Dueto
1 Dia 01 - Caça as borboletas
Notas iniciais
“- Vamos apresentar um dueto no Festival de Verão e precisamos escolher dois de vocês. – Suzuka Takinami escorou as costas na parede e encarou curioso os integrantes da turma de koto.
— Eu voto no Chika e Satowa. – Hiro ergueu a mão animada. – Com certeza os dois são a melhor dupla, nossos melhores músicos.
— Também concordamos. – os três ex-deliquentes (será que existe isso?) falaram em uníssono.
— Eles são os melhores para isso. – Kurata sorriu sereno, por mais que quisesse tocar no festival, sabia que aquele era o momento de Chika evoluir e aprender um pouco mais com Satowa que tinha uma experiência absurda em koto.
— Votação encerrada, Chika Kudo e Hozuki Satowa vocês dois vão representar nossa escola. – o professor se afastou e rumou na direção da porta. – Arrumem as malas pois vocês dois vão viajar comigo amanhã.
Satowa Hozuki sentiu as pernas ficarem moles e as orelhas quentes, não que ela não quisesse participar do festival, mas seria muito melhor se todos pudessem ir.
— Já estou ansioso. – Chika parou na frente de Satowa e a fitou com o olhar baixo, ela era pequena perto dele. – E não ouse pegar mole comigo, não se limite por estar abaixo de você.
— Darei o meu melhor.”
— Então... – Satowa deixou o koto no chão e se sentou ao lado. – Três dias de treino e aprendizagem com o Chika... – ela apoiou a mão sobre o instrumento que ainda estava dentro do case. Toda vez que ela estava na presença dele uma estranha sensação de alegria e medo preenchia o peito. Era difícil admitir que em todo o clube a pessoa que ela tinha mais afinidade era Chika, apesar das diferenças entre os dois, ambos eram grandes amigos. – Meu deus. – ela ergueu as mãos e bateu de leve as bochechas.
Será que...
— Hozuki! – a porta de correr abriu em um estrondo, o coração dela parou na garganta. Chika já entrou com o koto nas mãos e colocou na frente do dela como se fosse a coisa mais normal do mundo invadir o quarto de alguém. – Vamos treinar, quero saber logo qual vai ser a música.
— Você quase me matou do coração! Poderia bater antes de entrar né. — ela tirou a proteção do koto e pegou uma pasta de couro que estava junto e entregou para Chika. – Essa é a partitura da melodia que vamos tocar.
O loiro abriu curioso e sorriu ao ver o nome da música. – O gelo e o fogo, feito para nós dois, não acha?
— Tan-tanto faz. – ela deu de ombros sentindo as bochechas pegarem fogo. -Acho que você pode ficar com primeira parte que é o fogo e eu pego o gelo.
Chika se levantou e sentou do lado dela. – Toca uma vez para ver como é a melodia. – os olhos caramelos estavam tão próximos, quase convidativos, Satowa odiava com todas as forças o que aquele olhar causava nela, ainda mais quando estava assim tão perto. – Toca, por favor.
— Está certo. — ela meneou a cabeça na direção do koto, ajustou a palhetas nos dedos e os posicionou sobre as cordas, assim começou ler a partitura que se transformava em música. As mãos se mexiam com precisão e velocidade, a força dos movimentos estava ocultada sobre os gestos suaves, era incrível de observar de pertinho, exatamente como estava Chika.
O som preencheu o quarto, a melodia era forte e quente, assim como o sol, com certeza ela estava na melodia do fogo. Ele sentia o peito retumbar, era como se o som dela invadisse cada pedaço de pele o queimando de dentro pra fora.
— Hozuki... – o baque foi mais forte quando ela iniciou a estrofe do gelo, era agudo, polido e solitário. Estranhamente aquele som combinava mais com ela, era como se o frio realmente fizesse parte dela. Chika não sabia muito sobre a expulsão de Satowa de sua família, apenas sabia que nas melodias da garota havia um enorme vazio que o abalava profundamente, a ponto das lágrimas se acumularem no canto dos olhos. – Pare...- ele a segurou pelo o punho a forçando parar. – Você irá quebrar assim.
Só depois de alguns segundos ela percebeu que estava totalmente compenetrada nas notas do gelo, muitas memórias se desdobravam em melodias sofridas. A respiração estava pesada e fluía por entre os lábios, era como se o próprio koto a ferisse de alguma forma. Um grito de ajuda na escuridão.
“Seu koto é uma arma.”
A obrigação de ser a melhor musicista em koto, horas e horas praticando sozinha, sem amigos, sem família, apenas aquela estatua de porcelana sussurrando palavras grosseiras em seus ouvidos, o sangue que fluía da ponta dos dedos, a exaustão que fazia o corpo fraquejar, tudo aquilo era ela, assombrada pela sombra de sua mãe.
