Duas Faces - Continuação
31 Capitulo 76
Capitulo 76
(Dolores está incrédula e aterrada com o que tem diante dos seus olhos. O passado regressa como um bumerangue lançado por ela mesma e guiado pelo destino. Como duas gotas d’agua, ela via as duas irmãs paradas feito duas espadas apontadas para o seu pescoço. As pernas lhe são insuficientes para suportar aquele corpo pesado de culpa que estremecia sobre o tapete vermelho escarlate que era como o seu próprio sangue julgado e pisado pela justiça. Os olhos arregalados não lhe escondem o susto e o temor. Quase que podia ouvir os sons da sirene de uma viatura imaginária. A policia viria por ela. Olga chega à sala e quase desmaia com o impacto do crime presente sob o mesmo teto que os criminosos).
Olga (aos nervos, corre até Dolores) – Dolores, vês o que eu vejo ou estou a ter alucinações?
Dolores (sussurra) – Cala-te! Mantenhas a calma e faças o que eu fizer.
Paula (sorrindo para aqueles olhos assustados, aproxima-se) – Dolores, Dolores, que tens tu?
Victoria (rir-se soberbamente) – Olha, Paulinha! A velha bruxa está pálida de susto. Parece ter visto um fantasma, ou dois. Pena que não lhe foi suficiente para causar um ataque cardíaco.
Frederico – Victoria, não digas tantas heresias contra esta senhora.
Paula – Deixa-a, Frederico! Tua não conheces esta cascavel… esta mulher quando anda o chocalho canta. Se morder a língua, morre envenenada.
Dolores – Mas o que é isto? Que loucura é esta que vejo aqui?
Cesar – Tia, deixa-me explicar tudo. Naquela viagem que fiz com a Paula, conhecemos Victoria e Frederico. Indiretamente, eu conheci Victoria e Paula conheceu Frederico, um casal não sabia do outro. As escondidas, víamo-nos, eu à Victoria, Paula ao Frederico. Sem cuidado, o amor nasceu ou encontrou-se como se já existisse adormecido no coração. Sem ver-lhes o rosto de todo, Frederico e eu não percebemos a semelhança ainda mais pelo cabelo. Victoria e Paula, apaixonadas e levadas pela inconsciência do amor cego, trocaram de lugar em prol de viver uma aventura de amor proibido cujo prazo de validade era um ano. No entanto, como, de facto, o destino não quis que se acabasse neste dito prazo, fez com que Frederico e eu descobríssemos a troca. Talvez loucura seja aceitá-las em verdade, mas maior loucura é deixá-las escapar pela mentira, vinda de um desejo de amar.
Dolores (percebe que aqueles reencontro não tinha nada a ver com ela e toma uma posição sínica e indignada como se ela tivesse a razão) – Cesar, eu recuso-me a acreditar que tu aceitas a traição e o engano destes demónios que são o espelho do pecado e da mentira.
Olga (ingénua) – Mas, Dolores, eu pensei que nós é que tivéssemos…
Dolores – Cala-te, estupida! (Para Frederico) E o senhor, não acredito que aceite a situação.
Frederico (abraça Paula) – E que homem seria eu se abdicasse dos encantos desta Deusa?
Dolores – Ora… um homem com princípios e o mínimo de vergonha e orgulho.
Frederico – Não só de orgulho vive o homem, minha senhora. Eu vivo do amor desta mulher.
Paula – No nosso amor, não há espaço para o odio e o rancor que tu ostentas sentir.
Victoria – Mas porquê é que estão a dar conversa à velha bruxa? Se aceitar, bem, se não.. azar!
Dolores – Tu não és ninguém para me falar de tal forma, usurpadora criminosa.
Cesar – Já basta com os insultos. Victoria, peço-te que mantenhas a calma… sinto em dizer-te isso mas estás em casa da minha tia e deves-lhe respeito.
Victoria (chateia-se) – Respeitar esta cascavel? Prefiro ir-me embora.
Dolores – Vai-te reto, Satanás! Agora sou eu quem te expulsa da minha casa, maldita!
