Dream Eating Monochrome Baku
1 A garota dos sonhos ruins.
Notas iniciais
Acordei no meio da noite, gritando. Novamente tive um pesadelo. Todos, todos os dias a mesma coisa. Eu vou me deitar, e quando pego no sono, tenho um pesadelo. Ai acordo. Prefiro acordar do que ficar presa nele, mas mesmo assim é horrivel. Já faz mais de um mês que durmo apenas três ou quatro horas por dia, e isso está me dando muitos problemas. Não presto atenção nas aulas, não tenho energia para nada, e agora minha saude está sendo afetada. Minha mãe já me levou em todos os médicos, mas ninguém conseguiu fazer isso parar.
Me levantei, indo até a janela. As ruas estavam vazias, e as luzes nas casas, apagadas. A lua parecia estar bem maior do que o normal naquela noite. Ainda estava de madrugada, e eu estava mais cansada do que podia aguentar. Voltei para a cama, tentando dormir novamente. Antes coloquei os fones no ouvido, e dormi ouvindo uma música bem calma. Mas assim que dormi, os pesadelos começaram novamente. Estou sozinha no meio do nada. Está tudo preto, e não tem nada em volta. Até que um espelho apareceu em minha frente. Um pouco hesitante, me aproximei, me vendo no espelho. Cabelos longos, olhos claros. Sim, era eu mesma. Suspirei, um tanto aliviada, mas quando olhei novamente... O espelho estava manchado de sangue, e lá apenas a imagem de um esqueleto, que caia no chão, quebrando-se por inteiro. Me afastei, mas bati em algo. Quando virei para ver o que era... gritei, novamente olhando em volta. Todo o chão estava manchado por sangue, e de lá saiam mãos, que seguravam minha perna e me puxavam, chamando por meu nome. As vozes eram fracas, mas assustadoras. "Hatsune... venha... venha..." ouvia as vozes enquanto tentava me soltar. Minhas pernas sangravam, pois eles a arranhavam e apertavam.
– Me soltem! Alguém! Por favor..!
Gritei, querendo acordar. Mas não foi isso o que aconteceu. Ouvi um barulho estranho, como o de algo batendo no chão, e logo tudo aquilo sumiu, dando lugar a uma estrela amarelada que sumiu logo depois. Olhei em volta, e tudo o que vi foi uma mão, estentida para mim. Usava uma luva preta, e isso era tudo o que consegui ver.
"Senhorita... venha até mim..."
E logo depois, acordei. Estranho, aquele sonho foi mais longo do que pareceu, pois quando acordei já estava claro. Suspirei, me levantando e me vestindo para ir a escola. Durante as aulas, quase dormi várias e várias vezes. Logo era hora do intervalo.
– Miku, vamos comer juntaas! — Rin sorria, colocando a cadeira dela perto de mim e sentando.
– Hey, Miku! Que cara é essa, ainda não tá conseguindo dormir?- Gumi falou, se aproximando também.
– É... Já faz mais de um mês, minha mãe está ficando preocupada...
– Dream Eating Monchrome Baku! — Gumi falou, apontando para mim, sorrindo.
– Ah, começou... Ok. O que é isso, Gumi? — Rin riu baixo, começando a comer o lanche dela. Gumi sempre vinha com essas histórias estranhas...
– Vocês não sabem? Dizem que existe um monstro que come sonhos! Ele vem, fala que vai te ajudar, e quando você menos espera, ele come sua alma!
– Aah, que assustador! — A loira falou, rindo e levantando.
Fiquei pensando naquilo pelo resto do dia. Sim, realmente era assustador. Pensar em um monstro que entra em seus sonhos e... os come?... Foi só então que notei que talvez aquilo fosse verdade. Assim que anoiteceu, fui deitar. Assustada, não somente por que sabia que poderia ter pesadelos, mas também por causa daquilo... Sim, aquilo. Aquele monstro comedor de sonhos. Não demorou muito para o pesadelo começar. A cada dia que passa, mais assustador... Dessa vez, não fiz nada. Fiquei em silencio, e como pensei, aquilo aconteceu. Tudo sumiu, a estrela apareceu, e a voz me chamou. Assustada, me afastei um pouco mais, falando baixo.
