Capitulo 65

(Após aquela descoberta fatal, Patrícia e Debora planeiam a desgraça das impostoras. A desgraça estava a aproximar daquelas famílias. Paula e Frederico estão na sala do escritório)

Paula (Victoria) – Meu adorado, já pensaste na proposta que fiz de vir trabalhar contigo?

Frederico – Meu amor, já nem me lembrava que me tinhas pedido isto.

Paula (Victoria) (manhosa, abraça-o) – Deixa-me vir, sim? Estaremos mais tempo juntos.

Frederico (derrete-se diante daquela voz doce) – Minha Ofélia… (ouvir: Rita – Preciso de ti)

Paula (Victoria) (suspira e deixa-se cair para que fosse segurada por ele) – Deixas-me?

Frederico – Ofélia… tu não me levas nesta lábia. Achas que é só me encher destes beijos doces… (a ceder) …Estes… estes mimos… este perfume e… (beija-a ofegando uma paixão irresistível. Solta-se dela) – Ofélia… meu amor! Vês como me tiras a concentração?

Paula (Victoria) – Prometo que me vou comportar… mas não me deixes no tédio.

Frederico – Mas eu adoro chegar em casa, morto de saudades da minha mulher, e ver-te linda e perfumada como uma deusa… esperando pelos meus beijos e o meu calor.

(Paula é tomada por uma ousadia intensa e senta-se no seu colo beijando-o sem que ele tivesse controlo. Frederico tenta afastá-la, mas o desejo é mais forte e ele acaba por tomá-la nos braços e deitá-la ao seu colo. Desabotoa o formoso casaco de pele, desce a mão às suas pernas levantando-lhe, ligeiramente, a saia e ela oferece-lhe a curva macia do pescoço. A mão de Frederico era esperta como uma raposa escovada… sabia bem onde ir para agradá-la e agradar-se à si próprio. Paula esbanjava risinhos de ninfa enquanto Frederico beijava-lhe os ombros. Está deitada no seu colo, como se estivesse desfalecida, mas era apenas o seu jeito de dizer que estava entregue à ele como um presente dos deuses. Frederico acaricia-a com sedução e beija-lhe os lábios descendo-os ao busto… ouve-se abrir a porta, é Rodrigo que entra. Ao deparar-se com aquilo, fica desconcertado e envergonhado. Paula levanta-se rapidamente, pega nas suas coisas e veste o casaco, está nervosa)

Rodrigo – Peço-vos imensa desculpa! Deveria de ter batido mas a Letícia não me disse…

Paula (Victoria) (sem olhar nos seus olhos) – Não faz mal… eu já estava de saída! (retira-se)

Rodrigo – Frederico, desculpa-me! Eu não imaginava que ela estivesse contigo e assim…

Frederico (sorri) – Sim, sim! Eu sei. Mas, em minha defesa, devo dizer que ela seduziu-me.

Rodrigo – Uau! Então cheguei mesmo em má hora, hã?!

(Paula chega em casa e encontra Telmo, inquieto e nervoso. Caminha dum lado para o outro)

Paula (preocupa-se) – Meu Telmo, que tens tu?

Telmo (vai até ela e abraça-a) – Minha senhora, hoje tive uma sensação terrível.

Paula (aflige-se) – Aí! Tu nem me digas nada. Senti uns calafrios que me percorriam o corpo.

Telmo – A minha senhora deve tomar cuidado… algo não me cheira bem!

Paula – Não te preocupes… e não pensemos nisto. Estou tão feliz que não posso e nem quero imaginar tristezas ou desgraças possíveis. (põe-se contente) Hoje Frederico fez-me tantos agrados. Um piquenique matinal, um passeio a carruagem…

Telmo – Não gosto de estragar os prazeres mas… bem sabe a minha senhora que…

Paula (chateia-se) – Que nuns meses volto à minha vida aborrecida… não me lembres, Telmo!

Telmo – Não lembrarei mais, minha senhora. Só não quero que se ponha num céu azul de arco-íris para depois cair, atirada pela realidade que se chama: Victoria.

