Dreamy - Sonho Simulado

4 O clube, o nascer de algo e A Noite


Notas iniciais
Esse capítulo demorou bastante pra ficar pronto e eu coloquei muitos "pulos de tempo" linhas que só tem a famosa reticência "...". Mesmo assim espero que gostem do capítulo ^^ Victor Nutty

O sol raiou no horizonte num esplendoroso nascer. Os pássaros começavam a voar, o orvalho escorria sobre as folhas naquela fresca manhã de quarta-feira, primeiro de Abril de 2037. O céu com algumas nuvens descansara da chuvosa noite de ontem. Um novo dia havia começado. Mas as balas corriam naquele jogo. Sempre. Porém...

Em sua cama, o garoto dormia profundamente. As luzes de seu Dreamy irradiavam o quarto que mesmo com as cortinas fechadas, ia ganhando luminosidade aos poucos.

Um apito ressoou no ambiente, era hora de acordar.

O equipamento lentamente enfraqueceu seus raios de luz até que não houvesse mais “vida” naquelas listras que percorriam suas mangas, tórax e pernas. O capacete finalmente repousou, e agora quem despertaria seria Kyaro, o veterano que cursará seu último ano na Escola de Ensino Fundamental II Teacher Gary Benson.

Seus olhos se abriram com a maior calma do mundo, como se nada pudesse corromper este momento de pura mansidão. O capacete já inoperante recarregava-se no corpo do garoto.

Levantando-se o garoto se sentou na cama e cobriu sua face com as mãos.

“Então...”

Ele andou vagarosamente até o guarda-roupa ao lado de seu PC e abriu a porta do canto esquerdo. Contemplando o uniforme azul com listras brancas ele pegou o cabide e com a mão por baixo do tecido avaliou a peça de roupa.

“... hoje é o primeiro dia de aula...”

Fechou os olhos e removeu o capacete dali. Retirou as peças do Dreamy de seu corpo, e olhou seu relógio.

[06:00 AM]

—Ah... meu último ano começa agora.

O menino suspirou e vestiu o uniforme, a aba na parte de trás balançava ao colocar da meia, seu cabelo liso era sacudido com o esforço aplicado. Logo ele estava pronto. Livros na bolsa, passe escolar no bolso, celular no uniforme, carteira “zipada”. Ele checou um aplicativo em seu SmartPhone e no menu de contatos verificou que Tsumi ainda estava dormindo. Logo reclamou:

—Oh Deus, essa menina não acorda no horário nunca...!

Ele andou até as portas de vidro e quando abriu as cortinas a luz dominou o ambiente. Ao horizonte, o sol ainda deixava um rastro dourado no céu, poucas nuvens o rodeavam naquele momento, mas era o suficiente para mantê-lo em toda a sua glória. Subiu no parapeito e pulou para a outra sacada.

As portas atuais podiam ser abertas tanto por chaves como por fechaduras virtuais e senhas, porém, as fechaduras virtuais aceitavam contas de usuários as quais concediam acesso à pessoa detentora da identidade virtual. Sabendo disso, Kyaro apenas plugou um cartão de identidade válido em todo o território nacional para que obtivesse acesso ao cômodo que acomodara sua amiga de infância, Kachiharu Tsumi.

Ao abrir a porta, ele se deparou com um ambiente escuro que era iluminado unicamente pela luz advinda da porta de vidro aberta há pouco. Examinou o local com dificuldade e logo viu Tsumi. A garota dormia tranquilamente imersa em seu capacete por de baixo do colete prateado e as malhas negras com traços azuis e vermelhos, de tempos em tempos um movimento podia ser notado, entretanto insuficiente para acordá-la.

O garoto andou em silêncio até a menina e se agachou próximo a seu corpo, serenidade era a característica mais notável daquele rosto. Novamente Yoshi começou a viajar na maionese hipnotizado assim como havia sido com [SnowPrincess].

A menina lentamente acordou percebendo com dificuldade a presença de alguém, seu corpo começou a se mover com mais frequência e seu rosto começou a mostrar uma face que reclamava a si própria por sonolência. Logo Kyaro sussurrou:

—Ei. Tsumi, acorda. Tsumi...!

Kachiharu vagarosamente acatou o conselho e foi abrindo seus olhos mais e mais até que pudesse ver claramente Kyaro à sua frente.

—O quê...? …!!!

Tsumi tomou um susto e pulou da cama para trás batendo suas costas na parede e consequentemente a cabeça.

—Ouch! Isso doeu... — Respondeu com voz chorosa.

O menino avançou e agarrou a garota enquanto massageava sua nuca.

—Você tá doida? Se tivesse desmaiado, ia ser um adeus ao primeiro dia de aula.

—Ah... é mesmo...

—Tá bem, eu tô indo.

Yoshi se levantou, entretanto, antes que pudesse completar o primeiro passo, Tsumi agarrou sua manga esquerda. O garoto se virou para saber o que havia ocorrido e se deparou com a face da menina.

—Aonde você vai?

—Vou sair pra você se trocar ué.

—Ack! — Ela não sabia da besteira que havia perguntado.

—Ou você quer ir vestida de Dreamy pra escola?

Tsumi envergonhada se levantou e tirou seu capacete e as negras roupas do console, seus cabelos fluíram por seus ombros.

—Por favor saia...

—Ok, vô esperar lá em baixo.

O garoto saiu do cômodo enquanto Tsumi andou até uma parede onde estava seu uniforme. Tirando seu pijama ela cede lugar ao vestuário padrão da instituição de ensino.

—Tô pronta!

—Então desce logo, só vou pegar uma coisa aqui!

O menino pulou novamente de uma sacada para outra e descendo a seu quarto se dirige ao computador que informa no alarme o atraso de 2 minutos. Inserindo o pen drive na entrada USB 7.4 ele dá um comando de voz:

—Iniciar >— Ação >— Transferência de dados >— De Pasta Pessoal >— Para Unidade de Disco Removível, Sobrescrever arquivos!

O computador inicia então a passagem de dados para o dispositivo móvel. A frequência com que os dados foram passados permitiu que tudo fosse completo em apenas 20 segundos, mesmo se tratando de 6 GB (“GigaBytes”) de conteúdo, afinal os computadores de mesa de hoje evoluíram bastante para não sumirem do mercado, o próprio Dreamy, se fosse desejo da empresa que o criou, poderia suprir todas as necessidades que o usuário poderia ter em relação a um computador.

—Iniciar >— Ação >— DesLogar usuário do OSBoxes >— Desligar OSBoxes

(OS = “Operating System” = Sistema operacional, “OSBoxes” = Algo parecido com o Windows)

Percebendo que o dispositivo seria capaz de continuar daquele ponto sem a interrupção dele, o garoto desce para a cozinha onde pega uma xícara de café e rapidamente engole tudo com determinação.

—Pra quê tanta pressa filho?

—Hoje promete mãe! Tô saindo, tchau!

—Você não vai tomar café?

—Já tomei, era o suficiente!

O menino saiu do cômodo e da casa com um sorriso enquanto sua mãe, confusa, sussurrou para si mesma.

—Não era esse café que eu tava falando...

Lá fora os dois se encontram.

—Então? Pronto?

—Claro, e você?

—Eu também, pena que esse uniforme tá um pouco apertado...

—Bem, você é um adolescente em fase de crescimento, então é de se esperar.

—É, você tem razão.

Os dois foram andando pelas ruas até chegar na estação, as cerejeiras eram surpreendidas de tempos em tempos com fortes brizas que levavam suas pequenas e radiantes flores ao ar onde dançavam até repousarem sobre os ladrilhos da praça. O garoto e a garota conversavam sobre os mais diversos tópicos ao esperar pelo trem que logo chegou, várias pessoas se preparavam para aquele dia, não só apenas os estudantes, mas todos em geral, afinal quarta-feira é um dia útil da semana.

