Dress
1 Único
Notas iniciais
Dress.
Capítulo Único.
O vestido era sem dúvida um problema.
Noelle percebeu isso no instante em que Vanessa terminou de fechar o último pequeno botão nas costas e assobiou, satisfeita com o próprio trabalho.
— Ficou muito bom!
Noelle encarou o próprio reflexo.
— Bom, não? — Vanessa perguntou.
— Ainda não sei. — Limitou-se a dizer.
— Como não? — indagou.
— Bem.
Vanessa sorriu daquele jeito irritante de quem já sabia a resposta. Noelle voltou os olhos para o espelho.
O vestido era azul.
Não o azul claro que costumava usar em ocasiões oficiais, quase prateado sob certas luzes. Era profundo. Noturno. A cor do céu quando as últimas faixas de sol desapareciam atrás das montanhas. Elegante o bastante para uma Silva.
Provocante o suficiente para Vanessa.
O tecido acompanhava o corpo sem exageros, descendo em linhas limpas até o chão. Os ombros estavam descobertos. Uma abertura discreta revelava parte da perna quando ela caminhava.
Discreta. Definitivamente discreta. Era exatamente isso. Não tinha escolhido aquele vestido pensando em impressionar Asta. Absolutamente não.
O fato de ele gostar de azul não tinha qualquer relação com a decisão.
Nem o fato de que, semanas antes, enquanto os dois estavam sozinhos numa missão, ele comentara que gostava quando ela usava o cabelo solto.
Tudo uma mera coincidência.
— Se continuar encarando o espelho deste jeito — Vanessa comentou, pegando sua taça de vinho — ele vai ficar com ciúmes.
Noelle estreitou os olhos.
— Ele quem?
Vanessa arqueou uma sobrancelha. Gesto que fez Noelle sentir o rosto esquentar.
— Não começa.
— Nem falei nada. — Um sorriso se formava entre seus lábios.
— Pode não ter falado, mas parece que pensou.
— E pensar agora é crime? — o tom de voz de Vanessa deixava claro que estava se divertindo.
— Quando é você e suas suposições deveria ser. — esbravejava a mais nova.
O que só fez Vanessa rir mais alto. Fazendo com que Noelle respirasse fundo.
Olhando novamente para o espelho.
Por um segundo, esqueceu Vanessa. Esqueceu o baile. O reino inteiro de Clover. Pensou apenas na reação dele.
Asta não sabia fingir. Era uma das coisas que Noelle mais amava nele. E uma das coisas que mais amava nele. E uma das coisas que tornariam aquela noite absolutamente insuportável.
(...)
O Salão Real estava lotado. Música. Luzes de cristal. Nobres de todas as casas importantes do reino. Cavaleiros Mágicos espalhados entre políticos, comandantes e convidados estrangeiros.
O baile havia sido organizado para celebrar mais um aniversario da reconstrução do reino. Uma das ocasiões em que todos precisavam usar roupas desconfortáveis, sorrir para pessoas que não suportavam fingir que preferiam estar ali em vez de comer alguma coisa na base dos Touros Negros.
Asta estava próximo de Magna quando as portas principais se abriram.
E simplesmente parou de ouvir.
— ...e aí eu disse pro Luck que se ele colocasse eletricidade no ponche mais uma vez eu ia enfiar a cabeça dele numa... — Magna percebeu e parou — Asta?
Nenhuma resposta.
— Asta.
Silêncio. Magna seguiu o olhar dele.
— Caramba.
Noelle havia acabado de entrar.
Ela vinha ao lado de Nebra e Solid, mantendo aquela postura impecável que parecia pertencer naturalmente aos Silva. O queixo ligeiramente erguido. Passos firmes. E expressão serena.
Asta já a vira lutar coberta de sangue. Já a vira encharcada de chuva. Já a vira acordar com o cabelo completamente destruído depois de dormir sentada contra o ombro dele.
Já a vira furiosa.
Chorando.
Rindo.
Adormecida.
Usando o uniforme dos Touros Negros pela manhã enquanto reclamava que alguém havia acabado com a água quente.
Nenhuma dessas lembranças o preparou para aquilo.
— Fecha a boca — Magna murmurou.
Asta fechou imediatamente.
