Capitulo 58

(Cesar, sem dizer uma única palavra, levanta-se e vai para o quarto. Passa a mão sobre o travesseiro onde repousava Victoria, depois deita-se sentindo o seu perfume que impregnara os lençóis de algodão egípcio. Pega no telefone e liga para Fernando. Está desesperado)

Cesar – Fernando, tu nem imaginas a tragédia que me passou!

Fernando – Então, se me disseres, eu saberei. Porquê estás assim… com esse ar desesperado?

Cesar – Victoria… expulsei-a de casa. Foi-se embora para sempre.

Fernando (espantado) – Não me digas que já revelaste que sabes da verdade.

Cesar – Olhei-a nos olhos e indiretamente lhe disse. Queria que ela mo confessasse, mas foi em vão. Não suportei o seu cinismo e exigi-lhe que fosse embora.

Fernando – Então, mas porquê surgiu esta discursão?

Cesar – Minha tia disse ter encontrado, nas coisas dela, a foto dum homem. Tenho-a em minhas mãos. Perguntei-a quem era mas ela negou conhecê-lo.

Fernando – Bem, supondo, só supondo que ela o conheça. Deve ser o seu marido.

Cesar (admira-se) – O seu marido? Que dizes, homem?

Fernando – Pensa! Ela é casada, certo? Então, se calhar, nas suas coisas, veio a foto do marido e ela a quis guardar consigo… sem motivo especial.

Cesar – Sim… porque ela voltaria para ele em um ano. O seu marido… não amante, mas marido. (começa a sentir-se arrependido e culpado) Eu expulsei-a por ter a foto do marido. Deveria estar agradecido por ela o ter deixado para ficar junto à mim. Por se ter sacrificado um ano para viver um amor comigo… que egoísta estupido eu sou.

Fernando – E o que vais fazer agora? Vais permitir que ela se vá embora?

Cesar – Não sei… mas não acredito que ela me vá perdoar assim… tão facilmente.

Fernando – Experimenta! Mas desta vez, tens de a conquistar. Não é a tua esposa.

Cesar – Aí meu amigo! Que seria de mim sem ti? (rir-se)

Fernando – Vejo que já estás feliz. Mas tem outra coisa que não analisaste. Disseste que foi a tua tia que a encontrou, certo? Até onde eu sei, ela odeia a tua “esposa” e pensa que esta que ai está é a Paula. Talvez seja invenção dela para vos separar e teve êxito.

Cesar – Foi o que a Victoria disse. Como fui tolo… eu podia ver a satisfação no olhar da minha tia. Mas é que o meu ciúme e o meu orgulho falaram mais alto.

Fernando – Bem, olha, agora tenho que desligar. Falamos depois e resolve isto com ela, não faças como eu que deixei amores escaparem por orgulho! (Desliga)

Cesar (a falar para si) – Minha adorada… dizia a verdade e eu, de miserável, mandei-a para longe de mim. Não a mereço! Tanto esforço fez para ficar ao meu lado… como a recompensei!

(ouvir: Mariza – Chuva. Faz-se noite e Paula deita-se para dormir. Suspira sentindo a falta de Frederico e uma lágrima escorre dos seus olhos ao lembrar-se que no dia seguinte, a meia-noite, perdê-lo-á para sempre. Lembra-se de quando o conheceu e de como a olhou pela primeira vez, lembra-se de como a conduziu naquele baile de mascaras em Paris, lembra-se do primeiro beijo que tiveram. Aquele beijo que foi essencial para o início de um grande romance e uma loucura que cometeria, o seu primeiro beijo de amor verdadeiro. Em Frederico ela encontrara a paz e a felicidade que procurava. O seu amor lhe era vital, os seus beijos lhe eram preciso oxigénio, e que os batimentos cardíacos dependiam de um abraço seu. Aperta o travesseiro e desata a chorar, soluça desesperada por uma saída que não fosse viver sem ele. Não, não poderia viver sem o seu amor mas sabia que no momento em que saísse por aquela porta, teria de o esquecer para sempre e aquele amor haveria de morrer. No hotel Central, estava Victoria, naquele quarto triste que Cesar reservara para ambos viverem momentos apaixonados. Sentia-se tão magoada, traída, ofendida e triste. Aceitava a sua culpa de ter tido um romance com Lorenzo mas aquilo já se tinha acabado no momento em que a sua mão e a de Cesar encontraram-se naquele aeroporto. Sofria o seu abandono, chorava aquela perda, aquele amor, aquele único amor que nele encontrou. Aquela camara fria e escura, não possuía tanta tristeza e dor como Victoria. As suas lágrimas eram capazes de inundar continentes, o seu coração doía, sentia um nó na garganta que induzia o choro lutoso. Parecia uma viúva diante do marido falecido mas ainda era pior, pois o seu amor estava vivo. Assim permanecem, as duas senhoras, quase viúvas como se as mortas fossem elas. Paula chama por Frederico no pensamento, esperando que viesse ao seu encontro. Ouve um barulho, que vem do piso zero. Levanta-se e vai ao encontro dos ruídos. Encontra Frederico, embriagado a perambular)

