em uma prateira ao lado da cama e, abaixo, minha escrivaninha para estudar cheia de papeis, alguns cadernos e a minha mochila preta. Odeio ir para escola! Sou sempre excluída de tudo, sempre tenho que fazer sozinha os trabalhos escolares porque não me incluem em nenhum grupo. Vez ou outra, ouço piadinhas ao meu respeito, tudo por me acharem estranha. Pesando bem, sou bem estranha mesmo.

— Sara?! – minha velha bate na porta outra vez.

— Tá! Já acordei! – falo alto.

— Anda logo! Vai chegar atrasada no seu primeiro dia na escola nova?!

— Já sei! – reviro os olhos.

Me levanto e apesar de não gostar, encaro meu reflexo no espelho da porta do pequeno guarda-roupa branco. Tem razão das meninas não quererem fazer amizade comigo, senão fosse pelas minhas bochechas levemente rosadas, eu pareceria um fantasma com esse cabelo branco como leite e essas duas bolinhas de gude que são meus olhos verde-claro que, às vezes, parecem azuis.

Visto-me, rapidamente, colocando uma camiseta de uma das minhas bandas favoritas, o Korn, uma calça jeans preta e meu All Star da mesma cor da roupa. Arrumo minha mochila colocando dois cadernos universitários, um estojo simples, além da camiseta branca da escola.

Penteio meu cabelo deixando-o solto, como gosto. Olho novamente no espelho. Se meu cabelo fosse preto, iam dizer que sou EMO com essa franja grande cobrindo uma parte do meu rosto.

Queria poder mudar a cor do meu cabelo, mas minha velha não deixa. Diz que pintar o cabelo é coisa de mulher mais velha e não para criança. Mais que droga! Não sou mais criança! Em vinte dias completarei dezesseis anos!

— O café está pronto, filha! – a ouço gritar da cozinha.

Dou um longo suspiro ainda olhando para meu reflexo, depois vou para cozinha carregando minha mochila, meu celular preto e meu headfone da mesma cor que o aparelho. Dou uma olhada na minha mãe que está de costas para mim, lavando alguma coisa na pia.

Ela é tão bonita com esse cabelo preto, cacheado e longo, parece o céu noturno de tão escuro que é. E o corpo... ainda não sei porque ela continua sozinha depois de eu ter nascido. Poderia ter o homem que quisesse, contudo acredito que tenha acontecido alguma coisa entre ela e meu pai.

Minha velha não gosta de falar no assunto, apenas disse que ele morreu um pouco antes do meu nascimento e toda vez que quero saber mais fica nervosa, desconversa, fala sobre qualquer outra coisa.

— Ei! Por que está parada aí me olhando?! Já disse que vai se atrasar! – ela me olha com seus grandes olhos negros e um sorriso lindo nos lábios rubros como sangue. Sua pele é tão alva como o leite. Eu poderia dizer que ela é a branca de neve dos contos de fada e apesar de ter quarenta anos nem parece.

— Não quero ir na escola. – me sento na cadeira mais próxima, colocando a mochila no chão, o celular e o headfone coloco sobre a mesa, depois pego um dos copos que já estava ali – Sabe que as garotas não gostam de fazer amizade comigo.

— Quem sabe nessa nova escola você consegue fazer amigos. – ela coloca a garrafa de café sobre a mesa que está completa com pães, geleia e leite.

Nossa vida não é de luxo, minha mãe trabalha à noite como bartender. Nós nunca tivemos uma casa para chamar, realmente, de nossa porque estamos sempre nos mudando, já moramos em tantas cidades que até perdi a conta. Neste momento, estamos morando em São Paulo.

Minha velha disse que já moramos aqui quando eu era bebê. Nosso apartamento alugado é simples, com dois quartos, um banheiro minúsculo, uma pequena sala e uma cozinha americana. Não temos muitos móveis, somente o necessário.

— Tive aquele pesadelo de novo. – coloco o café no copo.

— Qual deles? Você sempre tem pesadelos. – ela se senta de frente para mim.

— Aquele que você aparece chorando abraçada a um homem que nunca vi. Ele parece que está morto ou morrendo.

— Hum... é só um sonho, filha. – desvia seu olhar para a janela.

— Mas, ultimamente, está ficando cada vez mais nítido, tanto que ele se parece com um dos guerreiros que sempre aparece nos meus sonhos. – bebo metade do café antes de continuar – Também estou tendo esse sonho com mais frequência.

— Não se preocupe, é apenas um sonho. Agora, come logo para não se atrasar. – ela pega um pão e começa a passar geleia nele.

Tomo o restante do café puro, logo depois sigo para o banheiro para terminar de me arrumar. Volto para a sala, coloco a mochila nas costas e pego meu skate com desenho de caveira mexicana que sempre deixo atrás da porta de entrada.

— Ei! Você não vai comer nada? – pergunta ela com uma cara de poucos amigos.

— Não estou com fome. – respondo colocando o headfone.

— Sabe que não gosto que você saia de casa sem comer alguma coisa!

— Tá! Realmente estou sem fome. De qualquer maneira, estou levando dinheiro para o caso de ter vontade de comer algo.

— Ok! Não fique até tarde na rua! Sabe que estamos numa cidade muito perigosa.

— Sei disso, Maria. – reviro os olhos, dou um longo suspiro pegando meu celular – Você sabe que quando saio da escola sempre venho direto para casa.

— Maria? Já te disse para não me chamar assim! De qualquer forma, quem sabe se você fizer algum amigo, queira ficar até mais tarde na rua, por isso não chegue aqui depois que eu sair para o trabalho.

— Tá, mãe! – reviro os olhos novamente.

Essa é Dona Maria Ribeiro, minha mãe. Sempre otimista. Sempre preocupada. Sempre linda. Nunca tivemos grandes discussões porque ela é muito amorosa e preocupada com meu bem-estar. Na verdade, constantemente fica preocupada por eu não ter amigos, mas ela entende, já que nos mudamos com grande frequência. Nunca entendi o motivo disso e todas as vezes, antes de nos mudarmos, fala que o lugar onde estamos não serve mais para ter uma vida tranquila.