Então abriu de novo.
— Ela tá...
— Sim.
— Muito...
— Concordo.
— Eu nem terminei! — disse com um leve tom de irritação.
— Nem precisa.
Asta passou uma mão pela nuca.
“Merda!” Pensou, aquilo seria muito difícil.
Muito difícil mesmo. Porque ninguém sabia. Nem Magna, Nem Finral, tão pouco Vanessa, pelo menos não oficialmente.
Se bem que, talvez Vanessa soubesse. Ela tinha o talento de saber as coisas que não precisava saber. Mas, oficialmente, ninguém sabia.
Quase seis meses.
Seis meses desde uma noite depois de uma missão, quando uma discussão ridícula havia terminado com Noelle perguntando, vermelha de raiva e alguma outra coisa.
“Você realmente nunca percebeu?”
Ele não tinha percebido.
De fato, não era muito observador ou um bom leitor de pessoa e naturalmente se ela quisesse fazer ser entendida teria que usar outro método.
Então ela o beijara.
Asta caiu em si, ao corresponder completamente desajeitado.
Desde então, tinham desenvolvido uma nova espécie de magia.
Encontrar lugares vazios. Passarem despercebidos pelos corredores. Transformar missões de reconhecimento em encontros. Esperar que todos se retirassem do salão principal da base. Passar horas a fio conversando no telhado. Roubar beijos sempre que dava, tinha se tornado o novo passatempo preferido de Asta.
E nunca, nunca se comportar diferente quando estavam diante dos outros. Tinham decidido manter aquilo entre eles por enquanto.
Parte porque Noelle não queria transformar o relacionamento numa fofoca entre as famílias nobres. Parte porque Asta não queria que ela tivesse de responder perguntas sobre o futuro antes que eles soubessem exatamente qual seria esse futuro.
E parte porque havia algo estranhamente precioso em possuir alguma coisa que pertencia apenas aos dois.
Mas naquele momento, enquanto Noelle atravessava o salão usando aquele vestido...
Asta reconsiderou todas as decisões que já havia tomado na vida.
Ela levantou os olhos. Encontrou os dele.
Parou.
Foi por um segundo. Talvez menos. Mas ele tinha visto.
A pequena mudança em sua respiração. Os dedos apertando discretamente a lateral do vestido. Os olhos descendo pelo traje formal dele antes de voltarem rapidamente para seu rosto. Depois Noelle virou-se para Solid como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Asta sorriu, um sorriso largo, quase que vitorioso.
Magna observou.
— Por que você está sorrindo desse jeito?
O sorriso foi sessado imediatamente.
— Que sorriso e que jeito?
— Esse jeito todo bobo.
— Não faço ideia do que está. — Tentava desconversar.
Magna ficou olhando para ele, como se o analisasse.
— Você é um péssimo mentiroso.
— EU NÃO TÔ MENTINDO!
A voz saiu como um grito, o que só piorou a situação. Agora tinha só metade do salão de olho nele.
“Idiota!” Pensaram juntos, tanto Noelle como Asta.
“Seu grande idiota.”
(...)
Duas horas.
Noelle estava começando a considerar aquilo uma forma sofisticada de tortura. Asta permanecia do outro lado do salão. Sempre. Próximo demais para ser ignorado. Longe demais para ser alcançado.
Às vezes alguém passava entre os dois, quebrando a linha de visão, e ela sentia uma irritação completamente irracional com o pobre desconhecido. Depois Asta aparecia novamente. E os olhos dele voltavam para ela.
Era ridículo.
Tinham passado semanas separados durante missões. Já haviam suportado batalhas em lados opostos do continente. Mas aquilo mexia com eles de maneira diferente. Estavam a quinze metros de distância, talvez vinte.
Ela poderia atravessar o salão em segundos.
Podia chegar perto dele. Segurar sua mão, abraça-lo.
Mas, não seria sensato fazer nenhuma delas aquela noite.
— Noelle.
Piscou voltando de seus pensamentos, Mimosa estava diante dela.
— Você está bem? — continuou a prima percebendo que Noelle estava completamente em seu próprio mundo.
— Claro. — Disfarçou o melhor que pode.
— Está olhando bastante para aquele lado.
O coração dela parou por um instante.
