Capitulo 87

(Frederico continua a insistir com o Cesar. É a sua única e ultima chance de fazer o certo).

Frederico – Vá lá, Cesar! Por favor, por favor! Eu estou implorando, deixa-me ficar.

Cesar – Não, Frederico… para de insistir com isso. Se a Paula não quer eu não posso…

Frederico – Olha, eu fico num quarto de hospedes, eu me entendo com ela… por favor, Cesar, é a minha chance de fazer as coisas darem certo com a mulher que eu amo.

Cesar – Está bem, está certo! Ficas, mas se fizeres alguma coisa… contra ela ou a Victoria…

Frederico – Não, não vou fazer nada, eu juro! Dei-lhe o divorcio para ela ficar contigo, ou não?

Cesar – Sim… isso eu reconheço. Agora que dizes, eu tenho que me divorciar da Paula.

Frederico – Pois, e bem rápido, ouviste! Quero-a livre para mim… minha Ofélia. Olha-a! (Aponta para ela) Diz-me se não é a mulher mais linda destas terras.

Cesar (olha para Victoria e sorri) – É sim… ela é a mulher mais linda do mundo.

Frederico – Estes cabelos loiros que me enfeitiçam, aquelas mãozinhas que me enlouquecem…

Cesar – Este sorriso que me apaixona, estes olhos de cigana que me prendem…

Frederico (olha para ele) – Estás a falar de quem?

Cesar – Da minha Victoria… (suspira) Minha senhorita sorriso que tanto amo.

Frederico (debocha) – “Senhorita sorriso”? Mas que raio de apelido é este?

Cesar – Melhor que “Ofélia”. Ora bolas, dizem que o Fernando Pessoa nem a amava, por isso…

Frederico – Amava sim… ele só era um pouco esquizofrénico. As pessoas não o compreendiam.

Cesar – O homem criou mais de setenta personalidades só para fugir do próprio “eu”… achas que isso era uma “leve esquizofrenia”? Era um poeta louco, isso sim!

Frederico – Cala-te, Cesar! O nosso amor é poético e o teu selvagem… não entendes nada.

Cesar (a gozar com ele) – Vai buscar o teu sobretudo, o chapéu e os óculos, Fernandinho.

Frederico (irrita-se) – Ah, que parvinho… olha, ai vêm as duas. Não digas nada!

Victoria (abraça-se ao Cesar) – Então, falavam do quê, os meninos malandros?

Cesar – Da vossa beleza, minha deusa. (Beija-lhe os lábios causando inveja no outro casal).

Victoria – Bem, para uma surpresa como esta é preciso comemora-se. Há champanhe?

Cesar – Há, está na adega. (Dá-lhe o braço) Acompanhas-me, amor da minha alma?

Victoria (sorri) – Não perdes a oportunidade de estar a sós comigo, não é? (Retiram-se).

Paula – Que fazes aqui ainda? Já deverias ter ido embora… ninguém te quer aqui.

Frederico – Mentira. Cesar é meu amigo e dono da casa… ah sim, e a Victoria também.

Paula – Tens a certeza? É que depois de tê-la feito escrava das tuas loucuras talvez não te considere mais esse tal amigo. Ah! Sim… e não esqueçamos os demais insultos de outrora.

Frederico – Aquele era outro Frederico. Este homem que aqui tens é justo, é um novo homem.

Paula – Claro… palavras são bonitas mas as atitudes é que convencem o juiz no julgamento.

Frederico (olha-a provocando-a) – E tu és a minha juíza? Então quero ser condenado para vê-la sempre, meritíssima. (Abraça-a sem o seu consentimento).

Paula (solta-se dele) – Parvo! Não é com piadinhas que me vais convencer a perdoar-te.

Frederico (abraça-a outra vez) – Pois não. É com beijos. (Segura-a para beijá-la e ela não hesita. Vai aceitar aquele beijo travesso mas… Cristina interrompe-os).

Cristina – Mãe, tu vai-te divorciar do pai para casar-te com o Frederico?

Paula (desconcertada com a pergunta) – Sim, filha, eu vou-me divorciar do teu pai mas…

Cristina – Bem, por mim não há inconveniente que ele fique com a Victoria e tu com o Frederico… agora que estás aqui não queremos mais desgostos, o Francisco concorda.

Paula (incomodada) – Sim filha mas o que eu quero dizer é que…

Cristina – Espera que ele diz. (Vira-se e grita) Oh, Francisco, anda cá que a mãe quer falar contigo. (Francisco vai até eles) Não é verdade que concordas que a mãe fique o Frederico?

Francisco (abraça-a a mãe e estende a mão ao Frederico) – De total acordo, vocês merecem.

Paula (desconfortável, tenta explicar) – Filha, antes de mais nada, uma dama nunca grita e…

Cristina – Sim, sim, já sei. Desculpa! (Sorri, animada) Mas enfim… queremos um beijo do casal.

Paula (sente-se numa piada) – Um beijo? Não… esperem, deixem-me dizer-vos que…

Frederico – Um beijo? Vosso desejo são ordens. (Agarra Paula nos braços, deitando-a e beija-a sem que ela pudesse evitar… Paula acaba por ceder ao beijo roubado que teve. Ela cessa o beijo, mas não se solta dele e não demonstra desgosto por este, até mostra gosto).

Cristina (sorri) – Assim é que gosto de ver-te, mãe. A resplandecer vida e alegria.

Francisco – Então e já têm data para o casamento? Eu quero levar as alianças.

Paula (parece não ouvir nada e permanece hipnotizada pelos olhos do seu Frederico) – Ainda não temos data para nada… (está mole daqueles braços e a seguravam).

