Dumb
1 Dumb — capítulo único
Doía. Perder um sentido doía, fora isso que Shouko decidira. Doía. Seus tímpanos doíam como nunca antes e ela mal conseguia dar atenção ao som passado pelos aparelhos acoplados a suas orelhas. Doía. Sentir algo que a colocava brevemente no mundo, ser tirado de si.
Shouko não ouvia, muito menos escutava.
Desde que se entendia por gente, Shouko não conseguia distinguir sons e a seus olhos, o mundo também era assim. Sem som. As pessoas de sua família poderiam abrir suas bocas, fazerem expressões engraçadas com seus rostos mas ela esperava que não houvesse algo que os separasse, que não fosse ela quem os distanciava.
Mas Shouko não ouvia.
Ela era diferente.
Era ela quem limitava a convivência daqueles que a rodeavam.
Os aparelhos auditivos, os pequenos objetos vermelhos traziam apenas ruído, não eram capazes de fazê-la escutar mas ao menos a colocavam em terra, em órbita, ao lado de sua mãe, irmã e avó. A faziam pertencer a realidade, não estar sozinha naquele lugar onde ela via o peito dos pássaros empoleirados em uma árvore se comprimir e expandir, enquanto seus bicos se abriam em esforço, mas ela pouco entendia o motivo.
Ela já nascera com a audição prejudicada, ter ou não um aparelho que aumentasse sua capacidade auditiva significava pouco.
Por isso Shouko alimentava as carpas no rio abaixo da ponte.
Peixes não emitiam som algum debaixo d'água.
Os sinais a ajudavam a compreender, pertencer, enquanto os ruídos emitidos pelos aparelhos em seus ouvidos a colocavam na realidade.
E estava tudo bem, Shouko conseguia se sentir confortável com aquilo.
Mas doía muito perder seu senso de realidade aos poucos, ver o cenário perder sentido e cor ao seu redor, logo quando sua cognição se acostumara ao ruído.
Shouko odiava esse estado.
Os sinais ajudavam, faziam com que ela se comunicasse com as pessoas mas infelizmente, somente com aquelas que também os soubessem.
Em momento algum Shouko se imaginou querendo usar sua voz — ela nem sequer sabia que também poderia reproduzir o ruído que escutava ou ao menos tentar algo, já que ela tinha uma pequena inabilidade em acertar a entonação que as palavras pediam.
Então estava tudo bem em Shouya ter entendido — confundido — sua declaração de amor.
Ao menos sua irmã conseguia entendê-la, do jeito dela, claro.
Yuzuro dissera que ele entendera algo muito longe do que ela pensava ter dito, por mais que ela tivesse certeza de ter pronunciado a palavra corretamente. Era só uma palavra, tá mais de uma, mas ela sabia que tinha dito certo — ela tinha que ter dito certo — como poderia ser tão difícil se expressar por meio da voz? Porquê ela realmente queria tentar isso?
"Não se martirize tanto mana. O Shouya é um idiota, ele não ia entender de primeira" — fora o que Yuzuru lhe dissera.
Como resposta, Shouko tentara soltar algumas palavras de ressentimento, as quais sua irmã mais nova apenas balançou a cabeça.
"Você tem que se esforçar se quer conquistá-lo! Assim como ele fez com você, ou acha que ele entendia tudo o que dizia no fundamental?"
Era por causa de Shouya que ela queria se esforçar tanto.
Afinal, ele se esforçara por ela, para se redimir por tudo o que fizera a ela.
Mas talvez usar sua voz em desuso não fosse a melhor resposta, ao menos não naquele momento, ela ainda carecia de prática. E para alguém que pouco ouvia, falar era como descobrir um outro sentido.
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