Paula (Victoria) – Frederico, o que é isso? Estás completamente bêbado!

Frederico (com a voz arrastada) – Sim, sim! E a culpa é tua... eu bebo para esquecer-te, mas sabes duma coisa? (diz a sorrir) Nem o álcool me faz esquecer de ti! (rir-se)

Telmo (vem a descer) – Minha senhora, o que se está a passar aqui?

Paula (Victoria) (agarrando-se à Frederico) – Telmo, ajuda-me a levá-lo para o quarto, sim?

(Telmo ajuda Paula a levá-lo para o quarto, ambos deitam-no sobre a cama)

Telmo – Precisa de mais alguma coisa, minha senhora? Ele parece-me muito mal.

Paula (Victoria) – Não te preocupes! Eu dou conta dele. Podes te ir deitar. (Telmo retira-se) Aí Frederico! As coisas que tu fazes… (sente o odor do álcool) Oh, céus! Cheiras a marinheiro.

Frederico – Nada disso teria acontecido se me tivesses perdoado…

Paula (Victoria) – Ah pois! Agora eu sou a culpada das tuas infantilidades? Anda, vais tomar um banho d’agua fria para ver se te passa a bebedeira. (tentando levantá-lo)

Frederico (a levantar-se, com esforço) – Amo-te, minha Ofélia, eu só quero o teu amor!

Paula (Victoria) – E eu só quero que tires este mal cheiro de álcool. Por Deus, homem… (leva-o para a casa de banho, despe-o com um certo incomodo, visto que está completamente nu. Desvia os olhares, mantendo-se ríspida com ele, mas Frederico aproveita-se e puxa-a para debaixo do chuveiro. Ouvir: Rita – Preciso de Ti. Paula fica encharcada e debate-se nos seus braços para tentar fugir, Frederico encosta-a à parede e beija-a debaixo da agua que se lhes caia em cima. Está selvagem, isto por conta de está embriagado. Paula tenta sair mas não resiste e acaba por deixar-se beijar. Frederico levanta-lhe a saia da camisola e Paula entrelaça-lhe a perna enquanto os seus corpos eram humedecidos, mas logo solta-se dele e sai da casa de banho, ofegante e nervosa. Seca-se e leva-lhe uma toalha)

Paula (Victoria) – Vem, tens de te vestir. (pega-lhe o pijama e ele veste-se) Agora deita-te aqui!

Frederico – Dorme comigo! Só esta noite… vá lá, amor! (puxando-a para a cama)

Paula (Victoria) (deita-se ao seu lado) – Está bem, está bem! Vamos dormir, sim?!

(Faz-se a luz do dia e Frederico desperta-se a sentir o perfume de Paula. Estranha e quando vira-se para o lado, encontra-a, a repousar como uma donzela adormecida. Aproxima-se e acaricia-lhe o rosto fazendo com que despertasse)

Frederico – Bom dia, meu amor! O que houve ontem a noite? Tenho dores de cabeça e só me lembro de ter bebido alguns copos e… e de estarmos a fazer amor debaixo do chuveiro.

Paula (Victoria) – Primeiro que não foram alguns copos. Estavas embriagado como um pirata. Segundo, não fizemos amor, coisa nenhuma, debaixo do chuveiro. Eu saí antes.

Frederico (abraça-a sem ela esperar) – Que pena… e eu que já sonhava com o teu corpo molhado sobre o meu, rolando nestes lençóis… (suspira)

Paula (Victoria) (chateia-se) – És tão pretensioso, Frederico! Deixa-me levantar que ainda estou chateada contigo pelo que fizeste ao Rodrigo.

Frederico – Por falar nisso, nós os dois já conversamos e ele me perdoou.

Paula (Victoria) – Meus parabéns! Era o mínimo, Frederico, o mínimo! Queres que eu te dê um doce como recompensa? Ainda bem que tens carater para admitir os teus erros.