— Que lado? — tentou se fazer de desentendida.
Mimosa olhou para o lado que Asta, Magna e os outros membros do esquadrão estavam conversando. Quase que por impulso Noelle quis segurar o rosto da prima e impedir que pudesse passar qualquer tipo de pensamentos por ele.
— Os Touros Negros. — disse apenas.
— Eu só estava observando para que pudesse evitar qualquer constrangimento, eles não são lá treinados para lidar com situações formais. — Dizia enquanto ponderava o quanto de verdade tinha naquelas palavras.
— Entendo.
Noelle estreitou os olhos. Mimosa sorria com as palavras dela.
— O quê? — questionou-a.
— Nada.
— Você está fazendo uma expressão bem estranha.
— Que expressão? — o sorriso aumentava mais.
— Essa. — apontava para as feições da maga do Alvorecer Dourado.
— Eu só estou sorrindo.
Antes que pudesse continuar o interrogatório, os músicos mudaram o ritmo. Para algo mais lento, e casais começaram a ocupar o centro do salão. Noelle sentiu o estômago afundar. A dança. Tinha se esquecido da maldita dança.
Ao longe, Asta também pareceu perceber. Os olhos dos dois se encontraram novamente. Noelle notou rapidamente o pânico nos olhos dele. Quase riu. Asta poderia enfrentar Lucifero quantas vezes quisesse.
Mas dançar?
Esse era um adversário grande demais para o futuro rei mago não?
Ela ergueu discretamente uma sobrancelha.
Ele respondeu balançando a cabeça.
“Não.”
Noelle sorriu.
“Covarde.”
Como se tivesse ouvido, Asta cruzou os braços.
“Eu?”
Ela assentiu uma única vez.
“Sim, você”
Tinham se tornado especialista em conversar apenas através de gestos, tantas vezes que queriam chamar um ao outro para as escapadas fizeram deles mestres na arte da comunicação não verbal.
Asta apontou para si mesmo.
Noelle manteve o olhar.
Então, lentamente, ele levantou a mão.
E fez um gesto minúsculo.
“Venha.”
O coração dela disparou.
“Astupido”
Estavam praticamente em lados opostos do salão. Com dezenas de pessoas entre eles.
Ela não poderia simplesmente atravessar tudo aquilo e—
— Lady Noelle.
Um jovem nobre parou diante dela.
Ela congelou por ter sido tirada novamente dos pensamentos.
— Poderia me conceder esta dança?
Do outro lado do salão, Asta baixou a mão.
O rosto dele permaneceu neutro.
Por exatos dois segundos e meio.
Noelle conhecia aquele rosto agora.
Conhecia o pequeno moimento no maxilar. Conhecia a forma como ele apertava a mão quando tentava controlar alguma reação. Ciúme. Uma parte absolutamente vergonhosa dela gostou daquilo.
— Agradeço o convite — respondeu educadamente —, mas receio que precise recusar.
O homem pareceu decepcionado, mas fez uma reverência e se afastou. Noelle voltou os olhos para Asta. Ele por outro lado ainda a encarava. Ela levantou a taça. Uma saudação silenciosa.
“Você me deve uma.”
Asta inclinou a cabeça, depois sorriu. Daquele jeito.
Aquele sorriso torto e satisfeito que ele reservava quase exclusivamente para ela agora.
(...)
— Você não tá interessado em dançar com nenhuma das meninas? — Finral perguntou.
— Eu? — Asta quase engasgou com a própria saliva.
— É, você.
— Não, tô de boas.
— Tem certeza? Porque tem umas cinco garotas olhando pra você desde que chegou. — continuo o veterano, lançando olhares discretos na direção delas.
Asta do jeito Asta de ser olhou instintivamente. Finral agarrou seus ombros.
— Não olha assim! Você piora tudo!
— Por que?!
— Por que agora elas sabem que você percebeu! — dizia como se fosse uma coisa obvia, bom não nada obvio para Asta.
— E daí?!
— Asta, pelo amor de tudo que é sagrado, quantos anos vai levar até que você comece a entender como estas coisas funcionam? — levou uma das mãos ao rosto, se questionando mentalmente o tempo que levaria para o amigo deixar de ser tapado.
