Duas Pestinhas em Minha Vida
7 De volta ao serviço de babá
Notas iniciais
Eu e Grandine andávamos apressadas pelo corredor seguindo para o tribunal. Os olhos de Grandine corriam preocupados pelo documento em mãos e vez ou outra suspirava. Eu prestava atenção a cada uma de suas ações, procurando alguma pista para me acalmar, mas pelo visto, os ventos não estavam a nosso favor.
– Isso não é nada bom. – murmurou. – Encontraram cinco pontos da digital parcial correspondentes com a de Jude, pro tribunal é necessário no mínimo um, isso definitivamente não é bom. As amostras de sangue recolhidas também são compatíveis com o dele, e ele não tem um álibi. Dizer que conheço Jude e que ele não faria isso não vai convencer o juri, precisamos ganhar tempo.
– E como vamos fazer isso?
Grandine ficou pensativa por uns segundos, então ergueu a cabeça e ajeitou a franja.
– Se a lei não está a seu lado, aponte os fatos, se os fatos não estão do seu lado, aponte a lei, nenhum deles está do nosso lado, então usarei a lógica. Deixa comigo, Lucy.
Adentramos na sala do tribunal e a primeira coisa que vi foi meu pai sentado na cadeira ao lado da que estava reservada para Grandine, na defesa. Ele encontrava-se algemado e vestia o uniforme da prisão de Magnólia. Do outro lado estavam os pais de Daphne, acompanhados do promotor, e este cochichava algo para eles e vez ou outra, os pais lançavam olhares furiosos para Jude e agora para Grandine.
Grandine tomou seu lugar ao lado de Jude e começou a organizar os documentos, explicando a ele a situação. A sala estava bem cheia, havia colegas do trabalho de meu pai, e membros da família de Daphne. Logo tomei meu lugar na plateia e esperei pacientemente o juiz aparecer. Meu coração batia acelerado em meu peito e minhas mãos suavam, o tempo parecia não passar, agora era um momento importantíssimo para meu pai e o risco era bem alto, mas precisava confiar em Grandine, sei que ela é boa no que faz, mas isso não diminui minha ansiedade. Virgo logo chegou e se sentou ao meu lado, me dando um sorriso encorajador. Sorri de volta para ela e segurei suas mãos e assim permanecemos enquanto esperávamos. Pouco depois o juiz foi anunciado e todos ficaram de pé, se sentando logo depois.
– Iniciemos o caso de Jude Heartphilia versus Família Blake , a acusação é homicídio em primeiro grau.
– Este homem é culpado pela morte de Daphne Blake, que foi brutalmente assassinada em uma área militar, meritíssimo, exigimos pena máxima, sem direito a fiança.
Meu coração batia mais forte a cada palavra proferida pelo promotor. Grandine respirou fundo e então se pronunciou.
– Meritíssimo, reconheço a gravidade do caso, mas este julgamento é completamente inviável no momento.
– Protesto! Ora, por favor, estamos tratando de um assassinato e um julgamento é inviável?! – o promotor desdenhou.
– A perícia não terminou as investigações, ainda faltam depoimentos a serem prestados e faltam resultados de exames realizados no corpo de Daphne Blake, ainda faltam dados concretos para podermos realizar um julgamento mais justo, estamos nos precipitando, portanto, meritíssimo, peço para que adie este julgamento até que todos os resultados estejam disponíveis.
– Isto é ridículo!
– Já chega. – O juiz interrompeu. – Estou inclinado a concordar com a sra Marvel. Jude Heartphilia ficará mantido em custódia até lá. O julgamento está adiado.
O juiz bateu o martelo e tanto eu quanto Virgo, Grandine e meu pai suspiramos aliviados. Os pais de Daphne olhavam indignados para o juiz e depois encararam a meu pai e Grandine com ódio, mas o promotor os acalmou.
