Drops de Citrus

1 Se eu pudesse voltar no tempo - parte 1


Aos 24 anos de idade, Mei tornou-se a pessoa mais jovem a chegar ao posto de CEO de uma empresa japonesa. O Grupo Aihara, fundado por seus bisavós no começo do século passado, não é uma gigante na área da educação, mas sua excelência é reconhecida por todo o país, especialmente porque as escolas e universidades mantidas pela empresa são frequentadas por pessoas nascidas em berço de ouro, herdeiros de grandes negócios, gente da alta sociedade que não teria coragem de colocar seus filhos em escolas públicas quaisquer. As escolas de ensino fundamental e médio do grupo aceitam apenas meninas, filhas da elite, assim como a própria Mei.

A neta do presidente Aihara assumiu o posto há apenas dois anos, logo após o avô ter sofrido um infarto e falecido, o que deixou os sócios bastante preocupados com a sucessão na época. Não disposta a ver o trabalho construído por seus antepassados nas mãos de velhos ignorantes e retrógrados, Mei tomou a dianteira e apareceu na reunião para definir o novo presidente, e com pulso firme conseguiu convencer a maior parte dos sócios a aceitar sua nova posição. Formada em Administração e com experiência na área de educação, a herdeira assumiu uma postura segura e confiante, inspirada pelo apoio recebido de uma pessoa muito próxima.

— Pois eu não te disse? Os sócios podem reclamar o quanto quiserem, mas você é a pessoa mais indicada a assumir o posto, já que ninguém mais que você sabe muito o que ocorre nas escolas do grupo. Nenhum daqueles homens naquela sala sabe algo sobre educação, todos estão apenas interessados em dinheiro, não em manter a reputação e a qualidade que seus bisavós e avós conseguiram construir durante todos esses anos.

— Obrigada, Satoshi. Seu apoio e sua presença durante a reunião foi muito importante para poder colocar todos aqueles homens nos seus lugares. Consegui ficar calma sabendo que pelo menos uma pessoa ali me apoiava totalmente.

No seu segundo ano como líder do grupo, Mei era muito respeitada por todos os colaboradores, sendo um exemplo como profissional, justa e exigente na medida certa. Claro que esses dois anos não foram fáceis: várias noites em claro, às vezes sozinha no escritório, sendo a última a deixar o prédio, poucos dias livres, muitas reuniões estressantes. Ao seu lado, Satoshi, seu marido, a apoiava sempre, pois sabia que a esposa teve de desistir de muitas coisas para prosseguir com o sonho do avô. O segundo filho da família Udagawa comandava um dos restaurantes de seus pais, e tinha uma rotina menos atribulada que Mei. Ele é um homem tranquilo e calmo, que está sempre tentando fazer o possível para tornar a vida de sua esposa um pouco menos estressante na mansão em que os dois vivem.

Essa atmosfera de equilíbrio em que Satoshi e Mei vivem desde que se casaram na verdade é apenas uma fachada para ambos. Satoshi gostaria de ter se casado mais tarde, e não quando a família dele encontrasse uma noiva oriunda de família abastada. Já Mei não tinha coragem de dizer não para o avô, que a criou desde que o pai dela, Shou, rompera com a linha de sucessão na família. A herdeira dos Aihara teve dizer adeus a Yuzu, seu verdadeiro amor, através de um carta, já que nem pessoalmente teve coragem de dizer que estava comprometida com outra pessoa.

Muitos pensaram que ao casar a herdeira dos Aihara largaria os estudos para se dedicar apenas ao papel de esposa, mas não foi o que ocorreu. Apoiada pelo marido, Mei decidiu não retornar à Academia Aihara por temer um reencontro com Yuzu. Então, para retomar do ponto onde parou, ela se matriculou em uma escola longe de onde morava, sem revelar nada à família e às amigas. Nessa época, o avô não desconfiava de nada, e já preparava Satoshi como seu sucessor. Silenciosamente, Mei foi construindo sua própria carreira, aprendendo a lidar com o mundo dos negócios ao lado do marido. Com as notas perfeitas, Mei conseguiu passar tranquilamente pelo ensino médio e entrar numa faculdade para cursar Administração.