Paula – Victoria… há tempos que não sei dela. Vou lhe ligar. (sobe para o quarto, pega no telefone e liga-a) Victoria, olá! Estás boa? Olha, há novidades?

Victoria – Sim. Sabes que sou uma mulher de novidades… a tia do teu marido já não vive mais nesta casa… expulsei-a eu. Já estava farta daquela mulher.

Paula – Estás a falar da Dolores, suponho eu. Que fez de tão grave para que a expulsasses?

Victoria – A marota encontrou a foto do Lorenzo na minha gaveta e quase acaba com o teu casamento, a dizer que “Paula” tinha um amante. Cesar ficou furioso.

Paula – Não me importava nada de ficar sem marido. Assim estaria livre para… (contém-se)

Victoria – Para quê? Para o Frederico? Paula, já trocamos de lugar, queres trocar de marido?

Paula (rir-se) – Já trocamos, de qualquer maneira. (entristecesse) Mas já chega ao fim.

Victoria – Podes vê-lo as escondidas… oh! Mas para isso, teria de lhe contar toda a verdade.

Paula (esperançosa) – E se o fizesse? Frederico ama-me e sei que perdoar-me-á.

Victoria – Não… tu não o conheces como eu. Aquele amor acabar-se-á no momento em que se sinta traído por ti. Frederico não tem coração e não sabe perdoar, antes é capaz de nos matar.

Paula (chateia-se) – Não é verdade. Frederico é o melhor homem do mundo.

Victoria – Não! Cesar é o melhor homem do mundo… em todos os sentidos.

Paula (estranha) – Em todos os sentidos? Que queres, tu, dizer com isso?

Victoria – Eu não me vou fazer de santa madre. Deitei-me com ele! Pronto, quiseste ouvir, está dito. Deitei-me com ele mais de uma vez… e gostei imenso, devo dizer… oh! Que homem!

Paula – Pois… eu nunca achei grande coisa… mas se para ti, ele é tudo isso… confesso-te! Tentei com todas as minhas forças mas não resisti e deitei-me com Frederico.

Victoria – Olha! Quem diria? Madre Paula, não é assim tão santinha como pintaram.

Paula – Oh! Victoria, lá por eu me ter entregue à um homem pelo qual estou apaixonada, não significa que eu seja uma mulher suja e desprezível. Não te esqueças que fizeste o mesmo.

Victoria – Pois fiz, mas eu nunca quis passar, e nem passei, uma imagem de puritana.

Paula (começa-se a inervar) – Eu também nunca fiz isso! Se foi esta a tua impressão… é problema teu. Eu pelo menos nunca tive amantes.

Victoria – Está bem… vá lá, não te inerves, mulher, que eu estava só a gozar contigo.

Paula – Então… nós as duas andamos aos adultérios? Já nem me importo.

Victoria (Cesar entra no quarto e Victoria faz-lhe um sinal) – Eu tenho que desligar, adeus!

Cesar (deitando-se à cama) – Quem era? (ouvir: Laura – Viveme con Alejandro)

Victoria (deitando-se junto dele com um sorriso sedutor. Sussurra) – A tua esposa!

Cesar (provocando-a) – Oh, não! Quase somos descobertos… minha amante.

Victoria (olha-o nos olhos) – Se me chamares “amante” outra vez… morres!

Cesar (sorri e, subitamente, põe-se sobre ela) – Estou a morrer de medo.

Victoria (morde-lhe os lábios) – É bom que tenhas. (Cesar agarra-a e cobre-a de beijos fogosos enquanto Victoria deixa escapar risos extravagantes)

(Enquanto isso, Frederico está no seu escritório. Patrícia e Debora entram sem aviso)

Frederico (fica perplexo ao ver Debora acompanhada de Patrícia) – Vocês conhecem-se?

Patrícia (reticente podem decidida) – Olha… é melhor te sentares, porque o que vamos contar… (pausa) Frederico… tu estás a ser enganado pela tua esposa.