Grandine respirou aliviada trocou algumas palavras com meu pai e logo o meirinho o retirou de lá, escoltando-o até a saída. O segui com o olhar o percurso todo e antes de sair, ele se virou pra mim e deu um sorriso triste. Tudo o que pude fazer era retribuir o sorriso antes de perdê-lo de vista de vez, então Virgo pousou a mão em meu ombro direito, me oferecendo um sorriso encorajador, tínhamos conseguido mais tempo, afinal.
Grandine veio até nós e saímos juntas do tribunal e pudemos logo Grandine foi abordada por um grupo de repórteres, assim como o promotor e os pais de Daphne, mas com respostas curtas, Grandine se desvencilhou deles e saímos. Igneel já nos esperava com o carro ligado na saída do prédio, eu e Virgo fomos para o banco de trás enquanto Grandine tomou seu lugar ao lado de Igneel. Assim que Igneel deu a partida, ele soltou uma risada.
– Como fez aquilo? Aquele argumento foi um tremendo tiro no escuro!
– Foi sorte, eu diria. – Grandine respondeu, soltando os cabelos. – Eu ia acabar usando o argumento de que armaram pro Jude e apontar a questão da bebida, ia ser pior ainda, já que eu não tinha provas físicas pra apresentar, mas quando vi quer Mard Geer seria o juiz, percebi que poderia ter uma chance maior.
– O que quer dizer com isso?
– Faz um tempo que ele tem tentado sair comigo, sei que não deveria contar essa vantagem, mas achei que se pedisse isso ele iria aceitar.
Pelo espelho retrovisor, vi que Igneel franziu o cenho e não disse mais nada. Contive uma risada com isso e passei a me distrair com o caminho. Não demorou muito para que chegássemos até ERA e seguimos para o décimo segundo andar. Fomos recepcionados por Kamika e ela logo se dirigiu a Igneel.
– Silver encontrou alguma coisa.
– Isso é bom ou ruim?
– Não sabemos ainda, mas é melhor que vá ver logo, ele e Gildarts estão te esperando.
– Certo. Grandine, Lucy, Virgo fiquem à vontade, se precisarem de algo, peçam à Kamika, ok?
– Obrigada. – respondi.
Virgo se dirigiu à máquina de refrigerantes, perguntando se eu gostaria de alguma coisa e eu e Grandine e fomos até a janela. A vista era bonita, era possível ver a catedral de Kardia daqui. Grandine se aproximou mais de mim e chamou minha atenção depositando a mão em meu ombro.
– Lucy, provavelmente terei que passar a noite trabalhando e não sei que horas poderei ir para casa, então, o que me diz? Aceita cuidar de minhas meninas por enquanto?
Era muita coisa acontecendo e meu raciocínio estava meio lerdo. Revi meus últimos momentos com as meninas e o tormento que foi retirar aquela tinta do rosto, também pensei na faculdade, nos trabalhos e em meu emprego no Kurt Café, definitivamente era tudo mais pesado comparado ao ensino médio, mas então pensei em Grandine e todo o trabalho que ela teria pela frente. Com um suspiro, aceitei a proposta.
[...]
– Quer dizer que a tortura vai recomeçar então? Você gosta de sofrer, Bunny Girl.
– É necessário, você sabe disso. Grandine já me ajudou muito e está cuidando do caso do meu pai, é o mínimo que posso fazer por ela, além de que, no fundo, mas bem no fundo mesmo, elas são boas garotas.
Gajeel deu uma risada alta e tomou um gole da cerveja. Não fui ao Kurt Café hoje, o dono me ligou dizendo que eu podia tirar uma folga hoje e me desejou melhoras, também ouvir Mira, Milliana e Yajima-san gritando o mesmo no fundo. Já havia conversado com Erza, Levy, Jellal e Juvia por telefone, até mesmo com Cana e Yukino e meus planos eram passar o resto da tarde em casa, mas Gajeel me ligou e agora estávamos em um bar próximo à universidade, ele quis me encontrar aqui porque, segundo o mesmo, sua semana de provas estava sendo estressante e precisava extravasar. É um bar bastante frequentado pelos universitários e só de olhar por cima, reconheci metade das pessoas, mas nenhuma parecia prestar atenção em mim ou em Gajeel agora. Gajeel me ofereceu a cerveja e eu recusei, me debruçando sobre a mesa.