O interior do trem estava como sempre, nem tão lotado, nem tão vazio, apenas o razoável. Tudo estava tranquilo e nos conformes até que...

—Bom dia, telespectadores, estejam prontos para esse dia que se segue, afinal, nem sempre é fácil acordar na quarta-feira. Vamos às notícias. Uma jovem chamada Sora Sonoyuki de cabelos ruivos foi apreendida por ser uma assassina em série na ilha Shion, uma das cinco ilhas do continente. Esta jovem teria matado e enterrado no total 20 pessoas incluindo jovens, adultos e idosos. Sua punição será ficar num centro de pesquisas montado aos improvisos para analisar minuciosamente sua condição neuro e psicológica, há crenças de que uma doença pouco contagiosa mesmo assim enraizada se espalhou nesse país e seus efeitos incluem o desenvolvimento de uma ideologia distorcida e perigosa na qual a pessoa se torna violenta e se cobre de uma persona para desarrazoar qualquer hipótese que leve à conclusão da existência da doença, é aconselhável que todos conheçam as características de um psicopata pois a doença desenvolve esse tipo de personalidade em seu hospedeiro, frisamos que isto é uma doença e não uma síndrome e/ou distúrbio e raramente encontra o hospedeiro “perfeito”. Pode ser que tenha cura, entretanto não hoje. Mais tarde traremos mais notícias sobre esse tema.

A televisão de tela plana embutida no vagão avisara a todos sobre o perigo da doença que se desenvolvera na ilha Shion, várias fofocas e sussurros acerca do tema começaram a circular o ambiente do transporte movido por trilhos, porém Kyaro e Kachiharu não deixaram se levar pelo medo do perigo que afetou apenas quem estava há quilômetros e quilômetros dali.

—Hey, nós vamos entrar no clube de música hoje não é?

—Sim, é isso mesmo, só que só de tarde, quando a aula terminar.

—Pra mim tá ok.

—Próxima parada: Escola Teacher Gary Benson — Avisou a voz mecânica.

—Vamos é a nossa.

Kyaro se levantou e quando o veículo foi parando as portas se abriram, cerca de 2 ou três estudantes saíam de cada vagão daquele trem, mas no final havia uma multidão de estudantes no saguão da estação. Muitas pessoas estavam ali, professores chegando atrasados, pessoas sacando pagamentos nos caixas eletrônicos da estação, pessoas sentadas nos bancos lendo tranquilamente seus jornais impressos, empresários apressados, todos estavam ocupados mesmo que com as tarefas mais banais.

—Isso tá bem cheio hoje.

—É...

Andando entre o mar de pessoas o garoto de vez em quando esbarrava em alguém, mas sempre que tinha razão pedia desculpas.

—Ei Kyaro.

—Tsumi, você pode me chamar de Yoshi se quiser.

—Não, eu estou bem desse jeito.

—Mas, vai, prossiga.

—Eu tava checando o MMOGSS e parece que um tal de [PhantomShadow] ganhou um 7º lugar, você sabe alguma coisa sobre ele?

“EH?!”

—Eu? De que jogo?

—Acho que o nome é SpaceLife.

“Pensa rápido!”

—Não, não conheço, mas o que ele tem demais.

—Eu vi a batalha pelo 7º lugar e o jeito que ele luta parecia com o seu quando eu estraguei seu sonho ontem.

“Ah! E agora?!”

—Deve ter sido coincidência, vou pesquisar sobre esse jogo, mas acho que não faz muito meu tipo. — Disse enquanto pegava seu SmartPhone.

—E ele e uma outra Top 10, uma tal de Snow... Snow... Ah! Qual era o nome?

—[SnowPri--

—Oi?

—Ah! Nada, continua.

—SnowPrincess! Isso, o nickname dela era [SnowPrincess]! Eles tavam lutando e foi muuuuuito show aquela batalha! Foi incrível, principalmente a parte que ela usou um poder lá pra fazer nevar, aí o Phantom aparece e põe fogo em tudo! Não tinha como melhorar! Acho que vou começar a jogar esse jogo. Vamos jogar juntos?

“Eu sou o Phantom Tsumi!”

—Não obrigado, não curto muito esse jogo.

—Ah... Mas mesmo assim eu vou ok?

—Divirta-se.

“Isso provavelmente soou estranho, porque... eu sou um garoto e me recusei a jogar umFPS que a minha amiga de infância vai jogar, ou talvez só seja minha imaginação.”

―Não tenho muito o que fazer ultimamente...

―Você diz isso no primeiro dia de aula?

―É né? Tem isso também...

―Se bem que não vai ter nada pra fazer nos primeiros dias.

Enquanto andava pelo interior da estação à procura da saída da mesma, Kyaro acidentalmente esbarrou em uma menina que inevitavelmente caiu no chão.

—Ah!!

A garota estava de costas e se apoiou sobre seus joelhos e palmas das mãos.

—Ah! Perdão, perdão, me desculpe, não foi intencional...!

A menina se recuperava colocando suas mechas azuis-claras por trás da orelha enquanto tentava se levantar. As pessoas ao redor não notaram muito, e se notaram só deram uma olhada de lado.

—Ai... Minhas mãos...

—Por favor, me perdoe.

Kyaro se curvou diante da garota que ainda estava de costas, mas agora em pé. Virando-se ela responde à Yoshi.

—Sabe, você podia ser mais cauteloso. Ai...!

—Eu me distraí sem querer.

—Ok, ok, você é muito desastrado Kyaro. Deixa eu ver, machucou?

—Oh! Não, só está um pouco dolori-- Ah!

—!

—O que foi?

—Acho que ela abriu o pulso.

—Ah! Não! Não pode ser. É a mão que eu uso pra escrever...

—Espera aí.

Kyaro logo tirou o cachecol que estava vestindo e enfaixou o pulso da garota com o tecido um pouco grosso para aquele fim. No processo a menina gemeu um pouco pela dor sentida na mão, mas logo melhorou.

—Pronto, acho que se ficar assim até a enfermaria da escola, vai ficar tudo bem.

—Mas e o seu cachecol...?

—Você pode me devolver depois. Ah! Falando nisso, eu sou Kyaro Yoshi, terceiro ano, prazer em conhecê-la.

—E eu Kachiharu Tsumi, segundo ano.

—Prazer, eu sou Sayouni Hikari, também do segundo ano.

—Oh! Que sorte! Olha só Tsumi, vai que ela é da sua sala. Você já tem uma forte candidata pra amiga.

—Kyaro! Não saia dizendo isso por aí!

—Bem... Eu não tenho objeções. Né?

—Huh? Sério? Você quer ser minha amiga?

—Claro! Por que não?

—Yey! “Nice choice”!

“Daonde ela tirou esse troço de Nice Choice...?”

—Ok Sacchan! Quer vir pra escola com a gente?

“Mal se conheceram e já deu apelido...? Eh...”

—Oh não... Eu vou encontrar alguém antes de ir pra lá. Podem ir sem mim.

—Tá bom, até mais.

—Até Tsumi e Kyaro-senpai!

Afastando-se do local onde o acidente ocorreu, Tsumi e Yoshi saem da estação. O vento correu por ali e os raios do sol brilhavam fortemente. Ambos estavam na imponente e gigante Escola Teacher Gary Benson.

Sua arquitetura renascentista e a contemporaneidade dos prédios uniam o respeito pelos antepassados e a confiança nos métodos modernos. Os alunos estavam todos espalhados pelos gramados do grande campus. Esse país era conhecido por grandes instituições educacionais respeitadas no mundo inteiro, como por exemplo, as escolas Monte Silver e Sunset.

—Impressionante... — Disse Kyaro.

—Né...?

—Mesmo sendo meu terceiro ano aqui, ainda parece a primeira vez.

—...

