Duas luas

1 Capítulo Único


Está queimando! Meu corpo! Meu corpo está queimando! Gritei alto, ferindo minha garganta, mas essa dor não era nada. Sentia como se meu corpo estivesse sendo feito em pedaços, triturado e dilacerado.

E então meu mundo se transformou, nada mais importava, a dor consumia tudo como uma língua de fogo, um mundo em que só ela existia. Convertendo tudo em cinzas.

“Eren! Eren!”

Olhei para a voz que me chamava, ele parecia desesperado, olhando para mim. O homem corria em minha direção, tentando me alcançar, mas era inútil. Seus esforços não pareciam fazer efeito.

“Volte Eren! Não vá!”

Do que ele está falando? Eu não estou indo para nenhum lugar, nem ao menos conseguia me mexer, todo o meu corpo estava paralisado com a dor. O homem, que ainda tentava me alcançar, parou assustado, olhando para algum lugar atrás de mim.

“Eren… Eren… Acorde...” Uma voz sussurrou.

A voz que me chamara era fria e gutural, me causando um medo primitivo. E então eu quis correr, me revolvi em minha própria cadeia de fogo ardente; meu desejo de correr me impulsionando a ir além da dor, a ignorá-la.

Abri os olhos de par em par, sentando-me na cama de supetão e respirando fundo, sentindo falta de ar. Minha cabeça latejou, era como se estivesse querendo se partir em duas. Tentei regular minha respiração, me acalmar.

一Um sonho…? -Sussurrei, minha garganta doeu como se estivesse ferida, como se o grito do sonho a tivesse machucado. -Não era um sonho qualquer… É uma premonição.

Senti um arrepio percorrer o meu corpo ao lembrar da voz fria que me chamava, sabendo que algum dia me encontraria com ela. Olhei para o sol que já incidia forte sobre minha cama e então para o despertador.

一Estou atrasado! -Gritei levantando-me da cama, peguei uma camisa que sabe-se lá quantos dias estava jogada no chão e corri para o trabalho.

Meu nome é Eren Jaeger, tenho vinte anos e atualmente estou morando em um anexo na parte de cima de uma lanchonete, cujo lema e orgulho é: Quanto mais óleo e gordura a comida tiver, mais saudável ela é. Não é o meu emprego dos sonhos, mas paga as contas no final do mês.

Meus pais morreram antes que eu tivesse alguma lembrança deles e eu fui passado de lares adotivos à orfanatos até completar dezoito anos e conseguir um emprego e um apartamento barato numa cidadezinha no interior do deserto da Califórnia.

一Seja bem vindo! -Falei alto, como se tivesse estado atendendo os cliente a manhã inteira e não a somente cinco minutos.

Keith, meu chefe, colocou a cabeça para fora da cozinha para me lançar um olhar de “Você está três horas atrasado e eu percebi!” Suspirei derrotado, levaria pelo menos uma hora ouvindo o discurso de Keith sobre comprometimento com o trabalho e sabe-se lá mais o que.

O pequeno sino das portas de vidro badalou, anunciando um cliente. Coloquei meu melhor sorriso e me dirigi ao homem que entrara.

一Seja bem vindo!

一Te encontrei…! -A voz era pura descrença, seu rosto era uma mescla de surpresa e felicidade.

Eu já não podia dizer o mesmo de mim. Mesmo sem poder ver meu rosto, eu sabia dizer o que ele estampava: Horror em sua mais pura forma.

Já esperava me encontrar com ele no futuro, afinal meu sonhos jamais erravam, mas não esperava que esse futuro fosse ser tão próximo e muito menos que fosse hoje. Dei um passo involuntário para trás, querendo por distância entre mim e o homem a minha frente. Me encontrar com ele, significaria que me encontraria com o dono daquela voz assustadora.

一Eren… — Ele deu um passo a frente, os braços abertos como se quisesse me abraçar, mas eu recuei novamente. -Eren? Não me reconhece? Não se lembra mais de mim? Sou eu, Levi.

Olhei assustado para aquele homem que era facilmente uma cabeça mais baixo que eu. Não fazia ideia de quem ele era e tinha certeza de que jamais o vira antes. Forcei-me a me acalmar, obriguei meus braços e pernas a pararem de tremer, mas não consegui evitar que minha voz falhasse e saísse mais aguda que o normal.

一N- Não sei quem o senhor é, jamais o vi antes, então se for fazer algum pedido sente-se em uma das mesas que vou atendê-lo, se não, eu peço que se retire.

