Duas Moedas
3 Capítulo 3
No corredor, Natan foi recepcionado por outro médico loiro. Os dois se afastaram e Levi ficou perto dos pais do pediatra, trêmulo e segurando a vontade de chorar. A expressão carregada de ambos os médicos não devia significar boa coisa quando se aproximaram finalmente.
O pediatra se aproximou e encarou o moreno. Os olhos vermelhos arregalados o fizeram se encolher por dentro, mas suprimiu o pânico.
— Levi... preciso de sua autorização para a cirurgia agora. – disse, tentando soar o mais profissional que podia naquela circunstância.
— Mas os exames... não terminaram os exames... – o outro murmurou, à beira do desespero.
Natan o segurou pelo braço, afetado pela dor do outro.
— Não dá mais tempo e preciso agora de sua autorização. – rebateu, sério.
Levi olhou para ele, confuso e perdido. Lucas puxou o pai pela mão e olhou de um para o outro, quase chorando também.
— Pai, é o doutor... deixa vai... – falou, se esforçando para se controlar.
— Tá...
Natan fez um gesto para o outro médico, que estendeu a prancheta que estava em sua mão. Levi o segurou pela camisa, chamando sua atenção.
— Por favor, Natan... por favor... não deixa meu filho morrer... – pediu, angustiado.
O pediatra encarou o outro com um peso no peito.
— Levi... – murmurou, sentindo impotente por não poder prometer – Vamos fazer o melhor que pudermos... eu vou fazer o meu melhor. É só o que posso prometer...
O moreno sorriu, apesar da tensão.
— É bom o bastante para mim.
Ambos se separaram e o médico andou até o meio do corredor, para então voltar, tirar a correntinha do pescoço e a colocar no do moreno. Quando Levi baixou o rosto para ver o pingente, o médico segurou seu rosto e beijou-lhe a testa com carinho.
Assim que passou pelos pais para ir à sala de cirurgia, encarou a mãe com intensidade.
— Cuida deles para mim?
Ela franziu a testa pelo esforço de não chorar e sorriu. – Claro, filho!
Na porta do corredor, o pediatra se virou e encarou o garotinho, agarrado à mão do pai, e sorriu. Lucas sorriu de volta e relaxou visivelmente.
Natan atravessou a porta, dessa vez sem olhar para trás.
O pequeno fez o pai se sentar e pegou água, depois de ele assinar a autorização e observar o atendente sair com os olhos cheios de desespero. A senhora Livorno suspeitou que o moreno nem percebeu quando bebeu, mas não disse nada. Ambos sentaram-se lado a lado e os pais do pediatra ficaram por perto. Ela viu a força que o moreno estava usando para apertar o pingente, sem nem perceber e discretamente, pegou no braço do marido e indicou com o olhar. Depois, ambos trocaram um olhar preocupado.
****
As horas passaram lentamente e um jovem amigo de Levi apareceu, depois de um telefonema para o hospital. Maurício estranhou a presença dos pais do pediatra, mas não pediu nenhuma explicação. André também foi até lá e teve trabalho para conseguir que ambos comessem alguma coisa, mas conseguiu apenas com o garotinho.
Com o coração pesado, se afastou e parou, olhando para os dois sentados juntos, respirou fundo
— Um pai como ele é difícil ver...
Maurício encarou o médico e sorriu de leve.
— Ele é louco pelos filhos. – concordou, baixinho – Vai ser uma grande perda se Leo não conseguir... Não quero nem pensar...
— E a mãe das crianças, onde está? – o psiquiatra perguntou depois de algum tempo, sem conseguir conter a curiosidade.
O outro jovem se remexeu, inquieto.
— Ela é muito desnaturada e não devia ter sido mãe, mas achou que era uma boa prender Levi e destruir a vida dele. – o rancor podia ser facilmente sentido na voz seca – Mulherzinha a toa...
André ergueu uma sobrancelha e o outro pareceu perceber o que disse. Ele encolheu os ombros e se apresentou formalmente.
— Maurício. – murmurou, estendendo a mão.