Enquanto os dois observavam aquela maravilha das construções modernas, uma garota passa ao lado de Kyaro. Seu uniforme era um tanto diferente. Em vez de um laço, em seu pescoço havia uma gravata e sua aba na parte de trás parecia uma pequena capa. Fios decorativos em dourado tinham destaque na parte frontal de seu traje, e ela, apenas ela, possuía uma boina com o logo da instituição na frente.

Sem dúvidas, era a presidente do conselho.

Só havia um detalhe que provocou risos em Kyaro. Ela era muito baixa...

Ao ouvir as risadas do garoto, instantaneamente a garota parou de andar e virou sua cabeça de lado de modo que fosse o suficiente para que, com seu olhar assustador, pudesse amedrontar o menino até os confins de sua alma.

Tsumi não disse uma palavra sequer.

—Kyaro Yoshi-kun. Acredito que você não desejaria levar uma suspensão logo no primeiro dia... não é...?!

Kyaro se calou imediatamente.

—Acredito que não, concorda?

A menina de baixa estatura pegou o celular no bolso de sua saia e procurou por contatos. Ao encontrar o que desejava, efetuou a ligação.

—Ryuuji! Onde você está?

“Atrás do escravo logo cedo?”

—Okay, vem o mais rápido que você puder... Nada. Só venha.

Ela desligou o celular e foi embora. Virando-se para sua amiga de infância, Yoshi disse:

—Vamos ver os quadros de classe.

—Ok...

...

Andando pelo campus, o SmartPhone de Kyaro tocou. Uma notificação havia sido recebida. Mal sabia ele que aquilo poderia violar seu segredo.

—Quem será?

Ele pegou o aparelho e olhou para o menu cheio de itens dinâmicos que mudavam a todo momento com atualizações constantes. No ícone do canto da tela, ele foi redirecionado para o site do jogo (SpaceLife) com promoções de itens e planos pagos (Kyaro era daqueles pães duros que jogam o jogo sem comprar nada, porém ele era Top 7, então a pressão era bem grande).

—Deixa eu ver! — Falou Tsumi.

Percebendo o risco dela descobrir a farsa, Kyaro rapidamente fechou o navegador e desligou o aparelho antes que Tsumi pudesse ver algo, entretanto, não foi capaz de esconder seu estado de susto. Ele já havia lidado com situações bem piores até virar um dos Top 10, porém, na vida real, ele continuava sendo o mesmo iniciante de sempre.

—Ah! Qual é? Deixa eu ver!

—Não! Você não pode!

—Eu quero ver!

Tsumi rapidamente deu uma rasteira em Kyaro fazendo com que ele caísse e o celular que estava em sua mão fosse arremessado para cima, quando ligeiramente pegou-o no ar somente para saber o que seu amigo escondia dela.

Ao ligar o celular, o aparelho requeria um sinal da presença do usuário titular, pegando a mão de Kyaro que estava no chão, a usou para garantir o acesso às informações contidas ali.

Entrada confirmada, a menina entrou na sessão de mensagens, nada além de SMSs dela. Onde estava o que Kyaro escondia?

—Kyaro?

—... Fala.

—O que você tava escondendo?

—Nada...

—Sei.

—Você pode me ajudar a levantar?

—Ah! Claro.

A garota estendeu sua mão para ajudar seu amigo que passava as mãos sobre suas costas para aliviar a dor adquirida na queda.

—Pega leve da próxima!

—Amigos não escondem coisas uns dos outros, amiguinho.

“Pensa numa desculpa...!”

—Não é sensato uma garota ver aquilo. (“O quê? Isso foi o melhor que eu consegui pensar?!”)

—Huh... Então... Você é...

—Não! Não é nada disso que você tá pensando!

—Ah... Vamos para os quadros, já tive emoção demais por agora...

—Não era isso...

...

Os dois caminharam pelos gramados do campus até encontrarem uma sessão dedicada às informações quanto às salas do novo ano que se iniciava. Muitos alunos observavam atentamente os quadros repletos de nomes e tabulações assim como linhas e números.

—Olha ali.

—Aonde?

—Kyaro Yoshi, 3º ano, Turma C, Sala 45 (Terceiro andar).

—Bem, é o que você sempre quis não foi? A visão do terceiro andar.

—É, eles não mandaram tão mal...

Os autofalantes da escola indicaram o início do ano letivo. Após aquilo, todos se dirigiram para o auditório ouvir os discursos do diretor, e após, para suas salas onde depois do dia ter terminado seriam encaminhados para a festa de boas-vindas.

...

Ao fim do dia, Sayouni Hikari estava exausta e sentou-se ao lado de uma árvore no gramado do campus. Ela pegou seu caderno e começou a anotar algumas coisas.

“Tenho minhas suspeitas, algumas pessoas conhecem o [SpaceLife], outras nem tem o Dreamy mas jogam no de outras pessoas, emprestado.”

“Eu não sei o que deu naquele tal de Kyaro-senpai, mas meu pulso ainda dói um pouco... Ele parece ser um cara legal, mas não vou baixar minha guarda, qualquer um é suspeito. Mas ele é o que eu menos tenho esperança que seja o famoso [PhantomShadow].”

Sayouni fechou seu caderno e olhou para cima, as folhas deixavam passar entre si os raios solares alaranjados daquela tarde. Uma brisa correu pelo gramado e sacudiu seu cabelo. Ela, tentando conter a bagunça, ajeitou sua franja delicadamente. Quando terminou, a única coisa que ela notou no cenário foi uma garota em pé próxima à fonte. Era ela, a perfeccionista, Hiyari Shiho.

Ela pensou em lhe perguntar algumas coisas, mas percebeu que perguntar diretamente seria um tanto estranho. Decidiu começar uma conversa normal. Levantou-se de debaixo da árvore e limpou sua saia suja de grama. Ela andou carregando sua bolsa em seu ombro enquanto colocava o caderno dentro dela. A aba em suas costas balançava com seu andar, mas isso não a incomodava.

Ao se aproximar dela, a garota fixou seu olhar em Sayouni.

—Hmm... Posso me sentar aqui?

—Fique à vontade.

—É uma bela tarde não é?

—...

—Você não é de conversar muito?

—Não. Estou pensando em outras coisas.

—Ah é mesmo? Então você é do tipo filosófica? Pensadora?

—Não, mas poderia ser se quisesse.

—Ehh...

—Mas, você tem esse hábito de não se apresentar quando vai conversar com alguém novo?

—Ah! Desculpa. Às vezes eu me esqueço. Eu sou Sayouni Hikari, prazer em conhecê-la senhora pensadora.

—Por favor não me chame assim.

—Mas você também não disse seu nome.

—Bem, você é que está conduzindo a conversa. Estou te acompanhando. Meu nome é Hiyari Shiho. O prazer é meu.

—Oh... Meu primeiro nome e seu sobrenome são quase iguais!

—Suponho que coisas assim aconteçam.

—Mas então Shiho, como vai você?

—Onde está sua educação? Não me chame pelo primeiro nome.

—Hey... Calma. Desculpe-me.

—Vou bem, obrigada.

—Você não parece muito feliz hoje...

Sem perceber, Sayouni havia dado um golpe crítico em Hiyari Shiho. A mente de Shiho ficou embaralhada ao ouvir aquela frase. Ela ficou tonta e tentou se segurar enquanto caía sobre a “mureta da fonte” onde Sayouni estava sentada.

—Hey, Hiyari-san! — Disse Hikari tentando ajudá-la.

Num instante, ela perdeu toda a sua pouca vontade de conversar, ao fim da tonteira ela se encheu de raiva e levantou ficando de pé em frente a Sayouni.

—Se você quiser conversar comigo, por favor, volte outra hora.

Assim que terminou de dizer isso, Hiyari saiu correndo de perto de Sayouni sem nem mesmo olhar para trás.

—Mas o que...?