Asta abriu a boca. E fechou em seguida. Então seus olhos voltaram para Noelle. Desde que recusou o convite do intrometido, ela estava perdida em algum assunto com Mimosa.
Sabia que deveria estar prestando atenção no que Finral falava, afinal seus conselhos poderiam ser uteis. Mas Noelle tinha colocado uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ele conhecia aquele gesto. Ela o fazia com regularidade quando estava nervosa. Não pode deixar de sorrir.
— Ei, tá me ouvindo — Finral estalou os dedos diante dele. — Terra chamando Asta.
— Foi mal.
— Você está mais estranho que o normal hoje. — Magna disse enquanto tomava um gole de sua bebida.
— Tô normal. — disse mexendo os braços como quem queria sustentar as palavras.
— Estas são palavras que uma pessoa agindo estranhamente diria. — Argumentou Finral que partilhava da desconfiança de Magna.
Asta pegou uma taça de água com um garçom que passava por ali.
— Só tô cansado.
Era uma mentira. Estava completamente acordado e disposto. Cada nervo do corpo parecia consciente da presença dela. Do outro lado do salão.
Asta nunca compreendera pessoas que diziam coisas como “não consigo parar de olhar”. Parecia algo inacreditável e fantasioso demais para ele, afinal era só virar o olhar.
Simples, certo?
Então começara a namorar Noelle. E descobriu que havia muitas coisas no mundo sobre as quais ele não entendia literalmente nada. Como aquilo. A necessidade quase física de saber onde ela estava.
Não por controle ou preocupação. Tinha conhecimento que Noelle Silva poderia muito bem se cuidar sozinha, e que dificilmente precisaria ser protegida.
Era outra coisa. Era simplesmente...
Ela.
Noelle levantou os olhos. Encontrou os dele de novo. Dessa vez, porém, ela não desviou. Nem ele. As pessoas se moviam entre os dois.
Vestidos.
Uniformes.
Taças.
Conversas.
Música.
O mundo inteiro continuava. Mas Asta só viu aqueles olhos violetas. Noelle levou a taça aos lábios. Devagar. Asta percebeu que estava apertando demais a própria taça.
Relaxou os dedos e a viu sorrir, quase nada, como uma provocação. Estreitou os olhos e a viu arquear uma das sobrancelhas. E então virou-se.
Asta soltou o ar.
— Essa garota vai me matar. — Sussurrou para si mesmo.
— Que garota? — Finral franziu a testa.
Asta congelou.
— Ne-nenhuma. — Gaguejou ao tentar se defender.
— Asta.
— O quê?
— Você acabou de sussurrar “essa garota vai me matar”. — indagou Finral.
— Eu disse? — se fez de desentendido.
— Disse. — insistiu o veterano.
— Estranho, não parece algo que eu diria. —levou a mão livre até atrás da nuca bagunçando os cabelos.
— Ah, vá tentar enrolar outro, diga logo quem é ela?
— Mas Finral é sério não disse nada disso.
Finral fazia expressões de quem queria dar um sacode até que Asta soltasse quem era ela.
— ENTÃO EXISTE ALGUÉM? — gritou Magna que até então só estava escutando os dois.
Várias pessoas olharam. Asta instintivamente cobriu o rosto. Do outro lado, Noelle estava claramente tentando não rir.
(...)
Quando Noelle decidiu que precisava tomar um ar fresco, rumou em direção a varanda. A noite estava fria. O ruído do salão ficou abafado depois que ela fechou parcialmente as portas de vidro atrás de si. Por alguns segundos, conseguiu respirar. Até começar a ouvir passos que se quer precisou olhar para saber de quem eram.
— Você demorou. — comentou ela sem o olhar ainda.
— Tive que me livrar do Finral e do Magna. — Parou atrás dela.
— Imagino que tenha sido complicado.
— Finral parece estar desconfiado — deu de ombros.
— Ele sempre está desconfiado de algo.
— Dessa vez, tenha um motivo.
Ela finalmente se virou.
Um erro talvez.
Asta parecia ainda melhor de perto.
O traje formal escuro havia sido feito especialmente para ele, embora nenhuma costura no mundo pudesse transformar Asta em alguém aristocrático. Ainda havia aquela postura ligeiramente relaxada. Aquele cabelo bagunçado e a energia inquieta.
