Drops de Citrus
3 Se eu pudesse voltar no tempo - parte 3
Yuzu bombardeou Harumin com mensagens pedindo ajuda para desfazer a burrada da noite anterior. Não havia ninguém tão próximo a ela na Inglaterra que pudesse substituir Harumin no quesito “aconselhamento”, por isso o desespero da loira em não deixar Rika escapar de sua vida.
“Vamos, Harumin! Me manda um sinal, please! Eu sei que você tá ralando muito na faculdade e no trabalho de meio período, mas me dá uma luz!”, Yuzu clama em sua cabeça. Por sorte, Harumin não desgruda de seu celular, colocando o aparelho no decote dentro do sutiã mesmo quando vai trabalhar como garçonete.
Em um dos poucos momentos em que não está atendendo alguém, Harumin pede licença para ir ao banheiro. Notando que não há algum colega de trabalho por perto, a garota entra numa das cabines do sanitário e tira seu celular do meio do decote. Ao visualizar a tela, aparece um aviso de 50 mensagens não lidas, todas de um mesmo remetente. “Gente, que desespero é esse? Espero que não seja de alguém de casa, senão... Ah! São todas da Yuzucchi. PERA! SERÁ QUE ACONTECEU ALGO RUIM COM ELA?”, a amiga de Yuzu tenta não entrar em pânico.
Após abrir o aplicativo de mensagens, Harumin fica apreensiva, mas clica para visualizar tudo o que chegou. Para seu alívio, a maioria das mensagens são emoticons; Porém, todos eles mostram que Yuzu anda com algum tipo de problema que só Harumin seria capaz de compreender.
A caçula das Taniguchi lê de cabo a rabo as mensagens da sua best friend. “Sério? Até quando você vai esconder isso da sua mãe, Yuzucchi? Já são três anos que você e a Rika-san estão namorando, até vivendo juntas vocês estão! Falta só oficializar no papel, porque já estão praticamente casadas. Os pais dela aceitam isso numa boa, e isso é bom! Agora, eu não acho justo esconder tudo o que anda acontecendo da sua mãe, nem mentir que a Rika é apenas uma veterana. Diga logo a verdade! Mesmo que sua mãe não aceite o relacionamento, você já é uma adulta, vacinada, não é mais uma criança esperando os adultos decidirem as coisas por você. Sua irmãzinha, a kaichou, mentiu para o avô, e o final a gente já sabe no que deu”, Harumin manda para Yuzu. “Olha, eu tô no trabalho agora. Espera eu voltar pra casa e a gente pode conversar direitinho. Não faça nenhuma bobagem até lá!”, manda em seguida a amiga da loira.
—_______________________
Agora na presidência do Grupo Aihara, com o amigo do avô e o marido aconselhando-a em algumas questões em que ela ainda não tem experiência, Mei passa boa parte do tempo estudando a contabilidade, as despesas e os investimentos da empresa. É muito conteúdo para ser digerido, e ela é obrigada a conciliar o tempo restante da faculdade com sua nova função. Com uma ajuda de Satoshi, a CEO consegue pelo menos um final de semana de folga para visitar a mãe e Himeko.
Convidada por Ume para um jantar no domingo, Mei decide levar um presente, mas não sabe o que comprar. Ao visitar Himeko, a herdeira dos Aihara pede à amiga que a ajude na tarefa, e então as duas saem juntas até o shopping.
— Ai, Mei-mei! Você não sabe a emoção que estou sentindo por acompanhá-la às compras! É algo que nunca fizemos antes! — Himeko fica emocionada e entusiasmada com este momento inédito.
— Himeko, é apenas para comprar um presente para minha mãe, não há nada de extraordinário nisso. — Mei diz naquele tom neutro de sempre.
— Mas é uma coisa diferente, que garotas como nós não estamos acostumadas a fazer sozinhas. Sempre que eu queria um vestido, minha mãe chamava uma costureira para tirar as medidas e escolher o tecido e os detalhes. Sapatos e acessórios meus pais sempre compraram para mim no exterior, então eu nunca precisei escolher ou sair de casa para ir a uma loja.
— Poxa, você não se sentia entediada por nunca poder fazer algo simples sozinha? Mesmo com o vovô suprindo todas as minhas necessidades, eu ainda tinha uma certa liberdade para escolher minhas roupas. Claro que eu não ia sozinha, uma das funcionárias do vovô me ajudava a decidir o que levar.
— Desde que nasci, as coisas funcionam assim em casa, Mei-mei. Meus pais se preocupam muito comigo, talvez porque eu seja a caçula e meus outros três irmãos sejam todos homens. Eu também não tinha muito tempo livre quando era criança... depois da escola, ainda tinha aula de piano, escola de idiomas e um monte de atividades extras.
— Entendo. Se você ficou entusiasmada por esta oportunidade inédita, acho que podemos gastar um tempo andando à toa no shopping. Pelo menos uma vez na vida não deve fazer mal.
— Yes! Vamos lá!
Mei pensou em talvez comprar alguma peça de roupa, mas não tinha ideia do que poderia agradar a mãe. Himeko arrastou a amiga para as lojas de roupas, mas todas elas não tinham a ver com Ume, que tinha um estilo mais simples e prático.
— Bem, se não dá pra ser uma peça de roupa, pode ser um perfume? Sais de banho? Algo relacionado a cosméticos?
— Eu não havia pensado nisso, Himeko. É uma boa opção! Acho que pode ser uma combinação de sais de banho com um perfume suave.
Dentro da loja de cosméticos, Mei sente todos os perfumes que a vendedora tira da prateleira para que ela decida qual é o melhor para presentear. Himeko fica animada por ter achado alguns perfumes que servem para ela, enquanto dá suas opiniões para Mei levar em consideração.
— Aiaiai, eu acho que desses perfumes que sentimos os cheiros, vou levar uns cinco só pra mim. E você, Mei-mei? Tem um que você não deve ter sentido, mas tenho a impressão de que esse perfume não me é estranho... Já senti ele em alguma ocasião, mas eu não lembro.
— Ah, você diz este aqui, de vidro amarelo? Acho que é de frutas cítricas... Vou borrifar para senti-lo.