– Uma vez masoquista, sempre masoquista. – debochou, dando mais um gole.
– Há há, muito engraçado. — ri sem humor.
– Mas então. – seu semblante era sério agora, mas ele estava meio hesitante. – O que...
– Você quer saber sobre o caso, não?
– Bom... – ele estava mais hesitante ainda e levemente sem jeito. – Se você estiver disposta a dizer alguma coisa...
– Tudo bem. – lhe dei um sorriso triste. – As coisas estão bem feias pro meu pai, mas Grandine acredita que ele é inocente, e depois do que ela me disse, realmente acredito que seja.
– Isso é bom, não é? — O problema é que há muitas provas contra ele.
Gajeel colocou a mão sobre minha cabeça e bagunçou um pouco meu cabelo, com aquele típico riso “Geehee”.
– Precisa confiar na Grandine, conhece a fama dela, vai dar tudo certo.
Me senti melhor com essa atitude dele e sorri mais abertamente. Ficamos em silêncio por alguns instantes, Gajeel tomando sua cerveja e eu encarando meu suco de laranja praticamente no fim. As pessoas mal pareciam notar que eu estava aqui, o que era ótimo, não queria que ninguém ficasse em cima com comentários acusadores. Gajeel então pigarreou e quando olhei para cima e vi seu rosto corado, imediatamente ajeitei minha postura e o olhei com expectativa.
– Então... – começou completamente sem jeito e sem me encarar. – Como está a baixinha?
Soltei um pequeno riso e ele ficou mais vermelho ainda com isso.
– Ela está bem. Mas agora que Rogue vai começar um estágio na editora do próprio pai – Gajeel fechou a cara ao ouvir seu nome. – Levy fica dizendo coisas do tipo “agora ele não vai ter mais tanto tempo pra mim...” Afinal, mesmo com ela trabalhando naquela livraria, Rogue é um cliente assíduo de lá.
Gajeel estava claramente desconfortável com isso, mas tentava disfarçar, com expressões indiferentes e não olhando diretamente nos meus olhos.
– Mas então, Gajeel... – comecei com um olhar malicioso e ele engoliu em seco. – Quem é a garota que você está saindo?
Gajeel engasgou com a pergunta e eu ri alto com isso.
– QUEM DISSE QUE EU ESTOU SAINDO COM ALGUÉM?!
O bar inteiro parou o que estava fazendo para olhar para Gajeel e eu caí numa risada escandalosa quando seu rosto se tingiu de vermelho.
– Estão olhando o que?! Não tem mais o que fazer?! – gritou para o bar e imediatamente as pessoas voltaram a suas rodas de conversa e um ou outro olhava com o canto dos olhos murando coisas do tipo “coisa de louco”. – De onde você tirou isso? – perguntou agora mais baixo, mas claramente envergonhado.
– Joguei verde. – disse simplesmente e ele me encarou chocado. – Só presumi pela mensagem que recebeu ontem e você caiu direitinho. – ele ainda me olhava abismado. – E então, quem é?
Gajeel suspirou, se dando por vencido.
– Uma garota de letras. Talvez eu a apresente pra você se as coisas ficarem sérias algum dia.
Pelo tom te sua voz, ele não sentia nada de especial por ela, pelo menos nada forte. Gajeel ainda gostava de Levy, mas estava tentando seguir em frente, quem sou eu para julga-lo? Na verdade, eu deveria estar fazendo o mesmo, não? Enfim, me levantei e fui até o balcão pedir mais um suco e quando me virei, me deparei com Natsu e Gray atravessando as portas e brigando, como sempre. Assim que me notaram, Gray acenou e veio em minha direção, enquanto Natsu foi pegar uma mesa. Respirei fundo e andei calmamente até a mesa onde estava Gajeel e fui seguida por Gray.