Himeko descobriu mais tarde, quando as duas se encontraram na mesma universidade, que a amiga de infância continuou os estudos em segredo, com o intuito de suceder o avô na presidência do Grupo Aihara. Assim, o plano pouparia Satoshi de ter que tomar conta de um negócio do qual ele pouco sabia. Havia também o fato de o marido não ter o tipo de perfil adequado para lidar com velhos gananciosos. Mei, por outro lado, conhecia de longa data as atitudes dos sócios do avô, então teria mais jogo de cintura para lidar com todos eles. Sabendo dos passos planejados por sua querida Mei-mei, a herdeira dos Momokino não contou nada para Harumin ou Shiraho-senpai.

Satoshi e Mei estão casados desde que ela tinha apenas dezessete anos e ele, trinta. Sete anos depois, os dois continuam juntos, mas são mais amigos que esposa e marido. Eles até tentaram se apaixonar um pelo outro, mas não deu certo, pois a falta de química e de interesse em construir uma relação sólida não vingou. O casamento era mais um contrato de negócios entre as famílias de ambos. Houve até a tentativa de gerar um herdeiro, mas que não deu certo porque Satoshi descobriu que era estéril, o que enfureceu muito o velho Aihara, esperançoso de ver mais um integrante na família.

O casal poderia ter se divorciado? Sim. Mas por conveniência, o casamento, pelo menos no papel, continuou sem problemas. Desde que permanecessem juntos, ainda que de mentira, Mei e Satoshi poderiam continuar em paz, sem que suas respectivas famílias metessem o nariz onde não eram chamadas.

—-----------

Na época em que Mei rompeu o namoro com Yuzu, a garota mais velha sofreu calada, fingiu que tudo ia bem, mas as coisas não passaram despercebidas, nem pelas suas amigas, nem pela sua mãe, Ume. A mudança brusca de comportamento foi notada, e a gyaru passou a voltar bem mais cedo para casa. As saídas com Harumin e companhia ficaram mais raras, enquanto o tempo enfurnada sozinha no quarto ficava cada vez mais frequente. Nem com a própria mãe a loira conversava mais. Não demorou muito, e as consequências dessas mudanças vieram: notas altas em todas as disciplinas, presença constante no ranking de melhores alunas da Academia Aihara, ofertas de bolsas de estudos em universidades. Ume estranhou: afinal, quando uma pessoa não está bem, o esperado seria ela ter um desempenho pífio no trabalho, nos estudos, na vida pessoal, certo? Yuzu mostrou o contrário, sem qualquer tipo de explicação.

Claro que a loira também revelou seu lado frágil, mas isso só aconteceu quando recebeu das mãos de Ume o convite de casamento de Mei. Yuzu simplesmente ignorou o cartão com seu nome, jogando o papel no lixo quase no mesmo instante. Mesmo com Shou tendo vindo de longe às pressas apenas para convencê-la a dar as caras na cerimônia, Yuzu tratou de fingir que aquele dia trágico indicado no convite não faria nenhuma diferença na vida dela. Porém, no dia em que os noivos disseram sim um ao outro, a gyaru decidiu pegar o trem para a cidade onde morava anteriormente e ir direto ao cemitério onde os restos de seu pai descansavam. Já era quase finalzinho de tarde, mas ela foi mesmo assim.

— Papa, por favor, me ajude... Hoje está sendo um dia horrível, não sei se quero voltar para casa. Se você estiver me ouvindo de algum lugar, me ajude a achar uma solução, algo que preencha este vazio que eu sinto desde que a Mei me deixou... Eu vou tentar me abrigar em algum lugar qualquer hoje, até meus sentimentos se acalmarem. Não vou me sentir bem voltando para casa, vendo a mama e meu novo papa conversando sobre o dia de hoje, se gabando pela filha mais nova ter casado. Eu queria ficar longe das coisas que me lembram a Mei, e essa cidade é um dos poucos lugares em que eu posso buscar refúgio.