Não foi preciso uma borrifada no pulso para Mei ter certeza de que aquele era o perfume perfeito para Ume. Havia algo muito além disso: o perfume tinha o odor muito parecido com um que ela lembrava quando ainda era presidente do conselho.
— Himeko, esse perfume... Acho que não é só você que tem a impressão de ter sentido esse mesmo cheiro antes. Ele me lembra... a Yuzu.
— Então era isso! Aihara Yuzu! Aquela garota, como pude esquecer? Agora ela está criando juízo lá na Inglaterra e... — Himeko já ia começar a numerar os defeitos de Yuzu quando Mei decide cortar o assunto antes que as lembranças comecem a emocioná-la.
— Será que podemos só escolher os sais de banho e ir embora logo? É que eu preciso chegar cedo ao apartamento da minha mãe — Mei faz questão de cortar a fala da amiga.
— Ah, tudo bem, Mei-mei. — Himeko tem certeza de que não era essa a intenção da outra.
Mais quinze minutos, e as duas amigas escolhem os sais de banho para, enfim, fechar as compras. Himeko sai com cinco pacotes, enquanto Mei coloca os presentes em um só. Satisfeitas com o resultado do encontro de hoje, as duas se despedem e cada uma vai para seu lado.
No carro, Mei pega o pacote e tenta sentir novamente o mesmo cheiro que ela havia sentido na loja. O pulso ainda guarda um pouco do perfume, trazendo lembranças de conforto e carinho emanadas por Yuzu. Até o apartamento de Ume, a CEO não consegue pensar em outra coisa senão em sua antiga amada.
—_____________________
No pequeno condomínio de dois andares que seus pais alugaram para que ela pudesse frequentar a faculdade, Harumin passa muito pouco tempo. Na realidade, o apartamento é mais um espaço para ter onde dormir, já que na maior parte do tempo da garota está na sala de aula ou no restaurante onde trabalha. Diferente de quando morava com a avó, nesse apartamento Harumin não guarda muitos pertences pessoais: o espaço é pequeno e precisa ser melhor aproveitado, então boa parte do guarda-roupa ficou para trás.
Assim que chega do trabalho, a caçula dos Taniguchi vai logo tomar um banho quente para relaxar o corpo, cansado de tanto ficar em pé, correndo para lá e para cá, anotando pedidos e entregando os pratos. Enquanto está no banho, ela deixa a TV ligada para não se sentir muito sozinha, e também esquenta um pouco da comida que comprou na loja de conveniência.
Depois de meia hora refletindo sobre a vida, acomodada na banheira cheia de água quente, a garota se lembra que prometeu conversar com Yuzu assim que chegasse em casa. Rapidamente, Harumin sai do banheiro e vai colocar um pijama leve antes de jantar e continuar a conversa com a amiga.
“Então, Yuzucchi... Retomando o que eu havia dito antes... Chame a sua mãe para uma conversa, mesmo que seja por uma chamada de vídeo. Claro que é bem diferente de uma conversa cara a cara, mas como vocês duas não vão se ver tão cedo, seria uma alternativa. Aliás, é melhor você se desculpar com a Rika-san primeiro, e aí sim, apresentá-la para sua mãe como sua namorada. Agora, o que fazer para pedir desculpas? Um presente, talvez?”, responde Harumin.
Enquanto espera a amiga responder, Harumin janta e lê uma das revistas de moda que havia comprado no dia anterior. Diferente do que todos haviam pensado, a caçula dos Taniguchi escolheu ser médica veterinária, mesmo que o caminho até se formar e estar apta a atuar na área seja um pouco mais longo. Como as despesas da faculdade ficaram a cargo de seus pais, ela arranjou um trabalho para lidar com outras despesas que poderá ter no futuro, como cursos e especializações.
Um toque e chega uma notificação no celular:
“É, acho que uma chamada de vídeo pode ser feita. Só preciso tomar um pouco de coragem, Harumin. Bate aquela sensação de medo, de frio na barriga, sofro por antecipação só de pensar qual será a reação da minha mãe. E se ela me banir da vida dela pra sempre? Ou ficar de mal comigo? A mama é divertida e tal, mas vai que eu não a conheça a fundo?”, diz a mensagem.
“Yuzucchi! Desde que seu pai morreu, você e sua mãe viveram sozinhas, uma contando com a outra. Eu tenho a sensação de que não vai ser esse pesadelo todo que você anda pensando, ela parece ter uma cabeça aberta. Se você que é a filha dela não conhece a mãe que tem, imagine quem não é! Como diz o clichê, o não você já tem, agora é ir em busca do sim”, encoraja Harumin.
“Sobre a Rika, o que você faria se estivesse no meu lugar?”, pergunta Yuzu.
“Vou ser sincera e direta com você: a Rika-san te ajudou de todas as formas possíveis a viver na Inglaterra e a esquecer aquela-outra-pessoa-do-passado-que-você-não-quer-mais-lembrar. Ela trouxe o amor que você necessitava, fez você voltar a sorrir e a rir abertamente. E não só isso: ela te apresentou para a família, te tirou daquele alojamento estudantil, te encorajou a seguir em frente, mesmo num outro país, com outros costumes e idioma diferente. A Rika-san te apoia em praticamente tudo! Sério que você quer estragar tudo agora que sua vida tomou um novo rumo? Seria bem ingrato da sua parte, viu? Assume logo pra sua mãe!”, diz Harumin, na lata.
“Você está certa, Harumin. Não é hora de amarelar, estou sendo bem idiota ao esconder o que a Rika significa pra mim. Que tipo de presente eu poderia oferecer?”, Yuzu manda.
“Um date? Hmmm... Ou ainda melhor: um anel de compromisso! Dica: dê o anel para ela quando estiver revelando tudo para sua mãe. Você resolve dois assuntos de uma só vez. Viu, que legal?”, a amiga se entusiasma com a própria ideia.
“E-então, né, Harumin? Eu já tinha dado um anel para certa pessoa, não sei se você sabe... E no final, vim parar aqui no exterior. Que coisa, não?”, Yuzu não curte muito a ideia da amiga. “Fora isso, não sei se ainda tenho dinheiro suficiente. A família da Rika tem um padrão confortável de vida, não tenho como bancar um anel que esteja à altura dela. Ainda nem comecei no trabalho que ela arranjou pra mim...”