— André. – o psiquiatra respondeu, com um sorriso.
Nenhum dos dois voltou a tocar no assunto e Maurício se xingou mentalmente por não ter controlado a própria língua. Tudo bem que a mulher era um pesadelo, mas isso não era da conta de ninguém.
Lucas não aceitou deixar o pai sozinho. Cansado, deitou-se nos bancos e colocou a cabeça no colo do moreno, que acariciou seu cabelo até que dormisse. Olhando os dois, Glória sentiu o peito apertar e segurou com força a mão do marido. O genro apareceu no começo da noite e trouxe os dois garotos para verem a mãe.
— Nada até agora? – ele perguntou baixo para a esposa, notando a tensão no corredor.
— Nada. E Levi ainda pediu a ele que não deixasse o filho morrer... – a voz dela falhou.
O marido a encarou com gravidade.
— Natan não precisava de mais essa pressão... e ainda mais vindo dele, que parece ter se tornado importante.
Lívia olhou do marido para o homem, sentado do outro lado do corredor.
— Não o culpo... se fosse um dos meninos... – ela parou, pálida – Acho que faria a mesma coisa.
Tensa, apertou os dois, um em cada braço. Jaime, o mais velho, protestou um pouco.
— Acho que devia ir para casa ficar com eles. – Armando ofereceu, preocupado – Eu fico e ligo quando sair alguma notícia.
— Não vou conseguir relaxar...
— Sei que não, mas os garotos estão cansados e estavam preocupados com Lucas, mas está claro que ele não vai deixar o pai. – o homem inclinou a cabeça e encarou o garotinho dormindo no colo do pai.
Lívia não discutiu mais e pegou a chave do carro, indecisa. Por fim, sorriu e se despediu rapidamente dos pais e de Maurício. Levi também se despediu, mas ela teve certeza de que ele não se lembraria disso dois segundos depois. Armando foi para o corredor perto dos sogros. Glória sorriu para ele, apesar de exausta.
— Não seria melhor a senhora tentar descansar um pouco? – ele perguntou, preocupado.
— Não acho que consiga. Meu Deus, eu os conheci hoje e já me sinto partida ao meio... – a voz dela tremeu e baixou.
André reapareceu no meio da madrugada, tentando levar Lucas para descansar. Levi, muito abatido, olhou do psicólogo para o filho caindo de sono, mas irredutível e então, o olhar exausto caiu sobre os três do outro lado do corredor.
— Filho, porque não vai com a vovó dormir um pouco? – ele virou o garotinho em seu colo e indicou Glória com a cabeça – Ela está cansada, está vendo?
— Vovó... – Lucas murmurou, erguendo os braços finalmente.
Glória esqueceu o cansaço e se ergueu, atravessando o corredor. Pegou o garotinho nos braços e o aninhou, apertando-o levemente.
— Desculpe por isso... – Levi murmurou, se levantando.
— Não! – ela rebateu, deitando a cabeça de Lucas no ombro – Eu teria feito antes, se achasse que ele viria comigo. Estaremos lá em cima, no quarto de acompanhantes.
— Quero ficar... – Lucas rebateu, erguendo a cabeça – Eu cuido do papai...
Fingindo uma coragem que não sentia, Levi acariciou o cabelo escuro do filho.
— Tudo bem... vá com a vovó e descanse muito... para poder cuidar de mim depois.
— E Léo? Ele vai sair? – o olhar de Lucas foi para a porta – O doutor vai trazer ele?
Levi sorriu corajosamente.
— Ele vai ficar bem, mas ainda não vai sair... temos que esperar... – respondeu, baixinho.
— Ok.
Glória sorriu para Levi e levou o garotinho nos braços, ao lado de André. Otávio e Armando se aproximaram e Maurício se sentou ao lado de Levi, segurando sua mão.
A manhã já estava chegando quando finalmente a porta se abriu e Natan, com a expressão exausta, saiu. Levi deu um pulo da cadeira, mas não se aproximou. O médico parou a dois passos dele.
