Notas iniciais
Ao contrário do normal, esta história começa pelo fim. Ou melhor, sobre o que aconteceu depois do fim. Espero que gostem, e qualquer comentário é bem vindo.

A garota nadava sob a luz dos gigantes refletores que iluminavam a gigantesca piscina de treinamento. Alguns outros jovens estavam de pé, conversando nas arquibancadas, e um grupo de meninas sentadas com o pé na água fria davam risinhos nada discretos, olhando na direção do salva-vidas. Mas longe de tudo isso, Lena agitava os braços e as pernas, nadando de uma extremidade à outra. A cabeça sempre debaixo d’água, impedindo-a de ouvir qualquer som senão o de sua própria mente. De vez em quando ela levantava o rosto, para respirar, mas os olhos permaneciam fechados, debaixo dos óculos de proteção. Por fim, depois de ir e voltar várias vezes seguidas, a menina parou e, emergindo, sentou-se na beira da piscina. Aguardou alguns minutos, enquanto descansava e recuperava o fôlego, e tirou da cabeça a touca que segurava os longos cabelos negros. Alguém veio em sua direção, e ela notou quando uma outra menina se aproximou dela.

“Eu realmente pensei que você fosse ficar nadando até anoitecer!” ela disse. Vestia um short rosa e uma camiseta regata, e o corpo totalmente seco indicava que ela não era adepta da natação.

“Ah, que isso, Ana. Eu só fiquei alguns minutos além do que de costume.” Respondeu Lena, sorrindo. “Você tá aqui há muito tempo?”

“Faz meia hora, eu só vim pra conversar com o Vulcão.”

“Quando o treinador descobrir que vocês chamam ele de Vulcão eu quero ver... Ele vai entrar em erupção e vocês que vão se queimar!” Lena brincou. Já tinha se levantado e caminhava pro outro lado do ginásio, em direção ao vestiário. Ana a acompanhava.

“Ele já sabe! Com certeza deve saber.” A menina sorria, cínica. “Mas eu não ia me importar se ele quisesse mostrar um pouco do fogo dele...” As duas caíram na risada. Era verdade que o treinador era um tanto atraente, assim como a maioria dos rapazes que frequentavam o ginásio. Afinal, tanto exercício físico era o suficiente pra deixar os corpos definidos, enrijecer os músculos e transformar os abdomes em “tanquinhos”. Mas antes mesmo de chegar na metade do caminho pro vestiário, Lena reconheceu perto da arquibancada, um cara que não tinha nada de atlético. E ao contrário de todos ali, que só trajavam roupas de banho, ele usava um jeans surrado, junto com um casaco de moletom da GAP. O cabelo era castanho claro, com uma franja caída sobre os olhos que faiscavam de raiva. Dava pra ver de longe que ele não estava de bom humor. Lena revirou os olhos.

“Eu mereço... Eu mereço mesmo isso...” ela disse.

“Que foi?” Ana ainda não tinha visto o garoto, mas Lena apressou o passo a sua frente, indo em direção a ele e a menina de short logo percebeu o que ia acontecer em seguida. Problema.

O rapaz já tinha saído de seu esconderijo e agora também caminhava em direção à Lena. Ela o alcançou e já tinha no rosto uma expressão feroz.

“O que você tá fazendo aqui, posso saber?” ela falou.

“Realmente, né, o que eu tô fazendo aqui ninguém sabe. Já você...” o garoto cuspiu as palavras. Ele estava tremendo.

“Eu tô nadando, seu imbecil. E se você não me deixar em paz e continuar me perseguindo eu vou chamar a policia!”

“Te perseguindo?!” ele gargalhou, alto demais. Todos no ginásio olhavam pros dois jovens. “Eu não tô te perseguindo não. Só vim ver de perto essa putaria sua.”

Lena se descontrolou.

“O que você disse?”

“É isso mesmo. Aqui que você se diverte com suas amiguinhas...” ele começou a rir. Lena estava vermelha. “E quem é essa aí?” ele apontou pra Ana. “Sua nova namoradinha?”

“Ei, presta atenção, seu idiota!” Ana falou. Mas Lena perdeu o controle. Agarrou o garoto pela camisa, tão forte que ele perdeu o equilíbrio.

