Dream Catcher

1 Dormirei Para Sempre


Notas iniciais
Saudações. Essa estória contém temas sensíveis de depressão e suicídio que podem deixar alguns leitores desconfortáveis, leia com cuidado. Escrevi essa estória curta apenas por diversão, para externizar alguns sentimentos, então talvez não esteja tão complexa e completa quanto minhas outras histórias. Peço para que não julgue o livro pela capa (vulgo o autor pela oneshot) e lhe convido para apreciar minhas outras estórias sem moderação. Boa leitura.

Abro meus olhos lentamente. A escuridão do quarto deixa difícil de distinguir se meus olhos estão abertos ou continuam fechados. Ainda me lembro do universo em que estava antes de acordar, e dos acontecimentos que vivenciei.

Não gosto de chamá-los de sonhos; para mim, são como universos paralelos que minha mente pode acessar apenas quando durmo. Minha mente não funciona como a das outras pessoas, as que apenas sonham. Minha mente é capaz de criar toda uma realidade em que as ações tem consequências, e eu sou capaz de controlar as ações que eu tomo. Em meus "sonhos", eu tenho um nome, história, relações passadas, memórias. Eu sinto que realmente pertenço aos lugares que visito.

Suspirei. Minha vontade era de continuar dormindo, continuar visitando diferentes realidades, mas eu não podia. Eu teria me levantar e viver em minha realidade física.

Eu teria que acordar.

Sendo assim, me levantei abri a janela de meu quarto. Pouca luz entrou, visto que ainda era muito cedo. Fiz meu café da manhã, como sempre. Um pão francês com manteiga e um copo de suco de laranja, como sempre. Me sentei em meu quarto, com pouca luz, sozinho. Como sempre.

Após o café, minha rotina dizia que deveria me arrumar para ir á escola. No espelho do banheiro, eu via meu cabelo pedindo para ser lavado, minha pele pedindo para tomar um sol, e meu corpo pedindo para ser mudado. Não seria capaz de atender a seus pedidos no período de tempo que me estava disponível, então, como sempre, apenas coloquei meus problemas para baixo do tapete. Amarrei meu cabelo, que já estava longo o suficiente para ficar em um pequeno rabo de cavalo. Lavei meu rosto, tão pálido que me fazia parecer um vampiro. Por fim, vesti meu corpo em roupas pretas, largas e que o cobriam por inteiro. Sabia que iria sentir calor por conta de minhas roupas, mas já estava habituado a isso.

Peguei minha mochila e meus fones de ouvido e segui caminho para a escola, sozinho. A música me ajudava a abafar o barulho do mundo exterior e distrair minha mente do barulho interior. A música era tão presente na minha vida quanto meus sonhos, e geralmente os dois andavam lado a lado.

Na escola, me sentava no fundo, longe de tudo e de todos. Apesar de ter vontade de me envolver com meus colegas de classe, não sentia que me encaixava. Todos eram tão felizes, tão ligados a esse mundo físico. Eles sim pertenciam a ele. Quanto a mim, não faço parte dele. Prefiro muito mais o meu "mundo dos sonhos", como chamavam. Eu tentava dormir nas aulas, mas o barulho era sempre muito alto. Se não da sala, seria da minha própria mente.

Na aula de educação física, eu apenas sentava na arquibancada da quadra, observando os rapazes, desejando profundamente fazer parte daquele mundo. Eu queria ser um dos rapazes, jogando bola sem camisa, ser tratado como um igual. Mas sabia que meus anseios não poderiam ser realizados, então eu ocupava meu tempo desenhando lugares e pessoas que havia visto em meus sonhos, criando continuações para os eventos que presenciei. Gostava de criar estórias baseadas nos universos que visitava em meus sonhos, pois eu sentia que isso os tornavam ainda mais vivos dentro de mim.

Depois da aula, eu volto para minha casa, sozinho. E com muito calor. Mas me recuso a tirar a blusa de moletom que visto. Já em casa, sou tirado do prazer de retornar aos meus sonhos, pois isso atrapalharia toda a minha rotina, a qual eu prezo tanto para manter consistente. Então, me contento em colocar no papel as minhas estórias, ou então simplesmente me deitar na cama, olhando para o nada, apenas com a luz que invade meu quarto pela janela para me impedir de pegar no sono. Geralmente eu faço a segunda opção.

Não tenho nenhuma vontade de fazer qualquer outra coisa além de ficar em minha própria mente, pensando em todas as vidas que já vivi. Em como tudo seria mais fácil se eu realmente vivesse naqueles mundos fantásticos que visito em sonhos.

Nos meus sonhos, eu posso dançar. Sinto a mais plena felicidade quando danço, sentimento que eu não consigo experienciar de outra maneira, a não ser em meus sonhos. Na "vida real", eu não tenho forças para me mover com tal veracidade a ponto de poder dançar. Apesar de não estar cansado, apesar de não ter nada físico que me impeça, eu simplesmente não consigo. Não sinto que haja um motivo para me levantar da cama, para comer, socializar, pentear o cabelo. Não há um propósito para viver nessa realidade. A única coisa que posso fazer, é esperar. Esperar até a noite cair, para que eu possa viver de verdade. Quando o breu da noite faz com que não haja diferença entre abrir ou fechar os olhos, eu durmo, me perguntando para onde irei esta noite.