— Léo resistiu à cirurgia e está lutando. – diante do sorriso aliviado, sentiu-se um pouquinho mais leve – As próximas vinte e quatro horas serão muito importantes para a recuperação, então vou ficar aqui com ele.
Levi não conseguiu dizer nada, esgotado, apenas concordou com a cabeça.
— Quero que vá com meus pais para casa. Quero que descanse... – franziu a testa ao olhar as pessoas no corredor – Onde está Lucas?
— Com sua mãe no quarto de acompanhantes. – Otávio respondeu, visivelmente aliviado.
— Leve-os, por favor, pai.
— Eu quero ficar... – Levi protestou, olhando de um para outro.
— Não. – a voz do médico soou mais firme – Não vai poder vê-lo e apenas se cansará e ficará mais tenso. Além disso, precisam de um descanso e não estou brincando. Não quero Lucas mais preocupado e mais tenso do que já está.
Levi ainda hesitava. — Mas...
— Por favor... – o tom de voz de Natan desmentiu o pedido – Não posso me preocupar com vocês dois aqui e com Léo lá dentro! Faça o que estou pedindo...
O historiador piscou, surpreso e então, suspirou.
— Está bem... mas posso voltar mais tarde? – pediu, a voz bem baixa.
— Eu ligo.
Apesar de claramente não estar de acordo, Levi encolheu os ombros e seguiu Otávio. Trocaram uma despedida rápida e quando o grupo já estava no meio do corredor, o médico franziu a testa.
— Quem é o cara?
Armando seguiu seu olhar e elevou uma sobrancelha.
— Maurício... um amigo eu acho. Ele estava conversando com André mais cedo... – respondeu, com um suspiro – Agora que estamos só nós... como está realmente a situação?
Natan encarou o cunhado.
— Nada bem. Léo é pequeno demais e a cirurgia foi muito invasiva... – o médico se sentou e passou a mão pelo cabelo, tenso e exausto.
— Ele tem alguma chance? – diante do olhar, encolheu os ombros – Quero dizer, uma chance real?
— Não pensei num percentual, Armando. Não posso me permitir isso... – respondeu, evasivo.
— Mas numa escala de zero a dez, quais as chances do bebê? – o cunhado insistiu – Eu tenho que saber, e também Otávio... temos que estar preparados para tudo a essa altura.
— Dois.
Armando levou um tempo para conseguir entender a resposta e então, empalideceu.
— Meu Deus!
Natan suspirou e apoiou a cabeça na parede atrás dele.
— Uma boa hora para termos um milagre.
O homem olhou o cunhado de olhos fechados. As linhas de expressão fundas e o rosto, pálido.
— Milagre Deus faz, graça Ele concede. Acho que Ele já nos concedeu a graça de você estar lá para Léo e agora, só temos que esperar pelo milagre. Tenho fé...
Natan se desencostou da parede e encarou Armando, que sorriu e deu um soco de leve no ombro do médico.
— Tenho que crer nisso com todas as minhas forças. A opção é um pesadelo e eu não quero sequer considerar. – respirou fundo e se levantou – Além disso, temos uma casa cheia de pessoas adoráveis que precisam que aconteça. Vou garantir que nenhum deles volte para cá antes de você ligar.
Natan observou o cunhado sair e respirou fundo. Se levantou e voltou para o centro cirúrgico e observou Léo na incubadora, cheio de tubos e fios. O bebê quase não podia ser visto debaixo de todo aquele equipamento, então o médico puxou uma mesinha e conferiu os instrumentos de emergência.
Do outro lado do vidro, André encarou o médico com a testa franzida. Marcelo se aproximou já com a roupa trocada.
— Nunca o vi assim... – o psicólogo murmurou, preocupado.
— Devia tê-lo visto na sala de cirurgia... – o pediatra rebateu, sombrio – Parecia uma máquina.
André se virou e encarou o outro, confuso.
— Ele sempre pareceu uma máquina na cirurgia!
— Mas não como hoje. Não sei... essa família mexeu com algo dentro dele. – voltou a observar o amigo do outro lado do vidro.