– Como é que você tá, Lucy? Fala Gajeel. – Gray se apoiou na mesa.
– E aí? — Bem, dentro do possível. E vo-
– Nat-kun! – Lisanna entrou correndo no bar, chamando a atenção de algumas pessoas e se dirigiu imediatamente à mesa de Natsu, puxando uma cadeira e se sentando em frente a ele. Não pude ouvir a conversa, mas ela falava rápido e animadamente enquanto ele sorria de leve e concordava com a cabeça.
Gray conversou conosco por alguns minutos, contou como o dia foi uma loucura na universidade e me deu algum apoio. Enquanto Gajeel e Gray falavam sobre alguma coisa qualquer, fiquei com uma vontade louca de perguntar sobre ele e Juvia, mas então lembrei que eles não me viram e que Gajeel me puxou para longe, então me segurei. Por um segundo olhei para o lado e me deparei com Natsu me encarando enquanto Lisanna falava, mas o contato visual durou apenas um segundo e logo ele voltou a dar atenção para a albina. Meu coração palpitou mais forte e isso foi um sinal de que eu deveria ir embora, sabia que meu coração aceleraria mais ainda se eu o pegasse me encarando de novo, então me despedi dos rapazes e me dirigi ao balcão para pagar minha parte da conta.
Ao chegar ao balcão, notei que um rapaz chegou ao mesmo tempo que eu, mas não liguei para isso, até que pedimos a conta ao mesmo tempo e reparei em sua voz.
– Lulu? Não achei que te veria hoje de novo, como está?
– Ah, oi Dan! Estou melhor, obrigada por hoje de manhã, me ajudou muito.
– Não foi nada. E aquele cinema? Está livre hoje?
– Ah, desculpa, vou ter de ficar de babá hoje à noite, sinto muito.
E realmente sentia, eu nunca tinha reparado direito em Dan antes, com aquele jeito psicótico ele era meio assustador, mas quando está agindo como uma pessoa normal, ele se mostra uma pessoa realmente agradável. Estava sendo injusta com ele e queria nos dar uma chance de nos conhecermos melhor.
– Tudo bem. – disse meio triste – Vai querer companhia?
Neste momento senti um par de olhos colando em minhas costas, bem na direção da mesa de Natsu. Foi uma situação desconfortável. Já era um pouco esquisito ter de voltar a tomar conta de Mavis, agora de Wendy também, e acho que Grandine não iria gostar de eu estar sempre levando pessoas pra casa dela. Quero dizer, Natsu sempre estava lá, mas era um convidado de Grandine. E também era estranho cogitar a possibilidade de ter alguém comigo, digo, uma babá que sempre precisa de ajuda? Ok que eu praticamente tomava conta de Natsu também, mas o que eu quero dizer é que isso tudo é muito estranho, ainda mais quando (eu tinha certeza) Natsu estava ouvindo a conversa inteira.
– Nat-kun? Está prestando atenção? – Era a voz de Lisanna. Me desvencilhei de quaisquer pensamentos que pudessem vir à minha cabeça (que convenhamos, já estava bagunçada demais) e me voltei para Dan.
– Er... Obrigada, mas vou ter que recusar. Mas não descarte o cinema, vamos sair algum dia quando a poeira abaixar, ok?
Ele se animou imediatamente e piscou para mim quando terminei de pagar a conta e me dirigi à saída. Tanto os olhos de Natsu quanto de (vejam só) Gajeel não desgrudaram de mim até que eu saísse, e isso foi bem estranho, mas bom, tudo o que eu precisava pensar agora era na noite que eu teria pela frente.
