Eu sempre morei na cidade, mas às vezes me pegava pensando se não era um druida por conjurar companhias à minha solidão. Era natural que no inverno eu me deprimisse mais do que o normal; a cidade cinza se tornava mais cinza e eu sentia falta do azul do céu do verão.

O único azul que eu via era o das paredes do meu apartamento, lugar que passava mais tempo por conta do frio. Eu praticamente ficava preso e comprimido numa caixa, debaixo das cobertas o dia inteiro. Tinha a sensação que o frio era muito mais cruel a mim por ter um corpo muito magro e isso piorava quando não saía de casa direito para comer ou fazer compras, uma preguiça me dominava e eu nem ao menos visitava algum amigo, não que eu tivesse o hábito de visitá-los.

Um dia pensei que parecia estar vivendo numa casa no alto de uma colina, isolado de todos e cercado somente pela natureza, como se eu fosse a pessoa mais naturalista do mundo, sendo que eu nem ao menos era vegetariano e detestava tomar chá.

E esse cenário me vinha a mente quando sentia algo adentrar nos meus cobertores e se contrair preguiçosamente ao meu lado.

Eu largava o livro ou o celular, e passava a dar carinho num dos meus gatos. Em troca, ganhava lambidas da língua que achei tão áspera quando a senti pela primeira vez, mas que não me incomodava mais. Parecia que vivíamos bem com nossas diferenças.

4 gatos me cercavam e eu pensava que os havia conjurados para não me sentir só. O fato de não falarem não os diminuíam, eu gostava de adivinhar pelos seus gestos e olhares o que queriam. E eles faziam o mesmo comigo.

Cada um tinha uma personalidade e eram muito fortes, eu não conseguia entender por que eram considerados irracionais, sendo que tinham tamanha presença de espírito.

Gravatinha era a mais curiosa, fugia muito e tive que castrá-la. Desde filhote, não respeitou a hierarquia e bateu de frente a Xena, a mais velha de todos. Ela nunca me mordeu e eu achava isso impressionante. Quando a afogava em meus braços, suas presas se mantinham para dentro. Tinha a certeza que Gravatinha nunca iria me machucar por mais irreverente e livre que fosse. Era uma gata muito inteligente e se eu falasse com ela, me responderia com um miado. Também muito ciumenta, ela queria ser a número 1 de todos os humanos.

Petisco era o meu único macho, era um gato tão tranquilo que ficava estático e me fazia pensar se não era alguma peça de enfeite, como um adorno, decorando meu apartamento. Gostava de pensar que ele tinha uma visão de mundo muito peculiar por ser tão calmo num tempo em que ficávamos cada vez mais agitados. Ele parecia sempre estar sentado no assento da janela, observando a paisagem.

Suki era a mais nova, era medrosa e muito magra. Por muito tempo, Suki fugiu de mim e eu não conseguia entender por que se sentia tão ameaçada. Com o tempo, ela se sentiu mais segura e passou a brincar com os outros. Toda vez que ela se aproximava de mim e se metia debaixo das minhas cobertas, eu ficava todo bobo porque sentia que ela poderia gostar e confiar em mim.

Xena era a mais velha, tinha por volta de 10 anos. Houve um tempo que me preparei psicologicamente pra quando chegasse a hora e falhei, porque a pedia para que vivesse pra sempre. Ela era a gata mais carinhosa, ronronava fácil. E eu sabia que me amava, assim como eu a amava. Seu miado era o mais fofo e também era a mais sensível. Gostava muito de quando ela miava na minha cama, me chamando para deitar. Por ela, eu ficaria preso no apartamento pra sempre.

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