“Oras, mas e o dinheiro que sua mãe envia todo mês? Não me diga que gastou com bobagens só porque está morando com sua namorada?”
“Eu ainda tenho ele guardado aqui, para algum caso de emergência...”
“Yuzucchi, acho que este caso É de emergência. Não é uma decisão de vida ou morte, mas tem a ver com sua felicidade. E o anel não precisa ser caro! O que vale é o significado que ele irá trazer para a vida de vocês duas, entendeu? A Rika-san não te conheceu num lugar chique, que eu saiba. Ela te conheceu como aluna bolsista, que ainda depende do dinheiro enviado pela mãe para sobreviver num outro país! Coragem, amiga!”, Harumin dá um sacode em Yuzu.
“Ok, você tem razão quanto a isso. Eu vou comprar os anéis e contar tudo para a mama. Me deseje sorte, Harumin!”
“Você vai conseguir! E acho que vai ser mais fácil do que você imagina, Yuzucchi! Agora, vou precisar me desconectar. Tô super cansada! Me avisa se der tudo certo! Bye!”
_________________________
Enquanto Harumin dorme o sono dos justos no Japão, Yuzu se prepara para sair de casa e, posteriormente, passar numa joalheria para comprar os anéis de compromisso. Antes de botar os pés na rua, ela pega o celular e acessa a conta do banco, só para ter certeza de que ainda possui alguma quantia guardada. Graças aos conselhos do pai de Rika, Yuzu deu um jeito de investir parte do dinheiro guardado, então aos poucos suas economias ficaram rendendo.
Aliviada por usar o suficiente para comprar um par de anéis modestos, Yuzu agora precisa fazer com que Rika fale com ela. Saindo do quarto, a loira dá uma olhada na sala, mas a namorada não está mais lá. O travesseiro e a coberta estão arrumados em uma das pontas do sofá, e a mesa está com parte do café da manhã pronto. Pelo que vê, Yuzu entende que Rika deve ter saído para dar uma volta. A loira toma seu café e come um sanduíche, preocupada porque a namorada não deixou um recado sequer. Sem ter o que fazer, a loira guarda a comida na geladeira e lava a louça suja. Só depois disso ela pega o caminho da rua e vai até o ponto de ônibus, em direção a um centro comercial.
Dentro do ônibus, Yuzu pega o celular e vê que não há mensagem nenhuma. Ela lembra que precisa avisar a mãe de que irá fazer uma chamada de vídeo mais tarde, quando Rika provavelmente já estará em casa. Sem adiantar o assunto, ela apenas manda uma mensagem para Ume dizendo que é algo muito importante, sem especificar o horário em que irá ligar.
Já em um dos centros comerciais de Londres, a garota passa os olhos de vitrine em vitrine, mas os preços não correspondem ao valor em dinheiro dentro de sua carteira. Duas horas batendo perna, andando para lá e para cá, indo de um centro para outro, sem parar para um lanche. Parece que os planos para hoje serão cancelados, e não haverá nem chamada de vídeo, muito menos um pedido de desculpas decente para Rika.
“Incrível como as coisas pioraram de ontem para hoje. Pensa, Yuzu, pensa! Tô me sentindo a pessoa mais miserável do planeta agora! Eu preciso fazer as pazes com a Rika, mas tô me sentindo um lixo total por ter deixado a situação piorar”, a gyaru se amaldiçoa por ter deixado tudo mais complicado. Cansada, ela está parada no meio da calçada, sem prestar atenção ao fluxo de clientes e prestes a cancelar tudo o que havia planejado. Há mais lojas, porém a gyaru já não tem mais paciência para olhar as demais vitrines. Tudo o que ela quer agora é voltar para casa e passar o resto do dia assistindo TV.
Desatenta, a garota se move para ir até o ponto de ônibus, mas acaba esbarrando em um outro homem que vem do sentido contrário. Após perder o equilíbrio, ela cai de bunda no chão.
— AI!
— Ops! — O homem vê que derrubou Yuzu e a levanta do chão.
— Ai, moço, desculpa! Eu estava distraída e não te vi!
— Imagine, eu é quem peço desculpas! Espero que não tenha se machucado!
De pé e limpando as calças, Yuzu vê logo à frente um bazar aberto, cuja vitrine traz peças únicas a um valor um pouco mais baixos. Um conjunto antigo com chaleira e duas xícaras de louça com desenhos florais e bordas douradas, um relógio de corda antigo, uma máquina de escrever, entre outros artigos, mostram um pouco do que possui a loja. “Será que a Rika gosta de coisas antigas? Eu não queria voltar de mãos vazias”, a garota pensa.
Para dar uma olhada no que pode haver de interessante para dar de presente, Yuzu entra na loja. Ela logo é recepcionada por um senhor simpático de cabelos brancos, proprietário do bazar.
— Olá, minha jovem. Há algo em que posso ajudar?
— Eu acabei achando sua loja sem querer, fiquei curiosa para saber se consigo garimpar algo para dar de presente a uma pessoa que eu gosto muito. Na verdade, eu vim até o centro comercial para comprar um par de anéis, só não tive muita sorte. Perdi duas horas e ainda caí de bunda alguns metros atrás, hehe!
— Ah, então é uma jovem apaixonada? Eu tenho alguns anéis que adquiri de uma joalheria que fechou há algum tempo aqui no centro. O dono fazia as próprias peças que vendia. Ele decidiu ir embora do país às pressas, e então vendeu as peças que ainda restavam por um valor bem abaixo do que costumava cobrar. Porém, as pessoas que geralmente vêm aqui compram apenas os itens para decoração, já que acessórios e coisas do tipo eles preferem comprar novos.
— Se o senhor puder, poderia me mostrar esses anéis?
— Claro! Venha aqui ao balcão. Não sei se você vai encontrar o que procura, mas há algumas peças interessantes.
De dentro do balcão, o senhor retira uma peça de tecido enrolada, onde estão afixados os anéis. Ele desenrola o tecido e vários acessórios dourados e prateados surgem nos mais diversos estilos, alguns muito simples, outros muito exagerados no tamanho das pedras. No meio desses anéis, ela encontra um par dourado, com uma faixa prateada no meio.
— Ah! Este par! É perfeito! Quanto custam?