Mas os últimos quatorze meses haviam mudado algumas coisas. Os ombros estavam mais largos. As feições mais maduras. As cicatrizes contavam histórias que ambos conheciam. E então tinha os olhos. Sempre aqueles olhos esperançosos e irresistíveis.
— Você ficou me encarando. — disse ela, cruzando os braços.
— Você também. — Retrucou dando de ombros.
— Eu estava apenas verificando como você estava se saindo.
— Por duas horas? — a expressão divertida dele quase a tirou da postura.
— Você exige uma supervisão constante.
— Claro, imagino que isso seja verdade. — Deu um passo à frente.
Noelle deveria ter recuado, não recuou. Ele deu mais um passo.
— Então não tava me olhando porque gostou da roupa? — perguntou com uma voz estranhamente suave e calma.
— Não seja ridículo. — ela soltou uma risada curta.
— Uma pena. — disse derrotado.
— Por quê?
Asta agora estava perto o suficiente para que não desse tempo de ela responder a qualquer ação dele.
A música atravessava suavemente as portas entreabertas.
— Por que eu gostei do vestido.
Noelle ficou imóvel.
A simplicidade com que ele disse aquilo era pior que qualquer elogio elaborado. Asta nunca tinha truques. Nunca construía frases para impressioná-la. Ele apenas dizia o que sentia e o que via. E isso sempre acertava algum lugar desprotegido dentro dela.
— Você... — começou ela.
Asta esperou. Ela desviou os olhos.
— Você está apresentável também.
Ele sorriu.
— Só apresentável? — questionou fingindo estar decepcionado.
— Acredito que sim.
— Passei quarenta minutos ouvindo o Finral falar do meu cabelo.
Ela ergueu os olhos até a cabeleira dele, bagunçada como sempre, mas sabia que no inicio do evento estava organizado e penteado, algo que ela achava impossível.
— Mas pelo que vejo ele deve ter perdido esta batalha.
Asta soltou uma risada, ela também.
Por alguns segundos, aquilo pareceu normal. Como se estivessem sozinhos na base. Como se não houvesse portas atrás deles. Como se não existissem títulos, famílias, expectativas ou centenas de pessoas do outro lado daquele vidro.
Então Asta olhou para a mão dela apoiada no parapeito. A mão dele se moveu. Parou a centímetros. Noelle acompanhou o movimento. Ele poderia tocar. Ninguém estava olhando.
Provavelmente. Talvez? Ela queria também? Deuses, queria.
— Asta.
Ele ergueu os olhos.
— Eu sei.
Mas não afastou a mão.
Nem ela.
Os dedos próximos demais. Quase se tocando. O espaço entre eles parecia absurdo. Menor que uma respiração. Maior que o reino inteiro.
— Se alguém aparecer... — Noelle murmurou.
— Não vai aparecer.
— A Vanessa provavelmente já percebeu. — Argumentava ela.
— Vanessa percebe tudo. — Tentava invalidar o argumento.
— Finral está desconfiado.
— Muito, deu mó trabalho para despista-lo.
— Acho que a Mimosa também.
Asta fez uma careta.
— Então a gente tá perdendo o jeito. — brincou ele.
— Você é que perdeu o jeito.
— Não é bem assim, você ficou me olhando desde que chegou praticamente. — tentou se defender e provocar ela.
— Porque você estava me encarando! — esbravejou.
— Como não olhar quando você entra vestida assim, eu não to me controlando o máximo que posso.
Noelle abriu a boca para dizer algo e parou. Asta percebeu tarde demais que a frase não tivera ficado bem formulada antes de dizer. Um silencio repentino tomou conta do lugar a medida que as maçãs do rosto dela ficavam vermelhas.
— Vestida assim? — indagou.
Asta engoliu em seco.
— É.
— Qual é exatamente o problema com a maneira que estou vestida? — questionou tentando parecer aborrecida, queria o ouvir falar enquanto pensa.
— Nenhum.
— Você acabou de afirmar que...
— Esse é o problema.
Noelle piscou. Asta respirou fundo. Então focou-se completamente em olhar nos olhos dela.