Frederico – Sim, quero um docinho! Chama-se: beijinho nos lábios do Fredy!

Paula (Victoria) – Eu não te vou beijar coisa nenhuma! Não depois de me teres molhado.

Frederico (a ser pervertido, sussurra) – Molho-te sempre e nunca reclamas…

Paula (Victoria) (escandaliza-se) – Frederico! Estás muito imoral, para o meu gosto. (empurra-o) Solta-me, que não gosto destas perversidades… deves pensar que temos dezassete anos.

Frederico (subitamente, põe-se sobre ela e sussurra) – Gostas sim… olha como ficas vermelha! Adoro quando coras. Eu sei que gostas disso, gostas de coisas picantes, eu sei porque ficas toda arrepiada só de te tocar. (Paula volta a debater-se para fugir dele, mas Frederico prende-a e afoga-a em beijos apaixonados) Não, senhora, daqui só sairás quando eu quiser!

Paula (Victoria) (a derreter-se) – Não, Frederico. Deixa-me, deixa-me que não te perdoei.

Frederico (chateia-se e deita-se para o lado) – Até quando ficaremos assim?

Paula (Victoria) (levanta-se) – Até eu sentir que te posso perdoar. Por enquanto, sugiro que aprendas a resolver os teus problemas como um adulto, sem recorrer ao álcool. E aproveita que é sábado, assim curas a tua ressaca! (retira-se)

(Enquanto isso, em Lisboa, Cesar tenta contactar Victoria para implorar que volte à casa. Sem sucesso fica em pânico por não saber onde ela está. Victoria desperta-se com o sol a bater nos seus olhos, levanta-se para fechar as cortinas. E nota uma tulipa vermelha, já morta, iluminada pelo sol. Pega-a e senta-se na cama. Ouvir: Laura – Viveme com Alejandro)

Victoria – Meu Cesar, meu amor! Tanto sacrifício e nem uma noite de paixão nós tivemos. Dormir esta noite sem estar nos teus braços, sem os teus beijos, sem o teu cheiro e o teu calor, foi uma tortura. Seria melhor que me tivessem açoitado num tronco de escravos. (suspira) Tudo isto que fiz, toda esta mentira, foi unicamente para estar ao pé de ti. E eu de tola, tomava a ideia de me divorciar do Frederico e fugir contigo para longe. Dos meus filhos, tratava depois. Não quero ir embora, não te quero deixar, adorado amor… desejo que entres por esta porta, que me pegues nos braços e que me salves deste destino cruel que me espera lá fora. Amo-te, meu Cesar, meu senhor dos olhos bonitos, eu sou a tua senhorita sorriso!

(No seu quarto vazio, estava Cesar, encostado à vidraça, com um olhar distante)

Cesar – Minha Victoria, minha vida! Tanto sacrifício fizeste e eu não te soube valorizar. Dormir esta noite sem que estivesses nos meus braços, sem que te pudesse beijar, sem o teu perfume e o nosso calor, foi uma tortura. Seria melhor que me tivessem arrancado a língua para que não te pudesse dizer tais ofensas. (abaixa o olhar) Tudo isto que fizeste, toda esta mentira, foi unicamente para estar ao meu lado. E eu de estupido, tomava a ideia de que não me amavas e de que tinhas outro no coração. Não quero que vás embora, não te vou deixar ir, adorada deusa… desejo entrar onde estás, pegar-te nos meus braços e levar-te para longe, onde possamos viver o nosso amor. Amo-te, minha Victoria, amo-te minha senhorita sorriso!

Cristina (entra, devagar, amuada) – Papai, quando vais trazer a mamã, de volta?

Cesar (vira-se e se desmorona ao ver aquele olhar lacrimejado) – Oh minha princesinha! (corre e abraça-a) O papá cometeu um erro grave, mas prometo que a trarei para casa.

Cristina (olha-o com um vislumbre de ânimo) – Porquê expulsaste-a? Que fez, ela?

Cesar – Nada, meu amor, nada! Eu é que sou um estupido que não pensa nas coisas. (solta-a e vai em direção à janela) O pior é que… eu nem sei onde ela está e nem como encontrá-la.

Cristina – Não estará num lugar onde se sinta a vontade? Ou talvez num lugar vosso.

Cesar (lembra-se) – Um lugar nosso! É claro! (corre e abraça-a outra vez enchendo-a de beijinhos) Meu amor, tu és um génio. Vou buscar a minha adorada. (sai a correr)

FIM (DO CAPITULO 58)