Dubai
10 Uma conversa surpreendente - Parte 2
Notas iniciais
A situação começou a se tornar ainda mais absurda quando Ellie se viu correndo pelas escadas de emergência daquele prédio de luxo imenso, no centro de Dubai, com um cara completamente desconhecido e aparentemente não muito normal. Por um instante rápido, ela pensou em sair dali e voltar para a festa, mas percebeu logo em seguida que aquele rapaz corria logo a frente dela estranhamente confiante que ela o seguia e por isso pareceu indelicado deixá-lo ali sozinho fugindo de.... Do que mesmo eles estavam fugindo?
Por um momento depois, Ellie olhou para trás e não viu ninguém seguindo eles. Parou para ajeitar o xale do vestido em quanto aproveitava para descansar. Só o local onde eles estavam estava iluminado pelo lustre comprido do corredor de escadarias. O rapaz, ao perceber que ela havia parado, olhou para os lados e não vendo ninguém, parou também.
— O que estou fazendo aqui? Eu me pergunto por que segui você até aqui. Aqui nem é a cobertura do prédio.
— Ainda tenho planos de chegarmos até lá. – Sorriu ele, daquele jeito provocativo que Ellie não compreendia.
— Eu não vou com você. Me sinto uma fugitiva. – Retrucou ela.
O rapaz, dono dos olhos mais belos que Ellie já havia encarado, pareceu ponderar um pouco. Em seguida falou:
— Bem, considerando o fato de que você está comigo, você não parece uma fugitiva. Você é. – E deu uma breve gargalhada. Agora parecia mais à vontade do que antes.
Ellie o encarou sentindo um pouco de raiva de tudo aquilo, mas ao mesmo tempo... O que estava exatamente acontecendo ali? Era uma situação, no mínimo, hilária.
— Olha, eu preciso voltar. Acho que é melhor assim.
Sayed dessa vez adotou uma expressão mais séria.
— Se você voltar eles vão reconhecer você. Preciso escapar deles.
— Deles quem?
— Ora, dos paparazzi. Não quero estar sendo seguido o tempo todo, em todos os lugares. Quero um pouco de paz...
Ele recostou a cabeça na parede e fechou os olhos. Ellie o encarou pensativa. Um pouco de paz? Será mesmo que um cara como ele precisava de um pouco de paz? Mais que isso, será que ele precisava mesmo fugir dos fotógrafos?
— Você não sabe nada sobre mim, não é mesmo?
Ellie por um instante pensou no que dizer. Será que ele ficaria chateado com a resposta?
— Não. Eu acabo de chegar em Dubai. Não sei muita coisa sobre nada aqui.
Para a surpresa dela, ele sorriu. Pareceu contente com a resposta.
— Isso é bom.... Muito bom. – De repente ele olhou para ela. – Sei que pode parecer estranho, mas.... Venha comigo, preciso conversar com você.
— Por que precisa tanto conversar comigo?
Ele hesitou.
— Porque você é a única pessoa que não sabe nada a meu respeito.
Com essa resposta, Ellie sentiu que deveria ir com ele. Era estranho que ela aceitasse seguir um muçulmano, neto de um sheik até a cobertura de um prédio, mas descartando o absurdo da situação, ela simplesmente o seguiu. De alguma forma, pareceu-lhe que aquele moço dos olhos bonitos estava mesmo precisando apenas.... Conversar.
Então com muita cautela, ambos continuaram subindo as escadas em direção a cobertura do prédio, dessa vez sem correr. Sayed ia sempre na frente, sorrindo de vez em quando por motivos que Ellie desconhecia. Enquanto pensava sobre o que estava fazendo ali e sobre que tipo de pessoa exatamente Sayed poderia ser, ela pensou consigo mesma: “ele é tão risonho...” Mas isso não lhe pareceu suficiente.
Vez por outra o vestido atrapalhava um pouco na subida das escadas, na medida em que as mesmas pareciam não ter fim. E quando ela ia reclamar do cansaço, Sayed abriu uma porta imensa de chumbo com reconhecimento digital e direcionou-a para a cobertura do prédio. Logo que passou pela porta, por um instante, Ellie prendeu a respiração. O que estava vendo diante dos seus olhos era uma vista esplendorosa de uma cidade imensa, coberta de mesquitas, prédios que ultrapassavam a névoa das nuvens e que desafiava as imensidões do deserto. Ao fundo, na paisagem, dava pra ver o Burj Khalifa, um dos prédios mais altos do mundo se não o mais alto de todos, medindo cerca de 1km de altura.
