O vento gelado invadia as ruas do lado de fora do café, mas, ali dentro, ninguém se importava com aquilo. Ali tudo era colorido, claro, quente e aconchegante. Ali os poetas não tremiam de frio ao recitarem as suas poesias, os pintores não ficavam com os dedos paralisados devido à baixa temperatura, as moças não ficavam com as pernas geladas... Ali tudo era festa e alegria.


Enquanto a música saía do gramafone, alta, envolvendo todos, e as conversas entre as pessoas pairavam por cima das cabeças, as suas palavras apareciam no papel... Mais palavras a cada minuto que se passava, mais rabiscos a cada pessoa que passava ao seu lado, mais história a cada copo de bebida virado. Mais álcool, mais palavras. Como se a diminuição de sua consciência aumentasse a sua criatividade.


O garçom passava e você não hesitava em erguer a mão, meio cambaleante, e pedir mais um copo, por favor, só mais um... Mas não era só mais um, claro. Eram dois, três, quatro... E ai você se perdia na conta, pois estava preocupado demais com as palavras que surgiam no papel.


Uma moça de cabelos curtos e vestido quase acima dos joelhos tentava tirar-lhe da mesa, mas tudo o que conseguia era um olhar rápido e uma breve aparição em sua história. Naquela noite você era do papel e o papel era seu. Um casal perfeito, feitos um para o outro, moldando um ao outro a cada segundo que se passava. E claro, sempre havia a amante... A amante era o copo ao seu lado, que acabava por distraí-lo, vez por outra, mas que sempre acabava por melhorar ainda mais a relação.


Você nem sabia mais o que estava escrevendo, se aquilo estava certo ou se fazia algum sentido... Talvez não, mas não importava. Quando o sol raiasse e o álcool se dissipasse, as palavras ficariam mais claras, assim como sua mente, e ai sim viria o trabalho duro: pegar, palavra por palavra, e escolher qual ficava e qual saía... Mas isso era trabalho para se fazer de dia, com os dedos gelados e um cachecol em volta do pescoço.


Mais um copo, por favor, pois ainda é noite, a música ainda toca e o calor ainda está vivo.

Notas finais
Geração perdida de Paris.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!