Cesar – Ninguém vai sair daqui. Victoria, prometes-te vir comigo… preciso que fiques.
Victoria – Agora tens a Paula. Quem melhor do que os pais para tratar dos filhos?
Cesar (agarra-a pelo braço) – Tu és a minha força, Victoria. Preciso que estejas comigo.
Victoria (volta e abraça-o) – Está bem, meu amor. Eu fico por ti, mesmo na presença da cobra.
Paula – Frederico, meu bem, Cesar e eu vamos resolver o que pudermos e eu volto para ti.
Frederico – Eu espero, meu amor. Se precisares, chama por mim. (Beija-a).
Dolores (indignada) – Ora, mas é o cumulo da falta de vergonha. Esse troca-troca na sala? Cesar, meu filho, eu criei-te para ser um homem correto. Como permites que a tua esposa beije outro diante dos teus olhos, meu filho? Que loucura é esta, meu Deus?
Victoria – Ela fala como se fosse santa. (Rir-se) Dolores, para que assim envergonhas-me!
(Cesar e Paula retiram-se deixando Victoria e Frederico sozinhos com Dolores e Olga).
Dolores – Eu sabia que havia algo de muito estranho naquela Paula que regressou de França.
Victoria – Olha, Dolores eu estou-me completamente nas tintas para o que tu pensas.
Frederico – Victoria, por favor! Não lhe fales assim à senhora. Ela tem direito de estar assim.
Victoria – Frederico, cala-te que não conheces esta cascavel. Eu sei à quem atinjo.
Dolores – Tu me pareces um bom homem… ah… Frederico. Pena que escolheste a Paula.
Frederico – Não há que se ter pena, senhora. Eu escolhi muito melhor desta vez.
Victoria – Mas o que é isso? Frederico, de veneno já me basta o desta cobra que tenho aqui.
Dolores – Se assim for, então em breve o meu sobrinho também abrirá os olhos.
Victoria – Olhem aqui, se pensam que eu vou ficar a ouvir estas ofensas estão muito equivocados. (Aumenta a voz) Não estou disposta. Com licença! (Retira-se com Frederico).
Olga – Aí, Lola… e agora? Será que elas já sabem de tudo?
Dolores – Não, não acredito. Não aparentaram saber de nada… mas e se… e se estiverem a guardar o bolo para mais tarde?
Olga – Ah, não! O que será de nós? Eu não quero ir para a cadeia, Dolores!
Dolores – Cala-te, já disse! Vamos manter a calma e rondá-las para sabermos o que há.
(Paula e Cesar entram na biblioteca onde encontram Cristina e Francisco).
Cristina (levanta-se) – Mamãe… papai… (Corre e abraça-os) Senti a vossa falta.
Francisco (vai até eles) – Eu também senti saudades… principalmente de ti, mãe.
Paula (a chorar) – É verdade, meus pequeninos? Vocês perdoaram a mamã?
Francisco – Claro que sim, mamã. Nós não podemos viver sem o teu amor.
Cristina – Vamos esquecer tudo, mamã. E até àquela Victoria a perdoaremos.
Francisco – Atos de amor, são sempre perdoáveis, queridos pais.
Cristina – Mas é tão bom vê-los juntos. Finalmente voltaremos a ser a família de antes.
Cesar (desconcertado) – Ah… filhos… há uma coisa que precisam de saber. (Sentem-se).
Paula – O vosso pai e eu, não estamos juntos. Vamos nos divorciar em breve.
Francisco – O quê? Mas porquê? Pai, perdoa-a, ela foi tola mas sei que está arrependida.
Cesar – Não, não! isto não tem a ver com perdoar ou não perdoar. Acontece que eu amo a Victoria e a vossa mãe ama o senhor Frederico Moreno.
Cristina – Então… teremos uma madrasta e um padrasto?
Paula – Sim, mas sabem que a Victoria é boa mãe e o Frederico… bom vão ver que é bom pai.
Francisco – Já temos uma mãe e um pai. Não precisamos de mais dois.