Cristina – E suponho que o Frederico pretenda ficar cá a dormir contigo, não é mãe?

Frederico (aproveita-se daquela hipnose) – Com certeza… vão lá tratar disso para nós.

Paula – Sim… vão lá tratar do… (acorda) O quê? Não… esperem, meninos!

Francisco – Não, mãe! Nós tratamos de tudo… o que um filho não faz pela felicidade da mãe?

Paula (sem compreender e poder falar) – Não… o que eu quero dizer é que…

Cristina – Deixa, deixa que nós diremos à Vicenta que arrume tudo… (retiram-se).

Paula (furiosa com a trama do Frederico) – Malandro! Olha o que armaste… mas se pensas que vai ser tudo assim a papinha estás enganado.

Frederico (a acariciar-lhe os braços) – Deixa disto, Ofélia. Vamos dormir juntos, querida… há tanto tempo que não vemos o amanhecer juntinhos. (Abraça-a por trás).

Paula (a sussurrar zangada) – Frederico, eu não te quero empurrar a frente de todos… solta-me! (Solta-se dele). Está bem! Ficas cá a dormir… já é tarde e não vale a pena zarpares para Sintra a esta hora… mas ficas num quarto e eu noutro.

Frederico – O quê? Nem pensar... dormimos juntos ou vou embora. Comigo é oito ou oitenta!

Paula – Pois então que seja oito porque comigo não te armas esta noite, espertalhão!

Frederico (dramático) – Ah é? Pois tomara que eu sofra um acidente e que tu tenhas que passar o resto da tua vida sem dormir nos meus braços quentes e fortes que tanto adoras.

Paula (rir-se a debochar) – Oh, Frederico, tens cá uma lata! És tão convencido…

Frederico – Oh, meu amor! Não me faças esta covardia. Deixa-me abraçar-te durante a noite!

PaulaNão, não e não! Ponto final. Dormes no quarto ao lado. Eu estou zangada contigo.

Frederico – Sim, porque eu sou um estupido, imbecil… mas amo-te mais que a minha vida. (Segura-lhe as mãos e olha-a com amor) Como faço para ter o teu perdão?

(Paula vai responde mas Cesar e Victoria interrompem-na e a pergunta fica no ar).

Cesar (com uma garrafa na mão) – Este aqui comprei-o numa viagem que fiz à Londres.

Victoria (Põe-lhes as taças) – Champanhe geladinho para comemorar-mos em grande!

Frederico (pega numa taça e é servido) – Havemos de brindar por este regresso divino.

Paula (recusa) – Desculpem-me mas eu não posso beber.

Victoria – Porquê? Não me digas que não bebes porque sei que gostas de vinho.

Paula (sorri) – Não… não é questão de gostar ou não… é que eu não posso beber porque… (hesita em explicar por um motivo oculto). Vou-me deitar que estou cansada. Victoria, também ficas cá a dormir connosco? Imagino que já não há impedimento.

Victoria – Vou ficar a dormir com o Cesar. (Preocupada) Estás bem?

Paula – Sim… estou! Com licença! (Recua) Antes que me esqueça: Frederico, o teu quarto fica a direita do meu. Tenham todos uma boa noite. Até amanhã! (Sobe a escadas para o quarto).

Victoria (desconfia) – Fiquem aqui que eu vou ver o que ela tem. (Victoria vai para o quarto e toca a porta, Paula diz-lhe para entrar). Que tens? Diz-me já!

Paula (abaixa o olhar, vai até a porta e fecha-a) – Eu… Victoria, é que… (nervosa).

Victoria (preocupa-se e vai até ela) – Paula, estás doente ou coisa do tipo?

Paula (sorri) – O que tenho não é uma doença, Victoria. Está longe de o ser.

Victoria (sem perceber) – Então… não é doença? Bem, mas algo tens de certeza.

Paula (vira-se de costas) – Não é bem o que tenho… é mais o que terei em uns meses.

Victoria (ainda sem entender) – Nuns meses? Aí! Paula, vá lá diz-me o que tens.

(Paula tem os olhinhos a brilhar… abre um enorme sorriso e acaricia o ventre. Havia mais vida no regresso de Paula… mais uma. Trazia consigo o fruto do seu único amor).

Victoria (emociona-se, corre e abraça-a) – Oh, meu Deus! Paula… estás gravida!

Paula (a sorrir) – Tem dois meses. Estou emocionada e ao mesmo tempo tenho medo.

Victoria – Medo? Medo por teres quarenta e a gravidez ser de risco?

Paula – Também, mas a minha maior preocupação é o pai desta criança. (Entristece-se).

Victoria – Oh, Paula! O Frederico vai ficar tão emocionado ao saber que será pai de um…

Paula – De um filho da mulher que ele desconfia? Como ei-de criar a criança? O Frederico ainda é capaz de alegar que o filho é do Rodrigo. Já o conheço demasiado bem para saber.

Victoria – Então… não lhe vais dizer que estás gravida? Por quanto tempo podes enganar?

Paula – Não sei… nem sei como os meus filhos receberão está noticia. Aí, Victoria!

Victoria – Calma… vai dar tudo certo, não te preocupes. Conta-lhe do filho, Paula.

Paula – Não… não sei! Estou chateada com ele e já não o quero amar. Depois de tudo… não!

(Será Paula capaz de esconder a gravidez do Frederico? Se não, como ele irá reagir? E Dolores, o que acontecer-lhe-á quando ela descobrir que o seu plano deu errado? Como os filhos de ambos irão reagir ao saber que têm um irmãozinho a caminho).

FIM (CAPITULO 87)