Hoje, eu fui para a praia com meu namorado. Pude sentir o sol em minha pele, contrastando com a água gélida e salgada do mar que, por sua vez, contrastava com o toque quente e doce de meu namorado. Tal toque que eu desejava tanto, e só poderia vivenciar ali, naquela realidade. Me sentia livre, sem as amarras que me prendiam á cama, e pude correr com os pés descalços na areia, sentindo a suave brisa contra meu rosto. Eu ria, dançava, brincava na água. Sentia que pertencia àquele lugar, desejando que aquele momento durasse para sempre.

Mas não durou. E foi arrancado de minhas mãos. O som do despertador, mais uma vez, me tira de meu sonho.

Novamente, Abri meus olhos. Novamente, me levantei para tomar meu café. Novamente, me arrumei para ir á escola. Novamente, passei o dia com a mente em outro lugar. Minha mente ainda estava na praia, mas meu corpo já não sentia a mesma liberdade.

Ao voltar para casa, minha rotina continuava a mesma. Deitar na cama, olhando para o nada. Dessa vez, precisei da ajuda da música e meus fones de ouvido para abafar os gritos esbravejados pela casa, e o eventual som de violência. Apesar de já ter me acostumado com isso, não gostava de ouvir estes sons. Eles me lembravam que já tentei fazer parte dessa família, e fui friamente rejeitado.

Finalmente, a noite chega. E com ela, meu próximo destino.

Dessa vez, tomo a forma de um pequeno canário em uma floresta pacífica. Levanto voo, deixando meu ninho para trás, para poder explorar a imensidão azul acima de mim. Do céu, consigo sentir o sol em minhas penas e ver toda a floresta abaixo de mim. Sinto o vento contra meu corpo enquanto faço diversos giros e piruetas no ar, sentindo meu coração pulsando em alegria. Voando mais alto, consigo chegar até as nuvens, tocando uma com as penas de minhas asas. Quando olho novamente para baixo, para aquela floresta, sinto que pertenço àquele lugar. Mas esse sentimento não dura muito pois, novamente, o despertador me obriga a deixar esse sentimento para trás.

Mais uma vez, a rotina se repete. Entretanto, desta vez, algo me chama a atenção no armário de remédios do banheiro, que estava aberto. Um frasco. Observando mais de perto, percebo que são pílulas para dormir, e logo vejo uma oportunidade. Decido levar comigo para a escola.

Na aula, discretamente tomo uma dessas pílulas, e seu efeito é quase imediato. Como um passo de mágica, consigo calar minha mente. Então, vou direto para meu mundo dos sonhos.

Desta vez, sou um vampiro. Convidando belas donzelas para dançar em um baile, escolhendo a dedo quem será minha próxima vítima. A adrenalina da caçada faz eu me sentir vivo, tendo o controle da situação. A música clássica que toca ajuda a disfarçar os gritos de socorro das vidas que decido tomar. Após o baile, eu retorno para meu castelo, onde meu marido aguarda minha chegada. Ele me abraça ao me ver, e sinto que meu lugar é ali, nos braços de meu amado. Mas logo, eu desperto com o som do sinal da escola. A aula já havia terminado, e ninguém chegou a notar que eu havia dormido.

Dessa vez, ando até minha casa com certa pressa. Agora que consigo passar o dia todo em outra realidade, não vejo a hora de me deitar.

Chegando em casa, tenho que me abaixar para evitar ser atingido por uma garrafa de vidro, que acaba se chocando com o batente da porta. Ao que parece, cheguei em uma hora ruim, e acabo envolvido no meio da confusão. Vou para meu quarto segurando as lágrimas que desejam tanto cair sobre meu rosto, ouvindo palavras nocivas jogadas em minha direção, sem motivo. Antes de me deitar, pego o frasco que carrego comigo, colocando uma pílula em minha mão. Antes de a tomar, porém, um pensamento me para. Com essas pílulas, eu poderia simplesmente dormir para sempre. Nunca mais teria que voltar a essa realidade, que provavelmente estaria melhor sem mim, de qualquer forma. Decido tomar todo o restante do frasco.

Então, me deito, sentindo o sono mais pesado que já havia sentido. Suspiro, aliviado. Finalmente teria o descanso pelo qual sempre clamo. Sinto meu corpo relaxar, minha respiração se aprofundar e meu coração desacelerar. Minhas pálpebras vão lentamente se fechando enquanto eu deixo este mundo para trás.

Pela última vez, fecho meus olhos.

Notas finais
Agradeço por ler até aqui. Espero que tenha gostado, e lhe convido a deixar um comentário sobre o que achou desse breve conto, ou sobre algo que devo melhorar. Estou sempre aberto a críticas e elogios. Até o próximo universo, ?” Captain Sephyr.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!