— Isso é bom ou ruim? – o psicólogo perguntou, baixinho.
Marcelo não respondeu, limitando-se a observar o outro. André desistiu da pergunta e depois de alguns minutos, puxou o outro levemente.
— Vem, vamos embora.
Sentando-se na cadeira ao lado da incubadora, Natan calçou uma luva e cuidadosamente, introduziu a mão e segurou a minúscula mão do bebê entre seus dedos.
— Agora seremos os dois esperando o milagre chegar, ok? Eu não vou te soltar, Leonardo. – Natan sussurrou – Está sentindo? – apertou os dedos de leve – Esse sou eu... leve o tempo que precisar.... estou aqui.
**********
Maurício observou Otávio deixar uma bandeja sobre a mesinha e se despedir. Levi se deixou cair sobre o sofá confortável e fechou os olhos, abraçando uma almofada.
— São pessoas muito legais. – levantando-se e servindo um prato com frios, aproximou-se do sofá – Sente-se e tente comer algo. Depois, um banho e cama.
Levi se sentou e olhou o prato, sem vontade.
— Não estou com fome... – murmurou.
— Sei que não está, mas enfrentou uma maratona e tanto. Primeiro veio para uma visita, depois para o hospital e Glória me contou que só lancharam... – sentou-se ao lado do amigo e o instou a pegar algo do prato.
O historiador pegou um rolinho e mordeu, olhando-o com estranheza.
— Sabe quanto tempo não como presunto? – perguntou, distraído – E quanto tempo não vejo variedade de comida e bebida? – indicou a bandeja com a cabeça – Sabia que Lucas está à beira da estafa? – diante do olhar espantado, encolheu os ombros e continuou comendo – Uma criança de cinco anos à beira de estafa, desnutrida...
— Não é culpa sua. – Maurício afirmou, sensato.
— Sei que não é, mas não consigo deixar de pensar que se me esforçasse mais.... se fosse mais ambicioso ou talvez...
— Levi, pára com isso! – o outro protestou, sério – Você faz o que pode! E é mais do que a maioria sequer tenta!
Depois de alguns minutos de silêncio, Levi tomou um copo grande de suco gelado e respirou fundo.
— Otávio me ofereceu um emprego na biblioteca dele e esse chalé para morar de graça... – olhou em volta e então para o amigo – Ontem eu estava desempregado, morando num quarto horrível, com um filho no hospital e outro trabalhando para me ajudar... isso com cinco anos... e hoje... – levantou-se, balançando a cabeça – Meu filho foi operado de graça, consegui emprego e lugar para morar... comida boa e gente que se importa...
Maurício se levantou e encarou o amigo com a expressão séria.
— Levi, se alguém merece um milagre, que é o que está acontecendo, é você. – segurou o braço do amigo – Você, de todas as pessoas, cara! Podemos ficar atentos e todo o resto, mas eu acho que quando aparece uma oportunidade assim, tem que aceitar! Aproveita para descansar, tanto você quanto o Lucas!
— Quando a esmola é muita...
O jovem fez um gesto exasperado, calando Levi.
— Você ficou amargo e desconfiado depois da Isabela. – o historiador recuou, pálido e Maurício o encarou – Em tudo e todos você vê segundas intenções e coisas ruins... perdeu a fé na humanidade e acho que até em Deus... mas ela não merece isso tudo, Levi.
O historiador se sentou e encarou as mãos.
— Nem todo mundo mente o tempo todo. Nem todo mundo tem segundas intenções ao fazer alguma coisa, mas também não existe ninguém totalmente bom no mundo. Eu sinceramente não acho que a história do pagamento da cirurgia seja mentira, só não entendi ainda como aconteceu. – Maurício se sentou de frente a Levi e o forçou a olhá-lo – De repente, Glória e Otávio querem apenas ajudar mesmo, sem nenhum tipo de intenção oculta, mas isso não faz deles santos. Só pessoas normais fazendo uma coisa boa.
— Porque para mim? – a pergunta veio num sopro.