— Boa escolha! Não vou ter uma caixa própria para colocar os dois, mas posso colocar num bom embrulho. Quanto ao preço, posso fazer um bom desconto, considerando que as joias raramente saem do balcão.
Com a quantia que havia reservado, Yuzu conseguiu levar o par de anéis em uma caixinha de papelão reforçado, decorada com motivos florais. Contente pelo achado, ela pega o ônibus de volta para casa, na esperança de ver Rika o mais rápido possível.
Enquanto Yuzu estava no trânsito, sua namorada havia dado algumas voltas pelo parque perto de casa, e ao final passou em um supermercado para as compras da semana. Ainda triste por ter sido chamada de “senpai” quando preferiria ter sido chamada de “namorada”, Rika não sabe mais em que pé anda seu namoro com Yuzu. “Será que estou me esforçando demais nesse relacionamento? Eu amo mais a Yuzu do que ela me ama? Droga! Por acaso eu faço a Yuzu passar vergonha? Se for isso, ela precisa me dizer!”
Assim que chega em casa, Rika tira as compras das sacolas e vai guardar nos armários e na geladeira. Não há nenhum item do café da manhã na mesa, sinal de que Yuzu comeu algo e lavou as louças antes de sair. Sem saber a que horas a namorada chegará, Rika pega uma lata de Coca e vai até o sofá passar o tempo entretida com o celular.
Quinze minutos depois, a porta da casa se abre, e lá está a loira, radiante por ver que a namorada já está em casa.
— Rika! Que bom que você já está de volta! Eu tenho algo muito importante reservado para nós duas hoje! Por isso eu fui ao centro, comprar um presente especial.
No sofá, a outra garota continua no celular, ignorando a chegada de Yuzu. A loira sabe o motivo de estar sendo ignorada, mas continua a apelar.
— Rika, por favor, me escute. Sei que você ainda está brava e decepcionada comigo, mas eu quero me redimir. Eu marquei uma chamada de vídeo com a minha mãe, só não havia especificado o horário, pois não sabia que horas você estaria em casa.
— Estou escutando, Yuzu. E por que eu preciso saber que você vai falar com sua mãe? Vai continuar escondendo tudo dela, não é? Se for isso, eu não preciso saber. — A namorada de Yuzu se levanta, pronta para sair da sala, virando as costas para a gyaru.
— Não! Pelo contrário, eu vou contar a ela tudo sobre nós! Mas eu quero que você esteja junto comigo, não importa como ela irá reagir. É sério, desta vez eu não vou mentir e nem omitir qualquer coisa sobre nosso relacionamento.
Yuzu se aproxima de Rika e a abraça por trás, encostando a cabeça na nuca da outra garota, implorando para que as duas façam as pazes. Vendo que a namorada não vai se virar para retribuir o abraço, Yuzu aperta seus braços em torno de Rika e pede perdão por sua atitude.
— Por favor, Rika! Me perdoe! O que eu fiz foi horroroso e muito covarde! Não me ignore, não me deixe! Sinto muito pelas burradas que fiz, me arrependo muito de não ter contado sobre nós para minha mãe. Por favor, eu te peço! Não desista de mim.
— Yuzu... — Rika abaixa a cabeça, com a voz cortada.
— Você é a pessoa de quem eu mais preciso nesse momento! Eu não quero ficar sozinha, seria muito doloroso ter que passar por esse sofrimento novamente. Me perdoe! — A gyaru pousa sua cabeça no ombro de Rika, onde tenta enxugar as lágrimas. — Eu te amo muito, mais do que você possa imaginar.
Depois dessa declaração, Rika acaricia os braços de Yuzu, e então se vira para encarar a namorada.
— Sua tonta! É claro que eu não vou te deixar! Você me deixou muito chateada por toda essa situação, como se gostar de mim fosse errado. E não é! Eu te perdoo, mas não quero que faça isso novamente. — Ela toca o rosto de Yuzu com as duas mãos, e então a beija. A loira é surpreendida pelo gesto e retribui com um beijo longo, seguido de vários beijos por todo o rosto da outra.
— Aaah! Isso me deixa tão feliz! Odiaria se você ficasse me ignorando o tempo inteiro! E eu juro que não vou mais fazer isso! Desculpe por ter sido tão ingrata, por não ter considerado seus sentimentos. Logo eu vou falar com minha mãe, e ela vai saber sobre você, sobre nós duas, e o que nós reservamos para o futuro. — A gyaru pega e beija as mãos da namorada, entusiasmada por ter conseguido o perdão de Rika.
— Sabe, Yuyu... eu não tenho a mínima ideia de como sua mãe vai reagir. Mas, qualquer que seja o resultado dessa noite, saiba que eu não vou deixar você sozinha. Me senti desvalorizada quando você disse para sua mãe que eu era “apenas sua senpai”. Isso me doeu muito, sabe? Cheguei a pensar que a única interessada nessa relação fosse eu... Pensei que talvez fosse melhor se nos separ-...
— Perdão! Perdão, perdão, perdão, perdão! Eu fiquei a noite toda pensando no que havia feito, só consegui parar pra pensar quando a Harumin me falou umas verdades. Você está certa, eu não valorizava nosso relacionamento na mesma intensidade. Me chame do que você quiser, mas, por favor, não me deixe! A possibilidade de te perder pra sempre é algo que eu não posso suportar!
— Yuyu, venha aqui. — Rika abraça Yuzu e as duas caem no sofá. — Calma, calma... Eu não vou te largar, por nada neste mundo. Vai ter que me aguentar até o dia em que eu não puder mais respirar, sua boba! Agora, limpe essa cara inchada, que você está horrível. Chamamos a sua mãe e colocamos um basta nesse assunto.
— Obrigada! — Yuzu beija a outra. — Bem, eu só vou tomar um banho rápido e logo vou chamar a mama pelo computador.
—___________________
A hora do jantar se aproxima no apartamento de Ume e Shou. Mei, como de praxe, chega antes do horário marcado
— Mei-chan! Que bom que você tirou um tempinho para nos visitar! Eu e seu pai estávamos com saudades!
— Obrigada, mamãe! Graças ao Satoshi, consegui tirar essa folga no final de semana. Ah! Trouxe um presente para você. — Mei entrega o pacote para a mãe.