Enquanto Shiho corria, uma folha de papel caiu de sua blusa de uniforme. Hikari logo notou aquilo e foi correndo avisá-la, porém ela não se atreveu a olhar para trás. Abaixando, pegou a pequena folha de papel, quando abriu-a, a surpresa.

“Tenho que melhorar: ” é o que estava escrito, a maioria dos itens estava com quatro ou três de cinco estrelas, porém, apenas um item estava sem alguma sequer.

—“Felicidade”, huh...?

Sayouni ficou estática ao ver aquilo, mas a única coisa que pode fazer foi apenas olhar para a silhueta feminina que desaparecia depois de fazer uma curva por trás de um prédio.

—Kyaro! Aqui! — Gritou Tsumi.

Kyaro de longe pode perceber o escândalo de Tsumi. Se aproximou e começou a conversar com ela.

—E então? Pronta?

—Sim, sim!

—Vamos lá.

Os dois amigos andaram pelo pátio, passaram pela fonte onde estava Sayouni mas abismada ela não os notou. E nem eles a ela.

Chegando à sala do clube, Tsumi pediu que Yoshi abrisse a porta. Deslizando-a, os dois entraram.

No centro da sala havia uma garota tocando violino, exatamente do jeito anterior em sua varanda. Duas garotas e um menino a observavam, sentados em volta. O som fazia todos ficarem bem, a melodia suave penetrava os ouvidos de Kyaro e Tsumi, ambos sentiram uma sensação estranha como se a música tocasse seus corações. Yoshi já estava se desacostumando com essa situação que era proporcionada não por violinos, mas sim por balas, e pela força do hábito entrou em posição defensiva, espantado. Tsumi olhou para o lado e viu seu amigo em uma pose estranha.

—Hey... O que você tá fazendo...?

Kyaro logo percebeu que fez uma coisa que não devia.

—Nada! Nada não!

—Eu hein...

A melodia continuou e mesmo com os sussurros dos dois, ninguém desviou seu olhar. A garota que tocava o violino era, nada mais nada menos que Hiyari Shiho.

Quando terminou, enquanto os outros a aplaudiam e parabenizavam, ela olhou para a porta. Percebendo seu desconforto, uma garota ao seu lado e os outros também se viraram.

—Ora, ora! Visitantes. Não é todo dia que isso acontece! Hahaha! E então? O que vocês querem?

Tsumi timidamente começou a falar.

—Bem... é que... nós, eu e ele...

Kyaro suspirou e tomou parte no assunto.

—Eu sou Kyaro Yoshi e ela é Kachiharu Tsumi, queríamos entrar no clube se possível.

—Whoa! Essa foi direta! Hmm... Entrar no clube?

—Eu acho que não. — Sussurrou Shiho.

—Calma Shiho, nós nem sabemos ainda. — Sussurrou a menina em resposta. Continuou: — Shiho é um pouco precipitada quanto a isso. Nos desculpe. Então, o que vocês sabem fazer?

—Olha... Nós sabemos cantar.

A menina trocou olhares com Shiho que apenas fechou seus olhos como se dissesse “Deixo em suas mãos”.

—Bem, Matsumoto-kun tem composto algumas letras ultimamente, mas nós não temos vocais, vocês acham que podem cantar?

—É isso aí! Mas se cantarem errado vão se ver comigo! — Disse Matsumoto com um sorriso desafiador.

—Tudo bem, só que tem um problema, a Tsumi às vezes engasga no meio das letras.

—Kyaro!! — Gritou Tsumi entrando na frente dele para que seu ex-segredo não fosse revelado.

—Hmm... Isso pode ser um problema bem grande.

—Gigantesco — Sussurrou Shiho.

—Nós prezamos a perfeição quando tocamos.

—Palavras da nossa líder Hiyari Shiho-san! — Disse Matsumoto animado.

—Mas por enquanto vamos ver do que são capazes.

—Espera! Quais são seus nomes? — Perguntou Kyaro um pouco confuso.

—Esse cara é o Kenji Matsumoto-kun, nosso baterista e guitarrista, nossa líder violinista multifuncional se chama Shiho Hiyari, eu sou Yuuka Mizushima, toco piano, teclado e flauta, e essa outra é a Yumi Sato, ela é mais na parte da guitarra e do violão.

“Wow! uma banda completa.”

Com isso, Matsumoto entregou uma folha para Yoshi e Tsumi, nela havia uma letra e a partitura com as notas de cada sílaba, muito bem organizadas por sinal.

—Vocês sabem ler partituras?

—Sem problemas!

—Okay, agora é com vocês.

Hiyari se afastou um pouco do centro da sala, na verdade, todos com exceção de Yoshi e Tsumi se afastaram. Tsumi estava um pouco assustada, mas não era nada que a impedisse de cantar. Hiyari começou a falar:

—Kyaro-san, Kachiharu-san, por favor, venham ao centro da sala.

Aquilo soou como se fosse um ritual de sacrifício.

Ela pegou seu violino e entrou em pose, preparada, enquanto os observava discretamente. Todos os outros membros estavam com sorrisos estampados em seus rostos quando Shiho não tinha traços de felicidade em sua face. Matsumoto estava sentado atrás de sua bateria, Mizushima no teclado, e Yumi no violão.

—Então, vamos lá. Em uma parte da música, Yumi-san vai ficar livre, ela saberá quando, a partir daí ela vai fazer a contagem regressiva a partir de quatro para vocês começarem a cantar. Mizushima vai tentar dar conta da melodia de fundo e da “trilha guia”. Só isso é o que vocês precisam saber.

—Como assim “Trilha Guia”.

—Caso vocês não entendam a nota na partitura, Mizushima já tocará ela. Então é só se guiar pelo teclado. Apesar de que o ideal seria entrar na sílaba já sabendo como cantá-la. Mas não é nada que um ensaio não resolva. Estão prontos?

—Sim, sim.

Após a confirmação, eles começaram a tocar, assim que Yumi encerrou sua parte, ela fez a contagem. Quatro, Três, Dois. Ao final do abaixar do último dedo, Kyaro começou a cantar, sozinho.

Sua voz ecoou pelo lugar, entretanto não era o que Hiyari estava esperando. É claro que nunca seria o que ela gostaria de ouvir, Porém estava no limite da margem do aceitável.

A cada fim de estrofe, Tsumi fazia uma segunda voz perfeita que dava vivência à voz de Yoshi. Finalizando, ele cantou 12 versos.

Mas o que ninguém esperava estava no refrão de 8 versos.

Tsumi entrou no refrão com notas diferentes das previstas. Mas pelo contrário, isso não desanimou a ninguém, Matsumoto se impressionou com aquilo. As notas escolhidas por ela caíram perfeitamente sobre a frase e deixou tudo mais realista pois dos oito versos, seis tinham as mesmas notas, então se o ritmo escolhido por Tsumi ficasse em dois versos, no total você teria três tons. Um para o 1º e o 5º verso, outro para o 2º, o 3º, o 6º e o 7º e ainda outro para o 4º e o 8º.

Mas nem tudo seria um mar de rosas, quando estava para finalizar o refrão e terminar o fragmento de teste da música ela sentiu algo em sua garganta, uma sensação de aperto. Assustada ela se segurou em seu amigo, que rapidamente percebeu a situação.

Os membros pararam de tocar e logo se preocuparam com o que se passava. A voz de Tsumi que conseguiu tocar o coração de Hiyari agora lhe causava desgosto e desprezo.

Ela só conseguia tossir e acabou caindo no chão.

Mizushima correu para pegar um copo de água, Matsumoto e Kyaro ficaram perto dela, Sato arranjou um livro para abaná-la, e Hiyari apenas observou aquilo. Por um momento, Kyaro trocou olhares com ela e estranhou sua atitude.