— Hozuki!
Os olhos castanhos se encontram com os caramelos preenchidos por pequenas lágrimas. Ela se surpreendeu com as duas mãos dele em torno de seus pulsos, era como se ele fizesse força para puxá-la de um fundo poço. O toque das peles queimava, como se Chika realmente fosse o fogo e derretesse todo o gelo.
Por mais osso duro que fosse, Chika sabia que Satowa era a menina mais doce que conhecerá, sem falar que ela era dona de uma ingenuidade única. Tudo aquilo o atraia de uma forma esquisita, sem falar que ela era linda. Ele deslizou os dedos pelo braço dela até tocar os ombros, apenas queria protege-la de um mal que não tinha ideia do que era, apenas queria ela ali de volta com ele.
— Você está chorando? — a voz dela saiu tímida, quase um sussurro. Como assim os olhos dele estavam marejados?
— Han? Ah...- ele afastou as mãos dela e passou de forma rápida pelos olhos. – Ás vezes me emociono escutando seu koto. Mas...- Chika se colocou em pé num estalo. – Foi rude ter entrado aqui sem permissão, chegamos faz uns 15 minutos e já estou aqui pedindo para tocar.
— Esp...
— Eu vou colocar uma roupa mais confortável, está muito quente. – ele abriu a porta para sair, mas parou no marco. – Suzuka vai nos encontrar na recepção as 14 horas, daqui uns minutos. Até.
Hozuki esperou que ele saísse para se abraçar, as mãos foram na direção dos ombros, o corpo todo queimava onde Chika havia tocado. Ela sentia falta da mãe e do seu passado com o pai, porém toda aquela escuridão sempre era iluminada com ele por perto. Porque ele era tão rude e doce ao mesmo tempo?
“Eu...eu quero estar com ele.”
• • •
— Takanami está ocupado, então ele pediu para que viesse auxiliar vocês dois.
— Hã? Ele nos trouxe aqui e como está ocupado agora? Não tem nada para fazer nessa pensão.- Chika começou a ficar alterado, não tinha o porquê de uma senhora com seus setenta anos estar naquela sala os treinando, não fazia sentido, pois nenhum koto havia ali, exceto o deles.
— A senhora também toca koto? – Hozuki também achou tudo aquilo estranho, com certeza aquilo era obra apenas de seu professor.
— Nunca toquei koto. – ela falou com um enorme sorriso, salientando ainda mais as rugas sobre o rosto. – Mas isso não quer dizer que não posso treiná-los, não é mesmo?
Chika e Hozuki se entre olharam, não iam discutir com a senhora.
— Antes de ir para o koto, temos algumas tarefas. – a senhora cruzou as mãos por trás das costas, assumindo uma postura imponente. – Nossa pensão está quase falida, o nosso único forte é nossas águas termais e a caça as borboletas. – o olhar da idosa pousou sobre eles. – Em troca da hospedagem, Suzuka deixou vocês dois livres para que possam me ajudar, pois não tenho mais saúde para algumas coisas.
— Mas que bobagem! Temos pouco tempo para aprender...
— Chika Kudo! – ela quase berrou o nome dele, fazendo-o se recolher na posição que estava sentado. – Vocês dois apenas vão fazer o que estou falando, e a primeira missão de vocês é ir a caça das borboletas e me trazer uma especifica. Eu quero uma borboleta azul.- eles iam protestar, mas se calaram ao ver o sorriso doce da senhora.
• • •
— Está muito quente! – Hozuki caminhava a passos lentos segurando sua rede e uma maletinha de acrílico. Com sorte, havia levado para a viagem chapéu e protetor solar, não estava passando tanto trabalho como Chika.
— Que inferno!! Deve estar uns 40 graus agora. – uma das mãos cobria o sol que invadia os olhos e a outra segurava os acessórios. — Não faz sentindo nenhum perdermos tempo com borboletas. Eu caçava borboletas quando tinha sete anos e não agora.
— Você reclama demais. – ela deu de ombros e continuou a subir o terreno íngreme. – Se não vamos tocar koto, pelo menos vamos nos diver...
—Espera! – ele a puxou pelo ombro para que olhasse para trás. – Você nunca caçou borboletas antes?
Porque ele gostava de ficar tão perto? O rosto de Satowa rapidamente ficou quente e vermelho. – Você é muito metido, sabia? – ela fez uma breve pausa. – Não, meus pais nunca tiveram tempo pra isso.
