Dubai
3 Surpresas sobre temperos e outras coisas.
Notas iniciais
Ellie precisou tomar quase uma garrafa inteira de água para se recuperar do choque inesperado com a pimenta. Tudo em sua boca de repente parecia estar em chamas.
– Acho que ser um dragão não deve ser nem um pouco bom! – Exclamou ela, devolvendo a garrafa à mesa, quase vazia.
Ana e o rapaz, que por acaso se chamava Mohammed, encararam Ellie dando gargalhadas.
– Ai amiga, sinceramente, você não me deu oportunidade de avisar sobre a pimenta. – A moça ofereceu um guardanapo a Ellie, que mentalmente admitiu que havia ido com muita sede ao pote. Ou melhor, com muita fome.
– Gente, desculpem-me pela cena. O que é isso, eim? Pensei que fosse arroz, por isso comi sem hesitar.
– Na verdade eu pedi um prato mais comum. Esse restaurante é uma cortesia da nossa empresa. É arroz de açafrão, com molho de pimenta. Nesse restaurante várias culinárias são misturadas, inclusive os temperos. Esperava lhe dizer primeiro sobre a pimenta, mas acho que você estava com fome. Bem, de qualquer forma, é um molho diferente, né? – Ana fez uma careta, observando que sim, o tempero era bastante diferente.
– É, devo admitir, é bem forte! – Exclamou Ellie.
– Posso pedir um prato outro. – Falou Mohammed, esforçando-se para falar bem o português. O rapaz tinha um jeito de falar e de sorrir bem carismático. Nada poderia esconder o fato de que ele era do Oriente Médio. Não era feio, mas suas características árabes eram fortes. A pele era bem morena, olhos bem castanhos; o rosto era redondo, esculpido por uma barba discreta, mais ou menos por fazer. Mas poderia ser o estilo dos homens dali, porque muitos outros usavam a barba da mesma maneira. O cabelo era preto e bem liso; o corte era comum e ele parecia ter uma estatura mediana, o corpo era magro e as mãos pareciam ser delicadas e pequenas.
– Ah não, não precisa Mohammed. Eu vou comer esse aqui mesmo. Só preciso fazer isso com mais cuidado. – Ellie falou. Olhando novamente para o prato, animou-se para comer mais daquele arroz. Era forte, mas ela não tinha achado ruim.
O rapaz assentiu e concentrou-se em seu prato também, que parecia ser diferente do de Ellie. Todos começaram sua refeição, sem nenhum novo susto envolvendo temperos.
– Então me diga, Ana. O que eu vou fazer em uma festa de um Sheik árabe?
A amiga sorriu com satisfação, ajeitando-se na cadeira revestida de couro.
– Bem, Mohammed tem bons contatos lá na nossa empresa e grande parte das ações pertencem ao Sheik, então meio que nós conseguimos um passe para entrar na festa. E na verdade, a festa é mais do neto do Sheik do que realmente dele. Mas é claro que ele é a figura principal.
– É, na verdade amigos meus irão. Então falei a Ana, que falou a você. – Acrescentou ele, buscando as palavras certas.
Ellie parou por um momento, limpou a boca com o guardanapo e pensou um pouco. Em seguida exclamou:
– Mas imagino que muitas pessoas importantes estarão nessa festa. Você sabe, pessoas ricas influentes e... – Por um segundo ela teve medo de se imaginar em uma festa daquela importância.
– Não se preocupe Ellie, nós não iremos ficar na ala principal. – Disse Ana, enquanto levava o garfo à boca, fazendo em seguida, uma careta como quem está achando a comida realmente muito boa.
Mohammed assentiu e tomou um gole do suco de maçã, que por sinal, Ellie havia achado uma delícia. Apesar de ser de maçã, tinha um gosto diferente. Talvez porque simplesmente era um suco de maçã tomado em Dubai.
– Ala principal?
– É que a festa irá acontecer em um dos prédios mais importantes de Dubai, sede de muitas empresas, inclusive a nossa. E cada andar do prédio estará representando uma empresa. Nós ficaremos em um dos primeiros andares do prédio com nossos colegas e amigos. Na verdade são seus futuros amigos, mas isso é apenas um detalhe.
Ellie ergueu as sobrancelhas.
– Mas o Sheik vai estar presente?
Dessa vez foi Mohammed quem respondeu:
– Ah sim. O Sheik estará no último andar. Cobertura; ele e família.
– É, mas provavelmente nós não nos encontraremos com ele. – Ana acrescentou.
– Hum, tudo bem. Acho que assim é melhor. Eu acho que não me sentiria muito à vontade em uma festa na presença de um Sheik árabe. – Ellie exclamou. Sua expressão realmente demonstrava o quanto aquilo parecia absurdo para ela. Ela jamais se imaginaria entre as pessoas que geralmente cercam um Sheik árabe.
– Não se preocupe amiga. Eu acho que também não me sentiria muito bem perto dele.
Ana olhou para ela, como quem a compreendia e Mohammed fez uma expressão parecida. Embora fosse nascido e criado em Dubai, o rapaz parecia entender totalmente o sentimento das duas. Bem, talvez ele também não tivesse nada a ver com essa sociedade, da qual Ellie, por acaso, sabia tão pouco; mas ela preferia que fosse assim.
