Dream - Uma revolução Sem Armas
2 Amigos?
Cheguei em casa aos prantos, agarrado aquele violão velho. Meu pai estranhamente estava em casa em veio logo me acolher, algo que não era nada normal, alguma coisa estava para acontecer.
–O que houve, meu filho? – Ele se aproximou de mim me puxando para o sofá. – Por que diabos você está chorando?
Respirei fundo, tentando parar de chorar. – Ele era apenas um morador de rua, pai.. Ele morreu.. Ele não tinha culpa de nada. – Disse ainda soluçando.
–Acalme-se meu, meu filho. – Ele disse como se não ligasse. – Esqueça isso, era só um morador de rua. Mais tarde quero saber como se enturmou com esse tipo de gente! Mas agora tenho algo para lhe pedir. – Disse com desprezo na voz. Eu o olhei sem saber o que dizer, espantado com tamanha frieza.
–Como sabe, as eleições estão chegando.. – Continuou ele. – E a partir desde ano você e seus colegas de classe já estão votando, você bem que podia dar uma ajuda para seu pai e.. – O interrompi.
–Espera, eu ouvi certo? – Me levantei o fitando, não acreditando. – Um homem morre e você está preocupado com a SUA candidatura?
–Se acalme, Roberto, você tem que entender que o futuro deste país é mais importante do que a vida de um velho qualquer!
–Futuro? Que futuro esse país tem com você no comando?! Fazendo esse seu teatrinho?! – O olhei com desprezo.
–Cale a boca moleque! – Ele gritou. – Se não fosse por mim você não teria nem metade do que tem! Eu pago uma boa escola para você! Te dou casa e comida, o que mais você quer?!
–Pelo menos eu ainda tenho dignidade! – Gritei de volta. – Eu quero um país onde as pessoas sejam iguais! Onde a vida de um rico tenha o mesmo valor do que a vida de um pobre! Eu tenho VERGONHA de ser seu filho! – Peguei o violão e me tranquei em meu quarto. Ele bateu na porta várias vezes.
–Abra já essa porta, Roberto! – Exigiu ele, eu, porém, ignorei.
Peguei uma mochila em meu armário e comecei a enche-la de roupas. Ouvi as vozes de minha mãe e minha irmã lá fora, meu pai gritando com ambas. Terminei de fazer minhas malas e peguei o violão, antes que pudesse sair do meu quarto ouvi o som de um tapa e o grito de uma mulher. Abri a porta com a raiva e o empurrei.
–Além de egoísta é covarde! Você não enxerga mesmo! – Voltei minha atenção para minha mãe. – Desculpa, mãe. – Saí as pressas de dentro da casa pela porta da frente. Peguei a bicicleta no quintal e saí dali o mais rápido que pude. Apenas ouvi os gritos de meu pai atrás de mim, na porta de casa. Segurei as lagrimas e pedalei sem rumo para o mais longe dali, passei pelo tal beco, um turbilhão de más lembranças invadiu minha mente. Continuei até não aguentar mais pedalar. Já devia estar do outro lado da cidade, eu me lembrava daquele lugar. Arthur, meu colega de classe morava perto dali. Cambaleando fui até a casa dele e toquei a campainha, ele atendeu surpreso pela minha visita e condição.
–Roberto? O que diabos aconteceu? Você está bem? – Ele me ajudou a ficar de pé, me levando para dentro.
–Eu saí de casa.. – Disse fraco. – Não aguentava mais, eu.. – E de repente tudo girou e não vi mais nada.
Acordei com a luz do sol batendo em meu rosto. Me levantei ainda zonzo observando a janela meio aberta. A ultima coisa de que eu me lembrava era de ser arrastado para um quarto. Minhas pernas doíam, e meus olhos ardiam, Arthur entrou no quarto e antes que pudesse dizer algo me adiantei.
–Muito.. Muito obrigado por me ajudar..
–Não precisa agradecer, é pra isso que servem os amigos. A propósito, não se preocupe, não liguei para sua família. – Ele sorriu gentilmente e se sentou na beirada da cama.
–Acho que te devo explicações.. Eu.. – Ele me interrompeu.
–Não precisa se explicar. Você deve ter tido seus motivos. – Disse calmo. – Faremos assim, vou te fazer algo para comer, você vai descansar melhor, e depois, se quiser você me conta tudo. Fechado?
Suspirei. – Tudo bem. – Tentei me levantar ainda fraco.
–Deixa que eu te ajudo. – Ele se levantou e me apoiei nele, indo até a cozinha.
Não preciso entrar em detalhes sobre o que eu comi, a única coisa que precisam saber é como a história se seguiu.
Deixei o prato vazio de lado. – Já decidi, vou te contar o que aconteceu. – Contei toda a história a ele. Quase chorei em algumas partes, mas por fim consegui terminar. Ele parecia não saber o que dizer, mas por incrível que pareça balançou a cabeça como se compreendesse.
–Que barra. – Ficou em silêncio por um tempo. – E para onde você vai agora?
–Eu não sei. Só sei que quero sair desta cidade o mais rápido possível. – Respondi.
Ele respirou fundo. –Sei que não posso te ajudar com muita coisa, mas se precisar de alguma coisa é só me pedir.
Me levantei da mesa pronto para ir. – Muito obrigado, ainda vou te devolver esse favor. – Agradeci.
– Não sumir do mapa e permanecendo dando sinal de vida já está ótimo. – Ele se levantou e estendeu a mão. – Amigos?
Apertei a mão dele. – Amigos!
Saí pela porta e peguei a bicicleta, indo para a rodoviária mais próxima. Eu via as pessoas na rua. A fome. A desgraça. Já não era mais o mesmo garoto que era a uma semana atrás, quando ia para uma festa qualquer. Eu aprendi o verdadeiro significado da vida, aprendi a dar valor a vida. De toda forma senti um aperto no coração ao deixar a cidade, mas deixei a cidade feliz, pois sabia que aonde quer que eu estivesse eu tinha um amigo orando por mim. Não fazia a mínima ideia de para onde estava indo, mas tinha uma certeza, algo muito maior me esperava. Algo maior do que ser o filho do presidente. Algo que eu esperava um dia poder mudar o mundo. E ainda espero.
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