— Oh, que lindo! Obrigada, Mei-chan! — Ume abraça Mei. — Posso abrir? Hehehe!
— Claro! É seu!
— Aaaaah! Meu perfume favorito! Como foi que você descobriu?
— Foi por acaso, acredite. Chamei Himeko para me ajudar a escolher, mas acabou que não foi necessário. Eu lembrei desse perfume por causa da Yuzu.
— Claro! Eu tinha esse perfume, mas a Yuzu sempre pegava meu frasco emprestado e esquecia de devolver. Acabei dando o perfume para ela e fui comprar outro! Ainda bem que o que eu comprei ela não gostou, senão eu ficaria sem perfume novamente. — A mãe fica extasiada por notar que pelo menos Mei sabia agradar nos presentes, diferente de Shou, que era um desastre.
— Sim, eu notei que a Yuzu usava esse perfume, mas só fui notar na hora em que borrifei ele no meu pulso. Eu lembro que ela usava quando ia para escola, ou quando saía com a Taniguchi. Até a Himeko se lembrou desse perfume. — A garota fica desconfortável por ter que relembrar Yuzu, o que Ume nota imediatamente.
— Ah... Que tal esperar um pouquinho no sofá enquanto termino o jantar? Seu pai tirou um cochilo, mas logo ele vai aparecer aqui, você vai ver.
Foi só Ume terminar de falar que Shou apareceu na sala, pronto para receber a filha.
— Mei! Que bom que você apareceu! Venha dar um abraço no seu pai! — Shou diz alegre, mas o olhar sério de Mei faz com que ele mude de ideia. — Ah... Ok, entendi! Como você e o Satoshi estão?
— O Satoshi está cuidando de algumas questões do Grupo enquanto eu tiro uma folga. Essa semana inteira passei por várias reuniões com os acionistas e parceiros, para conhecê-los e saber como o vovô trabalhava com eles. Só saía da empresa tarde da noite, de tantos detalhes que me passaram. Por sorte, o Satoshi cozinhava o jantar e deixava tudo pronto para quando eu chegasse. Se não fosse por ele, acho que estaria perdida.
— Que bom saber que ele cuida bem de você. Pelo menos o seu avô conseguiu encontrar um marido bom, que sempre apoia a esposa. Eu sinto por não ter conseguido atender às expectativas do meu pai, e me senti péssimo por não ter conseguido fazer as pazes enquanto ele estava vivo.
— Papai, o vovô tinha um jeito próprio de fazer as coisas que talvez não agradasse a todos. Mas foi assim que ele conseguiu cuidar da nossa família e propiciar tudo o que temos hoje. Não se culpe pelo que já aconteceu, isso é passado. Reze para que o vovô consiga fazer uma passagem tranquila para o outro lado.
— Sim, tem razão. Não adianta ficar lamentando, ele não vai voltar.
O clima fica pesado por pouco tempo, já que Ume acabou de montar a mesa para o jantar. Contente por ter Shou e Mei juntos, a mãe só lamenta por Yuzu estar longe e não poder participar deste importante momento em família.
— Vamos jantar? Já faz um bom tempo que não temos um momento assim, juntos, não é mesmo? A casa anda tão vazia!
— Mas eu estou aqui, Ume! Você não está sozinha.
— Não foi isso o que eu quis dizer, Shou! Minhas filhas adultas, cada uma em um canto, fazendo suas coisas. Queria tanto que pudéssemos nos reunir com frequência. Agora cada uma tem sua vida, trabalho... E agora você, Mei, ocupando a cadeira da presidência que era do seu avô, com certeza não vai ter muito tempo disponível.
Os três arrumam seus pratos e se sentam à mesa, enquanto conversam sobre coisas cotidianas, como trabalho, conhecidos, viagens.
— E o Satoshi? Ele está cuidando bem de você? Se ele não estiver, só me avisar, que eu vou resolver as coisas do meu jeito, Mei-chan!
— Ele é um bom marido, não se preocupe com isso, mamãe. Ultimamente ele tem me ajudado a revisar a contabilidade da empresa, conversar com fornecedores. Isso poupa um bom tempo e nos livra de uma grande dor de cabeça. Ainda preciso pegar o ritmo para não decepcionar os acionistas.
— Por que não tiram um tempo para vocês dois passarem juntos? A vida não é apenas cuidar da empresa, sabe. Você ainda é jovem, precisa se divertir um pouco.
— Sim, a Ume está certa, Mei. Se quiser, eu posso ajudar com isso. — Shou diz à filha. — No começo, o ritmo de trabalho na empresa vai ser realmente puxado, já que seu avô se foi de repente, sem saber que você iria tomar as rédeas do negócio, no lugar do Satoshi. Pelo menos tire alguns dias de folga, para vocês viajarem, relaxarem juntos. O que acha?
— Não, não há necessidade disso. Na verdade, acho que ele tem sido mais um bom amigo que um bom marido. Não estou dizendo isso para ofendê-lo, muito pelo contrário. O que acontece é que parecemos mais dois amigos morando na mesma casa. Não há química, nem romance, mas companheirismo.
— Mei-chan... — A mãe fica triste ao saber que o casamento da mais nova não deu tão certo assim.
— Ah, não se sintam tristes quanto a isso. Já cumprimos o que nossas famílias queriam, e o Satoshi me ajudou a chegar à presidência, tendo me apoiado em segredo enquanto acompanhava o vovô nas reuniões. Ele tem me ajudado muito nessa sucessão repentina.
— Mei, eu sinto muito que as coisas tenham chegado a este ponto. — Shou lamenta.
— Papai, não deu certo, mas também não deu tão errado assim. O Satoshi é muito generoso e bondoso, acho que ele faz muito mais por mim do que eu por ele. Mas a verdade é, que ao assinarmos a papelada do casamento, estávamos assinando um contrato de negócio entre duas famílias ricas.
— Poxa, Mei-chan. Achei que pelo menos vocês poderiam ter adotado uma criança juntos. Deve ser muito burocrático, mas uma criança talvez pudesse ter mudado as coisas. Não é fácil cuidar de uma, eu sei. E agora, sendo CEO de uma empresa, é quase impossível...