[…]
Era estranho estar em casa sem meu pai. Normalmente ele estava lendo o jornal na cozinha com uma xícara de café, ou assistindo algum documentário na TV ou até mesmo queimando alguma coisa na cozinha na tentativa de cozinhar. O barulho das chaves tilintando enquanto eu destrancava a porta era o único som do ambiente, o que me deu um leve aperto no coração ao abrir a porta e olhar uma última vez para a poltrona de meu pai antes de sair de casa. Meus olhos já estavam aguando, e quis que tudo isso acabasse logo para que eu e meu pai possamos finalmente viver em paz. Quis voltar a traz, jogar a mochila em um canto qualquer da casa e dormir o resto da noite, mas não podia me deixar abater agora. Grandine precisava de mim, assim como Mavis e Wendy.
Respirei fundo, engolindo o choro e tranquei a porta, teria que estar bem para passar a noite com as meninas.
Antes de sair do prédio, notei um movimento estranho na rua pelas portas de vidro, a rua estava mais movimentada do que o normal. Respirei fundo mais uma vez e atravessei as portas, pronta para ser babá novamente, mas um homem apontou para mim, chamando a atenção das pessoas que passavam por lá.
– Olhem lá, é Lucy Heartphilia!
Imediatamente as pessoas começaram a correr na minha direção, alguns pegando seus celulares, outros com câmeras e uma mulher pulou no meio das pessoas com um microfone, seguido de um homem carregando uma câmera profissional. As pessoas falavam todas ao mesmo tempo e iam cada vez mais me encurralando na entrada do prédio.
– Ei Lucy, foi mesmo seu pai quem matou Daphne Blake?!
– Lucy, como se sente sendo filha de um assassino?!
– O que vai acontecer contigo agora que seu pai está preso?!
Tentei falar alguma coisa, mas fui cortada logo em seguida por mais e mais perguntas.
– Jude Heartphilia é um perigo para a sociedade! Por que este homem não foi executado!?
– Que enrolação é essa no tribunal? Aquele homem deveria apodrecer atrás das grades!
– Você deve ser farinha do mesmo saco!
As pessoas não paravam de falar e não me davam chance para me defender, me lançando aqueles olhares acusatórios e intrigados, alguns flashes me cegaram, meu coração estava acelerado, eu estava me encolhendo cada vez mais contra a parede, um nó se formou em minha garganta e as lágrimas já estavam aparecendo, aquilo era demais para mim, eu só queria um pouco de paz!
– Parem, por favor. — minha voz saiu tremida e em um fio, tenho certeza de que ninguém me ouviu. As pessoas só falavam mais e mais, me encurralando cada vez mais, fazendo com que a primeira lágrima escorresse em meu rosto.
Um homem irrompeu a barreira que me cercava, empurrando as pessoas e me abraçou logo em seguida, me escondendo dos olhares inquisidores. Reclamações surgiram de todas as partes, dizendo que ele não deveria me defender pois eu era filha de um assassino e poderia muito bem estar envolvida de alguma forma com o caso. Nunca ouvi algo tão absurdo e isso só fez meu choro aumentar.
O homem então começou a gritar raivoso com as pessoas, mas não entendi o que ele disse, eu me sentia surda no momento, alheia ao que acontecia a minha volta, como se o mundo girasse mais devagar. Somente voltei a mim quando a barreira começou a se dispersar, ainda com pessoas lançando olhares cruéis.
– Você está bem?
Até então eu não havia olhado para o homem que me resgatou, e quando olhei para seu rosto, seu polegar se estendeu para meu rosto, enxugando as lágrimas que ainda restavam. Num impulso o abracei com força e sorri, e naquele momento me senti realmente bem, protegida.
– Obrigada Gildarts! Obrigada! — minha voz saiu embargada, mas não liguei para isso.
Enterrei meu rosto em seu ombro e chorei mais um pouco. Eu precisava disso. Gildarts se assustou por um momento, mas não demorou para retribuir o abraço e logo me fazer um cafuné.
– Eu não vou deixar nada ruim te acontecer, eu sempre estarei por perto para te proteger.
Ficamos abraçados por mais alguns momentos, ou foram minutos? Bom, não importa quanto tempo se passou, realmente não me importava com isso, desde que essa confusão toda começou, eu finalmente fui capaz de me sentir bem de novo, graças a Gildarts.
