Dreams of New York
1 Capítulo 1 - Demons
Notas iniciais
Capítulo 1 – Nico
Demons — Imagine Dragons
When the days are cold
And the cards all fold
And the saints we see
Are all made of gold
A fria garoa que caía do céu dissipava a espessa névoa que cobria o chão.
As escrituras simples nas placas de cimento e as flores murchas deixavam o ambiente deprimente.
O vento frio assobiava por entre as lápides, fazendo o casaco e o cabelo do garoto sacodirem. Ele estava de pé, sozinho, encarando a escura cova aberta ao lado da antiga cova de sua mãe.
Ao seu lado, dois coveiros traziam o caixão de sua irmã.
Baixaram a bela caixa de madeira escura e lustrosa e entregaram a pá para o garoto.
When your dreams all fail
And the ones we hail
Are the worst of all
And the blood's run stale
Ele forçou o corpo a o obedecer, mesmo que sua vontade fosse se lançar ali dentro e ser enterrado também. Jogou a primeira pá de terra em silêncio e saiu de perto, deixando os coveiros terminarem seu serviço.
Você falhou, sua consciência o lembrava. Ela só está ali dentro, debaixo da terra escura, por que você não foi capaz de salvá-la.
Quando enfim o enterro estava completo e a lápide de sua irmã foi colocada, se aproximou novamente.
“Aqui jaz Bianca di Angelo”
“Irmã, amiga e companheira de aventuras.”
“Obrigado por tudo”
Colocou a rosa branca que trazia consigo em frente à placa de cimento.
Limpou uma lágrima que teimava em cair com a manga da jaqueta de couro e encarou os all stars cano médio que usava.
Agora é seguir em frente, pensou.
Seu pensamento foi cortado pela buzina estridente de um carro.
–Nicholas! – uma voz conhecida gritou. Ele odiava ser chamado de Nicholas. Preferia o apelido. Nico. Discreto, curto e sem chamar atenção. Mesmo tendo visto o pai pouquíssimas vezes, reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
O homem de meia idade desceu do carro e parou ao lado do garoto. Olhou com falsa tristeza para a lápide.
–É a.. – começou
–Sim. – Nico concluiu – É a minha irmã.
I want to hide the truth
I want to shelter you
But with the beast inside
There's nowhere we can hide
No matter what we breed
We still are made of greed
This is my kingdom come
This is my kingdom come
–Ah... – o pai falou. Nico esperava um abraço, que não veio. – Sinto muito.
–Não sente, não. – subiu o tom de voz, virando para encarar o homem grisalho que usava óculos escuros. – se sentisse, havia nos procurado antes. Agora, é tarde demais! Veja só, ela e mamãe morreram e você não estava aqui para nenhuma delas. Por que resolveu me procurar agora?! O Senhor Hades di Angelo quer cuidar pessoalmente do meu futuro enterro? Creio que espera que não demore muito...
When you feel my heat
Look into my eyes
It's where my demons hide
It's where my demons hide
Don't get too close
It's dark inside
It's where my demons hide
It's where my demons hide
O homem encarava incrédulo o desabafo de seu filho, que começava a soluçar baixinho, contendo as lágrimas. Os olhos negros e profundos, herança de família, estavam marejados. Aproximou-se do filho.
–Quero ficar sozinho. – falou ríspido, saindo andando pelo caminho do cemitério e ignorando o pai.
–Voltei para te buscar. – o pai gritou, fazendo Nico virar-se de repente. – Mandei meu endereço para seu e-mail. Não precisa ir comigo agora. Vá antes do início das aulas.
–Eu não vou para Nova York! – gritou de volta, erguendo os braços.
–Vai, é claro que vai. – o homem riu – sua guarda agora é minha. Até os dezoito, você é minha responsabilidade. Morava com Bianca por que ela já tinha vinte e dois anos e você dezesseis. Esteja lá antes do início das aulas. Já mandei recarregarem sua conta corrente.
O garoto bufou e voltou a caminhar pelo conhecido caminho. Sempre que ele e sua irmã iam visitar sua mãe, os dois ficavam sentados em uma árvore enorme que havia do outro lado da rua.
Chegou perto da mesma, ignorando os olhos que começavam a marejar novamente. Escalou até o galho em que eles haviam marcado com um “N e B” e se sentou.
Pensou sobre a proposta – ou intimação – de seu pai e percebeu o quão idiota era a ideia de ir morar com o pai e a madrasta que mal sabiam de sua existência. A única pessoa importante da família do pai era Hazel, sua outra irmã, que tinha 15 anos.
They say it's what you make
I say it's up to fate
It's woven in my soul
I need to let you go
Your eyes, they shine so bright
I want to save their light
I can't escape this now
Unless you show me how
Ainda pensando nela, pegou o celular no bolso.
Discou o conhecido número da irmã e esperou, encarando a pacata cidade de interior abaixo de si.
A voz calma atendeu ao segundo toque.
–Alô? – cumprimentou – Nico?
–Oi, Haz. – falou e sorriu, ao lembrar que tinha alguém que se preocupava com ele.
–Nico, você está bem? – perguntou– sua voz... Você estava chorando?
–Hazel... – respirou fundo – A Bia...
–Ah, Nico – ela fungou. Estava chorando? Sim, estava. – Eu já estou sabendo. Me desculpe por não poder estar aí com você nesse momento.
–Não chore, Haz. – pediu. Ele precisava ser forte pela irmã, quando não conseguia ser nem por si mesmo. – está... Vai ficar tudo bem.
–Já encontrou com papai?- perguntou receosa.
–Sim, infelizmente. – respirou pesadamente. – Já sei que terei que me mudar e não estou muito contente com isso.
–Por favor, Nico. – a irmã pediu. – Não vá fazer nenhuma besteira. Venha pra cá, fique aqui comigo. Não suporto Perséfone.
–Ela é uma idiota. – concluiu – Tudo bem, Haz. Te encontro aí na sexta, antes do início das aulas. Não conte nada ao velho.
–Obrigada! – ela riu. Como a risada dela lembrava a de Bianca... – Pode deixar. Tchau, Nico. Se cuida.
–Tchau, Haz.
Desligou o telefone e desceu rapidamente da árvore. Entrou no carro que a irmã havia comprado alguns meses antes e deu partida, acelerando nas estradas curvilíneas da cidade.
Parou em frente ao prédio que morava.
Cumprimentou rapidamente o porteiro com um aceno de mão e entrou no elevador.
Subiu até o quinto andar, saindo arrastadamente do elevador e entrando no antigo apartamento. O cheiro e as coisas da irmã permaneciam onde ela havia deixado.
Entrou no banheiro e lavou o rosto.
Encarou-se no espelho, vendo o garoto pálido e forte, dos cabelos e olhos negros com uma expressão arrasada.
Ele devia seguir em frente, por ele mesmo, por Hazel e por ela. Por ela que não deixaria seus pensamentos. Sua única amiga durante anos, sua irmã. Bianca.
–Eu não vou te decepcionar. Não de novo. – falou e a respirou fundo – Eu prometo.
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