Notas iniciais
Nesse capítulo contém cenas meramente TRANSCRITAS DO ANIME, com algumas alterações feitas por mim.

– AAAHHH! RYUZAKI! Você não pode ficar aí sentado me olhando desse jeito. Ainda mais no meio da madrugada!

– Eu te assustei? Desculpa, não foi minha intenção. Eu só queria poder olhar para você mais um pouco.

– Do que você está falando? Você pode olhar para mim sempre que quiser e, de preferência, não me dando um susto de madrugada. Anda, vem cá. — Eu estava sentado abraçando meus joelhos no extremo oposto da cama, olhando para ele. A luz do quarto era apenas uma vela acesa no criado mudo. Talvez isso tenha criado um clima meio fantasmagórico e assustado Light. Andei pelo colchão apoiado pelas mãos e joelhos até chegar aos seus braços, que me acolheram contra seu peito e me cobriram com a coberta que estava sobre ele. — Caramba, como você está gelado. Mas o que deu em você? Por que está tão esquisito nesses últimos dias?

– É que nós temos pouco tempo agora.

– Mas do que você está falando, Ryuzaki?! Por que você é sempre tão pessimista? Nós teremos todo o tempo do mundo, assim que pegarmos o Kira, você vai ver. Anda, deixa eu tirar isso da sua cabeça...

Eu deixei. Não só porque era a opção mais fácil — e prazerosa — a ser escolhida ou porque eu acreditasse em alguma coisa do que ele estava dizendo, mas porque eu estava com todos esses sentimentos e emoções mal orientados. Pode chamar de amor, se preferir.

Ele estava sonolento e com o corpo incrivelmente quente quando se curvou sobre mim e me beijou. Logo, ele estava completamente em cima de mim, e parecia me beijar com o corpo inteiro, e tanto os lábios quanto o corpo dele estavam em brasas.

– Light. — Chamei, num momento em que ele desgrudou os lábios dos meus. — Você está pegando fogo. Está se sentindo doente?

– Não é isso... Você não percebe?

– O quê?

– O quanto eu gosto de fazer isso...

Ele voltou a me beijar daquele jeito intenso e ao mesmo tempo suave, demonstrando em atos como ele parecia se deliciar completamente quando nos beijávamos. Cheguei a sentir meu próprio corpo produzir um forte calor, como se estivesse com febre. Ele me abraçava tão forte enquanto me beijava, que tive alguma dificuldade para respirar, mesmo assim aquilo não deixava de ser bom. Em um certo momento ele deixou de me abraçar para enfiar as mãos por baixo da minha camisa e começar a tirá-la, mas só interrompeu o beijo quando precisou passá-la por minha cabeça. Depois de jogar minha camisa para longe, Light segurou meu rosto entre as suas mãos e me olhou nos olhos, o suficiente para me causar a impressão de que até seus olhos emanavam calor. Ele beijou minha testa demoradamente, depois minha boca — sem abrirmos os lábios.

Ele deslizou o corpo para baixo, o suficiente para seu rosto ficar mais ou menos na altura do meu pescoço e começou a beijar meu peito demoradamente em vários lugares, subindo vez ou outra pelo meu pescoço, para então começar a descer pelo meu abdômen. Ele desabotoou minha calça e desceu o zíper. Beijou minha ereção por cima da cueca e foi puxando minha calça até tirá-la completamente. Ele segurou a borda de cima da minha cueca com os dentes e foi puxando ela para baixo enquanto me olhava. Seus lábios tocavam levemente meu membro no percurso lento daquela óbvia tentativa de me provocar. É, funcionou. Eu mesmo terminei de tirar a cueca e ele sorriu, vitorioso.

– Está impaciente, Ryuzaki?

– Você também não está?

Ele apenas sorriu, como resposta. Levantou-se da cama e começou a tirar cada peça de roupa que vestia, sem deixar de me olhar daquele jeito, certo do quanto estava me instigando. Quando ele por fim terminou de tirar as roupas e ficamos olhando um para o outro, nus, eu deitado na cama e ele de pé, percebi que o jogo da provocação não havia acabado. Ele simplesmente virou as costas e saiu andando. Por alguns segundos, apenas mantive fixo o olhar no movimento que seu traseiro desnudo fazia enquanto andava e logo não pude deixar de ir atrás dele. Ele percebeu quando me levantei e virou para mim, com aquele sorriso arrogante.