Dei meia volta, planejando ir no banheiro e molhar o rosto para me acalmar. Meu coração batia desesperado no peito, sentia medo de algo que estava próximo. Não sabia se era daquele homem ou de algo que ele representava, mas quanto mais eu pensava a respeito, mais a minha cabeça parecia querer explodir.

Havia dado meio passo, quando Levi me puxou pelo braço e me arrastou para fora da lanchonete. Nessa hora, nós já havíamos atraído os olhares de todos os clientes. Ótimo, era só o que me faltava, ser motivo de fofocas para esse povo desocupado de cidade pequena. Eu me deixei levar, querendo me livrar desse lunático o mais rápido possível.

Fomos para a parte de trás da lanchonete, um beco sem saída e que ninguém nunca ia lá. Era melhor um lugar deserto, pensei ao me lembrar dos olhares guloso por uma fofoca dos clientes.

一Olha, eu não sei porque você pensa que me conhece, mas eu posso te garantir, nós nunca nos encontramos antes. -Tentei falar claro e objetivamente, tentando convencer a ele e se eu fosse sincero, a mim também.

一Não acredito que você fez isso, mesmo eu te pedindo para confiar em mim, você tinha que fazer as coisas do seu jeito. -Ele me olhou irritado por meio segundo e então suspirou cansado. -Pelo menos você parou de fugir, isso é bom. Depois do sonho de ontem eu temia que você fugisse novamente.

一O sonho…?! -Perguntei surpreso.

Era impossível ele saber o que eu havia sonhado, não é? Jamais encontrei ninguém que se lembrasse de ter estado em um sonho comigo antes. O que só comprovava minha teoria, esse homem a minha frente, não era uma pessoa qualquer.

一Mas é claro que lembro, foi assim que consegui te encontrar. Todas as vezes você fugia de mim, mas então você apagou suas memórias. -Ele ergue uma mão, fiquei tão surpreso que não consegui me mover. Seu toque suave em meu rosto me provocando arrepios de antecipação. Meu corpo conhecia aquela mão, embora eu não soubesse como. Levi me olhava com dor, lamentando algo que foi perdido. -Eu não acredito que você apagou todas as suas memórias de nós dois, mas era por isso que eu estava esperando. As vezes você consegue ser bem previsível. -Ele soltou um meio sorriso.

A mão que me acariciava o rosto passou a segurá-lo com força. Tentei me afastar, mas o agarre era firme como aço. Levi tirou do bolso do casaco algo que só descobri o que era tarde demais. Vi a luz fraca do sol parcialmente nublado refletir no punhal, para logo sumir. Senti a lamina fria penetrar em meu estômago. Queria gritar, mas não conseguia, minha boca enchendo-se repentinamente de sangue.

Lentamente Levi me deitou no chão, colocando minha cabeça sobre seu colo, acariciando meus cabelos. Ele parecia estar sofrendo com o que fizera, mas não arrependido.

一Eren… Não devia ter fugido de mim. Eu que sempre te amei tanto, que matei os seus pais e seus amigos para que ninguém ficasse em nosso caminho; mas então você foi embora, sempre conseguindo prever quando eu me aproximava por conta de seus sonhos. Sabe, foi isso que me chamou a atenção em você a principio, sua capacidade de ver o que iria acontecer. Pena que não conseguiu prever esse momento, ou então você jamais teria me deixado…

“Eren.. Eren…”

Ouvi novamente a voz fria de meu sonhos me chamando, mas ela não estava como no sonho, estava preocupada, clamava para que eu aguentasse firme, mas eu e ela sabíamos que era inútil. Os cantos de minha visão já começaram a escurecer, eu estava morrendo.

一Tarde demais para salvá-lo titã. O pai de Eren o colocou dentro do filho para que você o protegesse e ao invés disso você acatou o desejo dele e apagou suas memórias, para que assim ele não tivesse mais sonhos e eu não pudesse encontrá-lo, mas é uma pena que os poderes premonitórios dele sejam mais fortes que o seus. E agora os dois vão morrer. Ei, Eren.

Levi levantou de leve a minha cabeça para que eu pudesse olhar diretamente em seus olhos.

一Já deveria saber desde o início que você não conseguiria fugir de um demônio como eu.

Seus olhos brilharam vermelhos, como duas brasas incandescentes. Ele sorria para para mim, vendo com satisfação eu dar meus últimos suspiros.

Foram seus olhos cor de carmim, a ultima coisa que vi antes de morrer.

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