Dreams
29 Capítulo 29
Notas iniciais
Ally
Eu ainda não podia acreditar que ele estava aqui, a poucos metros de distância de mim. Eu suava frio, meu corpo em choque por conta da surpresa. Eu estava olhando para o lado oposto ao da porta quando ele adentrou, por um minuto cheguei a chama-lo de Dave, mas quando virei-me pude vê-lo de costas com sua estrutura imponente e de repente ele virou me mostrando o rosto que habitava meus sonhos, sua voz rouca cortou o quarto quando ele disse “Não, Austin”. Foi nesse momento que não acreditei, pra mim era apenas os efeitos do remédio recente administrado.
Analisei as frestas da janela observando os raios de sol adentrarem o apartamento hospitalar. Será que tudo não tinha passado de um sonho e eu estava apenas acordando? De repente lembrei de umas das coisas ditas por ele “Eu sou real Ally, eu voltei por você” e isso me rasgou o peito, estava tudo perfeito até aquele momento, mas essa frase foi o motivo pelo qual eu o rejeitei... com isso ele estava me fazendo lembrar minhas dores e sua partida. E se ele tivesse voltado por culpa? Talvez não tivesse nada a ver comigo, me decepcionei.
“Tudo bem, eu vou sair por hora, mas não pense que eu não vou voltar. Você não vai ter do que se queixar, por que eu vim pra ficar e só vou embora com você” lembrei mais uma vez e não pude evitar sorrir, ele realmente estava dizendo que não iria embora, pior, não se incomodava com o que eu achava disso.
– Oi. – uma voz masculina cortou meus pensamentos, queria que fosse ele, mas não era.
– Oi Dave. – respondi enquanto o analisava, seus olhos abatidos.
– Vocês... an, se entenderam? – ele perguntou meio sem jeito com suas mãos nos bolsos.
Gelei diante daquilo, mesmo que eu não gostasse de Dave do jeito romântico eu nutria por ele uma amizade forte e vê-lo assim me partia o coração, pois parte da culpa era minha.
– Não exatamente. – respondi limitando-o a saber, mas ele insistiu.
– Tá tudo bem, eu aguento o tranco. Pode falar. – suspirei forte.
– Nós tivemos uma conversa cheia de magoa, mas eu ainda o amor e isso ficou claro o bastante quando o vi aqui na minha frente. – respondi com um nó na garganta, Dave assentiu em silêncio, ele estava analisando minhas palavras.
– Eu não tenho chance, não é? Nunca tive. – sua voz soou triste pelo ambiente.
– Dave.. você sabe, eu queria poder mudar as coisas, mas eu não posso. Queria que não tivéssemos que passar por isso, mas se é assim que é então devemos ser fortes.
– Ele te deixou aqui Ally, como pode escolher a ele e não a mim? Em que momento eu faltei pra você? O que eu deixei de fazer por você? – ele dizia mais para si mesmo do que pra mim. Ele estava lamentando.
O chamei com a mão, ele veio em minha direção e se sentou na lateral de minha cama. Eu levantei meus dedos e acariciei sua face no ímpeto de acalma-lo. Queria que suas dores fossem embora. Ele fechou os olhos tristemente.
– Eu... – ouvi outra voz cortar o ambiente. Dave abriu seus olhos e ambos encaramos a porta.
– Vejo que estão ocupados. – Austin proferiu com pesar evidente em sua voz.
– Austin. – chamei, mas ele falou logo em seguida.
– Eu volto outra hora. – Fechou a porta sem ao menos esperar uma resposta.
Suspirei alto, como era difícil lidar com essa situação.
....
Austin
Eu estava puto, como era possível? Depois de tudo ela prefere ele. Grunhi baixo, a raiva me consumindo. A essa altura os amigos de Ally já haviam ido para suas casas, enquanto restava apenas eu e os Dawson. Avisei a minha tia que não arredaria o pé daqui enquanto a garota não ficasse boa, quer Ally goste ou não.
Me encaminhei para a lanchonete, precisava tomar um café ou qualquer outra coisa. Pensar neles dois naquele quarto sozinhos me dava nos nervos. Ao chegar lá me sentei na mesa com a família da garota que por coincidência tinha tido a mesma ideia que eu. Tomávamos um café.