Depois de ter rezado e conversado com seu finado pai, Yuzu saiu do cemitério e andou a esmo pela cidade, vendo se achava um templo, um beco ou outro lugar em que não seria incomodada. Mas justo no horário em que estava na rua uma chuva forte caiu, e Yuzu foi obrigada a voltar para casa, tarde da noite, quando Ume e Shou já haviam ligado para todos os cantos da capital tentando achá-la. Com o apartamento às escuras, Yuzu entrou e foi direto ao quarto, desabando na cama com as roupas totalmente encharcadas. Muito cansada, ela adormeceu desse jeito mesmo, sem se importar como seria o amanhã.

No dia seguinte, logo depois de acordar, Ume reparou que a casa estava com manchas de lama no piso, e foi correndo até o quarto da filha. A mulher ficou horrorizada com o estado da gyaru e tentou acordá-la, sem sucesso.

— YUZU! YUZU! O que aconteceu? Fale!! Eu e o Shou ficamos esperando por você e ligamos para todos da escola, mas ninguém sabia onde você estava! Já estávamos até indo atrás da polícia, mas disseram que era preciso aguardar mais algumas horas. YUZU, ACORDE!

Ao tocar no rosto da filha, a mulher sentiu que Yuzu estava mal, com uma febre alta. No armário do quarto, Ume retirou um cobertor e uma muda de roupas para trocar a filha, colocando a garota na parte da cama que estava seca. Logo em seguida, ela voltou ao seu quarto para acordar Shou.

— Shou, Shou... Acorde, por favor! A Yuzu voltou para casa, mas veio toda encharcada de chuva! Agora ela está com uma febre alta, e não temos remédios em casa! Por favor, vá até o mercado e a uma farmácia, preciso que você compre algumas coisas para ela!

— A Yuzu? O que aconteceu?

— Eu não sei, eu acordei e achei ela deitada de qualquer jeito na cama. Tentei acordá-la, mas ela não está muito bem, deve ter sido por causa dessa chuva. Por favor, vá o quanto antes!

— Ok, só vou me trocar e já desço!

Enquanto isso, a mãe volta ao outro quarto para ver se Yuzu acordou. Sentada na beira da cama, Ume ouve a garota falar sozinha, como se estivesse delirando.

— Mei... por quê? Você acabou com tudo... você mentiu para mim... Depois de tudo o que eu fiz por você... Não me procure...

A mãe fica intrigada com as falas de Yuzu, mas prefere guardar tudo para si, sem revelar o que ouviu. Meia hora depois, Shou volta do mercado com chás, remédios e alguns alimentos leves para que Yuzu se recupere. Mais tarde Ume liga para as amigas da filha e avisa que garota retornou, mas terá de ficar de molho por alguns dias.

Harumin, Nene, Matsuri, Himeko e Shirapon foram à cerimônia de Mei já sabendo de tudo o que havia se passado entre as duas irmãs Aihara. Matsuri revelou tudo o que sabia às demais, e elas todas até pensaram em conversar com Yuzu, mas não havia muito o que ser feito, ainda mais em cima da hora. No momento de cumprimentar os noivos, os sorrisos amarelos e constrangidos das garotas apareceram, e Mei também não parecia feliz, mas fingiu estar apenas para não decepcionar o avô.

Dizem que quando um casamento ocorre sob chuva, os noivos terão uma vida muito próspera pela frente. No meio de seus delírios, Yuzu toma essa superstição como verdade, e solta um desabafo, ouvido por sua mãe. "Mei e Udagawa-san, casados debaixo de chuva, felizes um com o outro, pelo resto de suas vidas... droga. Só me resta aceitar o que vier pela frente."

—---------------------

Alguns dias depois, recuperada e com Mei totalmente fora dos muros da academia, Yuzu transformou todos os sentimentos que haviam restado – tristeza, mágoa, raiva, decepção – em combustível para outras atividades que não a levassem a pensar na herdeira dos Aihara. A gyaru chegou à conclusão de que não valeria a pena se humilhar, deteriorar a própria saúde, porque todas essas coisas não fariam sua amada voltar. O que passou é passado, e agora é hora de olhar para o futuro, cuidar dos próprios sonhos, construir uma história bonita sem sofrer com as mentiras que foram contadas a ela.