— Você está linda demais com ele, não que você não seja linda, só que te ver vestida assim é como ter a honra de contemplar uma obra de arte. — ia falando do jeito que as palavras se formulavam em sua mente. Sem hesitação ou brincadeira. — E eu passei a noite inteira querendo atravessar aquele salão.
A raiva que ela fingira sentir desapareceu.
— Pra quê?
Asta olhou para a mão dela novamente.
— Você sabe.
Noelle sentiu o coração bater contra as costelas.
— Talvez eu queria ouvir. — O viu sorrir ao ouvir suas palavras.
— Para segurar sua mão.
Ela quase perdeu o ar. Era ridículo. Despois de tudo que já tinham feito. Depois de todos os beijos escondidos. Depois de noites inteiras juntos. Era aquilo? Segurar sua mão.
E justamente porque era algo tão pequeno, doía mais.
Noelle olhou para o espaço entre seus dedos. Então estendeu o mindinho. Apenas isso. Asta olhou. E sorriu bobo, entrelaçou o mindinho ao dela.
O toque era mínimo, quase infantil. Era também a coisa mais íntima que haviam feito aquela noite.
Noelle fechou os olhos por um instante.
— Isso é patético.
— Bastante — concordou ele.
— Estamos escondidos numa varanda segurando os dedos. — O tom de incredibilidade que tinha com ela mesmo, o divertiu.
— Tecnicamente é só um dedo. — brincou.
— Não estrague. — disse abrindo os olhos.
— Foi mal. — Asta continuava sorrindo como bobo, fazendo com que ela também se entregasse ao sorriso.
— Quanto tempo ainda precisamos ficar aqui? — perguntou não querendo se afastar.
— Antes de desconfiarem?
— Antes que eu enlouqueça.
— Uns dois minutos. — ele pareceu pensar antes de responder.
— Parece muito.
— Um minuto.
— Ainda muito.
— Trinta segundos.
Noelle aproximou-se ligeiramente.
— Quinze.
Asta olhou para a boca dela. Noelle percebeu, não tinha como não perceber. O ar mudou. Não houve nenhum movimento súbito. Nenhuma urgência. Asta inclinou a cabeça e ela ergueu um pouco o rosto, estavam próximos, próximos demais.
Então ouviram vozes próximas às portas.
Separaram-se imediatamente. Asta passou uma mão pelo cabelo.
Noelle virou-se para a paisagem, tentando parecer alguém que definitivamente não estivera a um segundo de beijar secretamente o namorado e companheiro de esquadrão.
Duas mulheres muito bem vestidas, atravessaram as portas.
— Lady Noelle. — disseram juntas.
— Boa noite. — Noelle respondeu com perfeita serenidade.
Asta quase admirou. As mulheres seguiram para o outro extremo da varanda. Ele inclinou-se discretamente.
— Você fica assustadora quando age assim.
Sem olhar para ele, Noelle respondeu:
— Anos de treinamento.
— Isso explica muita coisa.
Ela pisou no pé dele. Asta mordeu o lábio para não rir.
(...)
A última hora foi pior.
Agora eles tinham interagido, quase nada era verdade, mas mesmo assim controle estava por um fim de ambos os lados. E voltar cada um para um lado do salão depois disso parecia crueldade.
Quando a próxima musica começou, Noelle já estava contando minutos. Não sabia exatamente o porquê afinal tinha vários motivos.
Até poderem sair dali era um deles, assim como até estarem sozinhos, ou então quando iria assumir logo e deixar que pensassem o que quisesse.
Mais algum tempo se passou, e alguns dos convidados já começavam se dispersar em despedidas e reverências.
Noelle conversava com o primo Fuegoleon quando reparou em Asta próximo à porta. Ele por sua vez não olhou para ela, mas sabia que seus olhos estavam nele. Continuou andando, três passos e a mão foi aos cabelos bagunçados. Ah, era o sinal.
Teve vontade de rir o vendo fazer aquilo. Tinha criado o tal gesto semana antes. Era ridículo e infantil de fato. E completamente necessário.
Seu significado: Cinco minutos.
Ela terminou a conversa com o primo e se despediu.
Quatro minutos.
Despediu-se de Mimosa.
Três.