— Sim, é muito burocrático. Eu não gostaria de ter que contratar babás. Considerando que ainda há muitos assuntos pendentes na empresa, com certeza eu passaria mais tempo fora do que sendo uma mãe presente. Isso não seria nada bom.
Conversa vai, conversa vem, os três terminam o jantar satisfeitos por terem colocado os assuntos em dia. Já está tarde e Mei se despede dos pais, preocupada em chegar logo em casa para dormir bem, antes de voltar ao batente no dia seguinte. Ume então volta à cozinha para lavar a louça, enquanto Shou enxuga os pratos e ajuda a esposa a guardar a comida. De repente, os dois são surpreendidos pelo som de uma chamada de vídeo no notebook de Ume, que vai imediatamente saber quem está ligando.
— Oi? Yuzu! — Ume vê a filha na tela.
— Mama!
— Ué, não é normal você me chamar numa hora dessas? E nós conversamos ontem mesmo... Espera aí, aconteceu algo? Está precisando de ajuda?
— N-não... É... É que eu tenho algo muito importante para te dizer. E precisa ser agora.
— Ah! O Shou está aqui, quer que ele esteja junto?
— Claro! Seria melhor que vocês dois soubessem de uma só vez.
Ume chama o marido, que logo aparece na tela de Yuzu.
— Yuzu-chan! Há quanto tempo! Como está?
— Oi, papa! Que saudades! Eu estou muito bem, e espero que vocês também estejam! Eu estou ligando porque preciso muito contar algo para você e para a mama. Aliás, a mama me disse que o vovô faleceu, e que você não estava muito bem. Eu sinto muito pelo que aconteceu! Se eu pudesse, estaria aí para te dar um abraço forte!
— Obrigado pela força, Yuzu-chan. Graças à sua mãe, estou conseguindo aceitar o que aconteceu, e estou tendo o apoio necessário para seguir em frente. A Mei também ficou mal, mas agora ela está ocupada com a empresa. Aliás, que pena que a Mei já foi embora. Ela esteve aqui agora pouco, jantando conosco. Sua mãe sente muita saudade dos velhos tempos, mas vocês duas já estão adultas e cuidando das próprias vidas...
Yuzu não queria ter ouvido o nome pronunciado por Shou. Inicialmente, a loira fica surpresa por saber que Mei esteve há alguns minutos na casa dos pais. Depois, vem o silêncio.
— Yuzu, você ainda está aí? — Ume pergunta, devido ao silêncio da filha.
— C-claro! Vocês dois estão bem acomodados aí no sofá? — A garota diz, nervosa.
— Sim, eu e o Shou estamos muitíssimos bem aqui. O que você quer nos dizer? Eu já estou ficando nervosa!
— Então... Ahem... eu quero apresentar uma pessoa a vocês. Uma pessoa muito especial na minha vida.
A mãe fica entusiasmada por saber que Yuzu arranjou um amor na vida. Ela já imagina a filha usando um vestido de casamento, crianças correndo pela casa. Agarrada ao braço de Shou, que está contente pela novidade e não vê a hora de ter netos, Ume não esconde a alegria.
— Aiaiaiaiaiaiaiaiaiiiiiii! Vamos, Yuzu, apresenta logo essa pessoa! Eu e seu pai estamos radiantes aqui!
— Espera aí... — A loira olha ao redor e não vê Rika. — Gente, esperem só um pouco, vou ver se ela está no quarto.
Enquanto Yuzu sai da tela e vai procurar a namorada, Rika aparece na tela do computador. Ela reconhece a mãe da namorada e então pega o notebook enquanto Yuzu não volta.
— Olá! Vocês devem ser os pais da Yuzu, não é? Eu sou a Rika!
— Olá, Rika! Prazer em conhecê-la! Este é meu marido, o Shou!
— Olá, Rika!
— Desculpem, eu acho que Yuzu deve ter ido até o quarto, e não deve ter me visto aqui.
— Sim! Ela está procurando por seu irmão, não é? Se ele for igual a você, ela arranjou um ótimo partido! — Ume fala, sem desconfiar de nada.
— I-Irmão? Er... eu sou filha única. Pelo visto, a Yuzu ainda não disse nada pra vocês, né?
— Eh? A Yuzu tem outra coisa para falar? — Shou pergunta.
Yuzu então reaparece ao notar que Rika já está falando com seus pais. Mais confiante, ela decide soltar a novidade. Antes, ela pega as duas mãos da namorada e faz uma pausa breve.
— Mama, papa... A Rika é quem eu quero apresentar a vocês. Nós duas estamos namorando há três anos. Ela é a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. — A garota diz, com o rosto vermelho feito pimentão.
— Eh? — Os pais da loira ficam sem entender.
Silêncio. Shou fica surpreso e não consegue falar nada no minuto seguinte, enquanto Ume fica paralisada. Os pais acham que não ouviram muito bem, mas a ficha cai no minuto seguinte. Logo as lágrimas caem pelo rosto da mãe, que abre o berreiro na frente do notebook. Yuzu fica preocupadíssima com a reação dos dois, pois teme ser rejeitada agora que revelou tudo. Rika fica apreensiva com a situação e olha para a namorada, que está prestes a entrar em pânico.
— Mama? Papa? Por favor, digam algo! Não era o tipo de notícia que vocês estavam esperando, né? — A loira abaixa a cabeça, pois sente que deve ter decepcionado a família.
Shou, recuperado depois da notícia bombástica, é o primeiro a se pronunciar:
— Yuzu, Rika! Estou orgulhoso em saber que vocês estão juntas. Não deve ter sido fácil para as duas, considerando que muitas pessoas estão mais dispostas a jogar pedras do que apoiar. Saibam que podem contar comigo para qualquer coisa! É uma sensação tão boa quando você se apaixona por alguém, a vida ganha outro significado, um novo sabor. Fico muito feliz pelas duas! Parabéns! — Shou abre o sorriso, enquanto faz o sinal de positivo com as duas mãos.
— Nós agradecemos seu apoio, Shou-san! Não foi fácil, principalmente para a Yuzu. Ela ficou com medo de como vocês reagiriam. — Rika diz, aliviada e contente.
