Dueto - Olhares
4 Stalkers
Notas iniciais
— Olivia -
A bruxa acordou em um sobressalto algumas horas mais tarde. Olhou para a janela à sua esquerda, apenas para confirmar sua suspeita de ainda ser noite e ouviu, de repente, o causador de sua confusão. Alguém batia à porta. Apressou-se então em levantar e rumou para a entrada, passando por trás do sofá e pegando o roupão que deixara ali, a fim de cobrir suas vestes de dormir, afinal, não sabia quem poderia ser.
Abriu a porta e, para sua completa surpresa, se deparou com Neville que logo abriu um sorriso para ela.
— Ora seu inconveniente, é bom que tenha um ótimo motivo para me tirar do meu melhor sono da semana.- Disse Olivia, antes que o bruxo pudesse dizer qualquer coisa e fingiu incômodo, mas logo se arrependeu, assim que viu o homem corar e olhar para ela, receoso.
— Você sabe que eu estou brincando, pirralho.- Ela disse sorrindo e o abraçou fraternalmente, para livrá-lo da tensão que o petrificara parado à porta. — Vamos, entre.
— Está bem, mas não sou mais tão pirralho assim, não é mesmo?- Respondeu ele, levantando o nariz para enfatizar sua diferença de altura. A jovem agora mal alcançava a altura de seu queixo.
Ela virou para o lado e deu espaço para que Neville entrasse. Antes de fechar a porta, olhou para o final do corredor à esquerda, de onde veio um ruído leve em direção às escadas, e pode ver as costas de alguém que acabara de sair do corredor. Não teria se importado, nem alimentado curiosidade alguma, se não soubesse exatamente de quem era a capa que enfunava como uma calda, atrás do homem que a usava.
— De quem é a patrulha esta noite? — Perguntou Olivia, já conhecendo a resposta, semicerrando os olhos.
— Acho que de Snape...- Respondeu Neville, depois de se sentar no sofá da sala e pensar por alguns instantes.
— Pensei mesmo que fosse.- Disse Olivia, tão absorta pensando no fato suspeito de que Snape não havia porque patrulhar este corredor, que nem percebeu o desconforto do amigo ao falar do homem.
Achava aquilo atípico, pois as patrulhas eram especialmente dedicadas aos corredores mais remotos e com baixa probabilidade de circulação do corpo docente; já havia esbarrado com o professor em algumas das próprias patrulhas, ele nunca passava por ali. Parece estranho que Olivia se concentrasse tanto nestes pensamentos, no entanto, isto entrava em uma de suas muitas funções, requisitadas por McGonagall: ficar de olho no ex-comensal.
Não as entenda a mal, não é como se Minerva ainda desconfiasse do professor de poções no mal sentido, mas preferia manter-se precavida, não era boba e suspeitou que existia algo errado quando ele recusou o cargo de DCAT ao mesmo tempo em que abrira mão da diretoria da escola. Obviamente, ele não contara à professora seus motivos e isso a intrigava.
Além do mais, ele havia voltado para a escola sem estar totalmente recuperado e a diretora sabia que, apesar de suas promessas, ele jamais avisaria se não estivesse se sentindo bem em qualquer momento. Por isso confiava em Olivia para esta tarefa, ela era discreta e o pocionista jamais suspeitaria de uma ex-aluna em seus rastros, pois admitir isso seria ferir seu orgulho. Entretanto, como vezes antes, a diretora se enganara.
— Severo -
Era tarde da noite, naquela sexta-feira de outono, novamente era seu turno de patrulha e, com a mesma emoção de sempre (nenhuma), se dirigiu aos corredores em busca de alunos insolentes, que cismavam em descumprir regras básicas. Contudo, o bruxo achava fascinante como as coisas pareciam iguais, mesmo depois de tudo que aconteceu.
Aquelas crianças, mesmo tão jovens, já conheciam a guerra e suas marcas. Tinha se sentido verdadeiramente orgulhoso ao ver que sua casa, em especial, lutara bravamente na batalha norteados por Slughorn, porém era tão injusto que seu desenvolvimento tenha sido afetado pela barbárie de um conflito que não era seu, alguns mais novos atrasaram anos de seus estudos, graças as consequência dos eventos.
Mesmo assim, não haviam desculpas que os salvassem de suas noites das detenções e advertências rígidas do professor. Até sua nova e recém descoberta empatia tinha limites. Ainda os considerava insolentes, arrogantes e presunçosos em demasia, e isso sim o irritava mais que tudo.
Vez ou outra pegava-se olhando enojado para um dos cabeças de vento, pensando profundamente porque havia se submetido a voltar para aquela condição. No fundo, o mestre de poções sabia que não tinha outro lugar para o qual ele gostaria de ir que o fizesse se sentir tão em casa quanto aquele castelo, mesmo com todos os traumas que ainda assolavam seus pesadelos.
