Capitulo 63

Victoria (Paula) – Cristina, é muito simples: se a tua tia volta… eu vou-me embora desta casa!

Cristina – Mas… mas não é justo, mamã! Esta casa é mais dela que tua.

Victoria (Paula) (levanta-se) – Eu sou a tua mãe e exijo que me tenhas respeito!

(Cesar ouve as palavras de Victoria e fica amedrontado com a dissimulação e a facilidade que ela tem para mentir. Quem ouve e não sabe, acha mesmo que ela é a mãe)

Cristina (indignada) – Não pretendo admitir isso, minha mãe!

Victoria (Paula) – Ah! Não me digas? E o que pretendes fazer?

Cristina (exalta-se) – Vou sair desta casa agora mesmo! Eu vou morar com a minha tia.

Victoria (Paula) – Ah é? Pois então até logo, até mais ver, bon voyage, arrivederci, até mais, adeus, boa viagem, vá em paz, que a porta bata onde o sol não bate, não volte mais aqui, hasta la vista baby, escafeda-se, e saia logo daqui.

Cristina – Pai, vais permitir isso? Minha mãe está louca… já não a reconheço.

Cesar (grita) – Já basta! Olha… eu estou a ponto de explodir com esta família… parece que estou na casa dos segredos. Vamos conversar a sós, Vic… Paula! (retiram-se para o escritório)

Victoria (solta-se dele) – Calma! Estás louco ou o quê?

Cesar – Estou com medo, Victoria. Medo de ti e do modo com tens facilidade para mentir.

Victoria (sorri e abraça-o) – Meu amor… eu sou uma atriz… lembras?

Cesar – Mas… tu nem tremes para o dizer. É como se não te doesse a consciência.

Victoria (gosta do que ouve) – Tens medo de mim? É bom que tenhas…

Cesar – Minha filha não sai desta casa. É minha filha! Só eu posso lhe dizer que se vá.

Victoria – Está bem! Mas a Dolores não volta… se voltar… saio eu!

Cesar (agarra-a) – Tu, daqui não sais também! (sussurra) És minha… eu preciso que estejas aqui comigo… ao meu lado, nos meus braços… (beija-lhe o pescoço) Na minha cama!

Victoria (aproveita-se da sua fraqueza. Sussurra sedutoramente) – Então já sabes o que tens de fazer. (abraça-o olhando-o nos olhos) Obedece-me e me terás só para ti.

Cesar (hipnotizado e escravo dos seus encantos) – Tu mandas, meu amor… minha deusa sedutora. (Ouvir: Laura – Viveme com Alejandro) Farei o que me ordenares.

Victoria (sorri com um ar soberano) – Enquanto me obedeceres… recompensar-te-ei com uma prenda muito preciosa… (sussurra no seu ouvido) Eu!

(Cesar enlouquece com aquela voz, aquele corpo junto ao seu, aqueles olhos que o seduziam maldosamente, conduzindo-o à um inferno de prazer e luxuria. Agarra-a com força e deita-a sobre o sofá beijando-lhe os lábios humedecidos pelo desejo. Desabotoa-lhe o blazer negro enquanto acaricia-lhe as costas por entre a camisa de cetim vermelho. Aquele negro sobre aquele vermelho sangue, gritava a tragédia que se lhes cairia por cima. As trevas e o sangue banhariam aquelas famílias burguesas. Victoria detém Cesar e levanta-se)

Victoria – Não senhor! Só depois que cumprires com a tua parte.

Cesar (abraçando-a) – Mas… preciso duma amostra antes. (ofegante e faminto, beija-a)

Victoria – Não! Já tiveste uma grande amostra. Convence a tua filha de não sair desta casa.

Cesar (nervoso) – Está bem, minha deusa! Mas depois, quero meus mimos e meus beijinhos.

Victoria (com uma voz manhosa) – Todos os mimos para o meu amor. (dá-lhe um beijo e retira-se. Cesar vai ao quarto de Cristina, que está deitada a chorar)

Cesar (abraçando-a) – Princesa, não fiques assim, meu anjinho. Ouve! O papá teve de o fazer porque a tia não respeitava a mamã. Tu bem sabes que ela não gosta da tua mãe.

Cristina (vira-se para ele) – Mas, papá… eu adoro a tia. Não é justo que ela se tenha ido.