À beira da vida adulta, não havia tempo a perder com um romance que não deu certo; agora era a hora de focar nos estudos, pensar em trabalhar. As sequências de altas notas de Yuzu permaneceram e garantiram a ela uma bolsa de estudos na Inglaterra, para onde foi uma semana depois de ter se formado na Academia Aihara. Todas as meninas, exceto Mei, foram avisadas de que a loira deixaria o Japão em poucos dias. Ume foi proibida de contar a novidade para a outra filha. Mesmo a par de tudo o que acontecia na escola, Himeko não repassava nada para a amiga de infância. "Se Mei-mei e Aihara Yuzu decidiram ignorar os passos uma da outra, não vou quebrar esse desejo de ambas. Mas eu queria tanto que Mei-mei soubesse o que está acontecendo! Ignorar agora só vai fazê-la sofrer, e aí vai ser tarde demais..."

No dia do embarque, Harumin, Matsuri e Nene estavam emocionadas por saber que não veriam a gyaru tão cedo novamente; Himeko e Shirapon-senpai ficaram tristes por Mei não ter sido convidada para se despedir, mas entenderam os motivos que levaram Yuzu a decidir isso, e foram desejar toda a sorte do mundo para a loira. Enquanto a hora do voo não chegava, Ume inventou uma desculpa e foi até o banheiro, onde pegou o celular e discou para a mansão onde Mei e Satoshi moravam.

— Alô? Aqui é Ume, mãe da Mei. Ela está no momento?

— Ah, Aihara-san! Tudo bem? Infelizmente sua filha ainda não chegou da viagem com o marido. Quer que eu deixe um recado?

— Ela está em viagem? Ah, que pena! É que hoje a Yuzu vai embora do Japão, vai para a Inglaterra estudar numa universidade de lá. Estou aqui no aeroporto esperando a hora do voo chegar, e achei que a Mei estivesse por aí. Mas se ela não chegou, tudo bem. Não precisa repassar recado agora, isso só causaria transtornos. Mas agradeço por ter me avisado sobre a ausência dela.

Ume se despede e desliga o telefone, respirando fundo para não chorar neste exato momento. Ela vai até a pia e molha o rosto para tentar disfarçar antes de sair do banheiro. Logo ela vai até onde estão as meninas, próximo do portão de embarque indicado no tíquete que Yuzu carrega junto com o passaporte. A gyaru percebe que a mãe está com o rosto úmido e pergunta.

— Mama, o que aconteceu? Está passando bem?

— Ah, não se preocupe, não foi nada, Yuzu-chan! Eu só estava com um pouco de sono, molhei o rosto para não cochilar enquanto a gente espera a hora do embarque.

Enquanto isso, retornando do litoral, para onde foi com o marido procurar novos fornecedores para o restaurante dos Udagawa, Mei está sozinha no trem a caminho de Tóquio. Por conta de uma conversa urgente com o advogado do Grupo Aihara sobre o processo de sucessão, o avô de Mei pediu que ela retornasse o quanto antes para a capital, já que a reunião seria no dia seguinte. Nessa época, o velho Aihara já pensava em se aposentar e colocar o marido de Mei em seu lugar, mas achou melhor consultar seu advogado e amigo de longa data primeiro.

Buscada na estação pelo motorista particular, Mei chegou exausta após ter arrumado tudo às pressas para atender ao avô. Ela só gostaria de poder cair o quanto antes na sua cama e recuperar o sono que foi perdido.

— Estou em casa!

— Ah, Udagawa-san! Bem-vinda de volta!

— Hikaru-san, não vou jantar hoje. Estou exausta. Se alguém ligar para mim...

— Então... Na verdade, sua mãe ligou uma hora atrás, Udagawa-san. Mas como eu disse a ela que você estava em viagem, ela não quis deixar nenhum recado.

— Minha mãe? E o que ela queria? Se for minha mãe, não há problemas em me ligar.

— Bem, ela estava no aeroporto, esperando pelo voo de sua irmã. Yuzu-san está indo estudar na Inglaterra e vai embarcar hoje.

— O QUÊ? Ninguém me disse nada sobre a Yuzu estar indo embora do Japão! — Mei fica desesperada por saber de última hora. — Minha mãe não disse em que horário, qual portão?