Sayed se posicionou ao lado dela também observando a cidade onde nascera e crescera e que aprendera a amar apesar das extravagâncias cômicas de sua vida. Ele suspirou e dirigiu seu olhar pra ela, que parecia ainda hipnotizada com a beleza de Dubai.
— Este lugar... Eu nunca vi nada assim... – Exclamou ela após alguns segundos de contemplação.
— Ah! O que dizer de Dubai! – Sayed disse cruzando os braços. E então sorriu. – Gosta do que vê?
Ellie riu um pouco incrédula com a pergunta.
— Se eu gosto? Isso aqui é simplesmente fantástico! Não sei porque a vida não me trouxe pra cá antes... – Depois de dizer isso Ellie se manteve silenciosa.
Sayed parecia um pouco inquieto, um pouco triste, um pouco animado... Parecia um homem importante vestido de sheik e lindo como os modelos de revistas mundiais. Mas ao mesmo tempo em que parecia uma celebridade acima da média, ele também parecia, naquele momento, apenas... Apenas um homem. Ellie olhou pra ele de relance e pôde enxergar naqueles olhos o que ela chamaria até de simplicidade. Ela nem sabia quem ele era de verdade, mas havia ali um pouco da fraqueza e das frustrações de todos os homens. Sem saber exatamente o porquê ou o que aquilo significava, ela gostou disso. E então, após uma pausa, quebrou o silêncio:
— E então, senhor neto do sheik? Já estou aqui. Você quer conversar? Vamos conversar. Do que quer tanto falar?
Ela esperou ele responder.
— Bem, algumas coisas me incomodam. Se não tudo. – Ele riu um pouco sem jeito. Voltou-se para ela. – Esse é o problema sabe?
— Qual problema?
— O fato de eu ser quem sou. – Ele fez uma pausa. – Eu só queria um pouco de paz. Você pode dizer que tenho tudo, mas eu lhe diria que não tenho quase nada...
Ellie nesse momento o encarou fixamente tentando entender onde ele queria chegar.
— Eu pedi que viesse até aqui comigo para que eu tivesse com quem desabafar. Eu vivo muito sozinho. E pensei que talvez você pudesse me ouvir.
Ellie ergueu as sobrancelhas.
— Por que eu?
Ele a encarou.
— Porque você não sabe nada sobre mim. Não sabe sobre a minha vida nem sobre a minha história. E não parece interessada em mim. Por isso você parece ideal.
Ellie tentou organizar as informações em sua mente e se perguntou porque aquilo estava acontecendo. Por que alguém como ele estava dizendo aquelas coisas?
— Deixa ver se entendi. Você tem algumas frustrações com a vida?
Ele sorriu, como se houvesse graça na indignação da voz de Ellie.
— Na verdade eu tenho todas. – Ficou sério. – Você pode me dizer que todos os membros do meu corpo são perfeitos e em pleno estado de saúde e conservação... – Sorriu esperando pela repercussão dessa informação. Ao que Ellie achou um tanto desnecessária. Então continuou: — Pode dizer que não me falta nada. Comida, conforto, luxo... E realmente, se você disser todas essas coisas pra mim você não vai estar errada em nenhuma delas. Mas... Existem coisas que eu não tenho. As mais importantes.
Ellie começou a se interessar um pouco mais pelas coisas que Sayed estava dizendo.
— Você gosta de sorvete Ellie? – Ele perguntou.
Ela pensou um pouco perguntando-se o aquilo tinha a ver com a conversa. Mas mesmo assim respondeu.
— Claro, acho que todo mundo gosta de sorvete.
Sayed assentiu.
— Eu também gosto. E acho que deve ficar mais gostoso quando você vai com sua família ou seus amigos em uma sorveteria. Você sabe o que é não poder ir a uma sorveteria, Ellie? – Ele olhou pra ela, que negou com a cabeça. – Ou mais que isso. Sabe o que é não ter amigos com quem tomar um sorvete, mesmo que não seja na sorveteria?
Ellie engoliu em seco.
— Não... Eu não sei...
— Pois muito bem. Eis minha vida. Não posso sair de casa sem ser seguido por uma dezena incontável de mulheres. Não posso fazer nada nesta vida que não saia na capa de uma revista ou na folha principal de um jornal. Não posso brincar com crianças em uma praça. Não posso nem mesmo ter amigos, porque todos eles não gostam de mim, mas das coisas que eu tenho.