[…]
Gildarts me deu uma carona até a casa das Marvel e se ofereceu para me levar para casa quando terminasse, pois ele traria Grandine para casa e eu poderia aproveitar a carona. Sentindo ainda os efeitos da situação de agora a pouco, aceitei sem hesitar. Ele pediu para eu chamar Grandine pois ele a levaria até o escritório. Questionei o motivo de ela não poder fazer isso em casa e ele me disse que era material demais para carregar de um lado para o outro. Ele e sua equipe estariam em contato direto com Grandine e com a promotoria durante a noite.
Abri a porta da frente e me deparei com Mavis segurando Charlie enquanto Wendy amarrava um laço de fita em sua calda. Grandine dava uma ajeitada nos cabelos azuis claros em frente ao espelho. A TV estava ligada em um canal aleatório e com um volume razoavelmente alto, portanto, somente quando fechei a porta as três direcionaram sua atenção para mim.
– Tia Lucy!
– Lucy-san!
As garotinhas correram até mim e me abraçaram ao mesmo tempo e eu as abracei de volta. Só então notei que Wendy era alguns centímetros mais alta que Mavis.
– Lucy! Chegou cedo. — Grandine pegou a bolsa do sofá e veio em minha direção. — Vai ser uma longa noite, mas bom, se precisar de qualquer coisa, você tem meu celular. Obrigada mesmo por ter aceitado, você é um anjo!
– É o mínimo que eu poderia fazer por estar ajudando meu pai, e por falar nisso, Gildarts está te esperando.
– Ah claro! — se apressou em direção à porta. — Se comportem, meninas! Tenham uma boa noite.
Enfim, estávamos apenas nós três. Esperei em silêncio a primeira pegadinha, algum impacto ou barulho, mas nada disso veio, apenas o silêncio. Olhei então para elas e elas me olhavam com compaixão. Elas me convidaram para me juntar a elas no sofá e assim o fiz.
– Sinto muito pelo seu pai. — Wendy começou.
– Vai ficar tudo bem, pode ter certeza, tia Lucy! Grandine é a melhor! — Mavis continuou com entusiasmo crescente.
– Você não perde mesmo o costume de me chamar de tia, hein? Hehe. — minha voz saiu mais fina que o normal e com uma gota na cabeça.
– Combina com você. — Ok, acho que me ofendi com isso, mas preferi deixar pra lá e abracei as duas, agradecendo de verdade pelo apoio. É bom ouvir palavras de apoio depois de tantos olhares acusatórios.
Wendy e Mavis começaram então a me contar várias histórias, como alguns momentos de Wendy na Rússia ou traquinagens na escola. Algumas confusões que as duas aprontaram juntas, e outras que incluíam suas amigas, Zeira e Chelia. Enfim, nada mudou muito dentro desses dois anos, a energia e o espírito arteiro de Mavis continuavam os mesmos, mas agora ela parecia mais feliz, com a presença da irmã.
– Ei, que tal um brigadeiro? — Mavis levantou com tudo do sofá com estrelas nos olhos.
– Ótima ideia! — Wendy bateu palmas enquanto pulava no sofá e as duas correram animadamente para a cozinha.
Ri com a empolgação delas e me levantei para me juntar à provável bagunça que as duas fariam na cozinha, mas na metade do caminho, a campainha tocou. Ué, elas estavam esperando visita?
– Eu atendo! — avisei e me dirigi à porta.
Quando atendi a porta, uma expressão surpresa tomou conta de meu rosto, assim como o da pessoa do outro lado.
– Natsu?!
– Lucy!?
Mavis e Wendy colocaram suas cabeças para fora da cozinha, se apoiando no batente da porta tentando espionar.
Tão rápida quanto veio, a surpresa se foi, seu rosto adquiriu uma expressão normal agora e olhou para dentro da casa por cima do meu ombro, como se tentasse ignorar a minha presença em sua frente. Era meio estranho estar cara a cara com ele, considerando seu comportamento de hoje mais cedo, tanto na faculdade, quando ele parecia realmente preocupado comigo, em contraste com seu comportamento no bar, como se eu nem existisse, e também tinha a curiosidade sobre essa repentina amizade com Lisanna, mas então se voltou para mim.
