Notas iniciais
É com pesar que anuncio o penúltimo capítulo dessa fic! Andei meio deprimida (por já estar trabalhando no capítulo final) e por isso demorei um pouco a postar esse capítulo. Estava tão desanimada, para dizer a verdade, que pensei em terminar essa história antes, sem um "ponto final". Mas ler os comentários no AnimeSpirit, onde também posto, e ver que tantas pessoas tem lido aqui, me trouxe alegria e vontade de continuar, sabendo que essa história que escrevi com tanta atenção e carinho, em algum momento, esteve viva também na imaginação de outras pessoas. Apesar de não ter tido nenhum comentário até aqui, a história teve mais de 500 acessos e algumas pessoas favoritaram e outras mais marcaram para acompanhá-la. Só tenho a agradecer a quem tem lido e gostado do meu trabalho. Obrigada pela escolha, boa leitura!

Na manhã do décimo dia, subia apenas um fiapo de fumaça das cinzas amontoadas na lareira. Eu estava agachado bem próximo à fuligem, empurrando ela com o indicador. Realmente não havia restado um único pedaço de madeira e nós teríamos que buscar lá fora.

– Ryuzaki, vista isso. Nós precisamos ir lá fora buscar lenha. — Light me ofereceu o impermeável amarelo que eu havia vestido nele no dia em que chegamos aqui. Me levantei e peguei o impermeável. — Mas o que é isso no seu rosto? Vem, deixa que eu limpo.

Light passou o polegar na língua e depois no meu rosto, esfregando minha bochecha, depois o mesmo dedo deslizou sobre meu lábio inferior. Segurei a mão dele, interrompendo o movimento. Ele pareceu surpreso, Mas vi sua reação quando beijei seus lábios. Ele passou os braços pelo meu pescoço e seus dedos se envolveram entre os cabelos da minha nuca. Ele me puxou contra ele, forçando nossos lábios um contra o outro, provocando um beijo intenso e forte. Depois de alguns segundos ele interrompeu o beijo, talvez para puxar a respiração. Esperei de olhos fechados que ele voltasse a me beijar daquele jeito.

– Ryuzaki?

– Ãhn? O que foi?

– Estou congelando, você não está?

– Ah, sim. É, acho que estou. Por que você não pega o machado e vai na frente, enquanto eu pego alguns mantimentos?

– Certo. — Ele tirou o machado que ficava na parede acima da lareira, preso por duas hastes. — Eu acho melhor não irmos muito longe, essas roupas não são o suficiente para nos manter aquecidos lá fora.

– É, acho que você está certo.

Light estava realmente certo. Mesmo sendo de dia, o frio dificultava nossa respiração e a neve encharcava nossos sapatos e calças. Resolvemos agir nas primeiras árvores da redondeza. Sob minha orientação, Light começou a cortar galhos mais grossos e pesados, onde era mais difícil operar com o machado. Depois era preciso que ele cortasse esses galhos em tiras de madeira que seríamos capazes de carregar. Depois de um tempo, ele limpou um suor que não existia da testa.

– Será que você pode me explicar por que só eu estou fazendo o trabalho pesado?

– Bem, achei que eu seria mais útil na parte estratégica. Além disso, só temos um machado, por isso não posso ajudar muito. Mas aqui, vou te dar esse bolinho como recompensa pelo esforço físico.

– Ah, Ryuzaki! EU NÃO QUERO BOLINHOS! Será que essa madeira toda já não é o suficiente?

– Você não precisa levantar a voz desse jeito. E essa lenha é o suficiente se você quiser voltar aqui amanhã para pegar mais. Nós precisamos alimentar o fogo constantemente com lenha, é bom que tenhamos uma boa quantidade dela lá dentro para que possamos ficar alguns dias sem precisar reabastecer.

– Droga, está certo.

– Ótimo. Vamos continuar.

Enquanto ele continuava cortando galhos maiores, comecei a procurar galhos da grossura de lápis e reuni quantos consegui achar, empilhando todos onde Light trabalhava.

– Imagino que vamos precisar desses aí para começar o fogo, não é? Esses pedaços grossos e molhados por neve não acenderiam tão fácil.