– Dream Eating?...
E quando falei isso, acordei. Rapidamente me sentei, quase que em um pulo. Ele existia? Me levantei, sentindo meu coração acelerado. Não quero isso! Minha alma tem que ficar no lugar dela! Fui até a janela e a abri, querendo um pouco de ar puro. E quando olhei para a cama, gritei ao ver que havia alguem ali. Mas novamente ouvi aquele barulho de algo batendo no chão, e tudo ficou cinza. Fiquei olhando para aquela pessoa assustada. Cabelos amarelos, orelhas puxadas. Vestia um terno, preto e amarelo. Nada que vestia era de outra cor. Segurava uma bengala preta, e sorria alegremente.
– Pensei que nunca me chamaria, senhorita...
Ah, aquela voz. Era ele quem me chamava nos sonhos! Então...
– Você é...
– Ninguém sabe meu nome, nem que aparencia eu tenho...- Ele sorriu, levantando e indo até mim, curvando-se. — Prazer em conhece-la, senhorita Miku. Sou Dream Eating Monochrome Baku, o comedor de sonhos ruins...
– Comedor de sonhos ruins?... Gumi falou que você comia almas...
– Almas? De forma alguma, não sou um demônio!- Ele riu, voltando para a postura normal.
– Me... fale sobre isso que você faz.
Ele sorriu, logo começando a explicar. Me disse que come os pesadelos das pessoas, fazendo com que elas tenham apenas sonhos. Mas só poderia fazer isso caso a pessoa aceitasse o contrato. Ele me falou o preço, mas parecia tao tentador que nem mesmo prestei atenção no que disse.
– Eu aceito! Por favor, tire esses pesadelos de mim!
– Se é assim... Vamos fazer uma promessa com nossos dedos.
"Essa é a promessa do dedo mindinho... Quem estiver mentindo, leve mil agulhas que arranquem o dedinho..."
E depois disso, ele se afastou um pouco, batendo a bengala no chão. Aparentemente ele tinha parado o tempo. Ele me mandou deitar, e disse que eu não precisava me preocupar, pois não teria nenhum pesadelo. Suspirei, me deitando. Antes de dormir, tudo o que vi foi ele batendo a bengala no chão, e logo uma estrela amarela apareceu. Não sei se isso realmente aconteceu, ou se foi minha imaginação, mas podia jurar que o vi comer aquela estrela...
Os dias se passaram, e como ele havia prometido, nao tive nehum pesadelo. Mas eu queria algo a mais... Talvez... Sonhos melhores. Sim, os meus eram muito normais! Eu queria algo diferente. Quando a noite chegou, tranquei a porta e me sentei na cama. Respirei fundo, fechando os olhos.
– Dream Eating, preciso de você aqui...
E quando abri novamente, o vi sentado na janela, bebendo chá enquanto olhava para mim.
–Olá, senhorita. Já se passaram três dias, pensei que tinha se esquecido de mim...- ele soltou a xicara, mas ela simplesmente sumiu antes de cair no chão.
– Desculpe por isso, tenho dormido muito. Você é incrivel! Os pesadelos realmente sumiram!
– Ora, é claro que sumiram. Inclusive, são deliciosos. Senhorita, o que acha de fazer um passeio?
– Um passeio? A essa hora?
–Sim, a essa hora. Não se preocupe...- Ele sorriu, dando duas batidas no chão com a bengala. -Ninguem te verá, se estiver usando essa roupa.
Quando notei, não estava mais com minha roupa de dormir, e sim com um vestido azulado, com babados. Olhei para ele, querendo saber como ele fazia tudo aquilo.
– Venha...- ele estendeu a mão, começando a andar quando a segurei. Ele saiu pela janela , mas não caiu, e sim ficou de pé, como se o ar fosse seu chão. -Não tenha medo.