Ellie começou a ficar um pouco chocada com aquele desabafo. Quem imaginaria isso? Então tentando aliviar o possível sofrimento de Sayed, ela falou:
— Sabe, milhões de pessoas ao redor do mundo inteiro gostariam de ter a sua vida. Elas fariam qualquer coisa pra ter a sua vida nem que fosse por um único dia. E você está reclamando do que tem?
Sayed suspirou.
— Ellie, você costuma frequentar que lugares?
Ela hesitou.
— Todos os lugares mais comuns a pessoas que não possuem muito dinheiro.
Ele assentiu.
— Eu faria qualquer coisa pra ter a sua vida, Ellie. – Em seguida aqueles olhos azuis, aqueles que ela havia encarado no dia da feira, que sempre pareciam sugerir alguma coisa, olharam pra ela esperando talvez o que mais poderia ser dito. Parecia que depois de dizer aquelas palavras, Sayed devesse ser considerado maluco, mas aqueles olhos diziam outra coisa. Eles pediam, na verdade, um colo. Talvez um colo para chorar.
Depois de alguns instantes Ellie pareceu despertar de um transe. Buscava entender o que estava ocorrendo ali, mas era difícil porque ele parecia quebrar todos os estereótipos esperados de uma pessoa como ele.
— Você é mais que bilionário. Tem quase o mundo inteiro em suas mãos. Pode fazer o que quiser, pode viajar pra onde quiser, na hora que bem entender. Como isso pode ser ruim? Quer dizer, você pode comer o que quiser e ter as roupas que desejar e fazer tudo, exatamente tudo o que quiser e está reclamando da vida? Você pode, inclusive, namorar com a garota que quiser. Como tudo isso pode ser ruim?
Havia uma certa indignação na voz de Ellie, mas nem ela tinha certeza sobre isso. Estava apenas tentando entender onde estava o centro do incômodo de um homem como aquele.
— É isso que as pessoas não entendem, Ellie. Acham que porque tenho tudo isso, sou feliz. Mas não sou. – Sayed franziu a testa enquanto encarava o deserto ao fundo. – Meu pai é dono de quase todo o mundo e quer me obrigar a dar continuidade a tudo isso. Quer que eu esteja no centro das atenções, no comando das empresas, quer que eu faça todas essas coisas sem me perguntar se é isso mesmo que eu quero pra minha vida. Ele nem se importa, quer saber. – Neste momento, Sayed fez uma pausa. – Eu... Eu não me lembro da última vez que o meu pai me chamou de filho...
Depois de dizer essas coisas ele se calou. Ellie baixou a cabeça. O que poderia dizer a ele? Como aconselhar um homem carente do amor do pai e de quem sabe do amor de qualquer pessoa? Ela simplesmente falou:
— Eu acho que... Acho que não sou a pessoa certa pra estar aqui. Eu nem conheço você e não sei o que dizer. Eu nunca pensei que alguém como você um dia pudesse desabafar esse tipo de coisa pra mim. Desculpe.
Sayed fechou os olhos.
— Eu sou apenas eu. Eu não quero ser sheik árabe, eu não quero comandar nada. Eu só quero ter amigos verdadeiros e pessoas que gostem de mim. Isso é pedir muito? Quer dizer, se qualquer outra pessoa neste mundo estivesse aqui neste momento, falando todas essas coisas pra você, você não saberia o que dizer? – Ele a encarou.
— Eu não sei, talvez sim. – Gaguejou ela.
— Então. É por isso que não gosto de ser quem sou. As pessoas não veem Sayed Al Gala. As pessoas veem o neto do sheik árabe de Dubai. E eu estou cansado disso.
Neste momento Sayed se recostou na sacada do prédio e baixou a cabeça, fechando os olhos. Ellie suspirou e pensou um pouco. Apesar de ser quem era e de ter tudo o que tinha, ele era uma pessoa infeliz. E o que dizer pra ele?
— Acho que... Você poderia ver as coisas por outro ângulo. – Cogitou. – Sei lá, tentar ser feliz de alguma maneira.
Ele pareceu rir mas ela não tinha certeza.