Frederico (começa e ficar nervoso) – Que estás a dizer? Olha, eu sei bem que tu não gostas dela. Fazes-te de amiga mas estás interessada em mim que eu sei. Não acredito em nada que me possas dizer porque sei das tuas intenções e…

Patrícia – Cala-te! Cala-te, por quem és! (aproxima-se da sua mesa e senta-se) Debora, diz-lhe!

Debora Senhor Frederico, o que a Patrícia diz… é a mais pura verdade.

Frederico (inerva-se) – Eu nem te conheço. Como posso acreditar nas tuas palavras?

Debora – O senhor não me conhece… é verdade. No entanto, eu conheço a sua esposa… mas não conheço a mulher à quem o senhor chama de esposa.

Frederico (fica confuso) – Como? Espera… calma que eu já me perdi! Tu diz-me que conheces a minha esposa, mas que não conheces esta mulher à quem chamo de esposa… explica!

Patrícia – É que esta mulher que está ao teu lado, esta “dama” que dorme contigo… não é nada mais nem nada menos que uma… uma impostora.

Frederico (agora está ainda mais perdido) – Que estás a dizer, Patrícia? Que loucura é essa?

Debora – Não é nenhuma loucura, meu senhor. É a mais pura realidade em si. São como duas gotas d’agua… iguais na aparência mas diferentes no coração. A sua esposa está em Lisboa com o marido desta que está aqui consigo. Elas trocaram de lugar… a senhora Victoria pôs dentro da sua casa uma usurpadora que fez o mesmo à sua família.

Frederico (escandaliza-se) – Que estupidez é esta? Vocês as duas estão loucas se pensam que eu vou acreditar numa loucura destas… saiam daqui imediatamente!

Debora (estende-lhe o telemóvel com o vídeo de Victoria e Cesar) – Ai tem a prova!

(Ouvir: Tu Levaste Minha Vida – Tony. Frederico vê a verdade diante dos seus olhos. A verdadeira Victoria a beijar outro homem e a ficha lhe cai. Ofélia… a verdadeira Ofélia sempre esteve com ele, em enganos, em mentiras… sente as pernas falharem e cai sentado na cadeira de couro fria. Naquele momento, o seu instinto masculino não conseguiu conter a lagrima da tragédia que deslisou pelo seu rosto pálido de aparência morta. O seu mundo caiu e ele sentia-se a cair num buraco negro e escuro sem fim)

Frederico (com a voz tremula) – Ofélia… (olha para elas) Saiam daqui… saiam! (grita) Saiam!

Debora – Seu nome não é “Ofélia”! Ela chama-se Paula Ferreira, esposa de Cesar Ferreira.

Frederico (aos berros) – Não vos quero ouvir mais! Saiam! (Patrícia e Debora saem as pressas) Ofélia… Não, Ofélia! Ofélia… (fecha os olhos e desata a chorar como um menino) Porquê, Ofélia? Porquê, meu amor? Porquê? (soluça e pega no retrato de Victoria) Maldita! (atira-o à parede e depois, num súbito de raiva, atira todas as coisas da mesa ao chão e cai em seguida. Está morto por dentro… sente que a sua vida acabou… ele amava a sua Ofélia como a sua propiá alma, deu-lhe a sua alma. Está atirado ao chão, entregue às dores do coração. De repente lembra-se de quando a conheceu, do seu primeiro beijo, da sua primeira noite de amor. É consumido pelo ódio e tem vontade de matá-la com as próprias mãos) Ofélia… maldita és tu… eras o meu anjo e agora és o meu demónio… de sonho, passaste à pesadelo, de rosa à cravo… odeio-te, Ofélia! Como amo, também odeio-te! (grita) Odeio-te, Ofélia! Odeio-te!

Paula (sente uns calafrios pelo corpo, uma corrente elétrica, um mal pressentimento) – Meu Fernando Pessoa… meu Frederico… onde estás? Que estou a sentir, meu Deus? (está aflita e não sabe o motivo, começa a chorar sem controlo e sem razão)

FIM (CAPITULO 65)