– Estou feliz por ter voltado, sou muita grata a você garoto. – a Sra. Dawson disse com um sorriso iluminado, apreciei.
– Também estou feliz por estar aqui, significa muito. – respondi.
–Eu espero poder te agradecer amanhã novamente, espero que você possa ser o doador. Minha filha não merecia um destino como esse. – vejo o pai da garota apertar seus dedos em volta da xícara de café.
– Tudo vai dar certo, pode apostar nisso senhora. – disse tentando mostrar confiança, o momento era delicado demais.
– Eu confio em você. Sabe... não sei o motivo pelo qual você sumiu por tanto tempo, mas queria que soubesse que tudo que fez pela minha Ally é impagável. Espero de coração que você fique por aqui mais tempo. – ela desejou sincera segurando minhas mãos, não pude deixar de sorrir.
...
Estava começando a ficar tarde, apenas uma pessoa poderia dormir no quarto com Ally e hoje seria a mãe dela. Obvio que eu sabia meus limites e o quanto a garota provavelmente não iria me querer no mesmo cômodo que ela por tanto tempo e ainda mais a noite, por isso dormiria na sala de espera em algum sofázinho ou cadeira qualquer.
Eu não havia encontrado com Ally desde aquele momento e eu ansiava em vê-la novamente, não sabia ao certo se deveria tentar mais uma vez entrar em seu quarto, mas o certo era que eu a procurasse afinal ela nunca sairia andando por ai atrás de mim. Comecei a encarar o nada quando alguém se aproximou, seus passos comedidos, mas imponentes. Olhei para seus sapatos, eram masculinos e estavam parados na minha frente.
– O que quer? – disse ríspido ao notar que se tratava de Dave.
– Quero o obvio. A garota que está no quarto. – ele disse na lata, sem rodeios, me deixando ainda mais puto do que quando o vi com ela mais cedo.
– Isso ela é quem vai decidir. – respondi tentando evitar a raiva que subia latente em minha garganta.
– Você deveria ter ficado no lugar pra onde foi, ela estava começando a superar. – ele diz e o meu sangue ferve.
– Acho melhor você parar por ai, não estou a fim de brigar num hospital. – desviei meus olhos, eu não aguentava mais seu olhar convencido pra cima de mim.
– Ela estava ficando melhor, eu estava ajudando-a a superar você. – ele disse me ignorando e desafiando todos os meus instintos.
Num ímpeto me levantei da cadeira e fiquei frente a frente com ele, um medindo o outro. A raiva pulsava em ambos, estávamos exalando adrenalina.
– Não vai ser você que vai apagar o que Ally sente por mim, e não ouse tentar porque eu não vou deixar. – o desafiei deixando claro que a garota era minha, eu a teria de volta.
Ele riu com escárnio e do mesmo jeito que chegou saiu, rapidamente. Suspirei forte tentando me acalmar. Eu precisava ficar perto dela, aquele cara é quase um abutre sobrevoando sua presa. Eu não poderia vacilar, não agora com o nível de mágoa que ela sente por mim.
Caminhei devagar a procura do número 208, dessa vez não tive medo e girei a maçaneta adentrando devagar o cômodo. Mãe e filha estavam numa conversa agradável, eu sorri com a cena. Isso me fazia sentir saudades da minha própria mãe.
– Austin. – a Sra. Dawson disse, Ally se manteve neutra diante da minha presença.
– Atrapalho? – perguntei sem me aproximar.
– Claro que não querido, venha. Ally vai adorar sua companhia. – ela piscou pra mim e eu sorri de canto.
Ela rapidamente me puxou para mais perto da garota e em seguida saiu do quarto avisando que iria comer alguma coisa, mas se eu bem tinha entendido a piscadela sabia que era proposital. Ela não entendia o que estava acontecendo entre sua filha e eu, mas queria que nos entendêssemos.
Fiquei em silêncio perto daqueles olhos incríveis, sua fragilidade naquela cama de hospital me dava um nó. Eu só queria protege-la e dizer que ficaria tudo bem, era isso.
– Acho que precisamos conversar. – ela disse e eu apreciei seu timbre aveludado atingir meus ouvidos.
– Senti sua falta. – proferi sem medo.
– Eu... eu também. – ela disse entrecortado, como se tivesse medo de assumir em voz alta.