Fui andando até que nossos corpos se tocassem, mas não parei aí. Andei contra ele, fazendo-o andar de costas até seu corpo colidiu contra a parede. Ficamos olhando um para o outro. Venci os milímetros de distância entre os nossos rostos e beijei sua boca, apoiando todo o peso do meu corpo contra o dele. E nossas evidentes excitações buscaram algum consolo contra a virilha um do outro. Ao contrário do que imaginei, ele não continuou com qualquer joguinho de resistência. Pelo contrário, eu devia saber. Quando estava em meus braços, sempre havia uma entrega total e absoluta. Ele cedia e correspondia a cada toque, cada beijo e cada olhar. Eu sabia que nossos corpos e nossas mentes nunca resistiriam a se entregar um ao outro.

Me afastei o suficiente para virá-lo de costas para mim. Ele se posicionou abrindo as pernas e se apoiando na parede. Deitei um pouco de saliva entre suas nádegas entreabertas e o segurei pelo quadril quando forcei a entrada de seu ânus com a minha ereção.

Ele me recebia muito bem agora. Eu o invadi completamente em uma única estocada e tudo o que ele expressava agora, era prazer. Era tudo o que eu sentia também, enquanto ele engolia completamente meu membro. Ali era tão quente, tão apertado... Quanto mais eu o penetrava, mais ele encurvava o tronco e erguia o quadril para que eu me aprofundasse ainda mais dentro dele. Ele gemia bastante, e nem tentava se conter, como nas primeiras vezes. Eu estava dividido entre o prazer de ouvi-lo gemendo para mim naquela posição e o próprio prazer de penetrá-lo. Aquela rendição não era característica de Light Yagami, muito menos do Kira. Mas eu também sabia que todos aqueles sentimentos e desejos também não eram característicos a mim. Nosso envolvimento trazia à tona um lado novo – ou mesmo antes inexistente – de nós dois, um lado perigoso por nos tornar fracos diante um do outro e também inevitável.

Suas mãos iam cada vez mais escorregando pela parede, mesmo ele as forçando contra ela para se apoiar enquanto meu membro era, a cada estocada, enterrado com força dentro dele. Chegou um momento em que já não havia como ele continuar de pé, então acabou se ajoelhando no chão, e eu o acompanhei sem me desencaixar dele. Aquela foi a primeira vez que Light ficou de quatro para mim.

Ver tão de perto suas nádegas separadas pelo meu órgão que entrava e saía completamente de seu ânus me excitou tanto, que passei a penetrá-lo com rapidez e violência, num desespero para conseguir aliviar todo aquele desejo. Segurando seus quadris, a rapidez e força com que passei a me mover contra ele fazia com que nossos corpos se chocassem com tanto impacto, que as nádegas de Light começaram a ficar vermelhas. A claridade do dia começava a entrar pela janela do quarto e eu não precisava mais da luz da vela para constatar aquilo.

Segurei cada nádega com uma mão e elas estavam realmente quentes. Eu as apertei firme com as mãos quando senti que não seria mais capaz de aguentar... Então gozei dentro dele. Deixei que saísse até a última gota para então tirar meu membro saciado de dentro dele.

Quando ficamos de pé e vi um líquido esbranquiçado no chão, soube que em algum momento ele também havia gozado.

Nos deitamos na cama e ficamos nus, abraçados, nos beijando nos lábios por um longo tempo, até que ele caiu no sono. Eu fiquei observando seu sono pesado por algum tempo, até que nós dois fomos obrigados a levantar.