— Não, não deu mais detalhes. É melhor ir logo, ela não sabia que a senhora estava em viagem com seu marido! Acho que não queria interromper seus compromissos!

— Tudo bem, eu vou pedir para Morimoto-san me levar imediatamente para o aeroporto. — Mei larga as malas na sala e sai correndo até a garagem, onde encontra o motorista.

— Morimoto-san, por favor... Preciso que você me leve urgentemente para o aeroporto! Pegue o caminho mais rápido, eu tenho um assunto muito urgente para resolver! — A garota, ofegante, abre a porta do carro e embarca rapidamente. Não demora muito e o carro sai da mansão em direção ao aeroporto.

No portão de embarque, a fila para entrar no avião já começa a se formar, antes mesmo do anúncio da tripulação. Yuzu se levanta e pega sua mochila, e as meninas fazem fila para se despedir da garota. Ume é a última a se despedir, dando o abraço mais forte e demorado de todos.

— Meu bebê! Eu vou sentir muita falta de você, mas não posso impedi-la de ir atrás de seus sonhos! Só que você poderia ter avisado a Mei, ela é sua irmã e precisava saber! Vocês não podem ficar brigadas para sempre!

— Mama, por favor, não é hora de falarmos sobre isso. Eu não sei quando vou voltar para o Japão, são quatro anos de estudos e cursos complementares, e ainda preciso arranjar um trabalho ou estágio na área. Se eu não puder vir, por favor, me encontre lá. Mas, por favor, não deixe que a Mei saiba onde vou morar, onde vou estudar. Não me peça para explicar, é tudo muito complicado, e não temos mais tempo para conversar sobre isso.

— Desculpe, filha, eu tentei avisar a Mei, só que ela não está em Tóquio, mas numa viagem com o marido. De qualquer jeito, ela não conseguiria vir te ver...

— Ah, não, por que você fez isso?! Ela não tem que saber para onde vou, o que vou fazer! Não quero mais que ela saiba qualquer coisa sobre mim! Do mesmo jeito que ela pediu para você esconder todo o plano do casamento arranjado, eu não quero que você revele meu paradeiro ou dê qualquer informação minha. Diga a ela qualquer outra coisa, diga que eu morri ou que estou desaparecida, mas não fale mais nada sobre mim! É só isso o que eu te peço, mama!

— Mas minha filha, por que essa mágoa toda com a Mei só por conta do casamento dela?

— Mama, eu...

— YUZUCCHI! — Harumin interrompe e evita que a conversa se estenda. — Eu e as meninas... já sabemos de tudo! Saiba que estamos com você, para o que der e vier, te amamos de qualquer jeito. Quanto à kaichou, não se preocupe. Da nossa parte, ela não vai conseguir arrancar nada, não é mesmo, vice-pres?

— Sim, Aihara Yuzu... Sinto muito por você e Mei-mei, mas as duas tiveram que tomar caminhos bem diferentes, e fico contente por saber que você decidiu seguir adiante, apesar de tudo. Espero que um dia vocês possam resolver esse assunto da melhor maneira possível, sem ressentimentos. — Himeko diz, com um sorriso sincero. Ume não sabe do que Harumin e Momokino estão falando, o que a deixa intrigada.

— Obrigada, pessoal! Mama, eu te devo uma explicação, mas isso fica mais para frente. Eu vou esclarecer tudo, para você e para o papa também, ele precisa saber. Vocês dois vão entender meus motivos, mas eu preciso de tempo. O que tenho para falar não é o tipo de conversa que acontece minutos antes de um embarque para o exterior.

— Tá bem, filha... eu vou esperar por você. Só quero que seja feliz e que saiba que estarei sempre aqui, à sua espera. Vá e se cuide! Essa nossa conversa para mais tarde, vou cobrar, viu?

Chega o horário de embarcar, e Yuzu some no meio da fila de passageiros. Quando enfim as garotas e a mãe conseguem vê-la atravessar o portão, todas limpam os olhos marejados sabendo que ficarão um tempo sem ver aqueles olhos verdes cheios de animação.

— Matsuri, obrigada. — Harumin se vira para a garota de cabelos rosa.