– Me desculpe, eu não quis te magoar. Por favor Ally não seja injusta. – passei de leve meus dedos sob sua mão, mas ela a escondeu de mim. Fechei meus olhos com força em sinal do meu fracasso.
– Eu não sei o que dizer Austin. Por semanas você foi tudo o que eu mais desejei ver e agora que está aqui na minha frente eu sinto uma magoa crescente. – ela revelou.
–Então sua vontade de me ver sumiu no momento em que eu apareci? – perguntei com medo de sua resposta.
–Não, eu não disse isso. Eu não posso mentir e dizer que não o quero aqui, mas você precisa entender que eu estou ferida. – parte de mim se aliviou e a outra se afundou ainda mais.
– Eu sei, sei disso. E eu prometo recuperar sua confiança. – assegurei, ela me olhou e suspirou.
– Não me faça promessas. – disse me dando a facada final, ela não acreditava.
– Você não está ajudando Ally, eu estou aqui me humilhando pra você. Você quer que eu faça o que? Juro que estou tentando, mas está impossível. Ainda mais quando você fica com aquele... aquele... – preferi parar, eu sabia que não sairia boa coisa da minha boca.
– Dave? Ele é só um amigo. – ela disse sem humor, triste. Estremeci.
– Porque faz essa cara? Por acaso não sabe que ele te quer? – eu não deveria dizer isso, mas eu precisava saber de uma vez por toda o que ela tina com esse cara. Era impossível que ela não soubesse que ele a amava.
– E é justamente por isso que me sinto assim. – ela se limitou a responder me deixando ansioso e curioso.
– Eu não sinto nada por ele, Austin. Se é o que você quer saber. — Como nada? Franzi meu cenho.
– Não era o que parecia hoje mais cedo. – insisti sendo ridiculamente ciumento, quando ela não era nada minha, ainda.
– Eu não te devo explicações, mas vou te dar o luxo de saber qual é a minha relação com Dave. – ela pausou por um segundo e depois me fitou.
– Eu não correspondo seus sentimentos e me sinto mal e culpada por não conseguir fazer dele alguém mais especial pra mim. – ela disse me fazendo ficar dividido. Era bom saber que ela não o queria, mas por suas palavras ela gostaria de querer.
– Eu não posso ficar aqui ouvindo que você gostaria de se apaixonar por outro, eu... eu só quero que me dê uma chance. – pedi mais uma vez suplicante.
– E eu quero que pare de me cercar, eu não consigo pensar com você o tempo todo aqui. – ela disse e eu ri alto a assustando.
– Eu não vou embora e acho que já deixei isso bem claro, não se faça de durona Ally. – ela me olhou incrédula.
– Não conhecia esse seu lado autoritário. – bufou irritada.
– Bom, como eu vou passar a maior parte do meu tempo com você acho que será fácil de conhecer todos os meus lados. – eu estava sendo chato e insistente, mas eu precisava ficar na marra caso contrário ela me chutaria.
Ela não olhou mais pra mim e eu entendi aquilo como um “se retire” e assim eu fiz. Sai ainda pensando em como faria para dobrar ela, pra tê-la de volta. Doía demais perder sua confiança dessa maneira tão sofrida, ela estava tão cansada e ferida.
Ally
Estava sendo extremamente difícil entender meus sentimentos, eu o queria e deus era testemunha de como eu o queria, mas por trás disso tudo ainda existia uma magoa muito grande. Por um lado a culpa era minha, até então ele achava que Dave era algo como um namorado? Eu não sei o que ele pensou, mas estava irritado. Mas tinha um outro lado, o lado que independente de qualquer coisa ele não se despediu, ele não me deu um motivo pra ir embora ou ao menos me avisou que havia ido. Suspirei alto, deitada nessa cama quase fadada a morte, estremeci.
A noite caia pesada agora, as visitas já haviam sido encerradas e minha mãe chagaria a qualquer momento para dormir comigo. Eu estava esperando que ela chegasse para me ajudar com o banho, eu não estava me sentindo forte o suficiente, mas não queria nenhuma enfermeira fazendo isso, uma estranha.
De repente a porta se abriu me surpreendendo.
– O que você está fazendo aqui? – perguntei aturdida.
– Sua mãe precisou resolver alguns problemas em casa com seu pai, mas não se preocupe, não é nada sério. – ele explicou.