Essa era a manhã do vigésimo segundo dia que estávamos ali, quando ouvimos o barulho do helicóptero. Em menos de vinte minutos já havíamos reunido nossos pertences e estávamos sobrevoando aquele monte interminável de neve para voltar à base de investigação, em Kanto. Pelo lap top, em transmissão ao vivo, Watari nos deixou atualizados sobre a investigação. Já haviam colhido provas o suficiente para afirmar com certeza que Higuchi é o Kira. Tudo indicava que ele tinha o poder de matar e que anotava todos os nomes de suas vítimas. Também nos comunicou que nos buscaram exatamente nessa manhã porque à noite seria armada a emboscada para fazer a prisão de Higuchi.

Depois que desliguei o aparelho, ficamos em silêncio. Fiquei olhando pela janela, pensando em tudo o que ficaria para trás, junto com a neve. A mão de Light tocou a minha e a segurou firmemente. Olhei para ele e ele retribuiu o olhar com um sorriso que deveria passar confiança e encorajamento. Permanecemos de mãos dadas até que o céu começou a ficar alaranjado e aterrissamos no Quartel General, que tem um heliporto no terraço.

Depois que todos nos cumprimentaram e abraçaram Light, felizes e surpresos por descobrirem que estava vivo — menos seu pai, o senhor Yagami, que sabia de tudo desde o início -, começamos a acompanhar os movimentos de Higuchi pelas câmeras instaladas em seu carro. Demos início à emboscada.

– Light. Eu preciso que você fique ao meu lado, mais especificamente, acorrentado a mim novamente.

– O quê?! Inacreditável. Nós estamos prestes a prender o Kira e você ainda está desconfiado de mim?!

– Por favor, confie em mim. Eu preciso ter certeza que você não irá ter qualquer participação nisso que eu não esteja vendo. Além do mais... É tão ruim assim ficar preso a mim?

– Não, claro que não. Tudo bem.

Fomos para o helicóptero, acorrentados novamente. Eu pilotei. Quando a polícia conseguiu encurralar o carro de Higuchi e o algemaram, não haveria escapatória. Ele confessou que usava o caderno para matar, assim como eu havia suspeitado. Ele precisava apenas escrever o nome da pessoa e ter seu rosto em mente para que ela tivesse um ataque fulminante em seguida.

Quando o senhor Yagami apreendeu o caderno, ele passou a ver um monstro que ninguém mais via. Ao que nos pareceu, só quem tocasse no caderno poderia enxergar o monstro. Confirmei a teoria quando o senhor Yagami me entregou o caderno. Não pude acreditar. Os deuses da morte, shinigamis, realmente existem. Ele é branco, alto e... Bem, seu corpo lembrava o esqueleto de um pterossauro, porque ele tem asas, mas a cabeça é incrivelmente humana, se comparada ao corpo. Isso é, ele tem cabelos, olhos, boca e fendas que lembravam um nariz. As possibilidades me atingiram como raios. Se shinigamis existem, é provável que ele não seja único e se cada shinigami tem um caderno da morte e pode dá-lo a um humano, significa que outras pessoas também podem ser, exatamente nesse momento, o Kira.

Ao olhar para baixo, me dei conta de que minhas mãos estavam vazias. Light havia pego o caderno das minhas mãos. Seus olhos estavam vidrados e sua boca aberta num grito de... surpresa? Bem, eu fiquei surpreso vendo aquela coisa branca, o Shinigami. Mas a reação de Light me preocupou um pouco, não parecia normal. Além do mais ele pareceu ficar... diferente, depois de tocar o caderno. Algo no seu olhar ou na sua postura me transmitiam uma sensação ruim, muito ruim. Ele ficou analisando os nomes no caderno.

Enquanto conduziam Higuchi para a viatura da polícia, algo talvez inexplicável ou talvez previsível aconteceu. Ele teve um ataque cardíaco fulminante. Olhei de relance para Light e ele pareceu surpreso, mas posso jurar que vi a sombra de um sorriso quando ele constatou a morte. Mais tarde, quando pude dar uma olhada no caderno, não havia nenhuma anotação com o nome de Higuchi. É óbvio que se Light fosse o autor desse assassinato, não se entregaria tão fácil deixando o registro daquele nome no death note. Não deixei de ignorar, ainda assim, que Higuchi morreu instantes após o caderno estar nas mãos de Light.