Cesar (dá-lhe um beijinho à testa) – Florzinha, a tia é a culpada da separação que houve entre o pai e a mãe. Ela inventou mentiras sobre a mamã e isso eu não perdoo.

Cristina – Que mentiras são essas, papá? São assim tão horríveis para a teres expulsado?

Cesar – Sim. A tia disse ao papá que a mamã tinha um amante e por isso nós nos separamos.

Cristina – Mas isso não é verdade, papá. A minha mãe só tem olhos para ti.

Cesar – Pois… e o papá sabe disso. Então não podia permitir que a tia vivesse aqui… a inventar mentiras sobre a tua mãe e a criar a discórdia entre nós. Ela foi-se, mas tu não me vais deixar.

Cristina (abaixa o olhar e depois abraça-o) – Não, meu pai! Fico ao teu lado para sempre.

Cesar (dá-lhe um beijinho e levanta-se cobrindo-a) – Boa noite e sonhe com os céus. (retira-se para o seu quarto. Victoria está na casa de banho. Cesar bate na porta) Meu bem, já está feito.

Victoria – Eu sabia que eras capaz… a tua persuasão é sensacional. (sai da casa de banho, vestida unicamente numa camisola de renda vermelha. Ouvir: Laura – Viveme com Alejandro. Cesar fica embriagado de tanto desejo) Agora, como sou uma mulher de palavra, aqui tens a tua recompensa. (aproxima-se dele e deita-lhe um beijo apaixonado que se lhe tira o batom de sabor afrodisíaco. Cesar deixa-se cair naquela tentação pecaminosa. Agarra-a nos braços e lança-a à cama. Põe-se sobre ela e afoga-a entre beijos gulosos. Os sons ricocheteavam pelas paredes do quarto. O seu corpo estava a tremer com uma necessidade que ameaçava consumi-lo. Sentia-se espantado e excitado ao mesmo tempo, e tão desesperadamente atrevido que esteve prestes a gritar de prazer. Cesar subiu-lhe a saia da camisola e ela aproximou a mão do botão das calças dele, e as suas mãos chocaram. Ambos estavam a tremer. Então, Cesar cobriu-lhe rudemente a boca com a dele e afastou-lhe as pernas. Victoria sentiu-o no meio do seu corpo e, num segundo, ele penetrou-a. Victoria ofegou, mas Cesar não parou. Ela estava agarrada às almofadas macias da cama e ele mexia-se para trás e para frente. Victoria sentia os lençóis frios contra as costas nuas, mas a fricção do corpo de Cesar era furiosa e quente junto à sua pele suada e a sensação era demasiado arrebatadora e insistente para escapar. Ouviu Cesar a ofegar, reparou que a agarrava cada vez mais profundamente, e sentiu que ele se liberava completamente dentro dela. Houve silêncio, um momento no qual pareceu que o tempo ficava suspenso, durante o qual Victoria não conseguiu respirar nem pensar, nem sentir outra coisa que não fosse aquela perfeição. Ela adormecera, depois, nos seus braços)

(O sol português nasce, e os seus raios afogam-se nas águas do Tejo, que os leva, em ondinhas, para iluminar toda a rica Lisboa. Mas os raios chegam à Sintra, onde repousam em aposentos mitológicos, um casal que era o espelho dum rei e duma rainha. Paula desperta-se, veste-se e sem alardes, foge para o castelo dos Mouros, num táxi que passou por si. Frederico desperta-se, já são quase onze da manhã. Percebe que Paula não está e arranja-se rapidamente, desce e encontra Telmo)

Frederico – Telmo, onde está a minha esposa? Viste-a sair?

Telmo – Lamento, meu senhor, mas ainda não a vi hoje. Até estranhei já que levanta-se cedo.

Frederico (preocupado e ansioso) – É que não a encontro em lado nenhum e como és o seu braço direito… (lembra-se) Telmo, já sei onde ela está! Vá, faz-me uma cesta de piquenique!

Telmo – É num instante, meu senhor! Colocarei todas as coisas que a minha senhora gosta!