Quando tudo se acalmou, Yuuka Mizushima daria a sentença final. Porém, antes ela consultou sua amiga Hiyari Shiho, que obviamente deu uma resposta contra e após deixou a decisão em suas mãos.

—Bem, já que nossa líder considerou que vocês estavam na faixa do aceitável, e Kachiharu-san tem um grande talento, eu, vice-líder do clube de música da escola Teacher Gary Benson...

“E essa enrolação marota aí?” — Pensou Kyaro dando risadas discretas.

—... Declaro que Kachiharu Tsumi e Kyaro Yoshi são nossos novos membros!

Uma salva de palmas foi ouvida na sala, uma pequena comemoração.

—Vocês começam amanhã, ok? Por agora as atividades do clube acabaram. Matsumoto-kun vai lhe passar as letras.

—Isso aí, eu só preciso do número de telefone de vocês.

Kyaro e Kachiharu passaram seus números.

—Hey, vamos lá? Agora é a festa de boas-vindas!

—Ah! É mesmo! Quase me esqueci. Hahahaha!

Mizushima Yuuka parecia ser uma pessoa alegre e divertida, além de energética, ao contrário de sua amiga Hiyari Shiho que era extremamente reservada e, às vezes, indelicada.

—Vocês vão dançar? — Perguntou Yuuka à Yoshi e Tsumi.

—Ah! Não não, só somos amigos de infância!

—Ehh? Mas o que tem de errado? Matsumoto-kun é meu amigo e eu vou dançar com ele! Não não não não, vocês têm que aprender! Às vezes fazer certas coisas como essas são saudáveis, somos todos jovens! — Ela dizia isso com uma interminável confiança no olhar.

Yumi se aproximou deles e os juntou dando uma força à sua colega de clube.

—É isso mesmo! Yuuka-chan está certa, vocês dois têm que dançar hoje!

O rosto de Tsumi rapidamente ficou vermelho, pois sua cabeça tocou o pescoço e o ombro de Yoshi. Do mesmo modo, ele estava envergonhado, porém não demonstrava.

—Ok! Ok! Eu me rendo!

—Olha! Kyaro-kun vai pedir a Kachiharu-chan pra dançar!

—Aposto 8000 Ienes (176 reais aprox.) se você, no meio de todo mundo, pedi-la pra dançar!

—O que?! É sério isso?

—Não, mas, pelo menos, um quarto disso eu pago (44 reais aprox.)

—Mesmo assim, tá bom demai--

Kyaro se interrompeu ao perceber o significado do que estava dizendo.

—Ahn? O nosso guerreiro recuou?

—Não! É só que... Eu não posso fazer outra coisa em vez disso não?

—Não! —Disseram Yumi e Yuuka ao mesmo tempo.

“... Droga! Vou ter que entrar no jogo delas!”

Kenji se levantou, olhou pela janela, e disse que deveriam se apressar, as luzes no saguão principal já estavam acesas. Todos correram, enquanto, sem pressa, Hiyari saiu por último trancando a porta da sala.

Ao chegar no saguão, Tsumi ficou impressionada com o que viu. O lugar até parecia uma festa de gala. Mesas com velas nas laterais do local, ao centro um grande espaço vazio para dança, extensas janelas nas paredes, um segundo piso com mesas apenas para casais, bandeiras e faixas decorativas que pareciam da realeza em escarlate e dourado, além de inúmeros outros detalhes.

Andando ao lado de Yoshi, Yuuka sussurrou:

—Hey! Já tá valendo.

Yuuka lhe deu um toque no braço e deu a mão à Kenji que sorria como se dissesse “Boa sorte!”.

Kyaro já tinha uma estratégia.

O garoto andou pelo saguão tranquilamente até chegar ao centro, Tsumi o seguiu (ele sabia que ela faria isso), não havia muitas pessoas por perto, o que os deixava completamente à vista. De longe Kenji e Yuuka os observavam. Uma música já estava tocando. Ele estava um pouco nervoso, mas seu sangue frio fez com que ele se controlasse. Yoshi se virou para Tsumi, quando ela percebeu, perguntou:

—Yo-- Kyaro, você não... tá levando aquilo a sério... né...?

Como resposta ele apenas sorriu.

O que se seguiu chamou a atenção de todos ao redor, algumas meninas se impressionaram com a coragem do garoto, outras zoaram seus parceiros por não serem como ele, alguns garotos apenas sorriram, outros disseram que ele estava somente se exibindo.

Kyaro se ajoelhou, estava com uma flor na mão, e com a outra segurou a mão dela.

—Aonde ele conseguiu aquilo?! — Yuuka sussurrou surpresa.

Tsumi se assustou com a cena que a envolvia como parte principal, um sentimento forte penetrou seu corpo, seu rosto enferveceu, suas batidas de coração rapidamente aceleraram, tanto que seu SmartPhone vibrou no bolso de sua saia avisando a alta pressão sanguínea.

—Kachiharu Tsumi-san, você aceita dançar comigo?

Tsumi apenas olhou para ele, mas podia sentir que todos a olhavam com expectativa. O fogo nas velas sobre as mesas às vezes falhavam, mas mantinham sua delicadeza, alguns casais no segundo piso avaliavam a cena como se fosse um filme, Tsumi só podia sentir uma coisa por agora, sua própria mão sobre a de seu amigo. Yoshi apenas esperou sua resposta.

Tsumi abaixou a cabeça mas concordou timidamente.

O garoto se levantou, seu coração estava a mil, ele tremeu um pouco mas se controlava a cada segundo. Colocou a flor sobre a orelha de Tsumi sem causar incômodo, os dois uniram as mãos e se seguraram. Seus corpos estavam tão próximos quanto ontem. Ambos podiam ouvir claramente a respiração ofegante.

Aproximando sua boca da orelha de Tsumi, Yoshi sussurrou:

—Calma... Vai dar tudo certo.

Tsumi, embaraçada, apenas recostou sua cabeça sobre seu parceiro de dança e fechou seus olhos.

Um casal no segundo piso começou a bater palmas e então todos no saguão começaram a aplaudir. A partir daí, várias duplas se formaram, também partindo para a dança.

Kenji começou a zoar Yuuka:

—Parece que você vai ter que recuperar o que perdeu pra comprar o Dreamy, não é?

Yuuka estava paralisada, imóvel.

—Hey! Yuuka~!

—Ah! O que você disse?

—Você perdeu a aposta!

—Ah é! Parece que sim, né? Hahaha! Acho que subestimei ele.

—Mas então, vamos dançar!

Kenji e Yuuka partiram para debaixo da grande cúpula de vidro e se juntaram às duplas.

Um pouco mais afastada dali, Ritsuka, a irmã de Yoshi, o olhava com suas amigas.

—Eh... Seu irmão parece ser um cara bem legal...

—É, de vez em quando.

—Ele até chamou a Kachiharu-san pra dançar com todo aquele efeito.

—Ele deve tá envolvido em alguma coisa pra ter feito aquilo, geralmente o onii-chan é muito reservado.

—Eh... Qual é a relação deles Ricchan?

—Só amigos de infância, não acredito que eles possam ser mais que isso.

—Oh, então eu tenho uma chance?

—Acredito que não, ele é péssimo com essas coisas. Hahahahaha!

Do outro lado, Kyaro pergunta a Tsumi se ela estava bem. Porém, ela não respondeu, apenas continuou com seus olhos fechados e recostada no corpo de seu amigo. Ela podia ouvir claramente os batimentos de Yoshi.

Ela se sentiu confortável ali, até porque aquele era o único lugar no mundo em que ela sabia que poderia se sentir totalmente bem sem que qualquer outra pessoa interferisse. Ela confiava bastante nele.

Naquele momento, algo nasceu.

Tsumi não sabia bem o que era, ela sentiu algo estranho em seu coração, mas preferiu não ligar muito. Mal sabia ela que, não importa o que ela fizesse agora, aquilo iria se desenvolver.