— Aquele médico se preocupa com você, e também com seus filhos. Lucas fez algo que o tocou de alguma forma, só não sabemos ainda qual e não vou pensar nada de ruim sem algum tipo de prova... – Maurício largou Levi e pegou o prato abandonado sobre a mesinha.
Serviu-se generosamente e sentou-se, concentrando-se em comer. Levi o observou por alguns minutos.
— Fiquei cínico e pesado. – constatou, triste.
Maurício ergueu a cabeça e o encarou, mas não disse nada. O historiador respirou fundo.
— Preciso sair disso... só não sei como...
— Parece que essa família veio para forçar você a encontrar um jeito, ou então desistir de vez.
Os amigos se entreolharam e depois de terminar de comer, Maurício se ergueu. O chalé era pequeno e quadrado, e a cozinha, bem pequena mas funcional. O que sobrou na bandeja foi para a pequena geladeira. O jovem se inclinou e a ligou na tomada.
— Não sei se podia fazer isso... – Levi murmurou atrás dele.
— Você vai ficar aqui se aceitar o trabalho, então deve poder. Se resolver que não pode e é uma armadilha, é só a gente desligar e limpar.
Maurício sorriu e se desviou do historiador, indo para o minúsculo corredor. De um lado o quarto com a enorme cama onde Lucas estava dormindo e do outro, um quarto menos e o banheiro.
— Um belo lugar... bem diferente de onde estava morando. A madeira deixa o lugar bem fresquinho... – o sorriso se alargou – E o bom é que vem já decorado...
— Claro que vou ter que pagar o que estragar... – Levi comentou, olhando a luz do sol no chão perto da janela enorme da sala.
Maurício suspirou, desanimado.
— Quer saber? Eu vou embora e você dorme um pouco... – balançou a cabeça e se dirigiu para a porta – De tarde eu ligo para saber do Léo.
— Ficou com raiva...
— Não. É que não gosto desse você que tenho que encarar às vezes. – parou e abriu a porta, com um grande suspiro – Sinto falta do cara leve e divertido que foi um dia...
Sem mais despedidas, Maurício saiu e Levi o observou atravessar o caminho de pedras. A manhã já estava alta e o sol, quente e convidativo. O historiador ficou parado na porta por algum tempo e então, entrou e deitou-se com o filho.
Não demorou nem quinze minutos para adormecer profundamente.
*********
Já passava do meio da tarde quando Lucas acordou o pai. Por um minuto ou dois, o historiador não soube onde estava e então, sacudiu a cabeça com força. O garoto, sentado perto dele, baixou a cabeça.
— Podemos comer? – perguntou, baixinho.
Levi o encarou e seu coração se apertou. Lucas quase nunca pedia comida, como se soubesse que algumas vezes, não havia nada. Fechou os olhos com força e então, lembrou-se das sobras.
— Claro! Tem lanche...
Saltou da cama e correu para a cozinha. As sobras de pão estavam sobre a bandeja, cobertas com o guardanapo e na geladeira, suco, frutas e frios. Aliviado, montou um lanche farto para o filho.
— O senhor não vai comer? – perguntou, desconfiado.
— Claro que vou... Vamos dividir?
Observou com um sorriso o filho comer com vontade.
— Vamos ver o Léo? – ele perguntou, depois de um tempo.
Levi respirou fundo.
— Apesar do que Natan disse, quero muito ir para lá... Acha que podemos? – perguntou para o pequeno, franzindo a testa ao ver a mochila em cima do sofá – Mas como...
As roupas que Lucas usou na véspera, durante o jogo, estavam lavadas e junto com as outras que trouxe. O historiador notou um pequeno kit de higiene junto com a mochila, colocado discretamente entre as peças.
— Eles são realmente cuidadosos. – murmurou, agradecido.
Depois de comerem e limparem a cozinha, Levi levou Lucas e o ajudou a escovar os dentes e se trocar de novo.
— Temos que ir para casa... – comentou, olhando o filho secar o rosto numa toalha do tamanho dele – Preciso de um banho e roupas limpas antes de voltar para o hospital.