(Telmo prepara a cesta e põe uma toalha de mesa dentro, para o piquenique. Enquanto isso, Paula está no jardim do castelo dos Mouros, sentada nas pedras, no alto do miradouro, a observar o mar que a levou e que a trouxe. Suspira ao lembrar-se do trato que tem com Victoria e o dilema invade-lhe a alma. A brisa fria sopra-lhe os cabelos doirados. Está aquecida por um elegante casaco de couro negro revestido de pelo nas pontas das mangas e na gola. Os sapatinhos não lhe aquecem os pés mas dão-lhe a elegância necessária. Usa formosas luvas acastanhadas que condizem com a sua saia e a bolsa fina. Sente um abraço bandido que faz o seu coração acelerar. Vira-se rapidamente e descai nos braços de Frederico)

Frederico (sorri como um bravo cavaleiro que resgata a sua princesa) – Não tema, minha doce donzela. Eu seguro-a para que não possa cair ao chão. (Ouvir: Rita – Preciso de ti)

Paula (Victoria) – Aí, Frederico, meu amor! Assustaste-me. Como sabias que estava aqui?

Frederico – Sou vidente e adivinho! (rir-se) Trouxe-te pequeno-almoço já que não tomaste.

Paula (Victoria) (sorri e dá-lhe um beijo aos lábios) – Obrigada, meu bem! És um querido. (abre a cesta e estende a toalha sobre a relva do jardim. Frederico segura-a pela mão, e Paula senta-se, formosa como a dama que era. Achega-se para perto dele, procurando aquecer-se na sua gabardina grossa. De costas, encosta-se à ele, sentados sobre a toalha quadriculada, naquela relva pouco verde, devido ao inverno. Frederico pega num dos morangos e leva-o aos doces lábios de Paula que o recebe com vontade. Pega na mão de Frederico e beija-a como se fosse o seu senhor) Meu esposo, perdoarias uma mentira minha, em nome do nosso amor?

Frederico – Eu não sei… sabes que eu odeio mentiras. Mas, dependendo do grau… se calhar…

Paula (Victoria) (treme-se toda e abraça-o com força) – Amo-te, meu Frederico… amo-te!

Frederico – E eu à ti, minha rainha! Mas, que foi? Tremes tanto… é tudo frio?

Paula (Victoria) – Nos teu braços, nunca sinto frio. (acaricia-lhe o rosto com o seu) Se tremo, é porque a tua voz estremece a minha alma e dá-me arrepios sobre a pele.

(Frederico deita-a no seu colo, abraçando-a forte e cobrindo-a com a gabardina que ajudava a aquecê-la. Beija-a carinhosamente e acaricia-lhe os cabelos doirados. Beija-lhe as bochechas rosadas pelo frio, no âmbito de as aquecer. Beija-lhe as pontas dos dedinhos, daquela mãozinha delicada e macia que estava fria como um morto. Paula avista uma exuberante carruagem, do século XV que eles usavam para atrair os turistas. Demonstra interesse)

Frederico (percebe) – Queres dar um passeio naquela carruagem, minha rainha?

Paula (Victoria) — se não te importares… gostava imenso de ir. (Frederico agarra na sua mão e leva-a à carruagem. Os criados, vestidos a rigor, com perucas e luvas brancas, trajes do século XV, um requinte sem igual. A carruagem era sem teto, com um estofado vermelho aveludado. Toda em madeira, decorada com as cores azul e amarelo ouro. A talha dourada reluzia aos raios do sol, as rodas eram dum elegante negro e vermelho, nas portas, havia ilustrações de reis e rainhas. O coche possuía seis cavalos brancos. O criado estende a mão à Paula, para que pudesse subir. O seu sapatinho apoia-se, delicado, às escadinhas de ferro doirado. Frederico sobe e senta-se juto dela, a carruagem segue levando-os como se o rei e a rainha fossem visitar o seu povo. Passam pela rua de casa e Telmo avista-os do alto da varandinha do quarto de Paula e Frederico. Ao passar, Paula cobre-o com uma sombrinha escarlate que levava consigo. Aquele vermelho sobre a cabeça de Frederico era um presságio de sangue e morte… aquela macha de sangue que lhe cobria por todo. Telmo sente arrepiar-lhe a espinha. Pressente a desgraça daquela família e daquele amor)

Telmo (Admira Paula. Perto dela, a elegante carruagem não passava de um assessório que servia apenas para enaltecer ainda mais a sua beleza) – Caramba, é bonita!

FIM (CAPITULO 63)