“Eu vou dizer mais uma vez, e essa vai ser a última. Da próxima vez que você aparecer pra encher o saco, você vai se arrepender muito. E cuidado com essa sua boca que só fala merda, porque eu não vou deixar você usar ela pra falar mais nenhuma sujeira de mim.” A saliva da menina respingou no rosto do garoto, que arregalava os olhos. Por fim, quando terminou de falar, não pensou duas vezes, e o empurrou na piscina. Todos em volta começaram a rir, e Lena foi pro vestiário se trocar, Ana ao seu lado.

O menino certamente não estava esperando por aquilo, e se debatia na água tentando se manter na superfície. As pessoas em volta da piscina estavam muito ocupadas rindo dele, que não perceberam quando ele começou a se afogar de verdade. Só quando o salva vidas saltou na piscina e tirou ele da água que elas pararam de rir. E quando viram que ele não se mexia, se aglomeraram em volta do salva vidas, que fazia uma massagem do peito do garoto e, em seguida, fez uma tentativa de respiração boca a boca, que foi interrompida por gritos de protesto do rapaz, agora já consciente. Ele se levantou correndo, e saiu do local pisando firme. Os jovens voltaram a rir, mas logo dispersaram-se. Já o salva-vidas, foi atrás de alguém no vestiário.

*

Ana parou na entrada do vestiário feminino quando viu que George estava vindo.

“Oi gato. Você vem sempre aqui?” ela disse, com um sorriso malicioso nos lábios.

“Sem gracinhas, Ana. Preciso falar com Lena.” George, o salva-vidas tinha o rosto sério, o que pra Ana, só o deixava mais bonito, junto com todos os músculos.

“Ela tá se trocando, já vai sair. Mas o que pode ser tão importante pra fazer você querer invadir o vestiário feminino? Não que eu esteja reclamando, claro... Na verdade, todas meninas iam gostar da sua visita!” ela falava tudo aquilo rindo, sem ligar pra nada. Mas o homem à sua frente não dava importância, já estava acostumado a lidar com o assédio das garotas dali.

“Você é péssima com piadas, sabia? Mas eu quero falar sobre ela ter jogado um garoto na piscina, que aparentemente nem nadar sabia!”

“Pois ele devia era ter morrido, lá.” Lena surgiu atrás de Ana, vestida com uma roupa parecida com a da amiga, e os cabelos presos num rabo de cavalo. George olhou pra ela.

“Sério mesmo, Lena? Há quantos anos você treina aqui? Porque você conhece as regras mais do que ninguém! E o garoto se afogou mesmo!”

“Ah, que seja George! Ele é um babaca!” a menina rebateu. “E se você soubesse a merda que ele falou pra mim não ia vir aqui me dar bronca!”

“Bem, na verdade eu sei. E o ginásio inteiro... vocês tavam gritando! E ele não devia ter te tratado daquele jeito, mas o seu comportamento foi igualmente péssimo!”

“Ah, que se dane. Por mim ele devia ter morrido.” Lena disse, e saiu andando, deixando o salva-vidas lá em pé. Ana, olhou pra ele e deu de ombros, seguindo a amiga.

Já do lado de fora do ginásio, as meninas seguiram em direção ao carro de Lena, um modelo esportivo que ela ganhou no último aniversário. Ela jogou a mochila no banco de trás e sentou no banco do motorista, Ana no carona. Mas em vez de ligar o carro, ela segurou o volante e ficou parada, olhando pro nada à frente. Ana tentou confortá-la.

“Que foi, Lena? Não vai deixar aquele imbecil acabar com seu dia, né?”

Lena só sacudiu a cabeça.

“Você ouviu as coisas que ele falou de mim? Você tem noção da merda que ele falou?” Ana, não respondeu. Era péssima pra dar conselhos, então só olhou pra amiga.

“E o pior, Ana, é que há duas semanas atrás ele disse que...” ela não completou a frase, mas Ana sabia como ela terminava. Lena esfregou os olhos e respirou fundo, e quando ligou o carro o telefone tocou com uma nova mensagem. Ela pegou e viu o remetente: Alex.

“Que foi?” Ana perguntou.

“A Alex tá dizendo que vai ter uma festa na casa do Benjamim.”

“Ben, por favor. Ninguém chama ele de Benjamim. Mas espera... Ele não é primo do...” nesse momento Lena sorriu e acelerou.

“Parece que a gente já tem programa pra hoje à noite.” E o carro se perdeu entre os demais veículos da rodovia.