A loira, por sua vez, observa a mãe chorar e colocar as duas mãos sobre o rosto, e fica preocupada com o que Ume vai falar. “Ah, não! Por favor, mama, eu sei que não era isso o que você sonhava, mas eu não tenho controle sobre meu coração. Não me rejeite!”, a loira pensa, apreensiva. Ela deixa alguns minutos passarem antes de perguntar à mãe.
— Mama? Fala alguma coisa, por favor! Você ficou... decepcionada comigo?
Ume limpa as lágrimas e, enfim, consegue falar.
— Yuzu, meu bebê... Não estou decepcionada! Estou muito feliz! Não vou mentir que eu fiquei confusa, achei que você fosse me apresentar um namorado! Nunca havia passado pela minha cabeça que, na verdade, você gostava de garotas! Estou emocionada, por isso abri o berreiro! Não estou triste, nem com raiva! É emoção mesmo, não estou mentindo! Mas... por que você escondeu que estava namorando uma garota? Três anos, Yuzu, três anos mantendo um relacionamento em segredo, como se fosse um crime! Isso não é algo que se faça! Se isso fosse comigo, eu daria um chute na bunda da pessoa na hora!
— Me perdoem, mama e papa! Eu fiquei com muito receio de que vocês não fossem aceitar a notícia muito bem. A Rika me deu uma bronca terrível, achei que ela fosse me deixar na rua da amargura por conta da demora. Os pais dela aceitaram tudo numa boa, já sou praticamente da família. Mas agora posso dizer que estou me sentindo tão sortuda e aliviada! Vocês não sabem o peso que tiraram do meu peito!
— Yuzu-chan, não há nada errado em gostar de alguém! O que o seu coração sente é algo que somente você sabe, a Ume e eu não temos o direito de interferir em nada. Confesso que também não estava esperando por uma notícia dessas, mas não vamos julgá-las de jeito algum! Claro que ficamos preocupados, pois muitas pessoas não aceitam que duas pessoas do mesmo sexo se amem e formem uma família, e isso pode prejudicá-las. Mas todo o nosso apoio vocês terão, isso eu tenho certeza!
— Yuzu, querida... Quando você estava na minha barriga, eu era muito nova e tinha acabado de me casar com seu finado pai. Várias pessoas na minha família me julgaram, acharam que eu estava fazendo uma besteira, jogando minha vida fora. Mas na verdade, não me arrependo de nada. Eu entendo seu receio, pois várias pessoas me julgaram sem entender meus verdadeiros sentimentos. Você é uma mulher agora, dona de seu próprio nariz, sabe o que quer da vida e vai atrás. Não deixe que os outros estraguem esse amor que vocês cultivam uma pela outra.
— Mama, papa... estou muito feliz sabendo que vocês nos apoiam. A Rika e eu temos os melhores pais do mundo!
Contente por Yuzu ter amadurecido e se tornado uma mulher decidida, a mãe da loira agora acolhe Rika como mais novo membro da família Aihara.
— Rika, minha querida, seja muito bem-vinda à nossa família. Desculpe se passei uma péssima impressão com minha reação exagerada. A notícia me pegou de surpresa, mas não estou decepcionada. Estou é extremamente feliz por saber que vocês estão felizes juntas! Não vejo a hora de nos encontrarmos pessoalmente!
— Obrigada, Ume-san! A Yuzu é uma pessoa maravilhosa, tenho certeza de que seremos muito felizes, ainda mais com o apoio de vocês dois!
— Ah! E tem mais uma coisa que eu preciso dizer para vocês! Esperem só um segundo... — Yuzu interrompe a conversa e retira do bolso a caixinha com os anéis.
— Minha filha, você quer me matar do coração? O que mais você tem para nos dizer?
A namorada de Yuzu achou que tudo já estava certo, que o anúncio já havia acabado. Mas a surpresa veio logo em seguida. A loira pega a mão esquerda de Rika e faz um pedido na frente de Ume e Shou.
— Aproveitando que deu tudo certo, eu gostaria de me redimir por ter escondido nosso relacionamento por três anos, sem que minha família soubesse. Então, eu saí hoje de manhã para comprar esse par de anéis para nós duas. Infelizmente eu não tinha a quantia suficiente para comprar um par de uma marca famosa, então espero que você entenda, Rika. Estou te pedindo em casamento, neste exato momento, na frente dos meus pais. Você aceita se casar comigo?
A mãe da loira quase explode de emoção com a cena, agarrando o braço de Shou para não ficar mais desidratada do que já está. Shou também está comovido com a cena, e espera que a resposta de Rika seja o tão desejado “sim”. Só que namorada de Yuzu fica muda.
— ...
— Rika? — A gyaru pergunta, com medo de receber a resposta negativa. Para sorte dela, a resposta chega.
— SIM! Sim, sim, sim, sim... — Yuzu é abraçada e tem o rosto coberto por vários beijos. Shou e Ume ficam vermelhos com a expressão de afeto, e acham graça por serem testemunhas do pedido. — Mesmo que fosse um anel de latão, a minha resposta seria a mesma!
As duas garotas então colocam os anéis, uma no dedo anelar da mão esquerda da outra. O gesto acaba em um selinho e a aprovação dos pais de Yuzu.
_______________________
Dois anos no comando do Grupo Aihara fizeram Mei amadurecer e desenvolver novas habilidades. Não foi fácil, mas ter chegado ao posto que pertencera ao avô, sem ter sido escolhida oficialmente como a sucessora ao cargo, deram à jovem a sensação de dever cumprido, pelo menos no campo profissional.
Estar casada há sete anos com uma pessoa que não foi de sua escolha, apenas para satisfazer aos interesses relacionados ao status e ao patrimônio da família, não causou tanto mal assim à CEO. Mas também não trouxe a felicidade que ela tanto almejava. Ela era, sim, muito grata ao marido pelo apoio prestado em segredo, afinal Satoshi acreditava que a esposa possuía um pulso muito mais firme e mais resiliência para lidar com os velhos acionistas do Grupo Aihara do que ele. Agora, com o avô ausente e o marido querendo dedicar mais tempo aos restaurantes, Mei sentiu que havia chegado a hora de conversar sobre divórcio.