Escapou de uma tentativa de conversa de Solid, este que parecia mais um irmão de verdade desde os últimos acontecimentos em Clover.
Dois.
Encontrou Vanessa perto das escadas. A mulher segurava uma taça de vazia, e mantinha um sorriso travesso para ela.
— O quê? — Noelle parou.
— Nada.
— Pare de fazer isso. — disse desconfortável, não sabia dizer se Vanessa só desconfiava ou se já tinha percebido mesmo.
— Fazer o quê? — se fez de desentendia, se divertindo ainda mais.
— Essa cara. — Noelle estreitou os olhos.
— É só meu rosto. — Vanessa inclinou-se um pouco. — Boa noite, princesa.
— Boa noite. — Despediu-se e seguiu em frente.
— É um lindo vestido. — ouviu-se a voz de Vanessa carregada de intenções.
Noelle quase tropeçou nos próprios pés, mas não olhou para trás.
O corredor lateral estava vazio. Caminhava rápido demais para alguém que definitivamente não estava apressada. Virou em mais um. E nada. Outro. Nada.
— Asta?
Uma mão surgiu de uma pequena passagem lateral. A deixando quase sem tempo de reação, puxando-a para dentro.
— Seu idi...
Asta fechou a porta. Se aproximou mais, porém não a beijou. Esse detalhe suou quase como uma ofensa para ela.
Ficaram apenas ali. Frente a frente, próximos demais, dava para sentir a respiração um do outro. Sem obrigações familiares ou da guarda, sem nobreza ou esquadrão. Apenas dois idiotas apaixonados.
Noelle encostou as costas na porta.
— Cinco minutos né?
— Bom funcionou. — disse em resposta com um sorriso maroto.
— Você poderia ter escolhido um lugar menos suspeito. — olhos passavam pelo lugar.
— Ninguém vem aqui.
— Como você sabe? — arqueou uma sobrancelha.
— O capitão Yami usa esse lugar pra quando queria fugir das cerimônias.
Noelle ficou em silêncio.
— Naturalmente é a cara dele.
O sorriso de Asta aumentou. Então desapareceu aos poucos. Seus olhos passaram por ela novamente. Sem precisar fingir que não estavam fazendo isso. Noelle sentiu o calor subir pelo pescoço.
— Pare de olhar.
— Passei a noite inteira tentando. — a voz saiu rouca e provocativa.
— Não tentou muito. — disse com o mesmo tom provocativo, afinal era um jogo para dois.
— Não, bem talvez por uns doze segundos. — aproximou-se mais dela.
Dessa vez, sabiam que ninguém entraria ali. Nenhum olhar precisava ser regrado ou desviado. Ele pegou a mão dela, inteiramente agora. Entrelaçou os dedos.
— Melhor? — ele perguntou.
Ela fingiu considerar.
— Um pouco. — apertou os dedos nos dele.
— Só um pouco? — Asta riu baixinho.
Noelle olhou para ele. Então aproximou-se até quase ficar com o corpo calado ao dele.
— Talvez você possa melhorar. — o tom mais sedutor que poderia reproduzir.
Asta ficou vermelho. Mesmo depois de meses. Ainda assim era a reação que tinha ao vê-la tomando a iniciativa, que na maioria das vezes vinha dela. Ela adorava isso muito mais do que admitiria.
— Você faz isso de propósito. — tentou se recompor.
— Faço o quê? — manteu o mesmo tom só que mais próximo do ouvido dele.
— Essa voz. — respondeu, sentindo o pescoço arrepiar.
— Não faço ideia do que está falando.
— Noelle.
Asta balançou a cabeça.
— Isso é crueldade. — fingiu uma expressão triste.
— Você sobrevive.
Por alguns segundos ficaram simplesmente se encarando. Asta então ergueu a mão livre. Passou os dedos perto de seu rosto. Parou antes de tocar, como se ainda tivesse que pedir permissão.
Noelle inclinou o rosto contra a palma dele. A resposta. Ele acariciou sua bochecha.
O gesto transformou alguma coisa dentro dela. Toda a provocação desapareceu. Ela segurou o pulso dele.
— Foi horrível.
Asta franziu a testa.
— O baile?
— Você estar tão perto.
Ele entendeu, como não entender.
— Pra mim também.