Ao fim do período de dança, o diretor da escola, um homem nem tão jovem e nem tão velho de cabelos negro grisalhos desceu a escadaria até a metade, onde os dois caminhos se unificavam em apenas um. Ajeitando sua gravata, ele olha para a pessoa ao seu lado, Yarushi Megumi, a presidente do conselho estava lá. Imóvel, em posição de respeito.

Iniciando seu discurso, o homem ergue seus braços um pouco como se fosse dar um abraço ou acolher a alguém.

—Sejam bem-vindos novamente alunos! Recentemente nos despedimos de nossos veteranos, mas não deixemos que sua honra por esta instituição decaia. Novos veteranos sairão daqui ao final deste ano. Portanto, façam seu melhor em apoiá-los para que possam passar do melhor jeito para a próxima fase! Novamente, nossas cordiais boas-vindas.

Uma salva de palmas foi ouvida pelo lugar. Continuando seu discurso, o diretor declara:

—Esse ano será um ano surpreendente, sentimos que várias coisas acontecerão, dentre elas, teremos duas excursões, uma delas no extremo fim do ano letivo, teremos também dois festivais, o de fundação da instituição e o de agradecimentos. Queremos que se divirtam mas não deixem os estudos de lado. Afinal nós somos uma instituição séria. Conto com vocês neste ano.

Com isso Yarushi assume a palavra. Vários comentários começam a fluir sobre o saguão. Ela fez um discurso completamente autoritário e ao fim liberou todos para que pudessem continuar se socializando e curtindo a festa de boas-vindas daquele longo ano que se seguiria. Quando Kyaro acabou de dançar com Tsumi, ele viu que Hiyari já havia chegado ao saguão. Tsumi ainda não havia acordado de seu estado viajante, este só foi interrompido quando Yoshi perguntou se ela estava bem. Em seu íntimo, Tsumi queria dizer que estava se sentindo ótima, porém tinha medo de admitir isso em sua frente. Saindo do “modo dança” ele diz a ela:

—Vou ir ali ter uma conversa com a Hiyari-san, você vai ficar bem sozinha?

—... Ah! Sim, pode ir, pode ir.

—Ok. Estou indo então.

—Divirta-se.

“Deve ser meio difícil se divertir com uma pessoa assim...” — Pensou ele.

Algumas garotas tentaram se aproximar mas viram que o alvo de sua conversa era ela, a líder de sala Hiyari Shiho, tão rude quanto Yarushi Megumi, nisso desistiram. Ao alcançá-la, Yoshi observa que ela estava sentada em uma mesa, só, com um copo de suco na mão, provavelmente de uva. Iniciando a conversa ele tenta:

—Olá líder, o que você está achando da festa?

—...

O garoto estava decidido a não deixar que o clima da conversa decaísse ainda mais, entretanto, antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Shiho disse em baixo tom:

—Bem, a iluminação está um pouco exagerada, e as bebidas muito doces. Não é uma das melhores festas.

—Acho que não contrataram profissionais para fazer isso, até porque, somos alunos do fundamental.

—Mas você não acha que isso deveria ser levado em conta já que a Teacher Gary Benson (escola) é tão prestigiada desse jeito?

—Você tem razão.

—Por favor, mude de assunto. — Disse ela revolvendo o copo meio cheio em sua mão.

—Hey, Hiyari-san, é meu último ano aqui então eu queria saber algumas coisas.

Hiyari se surpreendeu naquele momento, mesmo que poucos traços desse evento se manifestassem em sua face, Yoshi pode perceber. Até então ninguém do clube de música sabia que ele era um veterano. Nisso Hiyari escondeu seu rosto de surpresa e perguntou:

—O que você quer saber... Kyaro... -senpai?

—Ah! Pra quê esse formalismo todo? Me chame apenas de Kyaro.

—É importante dignificar alguém, então vou continuar usando o honorífico.

(“Senpai” = veterano, ou alguém superior. No caso, Hiyari é 2º ano e Yoshi 3º, nisso Yoshi é superior à Hiyari)

—Ok, ok. Mas vamos ao ponto. Tsumi é uma pessoa bem tímida, e por isso não tem muitas amizades, então eu resolvi ajudá-la entrando em um clube com ela, como todos estavam lotados, nós acabamos entrando no de música aproveitando que sabemos cantar.

—E agora você quer que nós cuidemos dela até que ela complete o fundamental pra você conseguir viver seu ensino médio em paz. Meio egoísta.

—Hey! Isso foi grosseria da sua parte.

—Eu entendi sua ideia, mas não somos babás.

—Por que você é tão dura? Digo, com os outros.

—Isso não lhe diz respeito.

—...

Os dois continuaram em silêncio até que, por algum motivo, Shiho forçou um sorriso e disse:

—Vamos fazer o que pudermos...

—O quê? Sério?

—Sim...

—Obrigado Hiyari-san! Também vou ajudar vocês no que puder.

Kyaro retribuiu o favor com um grande sorriso. E os dois continuaram sua estranha conversa com altos e baixos. De longe, Yuuka observava sua amiga conversando com o novato. Kenji percebeu a distração dela e a perguntou o que havia acontecido, ela apenas retrucou com uma expressão facial alegre.

Ao fim da festa, todos se despediram, as luzes se apagaram, Yuuka pagou a aposta e todos voltaram para casa. No caminho de volta os cinco novos amigos andavam juntos pelas ruas inclinadas da cidade, conversando descontraidamente, a cada divisão de caminhos, um deles se separava do grupo para chegarem em suas respectivas casas. Obviamente, o que sobrou foi Matsumoto, Kyaro e Kachiharu.

—Eh... Então quer dizer que você é nosso veterano?

—Sim... Mas pode deixar o formalismo de lado, afinal somos amigos agora, né?

—Mas eu não planejava usar o honorífico de qualquer forma! Hahahaha!

“Esse cara não bate bem...”

—Mas então? Como foi sua dança com a Mizushima?

—Wha?! Por que isso assim tão de repente? Bem, foi como o de sempre.

—Como assim o de sempre?

—Foi relaxante. — Disse ele com uma sensação de flutuar.

—Relaxante...? Só você mesmo.

—Danças são pra gente relaxar, não são?

—É, você está certo.

Ele queria ouvir tudo, menos coisas relacionadas àquela dança. Kachiharu teve um reflexo que a fez enrijecer seus ombros. Kenji logo percebeu a situação e disse:

—Ah! Parece que alguém sentiu mais que algo relaxante na dança! O que será, hein?

—Nada! Nada! Eu não senti coisa alguma! — Disse a garota empurrando Kenji.

—Hmm? Será mesmo? Sinto que alguma coisa teve de especial naquela dança.

Kyaro se sentiu um pouco desconfortável assim como sua amiga, sendo assim desviou o foco da conversa.

—Hey Kenji.

—Huh? Diga.

—O que vocês fazem no clube?

—Bem, cada um faz alguma coisa! Hahaha!

“Ele definitivamente não bate bem...”

—Eu saquei sua pergunta. Fica tranquilo. Nós nos apresentamos nos festivais da escola e de vez em quando alguns de nós entra em alguma competição de música, quero dizer, a Yuuka e a Hiyari, então a gente vai torcer pra elas quando isso acontece. Mas tirando isso, a gente tava querendo gravar músicas e vender, ou, sei lá, fazer shows pela internet.

No momento em que Matsumoto disse “shows pela internet”, Tsumi quase o derrubou parando em sua frente.

—V-V-V-Você disse shows pela internet?! — Havia um brilho inexplicável em seus olhos.

—S-Sim... Por quê...?

—Ela também faz shows pela internet, apesar de ser extremamente tímida pra fazer uma coisa dessas. — Disse Kyaro batendo nas costas de Kenji.

—Kyaro! Não sai falando essas coisas por aí!