— É isso que passo a vida tentando fazer. – Dessa vez ele riu. – Eu pego minha moto e saio em alta velocidade em lugares proibidos. Vou a praias de nudismo, mesmo sabendo que posso ser consumido pelo fogo de Allah. – Riu novamente. – Eu me escondo de paparazzi e passo a vida enganando eles e fazendo com que tenham muita raiva de mim. Eu vou parar em delegacias mas isso nunca dá certo porque nem ser preso eu consigo. Afinal, eu sempre posso pagar a fiança. E não sei porquê, meu pai sempre paga, na esperança de que eu mude. Mas sabe, isso tudo me deixa feliz por algum tempo. Mas depois... Depois eu me sinto vazio. De vez em quando eu jogo dinheiro por cima das casas das pessoas mas mesmo quando eu voltar ainda serei milionário. Então... Resumindo, eu nunca consigo o que quero de verdade. – Em seguida ele olhou pra ela. Os olhos reluziam. Pareceu um pouco sorridente, mas podia perfeitamente ser uma mera impressão.
Ellie pensou um pouco.
— É, isso tudo parece errado. Não acho que possa se preencher com isso.
Ele assentiu.
— Pois é. Eu nunca aprendi como viver de verdade.
Ellie mordeu os lábios e se ajeitou melhor na sacada.
— Você, pelo que vi, não é muito religioso, apesar de ser muçulmano, não é?
Sayed achou graça dessa observação.
— Eu acredito em Deus. Sei que Ele fez o universo e tudo o mais. Sei que Ele provavelmente gosta de mim, mas... Acho que Deus não gosta muito do dinheiro e nem da fama.
Dessa vez quem riu foi Ellie.
— Ual. Isso é, no mínimo, uma coisa bem interessante. Então você não gosta de dinheiro?
Ele pensou um pouco.
— Não muito. Eu gostaria de ir a uma sorveteria... Ao menos uma vez na vida.
Ellie olhou pra ele e em seguida encarou o deserto.
— Bem, eu continuo sem ter o que dizer mas... – Hesitou. – Espero que você fique bem.
Ele olhou pra ela um pouco surpreso e em seguida abriu um largo sorriso, mostrando o quanto podia cuidar dos dentes. Parecia novamente aquele ar de convencimento que Ellie não compreendia.
— Eu tenho uma ideia. – Ele disse.
Ellie ergueu uma das sobrancelhas e esperou ele falar.
— Acho que vamos a uma sorveteria. Amanhã. – E sorriu mais.
— Ah, o quê? Não, você vai. Nós não. Eu não vou com você. Ficou maluco?
Ele suspirou e se ajeitou na sacada de modo a ficar de frente pra ela.
— Você não pode resistir. Não pode negar o meu convite.
Ellie olhou pra ele incrédula.
— Serio? Eu não sou como todas elas.
Subitamente Sayed parou de sorrir e Ellie se perguntou se deveria mesmo ter dito aquilo.
— Eu sei disso. É por isso que lhe convidei.
— Olha, já esta tarde. Preciso voltar, minha amiga deve estar a minha procura. E eu não quero arrumar problemas numa cidade como essa.
Sayed a encarou fixamente.
— Você está bem protegida. Sou quase sheik.
— Mas não gosta disso.
— Com você talvez eu goste. – Seu olhar pareceu sincero. Mas por que eim?
Ellie balançou a cabeça.
— Olha, preciso mesmo ir. Estou na sacada de um prédio de uma cidade que eu nem conheço, está tarde e eu estou com frio. Sem falar que eu nem conheço você então...
— Então posso te ver novamente?
Ellie hesitou olhando incrédula pra ele.
— Não.
— Por que não?
Neste momento os dois ouviram um barulho vindo da direção da porta e Ellie teve muito medo de ser pega ali com aquele rapaz. Isso poderia prejudicar inclusive a sua carreira que mal começara.
— Olha, eu sinto muito, desejo sua felicidade mas não posso te ver outra vez. Nossos mundos são muito diferentes, eu não poderia te acompanhar.
Ela tentou sorrir, mas o máximo que conseguiu foi um esboço, uma tentativa sem sucesso. Em seguida, dirigiu-se a porta e sabia que ela estava fechada.
— Pode abrir por favor?
Sayed hesitou por um momento, suspirou e engoliu. Depois disso resolveu simplesmente abrir seu convencido sorriso, que embora estivesse um pouco mais fraco, estava ali novamente. Foi até a porta, abriu-a para que Ellie passasse e depois que ela passou, a porta simplesmente fechou outra vez. Tudo o que restou foram as luzes de Dubai e a solidão do deserto. Sayed estava novamente sozinho.
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