– Mas nada disso descarta o fato de você deverá estar linda. – Falou a amiga, levantando uma das sobrancelhas para Ellie, como se aquilo fosse algo do qual ela não poderia correr.
Ellie sorriu.
– Tudo bem. Acho que posso lidar com isso. – Piscou para Mohammed, que sorriu em resposta. E então lembrou-se de um detalhe importante: — Mas quem irá pagar tudo? Imagino que isso deva custar caro.
Ana limpou a boca com um guardanapo e o jogou dentro do prato de porcelana extremamente branco, que já estava vazio. Na verdade, especialmente naquele restaurante, não parecia que as pessoas comessem muito. Era mais como um lugar para experimentar aperitivos; embora os pratos principais fossem realmente pequenos. Mas Ellie só notou isso porque naquele momento estava com mais fome que o normal, por ter passado um bom tempo sem comer. Geralmente seu apetite era escasso.
– Nem se preocupe com isso. – Ana interrompeu seus pensamentos. – Já disse que está tudo providenciado. Apenas aproveite amiga, porque a semana promete. – Ela sorriu e Ellie devolveu o sorriso, perguntando-se como a amiga teria conseguido tudo aquilo.
Alguns momentos depois de conversarem um pouco mais sobre a comida típica de Dubai, Ellie ficou sabendo que por toda a cidade estavam espalhados restaurantes de todo tipo de comida: restaurantes de comida portuguesa, italiana, francesa, americana, africana, estritamente especiarias japonesas, chinesas e também da Europa em geral. Era muito interessante notar que não era preciso se preocupar com alimentos ou diferentes temperos, já que havia todo tipo de comida em Dubai; ela poderia escolher. E a comida naquele restaurante, era uma mistura de todas as melhores comidas de diversos países, temperadas com as especialidades do Oriente Médio. Enfim, Ellie se sentia especialmente feliz por estar ali e por estar conhecendo coisas diferentes que em geral, não lhe eram tão acessíveis em sua terra natal.
Depois de conversarem um bocado sobre comidas típicas, os três pediram a conta e se dirigiram ao estacionamento do restaurante, que parecia dar bastante prioridade às vagas especiais. E um detalhe: as pessoas respeitavam essas vagas. É, bem diferente do que ela estava acostumada a ver.
Olhando para cima, verdadeiros arranha-céus se erguiam majestosamente por toda a avenida onde se encontrava o restaurante. Eram prédios imensos, de estrutura arquitetônica fantástica e pinturas magníficas. De fato, aquela cidade devia ser um poço quase inesgotável de riquezas e elegâncias bem planejadas.
Em uma parte afastada do restaurante, estava estacionado um conversível preto, que parecia ter acabado de sair da loja. A placa do carro estava em árabe, mas apesar disso, Ellie notou que era um carro particular de alguma empresa; como estavam indo em direção, percebeu logo que o carro pertencia à empresa onde ela iria trabalhar.
Carregou as malas e guardou tudo no porta-malas e os três entraram animados no carro. Por dentro, o automóvel era revestido de couro e madeira polida. Uma verdadeira obra de arte.
– Ual, esse carro é lindo! – Exclamou Ellie, reparando em cada detalhe e sentindo-se estranhamente poderosa.
Ana sorriu com satisfação.
– Você ainda não viu nada, Ellie. Espere só até ver os que estão estacionados em frente ao nosso prédio. Cada um mais esbelto que o outro. – Fez uma pausa para rir. – Esses caras aqui em Dubai sabem como ganhar e gastar dinheiro. – Os três em seguida riram, especialmente depois que Mohammed fez uma mesura em agradecimento, como se o elogio tivesse sido feito para ele.
Segundos depois, Ana falou:
– Ah, amiga, tem uma coisa que esqueci de lhe comunicar.
– Diga. – Ellie reagiu.
– Quando Mohammed disse que a família do Sheik estará lá, na verdade, isso inclui estritamente o neto dele, que na verdade, é o dono da festa. E se já não disse isso, então estou dizendo agora. Sayed Al Gala, um cara especialmente agitado.
Ellie franziu as sobrancelhas.
– E o que isso tem a ver comigo? Por que preciso saber disso?
Ana e Mohammed riram.
– Bom, só pra te avisar. O tal do Sayed não costuma ser um cara muito previsível. E provavelmente não ficará em um único lugar na festa.
Ellie novamente ergueu as sobrancelhas.
– E se algo estranho acontecer, você não estranha. – Mohammed acrescentou.
–Ok, estou avisada então. – Ela respondeu.
– Bem, seja como for, isso não é importante agora. Temos tantas coisas pra fazer! Agora só quero que você relaxe e aproveite a visão que se alonga na janela. – Disse Ana, especialmente animada por mostrar os encantos de Dubai a amiga.
Ellie recostou a cabeça no vidro da janela e sorriu, feliz por estar ali e por tudo o que ainda viria. Ela nem poderia imaginar quantas coisas Dubai havia lhe reservado.
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