Capitulo 64

(Depois daquela noite de amor intenso, Victoria e Cesar despertaram-se entrelaçados em cima duma selva de lençóis e almofadas macias como a pena dum cisne… mas era um cisne negro como o pecado que se cometera naquele quarto quente e encarnado. Cesar, agora, encontra-se no escritório da sua escola, Fernando, que veio de Sintra para o visitar, está atento às suas histórias apaixonadas e eróticas… estas que agora vive com Victoria)

Cesar (entusiasmado) – Aquela mulher é dum fogo que arde… mas vê-se! Nunca, em toda a minha vida, conheci tal deusa. Tem cá uns movimentos, um modo de beijar que me arrepia a alma. (demonstra preocupação) Mas não sei, Fernando…. Aquele brilho que reluz não é ouro. Esta mulher é tudo o que eu sempre quis para mim, é bonita, inteligente, segura, agradável, apaixonada, ama-me como eu à ela… mas tenho medo. Victoria é demasiado dissimulada. Tem uma facilidade para mentir que nem sabes. Precisavas de ver como ela atua com os meus filhos! É que eu quase acredito que ela é mesmo a sua mãe. Faz tão bem o seu papel que se não fosse vê-la com a Paula, ainda teria duvidas. E depois não é só isso… é o modo como me controla sem que eu consiga reagir. Entrego-me completamente aos seus desejos e façanhas nem duvidar daqueles olhos de serpente que me enfeitiçam. Victoria é como um demónio, e tem a minha alma nas mãos. Mas mesmo com tudo isto, ela ainda me é melhor que a Paula… impressiona-me o seu talento, mas amo-a e sei que sem ela não sei viver.

Fernando – Um demónio, disseste? E Paula? Era o quê, para ti?

Cesar – Um anjo de tal formosura que não se via a maldade no seu coração. Uma santa, quase. Aqueles olhinhos apaziguadores, aquele sorriso puro de virgem… mas não me foi suficiente para a amar ou estar apaixonado por ela. Se calhar, as malvadas é que fazem o meu tipo.

Fernando – E já sabem como farão para manterem-se juntos depois da troca?

Cesar – Sim. Mas ainda não lhe disse nada. Vou comprar uma casa nos Olivais. Chamaremos de “A Toca”. Será o nosso esconderijo de amor. Não posso imaginar viver sem aqueles beijos.

Fernando – Que interessante é o nome: “A Toca”. Tal e qual era n’Os Maias, de Eça de Queirós.

Cesar – Sim… para o relacionamento incestuoso entre Maria Eduarda e Carlos da Maia.

Fernando – Mas lembras como termina a história d’Os Maias? Em tragédia pura.

Cesar – Sim, mas o nosso amor não terminará em tragédia… terminará… não terminará nunca!

Fernando – Torço para isto! Cesar, tens de saber que isto é complicado. Para vocês ficarem juntos é preciso dizer aos filhos toda a verdade e isso os vai matar.

Cesar (levanta-se) – Eu sei… eu sei! Mas… vivemos as escondidas, então. É melhor que nada.

Fernando – Isso pensas tu. Não podem passar a vida a esconderem-se dos vossos filhos.

Cesar – Daremos um jeito. Só não queremos nos separar. Amo-a, amo-a mais que tudo.

(Enquanto isso, Cristina vai visitar Dolores no hotel onde hospedou-se com Nina)

Cristina (abraça-a) – Tia, eu sinto muito! Juro-te que exigi da minha mãe que reconsiderasse.

Dolores – Não faz mal, meu amor. O que mais me magoa é que o teu pai tenha concordado.

Cristina – Isto deixou-me indignada também, mas ele sempre fica a favor da minha mãe.

Nina – É verdade! Aquela mulher controla o teu pai com uma facilidade enorme… inexplicável.

Cristina – Ele a ama demasiado. Mas nunca foi assim… antes nem se notava o amor deles.

Nina – Parece outra mulher… não a tua mãe verdadeira mas sim uma… uma gémea dela.

Dolores (lembra-se do crime de separar as duas irmãs que cometeu no passado e aterra-se) – Nina… não digas tontices. Uma gémea… ela não tem irmãs. Conheço-a desde que era um bebé.