– Isso mesmo. Para conseguir acender fogo nessa madeira molhada, vamos precisar desses gravetos e um pouco do nosso lixo, atear fogo em vários pontos e torcer para que as chamas permaneçam vivas. Assim vamos inserir madeira cada vez mais grossa até que o fogo fique estável.

Trabalhamos pelo que pareceram horas. Precisamos fazer quatro percursos de ida e volta para carregar toda a madeira para dentro. Deu certo. A casa ficou novamente aquecida e nós pudemos respirar aliviados, sem roupa de frio.

Eu estava misturando calda de chocolate e torrões de açúcar no meu sorvete de morango quando Light soltou um urro de dor.

– O que aconteceu?

– Ai, droga, cortei o dedo! — Ele mostrou um corte que não era grande e nem parecia profundo, mas que sangrava bastante. — Tudo por causa dessa porcaria!

Ele jogou na mesa uma peça de xadrez. Era a cabeça de um cavalo esculpida na madeira que, sem contar com a base redonda, devia medir uns cinco centímetros. Era um trabalho realmente impressionante, para quem não tinha nenhum modelo de peça para se basear. A peça estava lixada e ele havia até mesmo talhado com leves cortes a crina, as orelhas, a boca e um olho no cavalo. Provavelmente teria se cortado antes de concluir o segundo olho.

– Ficou muito bom. Não sabia que você sabia fazer esse tipo de coisa.

– Quando não há muito o que fazer, é incrível como somos capazes de descobrir novas habilidades. Ou vai me dizer que você já era perito em acender lareiras? Mas parece que não fui cuidadoso. Pode ficar com ele, se quiser. Vou fazer outra coisa para matar o tempo e lavar isso aqui antes que infeccione.

– É. Na verdade, eu já passei por situações onde precisei fazer fogo com condições nada favoráveis, mas é uma história longa. Acho que vou ficar mesmo com ele, já que é assim. Obrigado.

Depois de lavar o corte com água e sabão e fazer um curativo improvisado com papel insulfilme, Light resolveu matar o tempo organizando suas roupas no guarda-roupas. Até então elas estavam dentro de sua mala, debaixo da cama. Talvez ele tenha perdido as esperanças de que alguém viesse nos buscar em breve. Eu estava sentado na cama comendo uvas com chantilly enquanto assistia Light separar suas roupas por cores. Quando ele abriu meu lado do armário, pareceu se assustar. Será que estava tão bagunçado assim? Ele começou a remexer de um jeito frenético. Ouvi os cabides se chocando conforme suas mãos afastavam um a um. Depois ele abriu a gaveta de baixo e começou a levantar calça por calça, como se tivesse deixado algo bem importante cair lá dentro.

– Light? O que houve?

– Eu não acredito. — Ele parou de procurar seja lá o que fosse e se virou completamente para mim, parecendo perplexo. — Você tem um armário inteiro de roupas exatamente iguais? Bom, eu havia reparado que você usava com frequência essa blusa, mas não imaginei que tivesse uma porção delas. Até suas cuecas são todas brancas e absolutamente iguais!

– Ah, isso. — Eu cocei a cabeça enquanto engolia uma uva. Acho que fiquei um pouco desconsertado. — Bem... Eu não posso perder tempo pensando em coisas tão desnecessárias como roupas, não é? Acho que assim fica mais fácil. Além do mais, essas roupas são bem confortáveis. Isso te incomoda?

– Não, claro que não. Isso é... bom, é você. Acho que posso gostar.

– Obrigado.

Ele começou a guardar as roupas dele no lado vago do guarda-roupas.

– Claro, isso mostra que você é, em certos pontos, uma pessoa extremamente previsível.

Ele me olhou com aquele ar de quem está na vantagem. Havia dito aquilo claramente para me provocar. Não deu certo. Deixei de prestar atenção no padrão com o qual ele arrumava as coisas. Light era preciso e metódico, isso se refletia também na sua organização. Posso afirmar que era previsível que ele também fosse arrumar as minhas roupas. Não errei em achar isso. Mas quando ele começou...

– Ei! — Na mosca. Acertei uma uva bem na testa dele, que ficou suja de chantilly. — O que você pensa que está fazendo?!

– Tentando não ser previsível.