Contemplando a monotonia do castelo a cada sala e andar, resolveu que, naquele momento, tomado pela insônia e longe de querer passar a noite corrigindo deveres, caminharia até a torre de astronomia. Fazia isto com frequência depois de seu retorno. Subia até a mais alta torre, olhava para a sacada e então para o céu e falava com Alvo, pedia perdão e se torturava todas as vezes, pensando no que poderia ter feito diferente para mudar tudo aquilo.
Enquanto Dumbledore caia da torre ele lembrava de ter sentido tudo de novo, aquela sensação no peito, de perda, de rompimento, era como estar quebrado. E de novo desejou que fosse ele quem tivesse morrido no lugar do outro. Mas fora piedoso, não? Oferecera misericórdia aos dias contados do homem. Fora uma morte honrosa e sem dor para o diretor que sempre o ajudou. Todavia, nada que dissesse a si mesmo jamais o faria se esquecer daquelas dores, estava tão cansado. Será que vivera apenas para lembrar de seus arrependimentos constantes? Seria esse o seu destino? Que bela piada, não?
Pensando mais uma vez nessas ironias do destino, cruzou o primeiro andar, em direção ao próximo lance de escadas, até que ouviu passos por ali e se espreitou nas sombras, achando que seria um imbecil errante, tentando aprontar alguma coisa antes do final de semana. Era apenas o Longbottom.
Estava se virando para ignorar os movimentos do ex-aluno, já que pouco o importava o que quer que ele estivesse fazendo ali, longe de seus aposentos, tarde da noite. Até que ouviu suas batidas insistentes em uma parede vazia ao lado da entrada da sala de História da Magia. Sua curiosidade o venceu e ele tornou a se esconder nas sombras, desta vez mais a frente, a fim de observar melhor o que se passava.
Os tijolos da parede se transfiguraram em uma porta, que logo se abriu, para revelar uma bruxa em trajes de dormir, que aparentava irritação por ter sido despertada. Era Olivia.
O professor Binns lecionara por tanto tempo sem utilizar os aposentos dedicados ao professor da matéria, que Snape nem sabia que o quarto ficava ali, certamente por desatenção, já que Minerva devia ter falado algo sobre na apresentação dos novos membros da equipe. Por algum motivo, ele pensou que ela havia escolhido a sala do quinto andar, já que como mestre das duas matérias, ela poderia escolher entre as duas opções. Mas é claro!
Sua mente, de repente, parecia ter se expandido por entre as paredes, com uma súbita conexão de memórias. Olivia havia estudado ali, ele sabia, mas só se dera conta neste momento de que ela era a Prewett, a última de sua família a carregar o nome. Como pode ser tão idiota? Ela fora de sua casa. Agora tudo era claro como água. Ela preferia o corredor isolado e escuro, provavelmente por se parecer com as masmorras.
Já havia visto os profundos olhos castanhos e o cabelo cuidadosamente liso. Tinha visto milhões de vezes ela prendê-lo durante as aulas de poções, tinha visto seus olhos milhões de vezes compenetrados em fazer os ingredientes em sua frente se misturarem, a fim de formarem algo que desse um bom resultado.
Fora muito bem em sua matéria e sempre trouxe pontos para sua casa. Entretanto, Snape só se recordava disso, ela estava tão diferente... e ele não se lembrava de nenhuma detenção, nenhuma reclamação ou advertência, na verdade não se lembrava nem de grandes feitos; nem no time de quadribol, nem em qualquer outra coisa, além da intromissão surpreendente no banquete da primeira noite. Na realidade, sabia muito pouco sobre ela, em todos os sentidos e isto era extremamente raro.
Quando se recobrou de seu lapso de lembrança, com uma curiosidade ainda maior, voltou sua atenção novamente para a porta, em tempo de capturar a visão do abraço que os jovens trocaram.
Aquilo foi estranho. Snape se sentiu deslocado, angustiado e incomodado, como se algum fantasma estivesse passando por ele. Imaginou, por milésimos de segundo, ser abraçado por ela, envolvido pela cintura como ela fazia agora com o novo professor, com a cabeça recostando em seu peito e sorrindo abertamente. Imaginou que se ele a envolvesse em um abraço assim, certamente não teria problema em cobri-la, já que era mais alto que Longbottom.
O assustou pensar em tais coisas, e como quem foge de uma cena indecente, de um local de crime, virou-se e precipitou-se em direção às escadas, esquecendo completamente de seu estado de anonimato. Havia sido notado e sabia disso, assim que demorou a ouvir a porta fechando no corredor. Mas por que se importava? Aliás, não se importava, era isso.
Vira uma cena indecente de Longbottom, em intimidades com a nova professora e, finalmente, tinha algum conteúdo pela qual poderia desprezá-la. Intrometida e antiprofissional, recebendo um homem em seus aposentos tão tarde da noite, fora de qualquer emergência. Isso, certamente devia ser o motivo de seu incômodo. Pela manhã, não se esqueceria de falar sobre o ocorrido a McGonagall, para mostrar que sua nova protegida não parecia ser assim tão promissora.
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