Havia regras naquele caderno. Algumas bem curiosas, que confirmavam nossas suspeitas durante todo esse tempo, como o fato do dono do caderno poder controlar a morte daquele cujo nome era escrito. A única que realmente me deixou intrigado, foi a que afirmava que a pessoa que usasse o poder do caderno deveria escrever o próximo nome dentro de treze dias, se não ela própria morreria. Isso inocentava Light e Amane. Mas era impossível, não poderia ser...

Perguntei ao Shinigami se haviam mais cadernos como aqueles e se todos tinham as mesmas regras. Percebi que ele não cooperaria e que estava sendo evasivo, por isso continuei a duvidar quando ele afirmou que todos continham as mesmas regras. Só que com essa resposta, precisei tirar a algema que prendia Light a mim. Todos estavam de acordo com a sua inocência. Poderia ser verdade? Não acreditei que sim nem por um segundo. Bem, tive que me desculpar pelas acusações que fiz a ele durante todo esse tempo.

Se passou um dia e ele ainda estava no Quartel General, bem diferente do Light que eu conheci enquanto estávamos confinados. Misa Amane havia voltado para a sua casa e não havia qualquer vigilância quanto aos seus atos. Como já esperado, os assassinatos voltaram a acontecer. Interessante.

Assisti o encontro entre Amane e Light na entrada do Quartel pelas câmeras. Eles conversaram pouco, não pude ler o que seus lábios diziam. No fim, Light a abraçou como se estivessem amorosamente envolvidos. Não sei se aquele abraço foi caloroso, mas o sorriso e o olhar de Light eram frios, como o de um deus da morte.

É indispensável lembrar que até certo tempo atrás, Light se recusava a dar falsas esperanças a Misa para que ela cooperasse na investigação. Afirmava que era contra seus princípios enganar os sentimentos de uma mulher. Por que estaria fazendo isso agora? Só posso deduzir que para controlá-la como o Kira, sendo que ele mesmo permanece fora de suspeita estando aqui no Quartel General. O que não entendo, é que ele sabe que a investigação das novas mortes levará a Misa. O que ele pretende com isso? Acha mesmo que a tal regra dos treze dias não vai fazer com que Misa seja suspeita. Não, Light é mais inteligente que isso. Kira é mais inteligente que isso.

Havia uma única forma de encaixar essa última peça do quebra-cabeça. Quando decidi usar essa forma, os sinos passaram a tocar mais alto. O momento estava próximo.

Fui até Watari.

– O que foi, L, algum problema? Está tudo certo?

Aquele homem. Olhei para ele em silêncio um tempo. Eu estava me despedindo da figura mais próxima de um pai que já tive na vida.

– Preciso que você consiga uma autorização para que possamos testar o caderno. — Ele ficou surpreso. — Isso mesmo. Só assim o caso será resolvido de uma vez por todas. Também preciso que você peça a alguém de confiança que pegue alguns itens nos meus aposentos no local que irei indicar e leve em segurança para Londres. De lá, se eu não os pegar de volta dentro de trinta dias, que sejam enviados para o endereço que vou deixar no envelope. Quero que peguem esses itens dentro de algumas horas, mas preciso que passe essas essas instruções a alguém imediatamente. Me confirme quando conseguir fazer isso, está bem? E... Watari. Se algo acontecer a você, preciso que delete todos os arquivos. Não confio passá-las à pessoa que irá me suceder na investigação.

– Na pessoa que irá... suceder? Você parece estar certo de que algo irá sair errado. Acho que devo ficar preocupado. De qualquer forma, você sabe que pode confiar em mim. Estarei pronto para deletar os arquivos ao menor sinal de que algo estiver errado comigo.

– Entendo. Watari...?

– Sim?

Eu o abracei, como não fazia desde que era criança.