Chika apenas sorriu, aquele sorriso doce e iluminado que desestabilizava qualquer reação de Hozuki. – Então vou caçar qualquer uma para você ver e depois é sua vez.
Ele se afastou com a rede nas mãos e correu para o topo da colina, onde havia mais flores do campo e borboletas. Ela ficou onde estava, os olhos perdidos no imenso céu azul, nas flores e nele.
O braço dele ia alto tentando capturar uma pequena borboleta branca de asas pequenas. Satowa poderia ficar horas olhando aquela cena, então era assim caçar borboletas com alguém?
— Hozuki! Traz a maleta e vem cá.
Ela subiu a colina e se ajoelhou na grama ao lado dele. – Você conseguiu?
— Óbvio que sim. – a expressão do rosto dela era de excitação e curiosidade. Meu deus, ela era muito fofa quando se distraia com as coisas mais simples deste mundo, era impossível passar despercebido pelos olhos de qualquer um, inclusive de Chika, pois Satowa era linda. – Vou te mostrar como se faz.
Com rapidez, ele deitou a rede no gramado e verificou se a borboleta estava realmente dentro da rede. – A primeira coisa que se faz é confirmar que ela está aqui dentro, como são insetos rápidos, as vezes achamos que esta aqui, mas não está. Olhe.
A borboleta estava dentro da rede, deitada de lado com as asas coladas uma na outra. Chika enfiou a mão por de baixo e a pegou com todo o cuidado possível e a colocou numa portinha que havia na maleta de acrílico.
— Coitada, ela vai morrer assim, presa numa gaiola.
— Não, depois da caçada elas são soltas na natureza. – o loiro permaneceu apoiado sobre os calcanhares para fica na mesma altura que ela. – Nenhuma prisão é para sempre, não acha.
Aquelas palavras foram como um flecha no peito de Hozuki, aquela borboleta amassada na rede era como se sentia quando estava com sua mãe, no clube de koto de sua família. Triste e solitário, mas...
— Olhe...shhh...- Chika ergueu o indicador e pediu silêncio. Uma borboleta amarela voava delicadamente entre os dois, o que acidentalmente causou no encontro de olhares, cada detalhe era capturado, os lábios e as bochechas rosadas, os longos cílios negros. – Shh...- ele deixou os joelhos tocarem a grama e o corpo ficou próximo ao dela, com a mão tirou com cuidado o chapéu da cabeça dela. – Ela posou na sua franja.
Sem ar, os pulmões de Satowa se esvaziaram, realmente ele era muito invasivo. A ponta dos dedos dele tocou um pouco da testa e ela sentiu um arrepio na espinha mesmo estando quarenta graus naquela tarde de verão.
A borboleta voou antes de ser pega, deu algumas circuladas no ar e posou no peito do loiro. Automática, a mão dela foi de encontro com a borboleta, com cuidado conseguiu transferi-la para seu indicador, um sorriso absurdo surgiu em seus lábios. — A minha primeira.
— Hozuki... – ele quase cantou o nome dela e a puxou para um abraço. Ela tinha cheiro de flores, era marcante e doce, exatamente como sua personalidade. Chika deixou o rosto se esconder perto do pescoço, no emaranhando dos longos cabelos castanhos dela. Satowa se encolheu dentro do abraço dele, o cheiro amadeirado de seu perfuma, os braços fortes, o corpo dele parecia enorme comparado com o dela. – Chika...es...
— Estamos caindo.
— O QUE?!
Chika caiu com o traseiro para trás, trazendo consigo Hozuki, os dois deslizaram do alto da colina para baixo, por sorte ela estava bem acolhida naquele corpo. Ele caiu deitado sobre o gramado e ela por cima dele, com uma das pernas por entre as dele e as mãos espalmadas ao lado de seu rosto.
Apenas o som da brisa circulando pelo campo cortava a respiração deles, e a borboleta...Que borboleta?
Chika ergueu a mão e aproximou da nunca dela, mas desistiu do movimento, deixando a mesma cair sobre a grama. Os olhos de Hozuki estavam com lágrimas prestes a cair dos olhos. No fim, aquele desejo secreto de ter ela só para ele era uma bobagem, ela nunca iria se sentir confortável com um cara como ele. Um ex delinquente que não tinha nada, apenas movido por sobreviver dia a dia, em crédito com seu avô.
— A borboleta, perdemos ela. – ele sorriu amarelo e se afastou dela. – Vou pegar as coisas que ficaram lá em cima para continuarmos.
Ele subiu a colina, mas ela continuou onde estava, as lágrimas apenas rolando dos olhos sem muita explicação.
“Que sensação é essa? Eu acho que gosto dele...”
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