Cristina – Enfim… o que importa é que eu não estou de acordo com a tua saída, tia. Estou muito aborrecida com a minha mãe. Não é justo porque aquela casa é tua mais que dela.

Dolores – Por isso odeio-a tanto… e agora mais ainda! Mas o que é dela está guardado.

(No escritório da escola de teatro, Cesar recebe uma visita inesperada)

Debora (aquela que foi a responsável pelo tiro) – Olá, Cesar! É um prazer rever-te.

Cesar (abismado) – Debora? Que fazes aqui? Ainda mais depois do que me fizeste.

Debora – Por isso mesmo é que vim. (abaixa o olhar) Eu… eu estou muito arrependida.

Cesar – A tua loucura quase custa a minha vida. Não sabes que tenho uma família?

Debora – Eu sei… eu sei! Imploro o teu perdão e juro-te que não me voltarás a ver na tua vida.

Cesar – Pois assim espero. Não te quero voltar a ver e muito menos ouvir falar em ti.

(Victoria entra e assusta-se com a presença de Debora)

Victoria (Paula) (enfurecida) – Que fazes aqui, desgraçada? Deverias de estar na cadeia.

Debora – Fui para um lugar muito pior que a cadeia, senhora! Estive internada num hospício. Diagnosticaram-me louca… deram-me medicamentos e já estou bem… por isso sai.

Victoria (Paula) – Pois nunca deverias de ter saído. Vai-te embora que não te queremos aqui.

Debora – Sim… eu já me vou. Peço-vos imensas desculpas... eu não estava em mim. Não sei o que me deu, mas eu juro que nunca mais saberão de mim. Adeus para sempre. (Vai a sair)

Victoria – Maldita seja! Odeio-a… por pouco não me tira a ti.

Cesar (abraça-a) – Calma, meu amor… acalma-te, Victoria!

Debora (ouve e fica confusa, sussurra) – Victoria? Mas… mas o seu nome não era Paula? (olha para uma foto da verdadeira Paula, loira, que estava num móvel do escritório. Vai embora)

Cesar – Ao menos ela se foi embora. Pareceu-me sincera ao dizer que arrependeu-se.

Victoria – Não sei… algo me diz que isto não acabou por aqui… não sei… um mal pressentimento. Sinto que ela ainda nos vai fazer muito mal.

Cesar – Vá lá… não pensemos mais nela. Dá-me um beijo porque sabes que preciso dos teus carinhos para continuar a viver. (beija-a prendendo-a no seu abraço como se a soltasse nunca mais a pudesse ter outra vez nos seus braços. Victoria deixa-se beijar, tão apaixonada quanto ele. Sente um arrepio maldoso… um pressagio de desgraça a chegar)

(Em Sintra, Frederico está no seu escritório pronto para receber uma entrevista duma rapariga que viria para ocupar o cargo de secretária. Como o destino gosta de brincar com a vida destas duas famílias, a justa mulher é Debora que entra, acanhada, e senta-se. Frederico faz-lhe a entrevista e como o de costume, diz que vai ligar. Despedem-se com um aperto de mãos e no mesmo momento Debora avista um retrato de Victoria, aquela Paula que está com Cesar, dos cabelos negros. Fica aterrada e arregala os olhos. Está pálida)

Debora (aponta para o retrato) – Esta mulher é… (no mesmo instante, Paula entra na sala)

Paula (Victoria) (como não a conhece, age naturalmente) – Bom dia!

Debora (vira-se e quase desmaia) – Mas… a senhora? … Não, não pode ser… meu Deus!

Paula (Victoria) – O que tens? Quem és tu e porquê me olhas assim?

Frederico – Victoria, esta é uma candidata ao cargo de secretária.

Debora – Victoria? O… o seu nome é… Victoria? Minha Nossa senhora de Fátima!

Paula (Victoria) (estranha aquela reação) – Sim… mas, qual o teu problema?

Debora (reflete) – Não… nenhum! Adeus, e obrigada pelo seu tempo! (sai a correr) São duas… meu Deus… são idênticas… a não ser pelo cabelo. Claro… uma está no lugar da outra.