Satoshi começou a pensar no assunto desde que o avô de Mei falecera. Claro, seria indelicado e grosseiro falar sobre divórcio num momento de luto. Então ele ficou com a ideia na cabeça, pensando no momento oportuno para levantar a questão. Em várias ocasiões, por iniciativa dele próprio, houve tentativas de fazer um romance engatar. Só que a cabeça de Mei não estava na mesma sintonia: liderar a empresa da família Aihara era o objetivo maior dela, não importava se o mundo estivesse acabando. E havia ainda, na cabeça da jovem CEO, um assunto que não havia sido esquecido. O assunto se chamava Yuzu.
Não havia intimidade, muito menos romance envolvido no casamento de Mei e Satoshi. Os dois se consideravam mais amigos e colegas de trabalho do que marido e mulher. Não existia mais cama de casal na mansão em que eles moravam, já que a rotina atribulada de Mei tomava tempo e atenção demais, o que a forçava a passar muito tempo no escritório. Para dormir, ela simplesmente mandou instalar uma cama embutida no aposento; Assim, ficaria mais fácil resolver assuntos do trabalho caso ela se lembrasse de alguma pendência no meio da noite.
Em um dos raros momentos livres em que ambos podiam conversar à vontade, sem envolver assuntos da empresa, a ideia de divórcio foi, enfim, considerada. Quem deu o pontapé inicial foi Mei, a mais interessada na questão.
— Satoshi, há um assunto muito importante que eu gostaria de conversar com você. É algo que eu já venho pensando há algum tempo, não me entenda mal, por favor. Mas acho que nós poderíamos seguir caminhos separados, agora que o vovô não está mais aqui. Acho que não há mais necessidade de seguir com este casamento.
Os olhos dele brilham quando ouve a CEO do Grupo Aihara tocar nesse assunto. Parece que em relação ao fim do casamento, os dois já estavam na mesma sintonia há tempos, só não tinham coragem de expressar o desejo ao outro.
— M-Mei, sabe que eu tenho pensado no mesmo assunto? Eu também não quero que você me entenda mal, não é nada contra você ou sua família. Nós já sabemos que nossa dinâmica não é a mesma de um casal. Você já conseguiu atingir seu objetivo, e eu pelo menos já cumpri o desejo da minha família, que queria que eu me casasse. Acho que sim, cada um de nós pode seguir o caminho que desejar, a partir de agora.
— Então... quer dizer que pensávamos na mesma coisa durante todo esse tempo? Eu realmente sinto muito se causei algum inconveniente por não ter dito isso antes! Mesmo administrando parte dos restaurantes da sua família, você ainda me ajudou muito a assumir a presidência. Sou muito, muito grata por sua generosidade, e não sei como te agradecer por ter me aturado durante todos esses anos.
— Bem, minha missão era ajudá-la, ainda que contrariando seu avô. Se consegui cumprir pelo menos este objetivo, fico feliz. Eu nunca tive a intenção de tomar a presidência da empresa, pois sei que meu perfil não é o mais adequado para o posto. Mas a experiência nos negócios transmitida pelo seu avô é algo que não vou esquecer.
— Agradeço muito que você tenha feito parte de um momento muito especial da minha vida. Você é um bom homem, merece ter ao seu lado alguém muito melhor, que te faça feliz de verdade. Sinto muito por não ter correspondido às expectativas.
— Mei, mesmo que tenhamos nos casado por conta de interesses alheios aos nossos, sou grato pelo tempo que você pôde partilhar comigo. O casamento pode não ter dado certo, mas a amizade e a admiração que tenho por você vão durar por muitos anos. Desejo sorte na sua nova fase. Estarei aqui, sempre que precisar.
— Muito obrigada, mesmo! Espero que você seja muito feliz. E eu estarei sempre aqui, quando você precisar. Amigos?
— Amigos! — Sorri Satoshi.
Agora que ambos decidiram encerrar o compromisso, faltava acertar os detalhes com o advogado. Os dois concordaram em vender a mansão, e Mei decidiu compensar Satoshi com uma boa quantia em dinheiro.
Alguns dias depois da assinatura dos documentos, Mei começa a procurar um novo local para morar, talvez um apartamento ou uma casa menos espaçosa. Enquanto decide sobre sua nova moradia, a CEO liga para Ume contando as novidades.
— Sim, mamãe. Eu e o Satoshi decidimos assinar o divórcio. Foi tudo amigável, nós dois já sabíamos que não havia mais razão para continuar juntos, como casal. Seria conveniente? Sim, mas não seria justo.
— É realmente uma pena que não tenha dado certo, mas agora vocês dois estão livres para encontrar um amor de verdade. Você é jovem e linda, vai encontrar alguém rapidinho, eu tenho certeza, Mei-chan!
Amor de verdade. A presidente do Grupo Aihara lembrou de uma certa pessoa quando Ume disse essas palavras. Aqueles olhos verdes, cheios de brilho quando encontravam uma certa kaichou pelo caminho. Como Yuzu estaria agora? Como ela reagiria ao saber do divórcio? O que ela conquistou, o que ela fez nesses sete anos fora do Japão? Mei morria de curiosidade, mas não perguntava nada a Ume.
— Bem, decidimos colocar a mansão à venda. Eu ainda não decidi se compro um apartamento ou uma casa menor, mas o certo é que estou saindo de lá, as caixas de mudança estão sendo preparadas. Pode ser que demore um pouco até que apareça um comprador, mas eu não tenho intenção de continuar naquele lugar. Será que eu poderia passar um tempo com vocês, enquanto a mudança não acontece?
— Claro, Mei-chan! Só eu e seu pai vivemos nesse apartamento, seu antigo quarto continua do mesmo jeito. Aqui também é seu lar, afinal de contas!
— Obrigada! Acho que amanhã eu já apareço por aí, com minhas roupas e alguns poucos pertences. Não devo ficar por muito tempo, é só até arranjar a nova casa.
— Hmmm... acho que vou até comprar mais cerveja para comemorarmos sua volta para casa! Hehehe! Brincadeira! Vou arrumar o quarto antes de você chegar! E não tem problema nenhum, você pode ficar o tempo que precisar!
E no dia seguinte, Mei apareceu com algumas malas e caixas, pronta para ocupar o antigo quarto. Ela só não imaginava que o aposento fosse causar uma onda de emoções e arrependimentos.
Fale com o autor