Ele sorriu, e então eu também sai, mesmo estando com medo. Olhei para baixo. Não tinha nada ali, mas eu estava de pé. Sorri, olhando para ele. Aquilo era incrivel. Ficamos andando, conversando sobre mim. Em momento algum ele falou sobre si. Logo chegamos em uma praça. Ele estalou os dedos, e calmamente começamos a "cair", logo chegando ao chão.
– Isso é incrivel... E eles acham que você é um monstro!
– E não sou?
A resposta dele foi rápida, e o tom de sua voz não era tão alegre. Ele olhava para a lua, suspirando.
– Dream Eating, eu...
– Len.
– O que?
– Me chame de Len. Meu nome humano. Não gosto que você fique me chamando apenas de "Dream Eating"...
– Len... Me responda, você já foi humano?...
Ele sentou no banco, me chamando pra sentar também.
–Eu era humano, e assim como você, tinha pesadelos todos os dias... Mas meus pais achavam que isso era algo demoniaco, e me prenderam em casa. Minha saude piorou, e... bom, não aguentei muito tempo. Quando morri, senti um odio profundo, pois nunca pude fazer nada... Um dia eu acordei, as coisas tinham mudado. Inventaram maquinas voadoras, predios enormes... O tempo passou muito rápido enquanto eu dormia. Sem notar, eu era atraido por pessoas que tinham sonhos ruins, e aos poucos fui entendendo o tinha que fazer.
– Isso é... meio assustador...
– Haha, imagina o que eu senti. Eu virei um monstro que come aquilo que mais odeio... O que me matou.
Depois daquilo, ficamos em silencio. Ele me levou para casa, e antes de dormir, falei para ele que queria sonhar mais, ter sonhos melhores...
– Doces fantasias, deliciosas mentiras... Farei com que você seja feliz do fundo de seu coração!
"Então... Vamos fazer uma promessa com um beijo."
Meus sonhos ficaram cada vez mais incriveis, e quando notei, preferia ficar dormindo e sonhando do que acordada, na realidade. Por uma semana, ele não apareceu. Eu também não o chamei. Queria sonhar mais, e mais, e mais... Até que meu pesadelo real começou.
– Senhorita...
Olhei para a direçao da voz, o vendo sair da sombra no canto do quarto.
– Len! O que faz aqui? Ah, você é incrivel! Os sonhos são otimos! E... por que está tão sério?
– Está na hora, senhorita. Meu trabalho já terminou. Sua saude já voltou ao normal.
– O que?... — Me afastei, mas ele se aproximou.
– Você sabe o que vai acontecer agora, não é? O brilho de seus olhos, essas mentiras, todos os seus doces sonhos... Irei pegar tudo isso!
– Não! Não quero!
–Que feição mais desgraçada, está é a realidade. Não foi você mesma que escolheu isso?
– Eu mudei de ideia!
– Se você apenas tiver "sonhos", os teus sonhos nunca irão se ralizar...
Ele sorriu de uma forma tão maliciosa que cheguei a gelar. Bateu a bengala no chão, e uma estrela muito maior do que as outras apareceu. Ele a comeu, e logo depois, eu desmaiei.
Que engraçado, ficam me falando que eu não dormia bem... Eu não lembro disso. Sempre dormi muito bem! Minha mãe parece preocupada, queria saber o motivo... De vez em quando, sinto algo estranho, como se estivesse esquecendo de algo. Ah, é apenas minha imaginação. Mas tem uma coisa estranha sim... Eu não tenho sonhos. Nem mesmo pesadelos. Quando durmo, tudo fica escuro, e apenas isso. Se bem que, de vez enquando, consigo ver uma coisa...
No meio da escuridão, uma mão estendida para mim. E uma voz, que acho que já ouvi alguma vez, me chama... "Senhorita, venha até mim..."
...Bem vinda a esse mundo monocromatico!
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