Paula (Victoria) – Quem era aquela rapariga? Viste como ela olhava para mim?

Frederico – Não a conheces? Ela pareceu-me conhecer-te, pela cara que fez.

Paula (Victoria) – Nunca a vi mais gorda. (sente um frio gélido correr-lhe o corpo) Aí! De repente senti uma coisa… um mal pressentimento… que horror!

Frederico (abraça-a) – Acalma-te, meu amor! Não é nada.

Paula (Victoria) (aterrada, abraça-o com força) – Amo-te! (Olha-o nos olhos) Juro-te que amo-te como nunca amei ninguém na minha vida. És o meu único amor… acreditas, não é?

Frederico – Mas é claro que eu acredito, minha vida! Porquê haveria de não acreditar?

Paula (Victoria) (segurando-o com força) – Não importa o que digam, não importa o que aconteça, acredites sempre no meu amor. Tudo o que eu fiz foi por amor.

Frederico – Meu amor, acalma-te! O que tens? Estás a tremer. Porquê falas assim?

Paula (Victoria) – Porque eu sei que algo vai acontecer… acredita em mim quando digo que tu és o meu único e verdadeiro amor. Se cometi algum crime, acredita, foi por amor à ti.

Frederico – Crime? Que crime? Do quê estás a falar? Explica-me, Victoria!

Paula (Victoria) (aterra-se) – Victoria… Victoria… meu Deus! Frederico, beija-me!

Frederico – Mas… antes diz-me o que tens porquê… (é interrompido por um beijo cálido dela. Parecia ser o fim daqueles beijos de amor que destino mal já tinham)

(Debora perambula pelas ruas, confusa e nervosa. Esbarra-se com Patrícia que deixa cair a carteira onde havia uma foto dela com a verdadeira Victoria. Debora abaixa-se para ajudar a pegar as coisas e vê a foto)

Debora – Esta mulher… não pode ser! Outra vez esta mulher… que perseguição.

Patrícia – Sim, é minha amiga. Chama-se Victoria. Mas… que tem ela? Conheces?

Debora – Sim, sim! Ela… tem uma gémea. Só que a gémea é loira e elas trocaram de lugar.

Patrícia (fica perplexa) – Que estás a dizer? Estás louca?

Debora – Não… não sou louca e conheço-as as duas. Hoje encontrei-me com ambas. Uma está em Lisboa, com a família da que está cá… Paula e Victoria, duas gotas de água… duas faces!

Patrícia – Espera, espera! Conta-me isto como deve de ser. Que história é essa de gémeas?

Debora – Ouve! Elas são duas mulheres idênticas. Hoje estive com esta da foto, Victoria. Mas ela está com a família da Paula… todos pensam que ela é Paula assim como todos pensam que a Paula é a Victoria. Trocaram de lugar.

Patrícia – É loucura mas… isto explica o novo comportamento dela. Os ciúmes do Frederico, que nunca os teve, o facto de estar sempre de saia, os cabelos, o modo de estar… só podia ser outra mulher. É claro! Uma impostora… mas quem ia imaginar? Preciso contar isto ao Frederico. Com certeza ele vai se divorciar da Victoria… a verdadeira, e odiará esta… esta tal de Paula… é claro que ficará grato à mim por lhe ter aberto os olhos. (sorri maldosamente) Eu chamo-me Patrícia Monforte! Qual o teu nome?

Debora – Sou Debora Lopéz. Eu era aluna do marido da verdadeira Paula. Mas só conheci a substituta… Victoria, que está em casa da Paula. O que faremos para provar?

Patrícia – Tens que fazer um vídeo da Victoria com o marido da Paula… só assim poderemos provar-lhe que há duas e que estão a enganá-lo. Podes fazer isto?

Debora – Já fiz! Há uns meses, filmei uma das aulas em que a Victoria estava presente… ela até fez uma atuação e depois os dois beijaram-se.

Patrícia – Perfeito! Os dias delas estão contados… em breve se lhes cairá as mascaras.

FIM (DO CAPITULO 64)