Dual Personality

2 Parte da nossa história


Notas iniciais
Então ~

Bem, não somos dois desde sempre. Acho que a minha infância traumática o criou e as coisas ruins que acontecem com todo adolescente ajudou no firmamento. Enfim, nada foi do jeito que eu queria. Eu queria acabar com minha solidão, e então ela (ou seria ele?) surgiu. Meus pais, sempre ocupados demais para criar uma criança e eu não tinha amigos, era antissocial, não por opção, simplesmente porque minha voz não saia ou porque eu entrava em pânico quando alguém falava comigo. Inicialmente, eu achava que todas as pessoas do mundo seriam igual aos meus pais, sem se importar comigo. E quando fui perceber, eu não era uma, era duas, ou dois, ainda não sei.

E também houve a morte dos meus pais. Algo sempre doloroso de falar, no entanto a única pessoa que precisei contar foi para o Light. Apesar da dor, eu sei que a culpa foi minha. Eu ainda consigo me lembrar, foi a primeira vez nós ficamos juntos, e meu outro eu, me deu seu ombro.

Estávamos no carro da minha mãe, meu pai estava no banco do passageiro, e eu na parte de trás. Eu tinha uns 6 anos. Eles estavam brigando, por minha culpa. Ambos reclamando do outro, falando que não me dava atenção, que eu iria acabar como uma drogada, essas coisas. Eu não entendia muito bem, eu era só uma criança. Mas de repente algo me fez gritar, e eu não conseguia parar de gritar, não conseguia controlar minha voz, e acabei apenas tampando meus ouvidos. Tinha um carro vindo em nossa direção, o motorista estava de cabeça baixa, e meus pais olhando para trás para tentar conter meus gritos, que saiam involuntariamente. O automóvel da frente bateu no nosso. A parte da frente do carro foi toda destruída, acho impressionante até hoje o fato de eu conseguir lembrar de todos os detalhes. Também lembro de sentir algo me abraçar, como se fosse de dentro para fora. Chorei sozinha, morri de medo, mas o meu próprio ombro parecia me consolar.

Em um período de seis anos, aconteceram muitas coisas ruins, mas nada que mereça mais foco do que isso que aconteceu no meu colégio. Eu tinha doze anos — depois de tentar me aproximar de pessoas que se afastaram de mim, graças ao meu outro eu — resolvi me isolar, achei que ninguém me procuraria. Porém, me procuraram, para me atormentar. "Loira burra, anoréxica estupida, bulímica vadia, zumbi". Fiz inimigos tão facilmente, sem motivo aparente.

Os amanheces eram vazios e cinzentos para mim, eu sempre sentia que podia desaparecer ou morrer a qualquer momento, morava com meus avós, que não falavam comigo, só me davam dinheiro e alimento, que normalmente eu recusava, eles tinham medo de mim, ou algo assim. E eu não conseguia dormir pela noite, era o único momento em que sentia-me preenchida, então dormia um curto período de tempo pela tarde.

No colégio, sofria muito, as pessoas me odiavam sem motivo aparente, talvez por boatos que corriam no colégio de eu ser uma psicopata. Eu sentia-me indefesa, e ainda não conhecia muito bem meu outro eu.

Uma vez, a minha voz saiu sem a minha permissão, foi a primeira vez, que eu me lembre, depois da morte dos meus pais.

– Todos vocês vão para o inferno. — E um sorriso involuntário surgiu. Eu juro, não fui eu. Minhas cordas vocais simplesmente falaram, sem minha permissão. É claro, isso irritou muita gente, que criou antipatia por mim, mais do que já tinham antes.

Umas garotas da minha sala me odiavam a ponto de querer me espancar. E armaram para mim, durante a minha solitária volta para casa.

– Olha, a estranha está indo para casa, sozinha. Ninguém se importa com você, sua idiota! — Uma garota de cabelos vermelhos e pele branca olhava nos meus olhos, mostrando que realmente queria me afetar. Naquele momento implorei para que minhas cordas vocais se mexessem sozinhas, falassem algo que afetasse aquela garota, matando-a por dentro. Apesar disso, nada saiu dos meus lábios, nenhum som.

Quando, finalmente, elas partiram para cima de mim, rasgaram uma parte da minha farda e jogaram minha mochila para longe, a primeira me deu um murro no rosto, fazendo meu nariz sangrar. Então, naquele momento, eu não era mais responsável pelos movimentos do meu corpo, era outra pessoa, outra alma. Lembro de pouca coisa, algumas memórias distante e pouco detalhadas. Me recordo de pegar uma pedra enorme, de estar com as mãos sujas de sangue, e de ver as outras garotas correndo.

Então... Essa é uma etapa da minha vida que não gosto de me lembrar, porém foi a que mais tive aproximação com o meu outro eu. Psiquiatras, psicólogos, neurologistas, morei na rua, sozinha, atrasei os estudos, meus avós me odiavam, mas isso deixou de importar quando eles também morreram (causas naturais, até onde sei). Consegui me virar com a herança, sozinha, sem ninguém saber que uma garota de quatorze anos (minha idade da época) vivia sozinha, mas eu não estava sozinha, nunca estive.

Bem, uns dois anos depois, conheci o Light. Tinha dezesseis e não tinha ninguém. Estudava com professores particulares, em casa, porque aos quinze anos, desisti de estudar em colégios. Os tais professores sempre estranharam a ausência de responsáveis na minha casa, porém eu justificava, "tenho pais ocupados". Um dia qualquer, uma garota da minha turma anterior veio me visitar, ela se preocupava comigo... Começamos uma linda amizade. Saíamos sempre, falávamos sobre a vida, ela chegou a me perguntar sobre o passado, os boatos, eu preferi não a contar nada. Ela era apaixonada por um amigo, e eu tentei ajuda-la, acabei me enturmando mais do que pretendia, e quando fui perceber, umas vinte pessoas gostavam de mim.

– Misamisa, vamos comer pizza hoje? — Yui, a tal garota, me arrastava para sair de casa.

– Vamos sim, ainda não almocei mesmo. — E fomos até um lugar da cidade que vendia pizza barata.

Rimos, bebemos refrigerante, como amigas normais. E então, quando me dei conta, estava deitada ao lado do corpo dela morto, e minhas mãos cheias de sangue, e o que a havia machucado, estava na minha mão. Eu queria gritar. E chorei desesperadamente, essa não era a primeira vez que isso acontecia, no entanto era a primeira vez que acontecia com alguém que eu me importava.

– Meu Deus, o que aconteceu aqui? — Um garoto moreno, cabelos castanhos puxado pro ruivo, se assustou ao ver aquela cena. Eu fiquei paralisada, apenas chorei. Ele se aproximou — Foi você quem fez isso?

– E-eu n-não s-sei. — Tremi.

Ele então, me tomou em seus braços e me levou para sua casa. Tinha dezoito, morava sozinho.

– Deixe-me cuidar de você...

E ele nunca, nunca contou para ninguém o que viu, e todas as vezes que isso acontecia, eu podia ligar para ele, e viria cuidar de mim, me tirar daquela situação. Acho que por isso meu outro eu não o matou, porque percebeu que ele é importante... Para nós.

Notas finais
Um pouco da história da Misa ^^