— Eu quase atravessei aquele lugar umas vinte vezes.
— Só vinte?
Ela empurrou o ombro dele.
— Idiota.
Asta segurou sua mão novamente antes que pudesse afastá-la.
— Eu também quis, só que muito mais que vinte.
Noelle olhou para os dedos unidos.
— Então por que não fez?
— Porque você pediu para que isso fosse nosso por enquanto.
Ela ergue os olhos o suficiente para perceber que Asta estava sério.
— E para mim, quero que seja do jeito que você quiser.
Aquilo. Era sempre aquilo. Asta não era bom com as palavras, não sabia falar como nobres. Não sabia cortejar como os homens que haviam tentado impressioná-la durante os últimos meses. Não escolhia palavras sofisticadas ou cheias de significados.
Mas sabia dizer exatamente a coisa que atravessava todas as defesas dela. De um jeito que conseguia entender mesmo que ele só rosnasse ela entenderia.
— Não quero esconder para sempre. — Noelle apertou sua mão.
— Eu sei.
— Só...
— Precisa de tempo.
Ela assentiu.
— Sim.
Asta sorriu.
— Então a gente tem tempo.
Noelle sentiu algo quente no peito. Silencioso e seguro.
— Asta. — ela respirou fundo.
— Hm?
— Tem uma coisa que preciso confessar.
— O quê?
Ela imediatamente se arrependeu, mas já tinha começado.
— O vestido. — disse desviado o olhar.
— O que tem ele?
— Eu...
Silêncio.
— Você?
— Escolhi pensando em você.
Asta pareceu ficar surpreso e feliz ao mesmo tempo.
— Não faça essa expressão! — ela sentia o próprio rosto incendiar.
— Qual expressão?
— Essa de bobo da corte.
— Só estou sorrindo uê!
— Asta! — Ela tentou afastar a mão.
— Então você escolheu isso pra mim? — Ele não deixou.
— Não exatamente. — corou mais.
— Você acabou de falar. — o sorriso de orelha a orelha.
— Eu disse pensando em você. É diferente!
— Como?! — provocava.
— É diferente porque eu estou dizendo que é! — se afastou um pouco ficando irritada, as vezes o desmiolado a sua frente sabia como a tirar do sério.
Asta começou a rir.
Noelle encarou-o absolutamente insuportável. Então ele chegou perto outra vez. Muito perto e a risada morreu.
— Como eu disse na varanda eu adorei. — a voz rouca no ouvido dela a fez engolir em seco.
— Astupido. — ela segurou a gola do traje dele. — Cale a boca
E o beijou. Não houve pressa. Talvez porque tivessem passado a noite inteira esperando. Talvez porque a espera tivesse transformado aquele momento em alguma coisa preciosa demais para ser desperdiçada rapidamente.
A mão de Asta encontrou sua cintura. Noelle sentiu o polegar dele contra o tecido azul. A mesma região que os olhos dele haviam evitado a noite inteira. Ela sorriu contra seus lábios. Asta afastou-se apenas o necessário.
— O quê?
— Nada.
— Você riu.
— Não ri.
— Noelle.
— Cale a boca. — ela o beijou novamente.
Quando se separaram novamente, as testas permaneceram encostadas. O corredor estava silencioso. A festa ia se encerrando ao longe dali. O reino inteiro continuava existindo. Mas Noelle não se importava. Asta ainda segurava sua cintura. E, pela primeira vez naquela noite, não precisava soltar.
— Então — ele murmurou.
— Não. — ela sabia onde ele queria chegar.
— Eu nem falei nada.
— Conheço você. — tentava parecer irredutível.
— Eu só ia perguntar...
— Não.
— Se amanhã...
— Asta.
Ele riu. Noelle fechou os olhos e riu também. Depois ficaram ali. Sem fazer nada além disso. Mãos entrelaçadas, corpos próximos. Respirações finalmente desacelerando.
Ele fazia uma expressão de cachorro que saiu da mudança toda vez que se separavam dos beijos. A mão passando pelas costas dela e cintura.
— Você é impossível. — dizia ela, ao sentir os beijos de Asta se direcionarem ao seu pescoço. — Droga, irei ficar só essa noite no seu quarto...
Fim!
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