Lá fora a chuva caía com uma força incrível. Eu fui para o terraço do prédio para ver o céu uma última vez. Pena que ele estava cinza. Não me importei com a chuva me molhando por inteiro. Talvez aquela fosse a última vez que eu pudesse senti-la. Uma voz vinda da porta da saída que dava para o terraço me chamou. Era o Light. A chuva fazia barulho demais e eu não ouvia o que ele dizia. Indiquei isso para ele colocando uma mão em concha no meu ouvido e aí ele atravessou a chuva até chegar a mim.

– O que você está fazendo aí sozinho na chuva? — Ele perguntou.

– Não estou fazendo nada.

Respondi. Eu estava triste e talvez um pouco zangado. Perguntei se ele, desde o momento em que havia nascido, havia dito a verdade alguma vez na vida. Ele respondeu que manipulava a verdade aqui e ali, mas que todo mundo fazia isso, no final das contas. Ele não estava ouvindo os sinos que eu ouvia. Mas ele sabia. Bom, não demorou a me convencer a entrar.

Ele sentou na escada e tirou os sapatos, enquanto se secava com uma toalha e eu me enxugava com outra.

– Com certeza foi uma saída desagradável.

– A culpa é toda sua, o que esperava com uma chuva dessas?

– Tem razão, desculpa.

Desci alguns degraus e me abaixei para secar os pés dele, enquanto ele passava a toalha pela cabeça.

– O que você está fazendo?!

– Bom, eu pensei que podia ajudar enquanto você está aí se secando.

– Você não precisa fazer isso.

– Tudo bem, eu posso fazer uma massagem também. É o mínimo que eu posso fazer para purgar os meus pecados. Eu sou muito bom nisso.

– Ótimo, faça o que quiser.

– Tá bom.

Comecei a apertar com os dedos pontos estratégicos no pé de Light, talvez com um pouco mais de energia do que era necessário.

– Ai!

– Logo você se acostuma.

Meu cabelo pingava água, que caiu no pé dele enquanto eu massageava. De repente Light secou suavemente meus cabelos com a toalha e eu olhei para ele.

– Você também está encharcado. — Ele disse.

– Desculpe.

Ele ergueu meu queixo com os dedos e me beijou. Seus lábios estavam frios como a chuva que nos encharcou e o beijo foi completamente sem paixão. Ele me olhou com uma frieza compatível àquele beijo e sorriu. Eu não.

– Daqui para frente vai ser uma solidão...

– Ãhn?

– Eu e você vamos nos separar em breve.

Ele ficou me olhando com alguma surpresa. Ficamos nos olhando em silêncio, até que meu celular tocou. Era Watari. Ele já havia providenciado o que eu havia pedido para ele.

– Anda, vamos, Light, parece que está tudo resolvido.

Watari conseguiu a autorização de outro país para que usássemos o caderno. Um criminoso pronto para ser executado após os treze dias escreverá um nome nele e, se sobreviver depois desses 13 dias, será perdoado da execução. Daqui a alguns minutos passarei essa informação a todos da força tarefa, inclusive ao Light. Se ficar provado que a regra é falsa, o caso todo estará resolvido.

A minha intuição — e os sinos soando sem parar — me diz que não vou estar vivo para ver isso acontecer, por isso estou deixando essas anotações e alguns objetos no local que indiquei à Watari, para que possam ser guardados em segurança. Eu sei que está tudo acabado. Para mim.

***

No momento final, quando a dor no peito e a falta de ar me diziam que meu coração estava parando de bater, ainda pude ver o rosto dele. Ele me segurou em seus braços. Um sorriso de triunfo rasgava sua boca e um brilho diabólico ardia no seu olhar. Eu poderia ter sorrido, Kira.

Você ganhou, no fim das contas. A mesma pessoa que fez meu coração bater como nunca, foi a responsável por fazê-lo parar para sempre. Tão trágico que chega a ser engraçado.

Aqueles segundos finais pareciam eternos. É verdade o que dizem sobre a sua vida inteira passar diante dos seus olhos. Parece que a minha foi tão curta que, antes de tudo ficar escuro, pude pensar que a vaidade de Kira seria o seu fim. Ele ficaria no meu lugar, assumiria a investigação e minha identidade como L. É verdade que isso lhe daria vantagem, por um tempo. Não tomei qualquer providência para que ele não me sucedesse porque eu o quero exatamente aí, em evidência para quando descobrirem minha morte. Essa mesma vaidade fará com que ele não aceite que outra pessoa possa pegá-lo.