—Mas eu participei no seu show ontem, você quer que eu diga o quê?

—Wow! De quanto foi a audiência?

—Dez mil. — Disseram o garoto e sua amiga sem demonstrar emoção alguma.

Kenji parou no meio do caminho enquanto os dois sem perceber continuaram andando, mas depois olharam para trás.

—Vocês estão brincando comigo! Só pode!

—Acredite se quiser. Por que acha que o nome dela e o da cantora são iguais?

—E-E-Eu achei que era só uma coincidência!

—Pois não é! — Disse Tsumi alegre.

—Oh meu... Hey! Espera, onde eu estou?

—Huh? — Yoshi e Tsumi o olharam confusos.

—Você perdeu o caminho de casa?

—Ah não! Parece que sim... Eu vou voltar pra procurar o cruzamento certo! Tchau!

—Tchau!

Kenji correu pelas ruas da vizinhança deixando os dois sozinhos.

Os postes já acendiam e as estrelas no céu estavam brilhando. Volta e meia havia uma briza e o som de seus passos pelas vazias ruas podia ser ouvido.

Kyaro checou algumas coisas em seu SmartPhone, mas não havia nada de novo. Voltando, então, seu foco para Tsumi, ele comenta:

—... O que você achou da dança?

—... Foi... O QUÊ QUE DEU EM VOCÊ?! Se abaixar daquele jeito e me chamar pra dançar no meio de todo mundo! Você bebeu antes daquilo?!

—Tinha uma aposta, você sabe...

—Mesmo assim! Não quero que meu amigo seja um viciado em jogos de azar.

—Ora vamos! Não é pra tanto.

—...

Ambos ficaram em silêncio por um minuto. Então, Tsumi questionou:

—Foi só pela aposta...?

—Ahn? Por que isso de repente?

—Eu só quero saber.

—Não. — Finalmente ele demonstrou estar envergonhado.

Tsumi correu e deu um abraço em seu amigo enquanto ria. Kyaro não entendeu muito daquilo, mas rapidamente soube o motivo.

—Que bom que eu sou sua melhor amiga!

—Ahn?! Como assim!

—Você não faria aquilo com uma menina que acabou de conhecer, faria?

—Não.

“Me pergunto se faria...”

—Então isso quer dizer que eu sou a amiga a quem você dá mais atenção! Mwahahahaha!

—Hey, você já pode me soltar... eu não con... sigo... respirar...!

—Ata! Desculpa.

—Sinceramente, você não é normal.

—Olha quem fala! Você também não bate bem!

—Mas isso já é outra história.

—Aham, sei...

Ao chegar em casa, Kyaro fez como o usual, trancou o quarto e fechou tudo, em seguida ativou os programas em seu Dreamy para manter o sigilo em máxima escala. Após isso, apenas logou no [SpaceLife].

O avatar de cabelos negros e cachecol branco andou pelo quarto indo até o grande telão na extremidade do cômodo do apartamento. Nele, PhantomShadow fez uma pesquisa sobre o sexto colocado no Top 10 regional Cherry.

Seu nickname era: [MidNight]. Uma série de fotos dele acompanhavam o artigo do Acervo de Registros Nacional Cherry na CherryNet.

Um homem jovem, com uma grande capa com capuz pretos, uma camisa vermelho vivo com listras brancas e um colete metálico era o que vestia junto com uma calça negra com listras brancas nas bordas próximas aos pés. O rosto dele nunca era revelado pois seu capuz o cobria em todas as imagens e fotos. Seu poder especial era sumir em lugares escuros e desaparecer quando o sol já se pôs. Ou seja. A partir de agora o sol começava a tocar o horizonte no mundo Cherry, mesmo que fosse artificial. E provavelmente, o especial de MidNight começava a ganhar influência em todas as batalhas que ele fosse ter a partir de agora.

Phantom observou as palavras que descreviam seu especial um pouco intrigado.

—Então eu tenho um concorrente com a mesma arma...?

Ele planejava começar sua busca a partir de agora, porém, antes que pudesse fechar a janela do navegador, a energia acabou, a luz alaranjada do pôr do sol tomara conta de todo o quarto. Phantom estranhou e resolveu olhar pela janela. Não havia nada, nenhum sinal de eletricidade nos prédios adiante num raio de 4 quilômetros. Quando olhou para baixo viu que todos os postes e linhas elétricas estavam em chamas. O que mais o surpreendeu em toda aquela cena, foi a janela que apareceu em sua frente.

“O usuário MidNight o desafiou para uma batalha real. Aceitar ou Recusar?”

Phantom exitou em apertar o botão de aceitar, até que ouviu uma voz:

—Ehh... Então é assim que é a sua casa...

Virando-se rapidamente com uma arma metálica na mão, Shadow vê que estava na mira de alguém também. Era ele, MidNight. Mas algo chamou sua atenção, ele estava sem o capuz, Kyaro podia ver claramente seus traços faciais e seu cabelo espetado.

—E então, já escolheu seus itens ou quer que eu explique as regras enquanto você escolhe?

—O que você está fazendo aqui...?

—Não é óbvio? Vim tirar você do meu caminho. Nós Top 10 estamos muito bem na nossa zona de conforto, se bem que não posso dizer nada pelo décimo e pelo nono, mas SnowPrincess agora está inquieta se preparando para lutar com quem perder pra você e subir no ranking como certo alguém.

—Então ela também quer subir...?

—Agora que você deu o início do efeito dominó, vai ser difícil pará-lo, mas pelo dinheiro que tá rolando, eu faria qualquer coisa pra conseguir isso.

—Quem está te pagando?

—Você me desanima de batalhar com você perguntando coisas tão óbvias.

—Não se preocupe, se surpreenderá quando chegar a hora, mas por agora me responda.

—O primeiro, é claro.

—!

—Certo! Vamos às regras! Eu te desafiei pra batalhar comigo numa batalha real. Se eu vencer, você vai, primeiro, passar todo, ouviu? TODO o seu dinheiro para a minha conta. Segundo, você não vai passar só o dinheiro, você vai vender tudo o que você tiver pra me dar o que conseguir. Terceiro, você vai vender a sua conta para mim por 50 ienes (Aprox.: R$1,00). Quarto, nossa zona de batalha vai ser aqui dentro de um raio de quatro quilômetros. Só isso! Não é simples?

—Mas e se eu vencer? Você me dá a sua conta?

—Ah... Não. Se você vencer você vai ter o sexto lugar.

—Assim não tem graça e as condições não são nem um pouco justas.

—Reclama mais um pouco e eu faço da sua vida um inferno. Afinal, eu sei onde você mora. — Disse MidNight dando uma volta pelo quarto e observando o que havia ali.

(Revelar o local onde um Top 10 mora no mundo virtual pode ser extremamente caótico, pois todos os jogadores poderiam querer uma batalha com alguém da “realeza” e estudar seus pontos fracos e fortes. Revelar isso na vida real pode ser tanto caótico como perigoso, afinal, contas de Top 10 são avaliadas com valor financeiro real, uma oportunidade para furtos, sequestros, etc.)

—Por que não luta com um pouco mais de respeito e dignidade com um Top 10?

MidNight usou seu especial desaparecendo enquanto dizia.

—Porque eu sou superior ao Top 10 com que eu estou conversando?

—... Ser Top 10 não faz de mim inferior a você, afinal, ambos somos.

Reaparecendo atrás de Phantom, ele diz:

—Certamente, mas quem diz isso é o seu número... Top 7.

—Ainda bem que eu me preparei muito tempo antes pra esse dia.

—Então você já tinha um pacote preparado para mim?

Enquanto MidNight dizia esta última frase, numa fração de segundo Phantom aceitou o desafio e colocou seu pacote MNDT (MidNight Defeat Toolkit = “Kit de ferramentas para a derrota de MidNight”) em seu arsenal. A contagem regressiva apareceu.