— Vamos voltar para cá depois?
Sem responder, Levi guiou o filho até o sofá e o sentou.
— O senhor Otávio me ofereceu um emprego aqui na casa dele... – explicou, encarando o garotinho – Na biblioteca... O que acha?
Lucas arregalou os olhos – Aqui nessa casa bonita?
Pela primeira vez em dias, o historiador sorriu.
— Sim. E tem mais, se eu aceitar, vamos morar aqui. – indicou o chalé.
O sorriso enorme do pequeno fez Levi se encolher por dentro.
— No jardim lindo da vovó? Posso ajudar a cuidar? E posso jogar bola com o... os meus amigos de ontem? E posso... – empolgado, Lucas desceu do sofá e começou a pular.
— Calma! – o historiador sorriu mais abertamente para o filho – Eu vou conversar direito com o senhor Otávio e vou combinar tudo quando a gente voltar do hospital, está bem?
Lucas subiu de novo no sofá e se sentou no colo do pai.
— Está bem! Onde estão a vovó e o vovô?
— Devem estar em casa. – o ciúme voltou e Levi engoliu seco para reprimi-lo – Mas antes de tudo temos que voltar para casa...
Apesar da vontade de fugir por algumas horas, assim que deixaram o chalé encontraram com Armando, que não permitiu que voltassem ao apartamento de ônibus. Levi não insistiu muito quando se lembrou que não devia ter o suficiente para a passagem.
— Não é melhor pegar tudo logo de uma vez? – Armando perguntou, sentado no sofá da minúscula sala do apartamento, franzindo a testa diante da pequena mochila na mão de Levi – Sabe que meus sogros não vão deixá-lo fugir...
O historiador o encarou, assustado e Armando sorriu, encolhendo os ombros.
— Eles são estranhos e intensos, mas tem boa intenção. – explicou, calmo – Eles se apaixonaram por você e seu filho e ter alguma ajuda agora é importante, não é?
— Estou meio perdido... – Levi admitiu, sem jeito.
— Também fiquei assim quando os conheci. – sem cerimônia, Armando se sentou e encarou o historiador – Eu estava desempregado quando Lívia me apresentou aos pais e fui sincero sobre isso e dois dias depois, o melhor escritório de engenharia me ligou, seguindo indicação de Otávio. – sorriu de novo — Não foi fácil aceitar e mais ainda para corresponder ao que queriam de mim, mas com meus próprios esforços, consegui. A partir da ajuda que ele me deu.
— Nunca se sentiu pressionado ou... sei lá... – deu de ombros – Tem o fato da cirurgia... Natan e Lucas se conhecerem... é muita coisa acontecendo.
Armando o observava com atenção.
— Acho que não está acostumado a ter ajuda sem ter que dar retorno, Levi. Mas não pense que tudo sairá de graça. Eles no mínimo esperam seu esforço próprio para aproveitar a chance que estão oferecendo e conseguir o melhor que puder para seus filhos.
— Mas é essa a minha intenção! – o historiador protestou, franzindo a testa – É só que...
— Então está resolvido! Pegue todas as suas coisas e eu vou resolver com o proprietário sobre sua mudança. Esses móveis são seus ou do apartamento?
Armando se levantara e já estava na porta quando Levi finalmente entendeu do que ele estava falando.
— Agora? Mas eu nem conversei com o senhor Otávio e tem Leonardo... quero ir para o hospital... e... – parou, olhando em volta.
Lucas estava parado na porta do quarto, olhando para ele.
— Natan ainda não ligou dizendo que podemos ir. Não adianta nada ir e ficar no corredor, imaginando o que está acontecendo. Melhor ficar aqui e providenciar a mudança e outras coisas. Ocupa a cabeça. – sem esperar resposta, Armando sorriu para o garotinho e saiu pela porta.
— Nós vamos para a casa bonita? – Lucas perguntou, olhando da porta para o pai.
— Acho que sim... – parado no meio da sala minúscula, o historiador passou a mão no rosto, sem saber o que fazer – Está tudo indo rápido demais...
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