Cesar – Filho, já és adulto para entender estas coisas. Já está decidido.
Paula – Por favor, não nos reprovem pelas nossas decisões.
Francisco – Está bem! Vamos deixar as coisas acontecerem sozinhas. Vocês é que sabem.
Cristina – Vamos apoiá-los porque só queremos a vossa felicidade.
Paula (abraça-os) – Filhos, aqui neste papelinho têm o endereço do hotel onde a mãe está hospedada. Podem me ir visitar quando quiserem.
Cesar – E eu estou na casa dos Olivais. Serão bem recebidos sempre, vocês sabem.
(No jardim, Victoria caminhava dum lado para o outro, impaciente).
Frederico – Então foi nesta casa onde ficaste durante todo este tempo a trair-me?
Victoria – Por amor de Deus, Frederico! Não comeces com o teu veneno. (Irrita-se) Queres saber? É verdade sim. Aqui pus-te os córneos e faria outras mil vezes se voltasse no tempo. Chegou a hora de abrirmos o jogo, Frederico. Eu nunca te amei, só me casei contigo para a minha tranquilidade financeira e a dos meus pais. Tudo em ti irrita-me profundamente, até a tua respiração, se queres que te diga. Agora não tens do que reclamar porque eu como esposa sempre cumpri e compareci com os meus deveres… ao contrário de ti que uma vez por semana é que resolvia funcionar. Francamente, eu vivia frustrada contigo, presa, retraída… por isso procurei amantes, por isso pus outra em meu lugar, para me livrar de ti.
Frederico (agarra-a pelos dois braços) – Eu deveria partir-te em pedaços, maldita desgraçada. (Rir-se) Mas mesmo com tanta malicia, deste-me grandes alegrias. Meus três filhos, que são o meu bem maior , e Paula, a única mulher merecedora do meu amor. O destino pregou-me uma peça curiosa… casei-me contigo esperanto de ti o que a Paula, uma cópia melhorada, tinha para me oferecer. Cesar e eu escolhemos as portas erradas mas tu trataste de o corrigir.
Victoria (sarcástica) – Então? Porquê estás tão raivoso comigo? Devias de me agradecer!
Frederico – Tu tens cá uma lata, mulher. Ainda achas que te devo agradecimentos? Vai dar banho ao cão! Paula é uma grande mulher, a melhor de todas… pobre Cesar que a perde.
Victoria (rir-se) – Pois para perdedor, ele comporta-se como o campeão do primeiro lugar. (Paula e Cesar vêm a sair, Victoria e Frederico disfarçam a discursão).
Frederico (corre até Paula) – Então, minha Ofélia, como correu tudo?
Paula (sorri e dá-lhe um beijinho) – Correu tudo bem. Os meus filhos me perdoaram.
Victoria (com inveja) – Que tens tu para que os teus filhos te perdoem e os meus a mim não?
Frederico – Isto deve-se a que a Paula é boa mulher e mãe honrada, diferente da mãe dos meus filhos que abandonou-os para viver um aventura amorosa.
Cesar (abraça Victoria) – Não fiques triste, meu amor. Verás que os teus filhos também te vão perdoar. (Para Frederico) E quanto as tuas palavras, meu caro, devo recordar-lhe que Paula cometeu a mesma fatalidade com as mesmas intenções pelos mesmos motivos.
Paula – Chega de atacar a Victoria com os teus ressentimentos porque o Cesar tem razão.
Victoria – Quando virás comigo à nossa casa para falarmos com os nossos filhos, Frederico?
Frederico – Olha, primeiro que aquela casa não é tua, está claro? E segundo que estive com os meus filhos outro dia e deixaram por certo de que não te querem ver a frente. A menos que… voltemos como um casal… porque eles não aceitam a Paula e o Cesar.
(Paula e Cesar entristecem-se e ficam preocupados, sentindo-se entre aquela família como se eles os desunissem e os destruíssem a união, talvez fosse melhor que os deixassem livres?).
FIM (CAPITULO 76)
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