– Grandine já saiu?
– Faz uns vinte minutos, por que?
Ele então estendeu uma pasta preta para mim.
– Ela esqueceu isso no carro de Igneel. Achei melhor entregar para ela antes que aquele tarado revire tudo e abrace isso aqui. — fez uma cara de nojo e eu ri com isso. — Poderia entregar para ela?
– Claro.
Já estava para agradecer e me despedir, mas Mavis escancarou a porta e pulou em seus braços.
– Tio Natsu!
– E aí, baixinha?
– Quer entrar, Natsu-san?
– Na verdade, eu já estava de saída, Wendy.
– Ah, fica um pouco! — Mavis insistiu. — Estamos fazendo brigadeiro!
Natsu olhou para mim curioso, mais como se pedisse uma permissão ou perguntasse o que deveria fazer, apenas dei de ombros e disse que era obra delas.
– Então eu fico.
– Eba!
As duas nos puxaram para dentro de casa, batendo a porta e correram para a cozinha, nos largando na sala, com uma ordem de “esperem aí”. Por fim, ficamos sozinhos e um silêncio ensurdecedor se instalou naquela sala. Eram tantas coisas para se conversar, tantas coisas para se perguntar, tanto do meu lado quanto do dele, mas nenhum de nós tinha coragem de iniciar isso.
Para tentar ignorar este clima estranho que havia se formado, decidi olhar para as meninas e ver a baderna que faziam na cozinha. Wendy cozinhava enquanto Mavis despejava MUITO chocolate na panela, as duas riam e vez ou outra se lambuzavam com o chocolate. Era algo realmente fofo de se ver.
– Elas são mesmo uns anjos quando não estão com o capeta incorporado, não é? — Natsu comentou, também encarando as duas com um sorriso.
Apenas concordei com a cabeça e voltei a olhar para elas. Então ele voltou a falar.
– Foi cruel separar as duas, elas são assim desde que se conheceram, mas Mavis entendia que o sonho de Wendy era ser bailarina, por isso aceitou que ela fosse.
– Você acompanhou isso?
– Oh sim, eu estava junto no dia em que Mavis foi adotada, Grandine pediu que Igneel a ajudasse com a mudança de Mavis já que o carro dela havia quebrado, fomos apresentados como praticamente da família.
Me distraí por alguns instantes com Natsu olhando para uma foto dos três. Sempre quis saber a história por trás daquela foto, mas acho que já estava meio que explicada. Pode não haver nada entre Igneel e Grandine (pelo menos por parte de Grandine), mas eles definitivamente eram uma família. Também haviam fotos das meninas com Levy, em que Natsu também aparecia, isso também já estava explicado. Um grito de Mavis e Wendy veio da cozinha e meu coração falhou uma batida. Não era um grito de alegria ou surpresa, e sim de susto e desespero. Imediatamente eu e Natsu corremos para a cozinha e nos deparamos com duas meninas desesperadas e um pano de prato em chamas no fogão.
Corri para a panela onde o pano estava enroscado e Natsu correu para a pia. As meninas se atropelavam enquanto balbuciavam explicações e estava difícil de entender o que diziam, mas o que consegui captar era que o cabo estava quente demais e que usaram um pano de prato para tirar a panela do fogo e o pano passou por cima do fogo e começou a pegar fogo.
No desespero, não sei por que, mas tudo o que me passou pela cabeça era correr para fora de casa e apagar o fogo por lá, sem que ficasse alguma “prova de crime” dentro de casa, tentei desenroscar o pano da panela e levar para longe de qualquer coisa que fosse inflamável, enquanto as meninas gritavam e Natsu fazia sei lá o que, eu só conseguia me perguntar onde estava o bendito extintor neste momento, mas então tudo aconteceu rápido demais.
– CUIDADO!