De repente isso perdeu a importância e tudo escureceu.

Morrer não parecia tão ruim, no final das contas. Havia tranquilidade. Paz. Silêncio. Se eu tinha alguma forma, não podia vê-la ou senti-la. Sabia apenas que a minha consciência ainda estava ali, de alguma maneira. Havia uma clareza absoluta sobre tudo, porém essa clareza não tinha o poder de me incomodar, de me fazer querer investigar as respostas ou o sentido delas.

Às vezes parecia que essa minha consciência ia apenas evaporar, sumir exatamente como veio, sem qualquer explicação. Às vezes eu sequer me dava conta de que ainda estava ali. Mas quando me dava conta, eu estava sempre próximo de Light. Talvez o meu eu sem forma ganhasse alguma força quando ele pensava em mim ou quando se referia a mim, não estou certo sobre isso. Mas um tempo depois, quando Light recebeu uma correspondência em nome de Hideki Ryuga, minha consciência ficou tão desperta, que era quase como se eu estivesse ali fisicamente de novo.

"Se você recebeu essa correspondência, significa que eu estou morto.

Pouco depois de voltarmos para Kanto, sabia que devia entregar essas anotações a alguém de confiança, assim como o cavalo, a peça de xadrez que você fez. Talvez você queira esculpir o olho que está faltando nele agora.

Pedi que esses itens fossem mantidos em segurança em Londres e fixei o prazo de trinta dias para que eles fossem enviados para o seu endereço, caso eu não os pegasse de volta. Significa que dentro dos trinta dias desde que voltamos, fui assassinado. A minha única dúvida é se foi por suas próprias mãos ou se você usou terceiros para isso.

Eu sei que a consciência ou lembranças de ser o Kira tem alguma relação com a forma pela qual se mata, o caderno. E não tenho dúvidas de que você assumiu novamente essas lembranças e essa identidade. Estou quase completamente certo de que você deve ter assumido a identidade de L agora, me substituindo e comandando as investigações da polícia, o que afastará completamente as suspeitas de você. É, você é muito esperto, Light.

Acho que todas as suas identidades morreram comigo, não é mesmo? Eu conheci o garoto Light Yagami, o estudante excepcional que também era entediado, frio, e não se relacionava verdadeiramente com as pessoas. Conheci também o Light por trás da máscara, sem frieza e sem encenações, o Light que eu amei e que me deixou boas recordações. E o Kira, o seu desfigurado e repulsivo “eu” depois de ser amaldiçoado com o poder de matar.

Dos três, sabemos qual foi o mais forte, qual dominou todas as outras identidades. Me desculpa. Não pude salvar você de condenar a si mesmo.

Não há tempo para dizer muito. Estou escrevendo esse bilhete apressado, estou prestes a revelar meu plano de testar o caderno, o que fará com que fique provado que a regra dos treze dias é falsa. Eu sei.

Mas você venceu, Light. Por enquanto.

L."

Light começou a rir, riu até cair de joelhos no chão e começou a gargalhar tanto, que precisou apoiar as duas mãos no chão, uma segurando parcialmente minha carta. Quando o acesso de gargalhadas foi finalmente sumindo, pequenas gotas começaram a cair sobre os papéis. Lágrimas. Ele estava chorando.

– Ryuzaki... Você tinha razão. Ficou tudo tão solitário agora... Eu nunca disse... Eu... Eu te amo.

Ele disse enquanto se debruçava sobre os papéis e as lágrimas caíam. Nesse momento, toda a consciência que eu era passou a perder a força, a ser levada por algum tipo de luz que a entorpecia, como se fosse adormecer. Eu já não podia ver e não podia lembrar, até que se perdeu – eu me perdi – completamente.

Notas finais
Agradeço a todos que tiveram a bondade e disposição de ler até o fim! Foi um árduo trabalho, mas também muito prazeroso. Não esqueça de dizer o que achou! ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!