— Hã? Por que, senpai? — Matsuri fica corada com o agradecimento.

— Por ter revelado o que ocorreu entre a Yuzucchi e a kaichou. A vice-pres e a Shiraho-senpai já desconfiavam, mas em respeito à kaichou acharam que era melhor não contar. Entendo o lado delas, acho que eu faria o mesmo. Eu e a Nene ficamos meio que sem reação, mas depois a ficha caiu de verdade.

— E o que você pensa a respeito, senpai?

— Confesso que num primeiro momento, fiquei em choque. Mas eu chorei muito também, pois tentei me colocar no lugar da Yuzucchi... Só que eu não tenho nem ideia da dor que ela sentiu ao se separar da Mei-san e dos desafios que ela vai ter de encarar, com ou sem a kaichou.

— Bem, nós, que somos as amigas próximas das duas, podemos dizer que temos uma cabeça mais aberta, somos um pouco mais preparadas para lidar com a situação das duas. Mas o resto do mundo ainda não está, e é isso o que me dói. Espero que Yuzu-chan consiga superar esse momento lá na Inglaterra.

—-------------------------

O motorista de Mei chega ao aeroporto e a garota sai o mais rápido que pode do veículo. Sem prestar atenção ao entorno, ela quase é atropelada por um táxi, e vai correndo até a entrada que dá acesso ao check-in. Sem prestar atenção, ela esbarra e quase derruba a pessoa à sua frente, que estava vindo na direção contrária.

— AI! Mas o que está fazen... M-MEI?

— Mamãe!

— Ué... mas a funcionária da mansão disse que você estava viajando com seu marido! O que houve?

— O vovô pediu para eu voltar antes, por conta de uma reunião urgente... Aí, coincidentemente, fiquei sabendo que você havia ligado para mim! A Hikaru-san... me disse o que estava acontecendo. Cadê a Yuzu? Onde eu posso encontrá-la? E por que ninguém me disse nada a respeito? — Mei começa a se desesperar.

Ume leva a filha mais nova para um canto onde não atrapalhe o fluxo dos passageiros, e tenta acalmar a garota. Com as mãos sobre o ombro de Mei, Ume olha nos olhos dela e tenta explicar.

— Mei, minha querida, o voo já partiu tem um tempinho... Eu queria muito, muito mesmo, que você soubesse da partida dela para o exterior. Mas ela me proibiu de repassar qualquer informação a respeito. Eu não concordei, mas ela insistiu, exigiu isso de mim. Fora isso, a Yuzu se sentiu muito magoada quando soube que você pediu para que eu não dissesse nada sobre o casamento arranjado. Ela ficou muito irritada antes do embarque quando eu disse que havia ligado para sua casa...

— Mas como ela decidiu tudo assim tão rápido? E se ela quisesse, não precisaria ir tão longe, qualquer universidade do Japão bastaria! Se ela precisasse de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, eu falaria com o vovô! Ela não tinha que... ugh... uh... — Mei desaba na frente de Ume, que abraça a garota e a conforta.

— Mei-chan, eu não entendo o porquê de vocês duas terem se afastado. A Yuzu mudou muito desde que você se casou. De qualquer maneira, é visível que ela está magoada contigo, mas não me falou os motivos, nada mesmo. Acho que ela quer ficar um tempo longe daqui, talvez para esfriar a cabeça. Por favor, entenda o que ela teve de passar...

— Me perdoe, eu fui a culpada por toda essa situação! Não vou conseguir explicar, mas a culpa é toda minha por ter deixado a Yuzu tão magoada! ELA NÃO PRECISAVA IR EMBORA!

— Eu sei que é triste, mas foi o futuro que a Yuzu escolheu, não tenho o direito de ditar o que você e ela vão fazer da vida... E ela me pediu para não passar nenhuma informação a respeito da vida dela lá fora para você. Não estou dizendo isso por mal, foi uma exigência dela. Quero que saiba que a Yuzu talvez não volte tão cedo, Mei-chan...

Sem conseguir falar mais nada, Mei permanece abraçada a Ume, enquanto as pessoas ao redor olham com curiosidade para a cena.