– Ah, é? Quero ver você prevendo isso! — Ele correu e se jogou na cama, por cima de mim. Começamos uma espécie de luta de mentira, onde disputávamos pelo domínio, buscando meios de imobilizar um ao outro. A falsa luta durou tempo o suficiente para nos deixar exaustos e sem fôlego. Estávamos rindo, Light por cima de mim. À medida que nossos rostos ficavam mais próximos, o riso parecia perder o sentido. Podia sentir a respiração curta e profunda dele atingindo meu rosto e então, sua boca se ajustou sobre a minha e ele me beijou de uma forma terna, acariciando meu rosto. Com o mesmo calor que seus lábios sedosos sempre traziam. — Acho que um banho viria a calhar agora.

– Você acha que eu estou fedendo?

– Claro que não, seu tonto. Quis dizer que seria ótimo se nós dois fôssemos tomar um banho agora.

– Ah.

Eu posso estar sendo presunçoso, mas não totalmente equivocado. Mesmo nesses poucos dias, posso dizer que conheci um lado de Light Yagami que até então não havia sido experimentado por qualquer uma das pessoas próximas a ele. Light é popular, isso é certo, mas toda a sua vida é um pouco perfeita demais para não se desconfiar. A verdade, é que as coisas sempre pareceram um pouco forçadas da parte dele, como se ele tivesse algo que o fizesse se sentir superior e separado dos demais a tal ponto que ele se forçava a manter um comportamento constantemente gentil. Eu me perguntava o que poderia estar por trás de toda aquela suposta perfeição. Tenho quase certeza que ele sempre teve tudo calculado. A sua falsa modéstia nunca me enganou. Ninguém poderia ser tão equilibrado. Mesmo tentando parecer caloroso, havia frieza nele, no seu olhar.

Agora, mesmo cercados por toda essa neve, eu não via nenhuma frieza nele ali, checando a temperatura da água com a mão enquanto enchia a banheira. Se render às aparências é algo realmente fácil e, embora eu soubesse que precisava ter cautela, aquilo tudo me deixava... feliz.

Neste ponto, também conheci uma parte de mim que talvez nunca tenha existido antes de Light, ou que apenas não teria sido útil antes de tudo isso. Apesar de saber que eu não estava mais sozinho – e que não queria mais estar sozinho –, eu sabia o tempo todo que isso não poderia durar. Nós não teríamos muito tempo ali, afinal, eu sabia que não levaria mais que algumas semanas para que obtivéssemos provas concretas de que Higuchi é o atual Kira e obter mais detalhes sobre o caderno que ele usa para matar. Isso era apenas um pretexto para investigar o próprio Light, que me fez ter motivos para acreditar sem sombra de dúvidas desde o começo, ser o verdadeiro Kira.

Tenho quase plena certeza de que, de alguma forma, a consciência de ser o autor desses assassinatos em massa abomináveis vão retornar ao Light. Com a consciência de Kira, ele aceita ser o eleito para governar o mundo como um deus da morte cruel, tirando vidas humanas segundo seu próprio julgamento e sem nenhum remorso. Algo me diz que, não importa o que eu faça, não vou poder salvá-lo disso. Seremos L e Kira novamente. Estamos predestinados a nos enfrentar até a morte um do outro. Para ser mais exato, até a minha morte. Sei que após me envolver com Light, assumi um ponto de fraqueza. Será quase impossível vencer.

– Ryuzaki, você está com uma cara... Está tudo bem?

– Ah, sim, é claro. Só estou pensando que talvez eu não me sinta à vontade agora. Pensando bem, eu nunca tomei banho na frente de outra pessoa.

– Isso é o que vamos descobrir. – Ele riu e bateu na água da banheira, espirrando em mim. Minha camisa ficou toda molhada. Claro que dei o troco. Nós rimos bastante e ficamos com as roupas completamente encharcadas antes de tirá-las e finalmente tomar banho. Sentamos de frente um para o outro dentro da banheira e ficamos nos olhando um bom tempo. De repente, ele pegou o frasco de shampoo e espremeu um pouco na minha cabeça e, como as duas mãos, passou a esfregar até que fizesse espuma. – Você está muito engraçado.

– Tanto, ao ponto de ser esquisito se eu te beijasse agora?

– Não...