SPLASH!
Não deu outra, quando dei por mim, eu estava caída no chão encharcada, com um pano de prato carbonizado e as cinzas molhadas espalhadas pelo chão e uma panela milagrosamente inteira e seca na mão. Pisquei algumas vezes tentando entender o que havia acontecido e vi Natsu e Mavis com potes de água (agora vazios) na mão, me encarando atônitos. Todos ficaram paralisados por alguns instantes, até que Mavis começou a rir escandalosamente, chegando a cair no chão e se contorcer enquanto ri. Natsu e Wendy então se juntaram a ela, mas não com tanta intensidade e eu continuei com cara de boba no chão, encharcada.
– Posso saber qual é a graça?! — me levantei, me segurando em tudo para não escorregar, com o sangue começando a ferver. É POR ISSO QUE ODEIO LIDAR COM FOGO, EU SEMPRE ACABO ME FERRANDO POR ISSO!
– Você se matou aí no chão – Mavis disse em meio a risadas. — Mas a panela ficou inteirinha! O brigadeiro é realmente o mais importante! — e voltou a dar gargalhadas escandalosas.
Essa pestinha acabou de me chamar de gulosa?!
– MAAAAAAVIS!!!
Tentei correr atrás da pestinha, mas logo escorreguei e fui de cara no chão, novamente não deixando nada acontecer com a panela e seu conteúdo, o que arrancou mais risadas de Natsu, Mavis e Wendy, como se eu realmente priorizasse o doce ao meu bem estar. Droga!
Natsu então veio até mim e tirou a panela de minha mão, mas me deixou jogada no chão, completamente esquecida enquanto ia em direção a mesa, e com uma colher, provava o brigadeiro. Sério isso?
– Pelo menos ainda está bom! Quem quer?
Mavis e Wendy levantaram a mão, e eu, mesmo me odiando por isso, também levantei. Natsu veio até mim e finalmente, mesmo que rindo um pouco, me ajudou a levantar. Mas isso não foi de graça, quando eu já estava de pé e desavisada, ele espalhou uma quantidade considerável de chocolate em meu rosto. Mavis e Wendy ficaram estáticas com esta atitude e me encaravam apenas esperando uma reação.
Ainda olhando para ele indignada enquanto o mesmo se acabava de rir, levemente me aproximei da panela e peguei um pouco do conteúdo, esfregando também em sua cara. Ele me encarou bobo, e começamos uma guerrinha idiota de chocolate, lambuzando completamente nossos rostos e cabelo. Espero que não seja eu quem tenha que limpar isso tudo depois.
Mavis assistia tudo com um sorriso bobo no rosto, e Wendy nos olhava com um olhar diferente, como quem está tramando alguma coisa. Enquanto ora eu estava por cima de Natsu, esfregando chocolate em sua cara, ora ele estava por cima de mim esfregando chocolate em meu cabelo, Wendy começou a cantarolar uma música.
– Popadu ja, streloj Amura, Otkroju dlja tebja ljubvi sekret.*
Só então percebemos o que estávamos fazendo e nos afastamos imediatamente, com rostos corados e envergonhados. Que diabos foi isso que acabou de acontecer?!
– Ei Wendy! — Natsu chamou tentando desviar o assunto. — Que diabos era isso que você estava cantando?!
Foi então que me bateu essa curiosidade. Ela cantou em russo! O que será que isso quer dizer?
– Nada, nada! — ela nos deu um sorriso malicioso e deixou o recinto, puxando a irmã para fora, que também soltava risinhos maliciosos. QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! É sério que meu primeiro dia de volta ao serviço de babá vai ser assim?!
O mais estranho de tudo, é que mesmo com dois anos se passando, e agora com o adicional da irmã mais velha de Mavis, nada mudou de verdade, quando Mavis começa com esse riso brincalhão, tudo volta a ser como antes, as trapalhadas, as dores de cabeça e os sorrisos no final de tudo. Era como "estar em casa" de novo.
– WEEEENDY!
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