Phantom continuava segurando a arma metálica contra ele.

—Ora, ora! Pra quê tanto ódio assim? Eu não fiz nada em especial.

—Ahhh Não! Imagina se não fez! Você só invadiu minha casa e está estragando muito tempo de lazer futuro!

—E isso é muita coisa pra mim? É muita coisa no meu ponto de vista? Não! Hahahaha! Afinal, é problema seu.

—E ainda se atreve a perguntar!

Quando a contagem terminou, Kyaro foi o primeiro a disparar com todo o seu ódio, infelizmente, ele errou o tiro que apenas furou o canto da capa de MidNight e rachou a grande janela que enquanto se distraía, acabou deixando passar por si, Shadow. Este último, se aproveitando das rachaduras da fragilizada grande vidraça, a quebrou com um baque por seu ombro pulando numa insana queda livre à companhia de dezenas de cacos de vidro.

MidNight, ainda no apartamento, vai à janela quebrada e olhando para baixo faz vários disparos, aos quais nenhum acerta Phantom que revida acertando-lhe o braço esquerdo.

Mas como Kyaro sairia daquela situação, até porque, se ele não arranjasse um jeito seguro de chegar ao chão, o combate terminaria por ali, ele se espatifaria completamente no chão. Pensando em seu combate com a ex-Top 7, Phantom rapidamente sacou sua arma de gancho e a prendeu em uma marquise de um prédio vizinho.

Enquanto isso, MidNight também saltou do apartamento. Sua capa vibrava com o vento intenso que passava por seu corpo. E eis que veio a surpresa. Até agora suas pernas estavam juntas e seus braços igualmente em relação ao seu corpo em geral, mas quando abriu completamente sua envergadura, placas transparentes de energia apareceram entre seus braços e tórax, permitindo que MidNight fizesse um voo magnífico na perseguição que tinha como alvo o novo Top 7 Phantom Shadow que apenas se esquivava dos tiros e ia passando de prédio em prédio. As pessoas confusas nas ruas começaram a chamar a polícia e a pedir a imediata restauração do fornecimento de eletricidade, porém, era necessário investigar a causa do BlackOut, e enquanto isso era feito, vários furtos e duelos por propriedades, itens, entre outros afins eram praticados metros abaixo de onde a batalha real acontecia.

Sempre foi assim, mesmo sendo comemoradas com alegria total pelo povo Cherry, batalhas reais causam inúmeros danos aos outros jogadores e/ou autoridades do próprio povo.

Os noticiários demoraram um pouco mais para descobrir onde se passava a nova batalha real, mas quando souberam, os telões logo anunciaram.

Do outro lado da cidade principal do grande cruzador espacial Cherry (Que era do tamanho do Japão possuindo 4 andares abaixo da cidade principal), Liza observava novamente os grandes telões numa movimentada avenida. Ela logo saiu correndo para onde a batalha estava ocorrendo, entretanto sabia que não chegaria a tempo se fosse à pé. Sendo assim, ela perguntou a um senhor onde ficava o heliporto mais próximo dali. Sim, ela gastaria todo o dinheiro que tinha no momento para presenciar aquela cena. Curiosos, uma menina novata no jogo e Jack foram com ela também. Subindo rapidamente as escadas de um prédio indicado pelo homem, as duas pagam o helicóptero, que aliás, era bem caro. A todo o vapor, as duas seguem caminho para a zona leste da metrópole que era a cidade principal.

Nesse momento Yoshi percebe que não poderia ficar fugindo o tempo todo e que se fosse para o chão, teria muito menos vantagem sobre aquela batalha, sabendo disso, ele teria que ficar em um lugar em que houvesse o máximo de luz para aquele horário. A lua, melancólica, já alcançava sua glória no céu, grande e redonda.

Então, já que não podia fugir nem descer, ele logo procurou um prédio bem alto que não fosse escurecido pelas sombras de prédios vizinhos. Parando no topo de um ideal para a situação. Sacando sua pistola a laser ele começa a disparar contra o ser voador que o perseguia ferozmente como SnowPrincess na grande batalha de ontem.

A mira que aparecia em sua visão em forma de quadrado com linhas que apontavam para o centro tentava se travar em MidNight que se movia freneticamente atirando contra Shadow. Subindo e subindo, o jogador oponente preparava um golpe finalizador. Com o mesmo âmbito, Phantom prepara sua Saihechi para, com um HeadShot, finalizar a partida de uma vez por todas. Mas, não seria tão fácil assim. O tiro da Saihechi atingiu o ombro direito de MidNight que agora tentava manter o controle do voo sobre pressão. Um segundo disparo foi dado mas apenas acertou o fêmur do jogador que se aproximava em alta velocidade.

A barra de HP de MidNight estava com dois quintos da quantidade total, enquanto que a de Phantom estava com quatro. Mas logo ficou com um décimo da mesma.

Quando chegou perto o bastante de PhantomShadow, MidNight inverteu seu corpo dando um lindo, perfeito e potente chute no estômago de Phantom. A intensidade foi tanta que o corpo virtual foi arremessado em direção ao prédio ao lado onde as vidraças foram quebradas e as paredes destruídas pelo tamanho impacto. Barreira por barreira foram vencidas pela física e seus frios cálculos (Bastante filosófico, não?), até que, por fim, Phantom quebrou a última vidraça do outro lado se segurando forçadamente na borda do prédio com suas mãos entre cacos que não se soltaram.

Ele sabia que se soltasse aquilo a batalha estaria perdida e que se não conseguisse usar um item regenerador agora, teria o mesmo fim. Ao fundo, vários disparos eram soltados para cima acidentalmente pelos jogadores que duelavam para manter a posse de seus bens. Quando se está num duelo, seja ele uma batalha normal, contra jogadores ou mesmo numa batalha real, qualquer dano oferecido pelo ambiente afeta sua barra de HP, como as balas correm pelo ambiente, elas também poderiam lhe ser letais nesse momento.

Sem forças para poder voltar ao andar de cima, Phantom chutou com toda a sua força a vidraça do andar de baixo, quebrando-a. Com o máximo de cautela ele entrou no apartamento em que, por sorte, não havia ninguém. Atirando na maçaneta da porta, esta última se abre, ele corre pelos corredores enquanto seu cachecol o seguia, virando o máximo de vezes no percurso para que MidNight tivesse mais dificuldade em encontrá-lo.

Kyaro estranhou um pouco já que estava ouvindo os passos de mais alguém correndo por ali, mas sempre que olhava para trás não conseguia enxergar ninguém. Quando chegou a um beco, percebeu que já era hora para se recuperar. Mas quando terminou de tomar a poção ouviu a voz de alguém.

—Então essa era a sua estratégia?

Um calafrio escorreu sua espinha e se espalhou por seu corpo, mas pronto como sempre, se virou preparado para dar um HeadShot. A tensão era grande, tudo dependia do que ele fizesse naquele momento, havia muita coisa em jogo. O sol já se punha completamente atrás da linha do horizonte. O homem começou a dizer enquanto massageava o gatilho da arma em sua mão:

—Então é assim que você reage quando está em perigo? Olha só parece um gatinho assustado! Hahahahaha!

—Não tenho intenção de perder pra você agora.

—Ué? Mas isso já não aconteceu? O que é? Vai usar seu especial agora? Bem, seja lá qual for ele, não vai te ajudar muito, principalmente agora.

—Você é que pensa. Alguém aqui não fez o dever de casa, não é mesmo?

Notas finais
Espero que tenham gostado ^^ O especial do Phantom não é só desaparecer, mas isso só fica pro próximo capítulo. Ah, vou logo avisando que vai ter algumas tretas (whoa!) e momentos tristes (ah...) ao longo da história. Mas vai demorar um pouquinho mwahahahaha! Até mais e que o poder da chuva esteja com vocês! Victor Nutty