– Mas eu não posso ficar aqui sozinha, posso precisar de algo. – disse incrédula.
– Eu sei, eu vou passar a noite com você. – ele informou como se falasse do tempo, meu coração deu um salto. Eu e Austin presos num mesmo quarto?
– Não acho que seja uma boa ideia. – tive que protestar.
– Eu não vejo mal algum, saiba que eu não mordo. – ele disse contendo um riso, tive vontade de bate-lo por isso.
Olhei para o outro lado claramente irritada.
– Do que você precisa? – me irritei mais.
– De nada que você possa ajudar. – Disse tentando me levantar, passei a me segurar com uma mão e empurrar a estrutura do soro com a outra. Estava difícil, mas eu jamais iria aceitar que Austin me ajudasse a tomar banho, TOMAR BANHO! Nunca.
– Desse jeito você vai cair. – ele me olhou chegando mais perto e segurando meu corpo por trás, me dando o apoio necessário. Me arrepiei com seu toque, não evitando conter um gemido baixo.
Ele se inclinou um pouco colando seu rosto na curvatura do meu pescoço e respirando forte ali, ele estava sentindo o meu cheiro. Percebi que tinha perdido a força das pernas e só não havia caído ainda porque os braços fortes dele me seguravam enquanto seu corpo estava colado ao meu por trás.
– Senti falta desse cheiro, senti falta de cada parte de você. – ele disse ainda inclinado, sussurrando em meu ouvido e fazendo minhas barreiras ruírem.
– Austin... não. – ainda tentei dizer enquanto sentia meus olhos fechando, se deliciando com sua presença.
Sem que eu esperasse ele me virou de frente me fazendo abrir os olhos bruscamente e o encarando, seu olhar estava sofrido.
– Diga que não me quer, eu juro que te deixo em paz. – ele pediu e eu não soube negar, na verdade eu não soube dizer absolutamente nada.
Diante da minha incerteza e da baixa guarda ele me atacou com seus lábios, seu gosto era como um tipo de veneno, me tomando por completo e fazendo com que eu me sentisse entregue a seus toques. Ele me pegou em seu colo notando minha fraqueza e a partir daí eu não me importei com mais nada.
Entre mil beijos notei apenas, muito depois, que estávamos sentados no sofá que ficava a frente da cama. Suas mãos passeavam por meus cabelos revoltos e sua boca estava cravada em meu pescoço. Ele abaixou lentamente a parte da roupa hospitalar que cobria meus ombros e depositou beijos molhados por ali, arfei perdendo os sentidos.
– Ally, é melhor.... melhor pararmos. – ele disse dessa vez com os lábios perto de meu ouvido.
– Você não está completamente bem, eu não quero desrespeitar você. – disse, seus olhos escuros pelo desejo contido. Engoli em seco, o que eu estava fazendo? Na verdade... estávamos prestes a fazer algo muito sério.
– Você tem razão... eu, não é o momento.- disse tentando me soltar de seus braços, mas ainda estava mole em seu colo.
– Hey, calma. Isso não significa que eu não posso cuidar de você. – ele disse segurando meu queixo com delicadeza e me aninhando em seus braços, cedi facilmente.
Quando me acordei estava deitada novamente em minha cama, já era dia, eu pude perceber pelos raios de sol que entravam pela janela. Me lembrei rapidamente dos beijos desferidos pelo loiro na noite anterior, sorri abobalhada. Depois de me aninhar dormi profundamente, ele provavelmente me colocou de volta na cama quando percebeu.
Não dava pra negar que ele tinha quebrado meus muros por completo, apesar da magoa meu amor por ele se mostrava mais forte, meu desejo é apenas sobreviver.
...
Austin
Sai cedo do quarto depois de uma noite bem dormida, após depositar Ally em sua cama me aconcheguei no sofá, só acordando agora a pouco. Era estranho e ao mesmo tempo infinitamente bom não ter sonhos esquisitos ou acordar apavorado, estava começando a pensar que meu lugar é com certeza ao lado dela. O sonho nunca quis me afastar, ele só queria me manter perto, essa era a única explicação.
– O resultado vai sair daqui a duas horas. – o coletor do banco de sangue me disse enquanto colocava um pequeno curativo em meu braço a fim de estancar o sangue.
Era isso, em duas horas eu saberia se poderia salvar a vida dela ou não.
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