Dream Catcher
1 Crows
Notas iniciais
Era doloroso ter a sensação de que algo estava errado.
Tentei me distrair durante a longa viagem de trem com destino a casa da minha mãe. Mas não consegui. Meu pensamento sempre voltava para o porquê de eu estar indo pra lá.
Eu estava sozinha dentro de uma das cabines privativas do trem enquanto folheava meu livro, sem muita vontade de ler ou me entreter com a leitura.
Suspirei de leve ao tocar a textura do envelope creme em minhas mãos. Havia colocado-o entre as páginas do livro em meu colo somente para poder lê-lo e relê-lo várias vezes até eu chegar ao meu destino.
Estava sendo difícil para eu aceitar que a minha mãe tinha morrido. Já não a vejo há muitos anos, nem me lembro bem de seu jeito, de seu rosto. Minhas memórias e lembranças que restaram durante a época que passei ao lado dela não fazem muito sentido, sendo desconexas e confusas.
Meu pai não costumava falar sobre ela. Era um assunto que eu nunca tocava perto dele e nem perto de minha madrasta.
Por que sofrer por uma pessoa que eu sequer lembro ? Pelo simples fato que ela era minha mãe. Haviam sentimentos dentro de mim que eram inexplicáveis, como a minha repentina vontade de saber mais sobre a minha progenitora.
Tirei a carta de dentro do envelope e comecei a ler. Já tinha lido aquela mesma mensagem umas 20 vezes e já tinha as palavras gravadas em minha mente.
“Cara Scarlet Farrgut,
Chamo-me Elizabeth Renfroe e sou a governanta da casa de sua mãe há muitos anos. Gostaria de não ter que ser eu a mensageira desta triste notícia, mas não tenho escolha. Acredito que a senhorita mereça saber.
Sua mãe faleceu após ter contraído uma doença muito rara da região. Nenhum médico conseguiu diagnosticá-la e tratá-la de maneira correta então não posso lhe informar a causa de sua morte.
O advogado dela pediu para que eu lhe enviasse essa carta convocando você a vir até a mansão de sua falecida mãe. Imagino que possua outros afazeres mais urgentes e compreenderei se não puder vir o mais rápido possível.
Há aqui alguns pertences que são seus por direito, inclusive a propriedade.
Estaremos à espera para a leitura do testamento deixado por Mary.
Desejo a senhorita minhas sinceras condolências pela vossa perda.
Atenciosamente,
Elizabeth”
Guardei a carta de volta ao envelope e pus em meio as folhas do livro. Larguei o livro sobre o banco da cabine e encostei a cabeça na janela.
Olhei para a bela paisagem azulada. Tudo tinha uma cor anil devido escuridão do exterior. Já era bem tarde e a viagem estava chegando ao fim.
Senti uma vontade de dormir que vinha sendo freqüente por esses meses. Não adiantava o quanto eu dormisse, ia continuar sentindo cansaço e tontura durante todo o dia.
Fechei meus olhos e respirei fundo antes de sentir tudo ficar escuro.
–--
Minha mente parecia estar consciente. Minha última lembrança recente era a de ter adormecido dentro da cabine do trem.
Olhei ao redor e me vi em meio a um salão de baile abandonado. Havia 4 janelas, duas em cada parede. A cor das paredes estava gasta e eu podia ver infiltrações e lugares sem tinta, com marcas de sujeira por todo lado. As grandes cortinas de seda creme que estava sobre as janelas, estavam rasgadas e esgarçadas com manchas de algo vermelho escuro nas pontas. O tom daquela cor lembrava sangue seco.
O piso branco estava cheio de marcas pretas de passos como se uma multidão tivesse passado correndo por aqui.
Uma luz clara vinha da janela, indicando a noite, e era a única fonte de iluminação do lugar, já que os castiçais e lustres que deviam existir estavam quebrados pelo chão. Só havia um resquício do que fora um frondoso lustre preso no teto acima de minha cabeça.
Ouvi um ruído e levantei meus olhos até esse mesmo lustre. Não tive tempo nem pra pensar quando vi o lustre despencar sobre meus ombros.
Senti como se estivesse sendo empurrada pra baixo pelo peso, como se estivesse debaixo d’água, indo cada vez mais para o fundo. Foi quando senti algo sólido se formar sobre meus pés e me vi em pé diante do mesmo salão.
A sensação foi como se eu tivesse emergido na água novamente. Olhei ao redor, dando uma volta ao redor de mim mesma . Vi o salão iluminado por uma luz creme. Tudo estava novo e brilhante, as paredes tinham uma bela cor bege claro e as cortinas estavam limpas.
Aos poucos o salão começou a encher de pessoas. Mas as pessoas pareciam ser translúcidas, eu conseguia ver através de seus corpos. Havia homens e mulheres dançando e uma banda tocando músicas calmas. Observei as roupas coloridas e bufantes, com uma aparência cara e chique.
Olhei para o meu próprio corpo e o vi envolto por um longo vestido negro. Não havia nenhuma alegoria, era apenas negro. Não condizia com a situação por ser muito simples. Meus pés estavam descalços e eu sentia meus cabelos caídos sobre meus ombros.
Levei minha mão ao meu rosto e senti uma máscara sobre meu rosto. Fechei os olhos e quando abri, me vi novamente no salão abandonado, de frente para um grande espelho velho, sujo e com a moldura de prata gasta.
Não conseguia ver o meu próprio reflexo, mesmo eu estando de frente pra ele. Foi então que resolvi tocá-lo com a ponta de meus dedos. Aos poucos meu reflexo foi surgindo
Eu estava de frente para uma imagem negra, como se meu corpo tivesse se fundido ao vestido e se tornado negro como carvão. Estacas negras estavam cravadas em meus ombros e na terminação do vestido. No rosto parecia que raízes pretas estavam presas à pele e os cabelos negros estavam oleosos, grudados à face.
Uma gosma parecia escorrer pelos dedos, como se tivessem jogado um balde de tinta sobre o corpo.Olhei para as minhas próprias mãos, e vi o líquido escorrer por entre eles.
Senti um grito ficar preso em minha garganta. Desviei os olhos de minhas mãos e comecei a esfregá-las em meu corpo. Observei que o mesmo líquido que antes caia de minhas mãos agora escorria das paredes e enchia o chão.
Em pouco tempo, a poça do tal líquido começou a atingir à altura de minhas coxas, até alcançar meu queixo e me afogar por inteiro. A gosma entrou por minha boca, por meus ouvidos e pelas minhas narinas, e como se estivesse preenchendo o interior do meu crânio, fez minha cabeça pesar e doer...
–--
Minha respiração estava ofegante. Havia uma mão em meu ombro. Minha visão estava turva e desfocada e eu tive de piscar várias vezes até conseguir ver novamente.
–... Senhorita ? – a voz do homem que repousava a mão em meu ombro era áspera e grave; olhei para ele e vi que era apenas um dos copeiros do trem. Era um homem de meia idade, um tanto curvado e com uma expressão cansada.
Tentei me mover, mas senti uma forte tontura me atordoar.
– Está tudo bem ? – ele me encarou com preocupação. – Todos já deixaram a embarcação.
Assenti de leve com a cabeça enquanto massageava as têmporas.
– Sim, está tudo bem. Obrigado por se preocupar – sorri amigavelmente e o vi tirar a mão de meu ombro. Ele puxou minhas malas do bagageiro e me ajudou a levantar.
Continuei com o sorriso enquanto procurava em minha bolsa algum alimento salgado. Uma vez ouvi que ajudava quando eu começasse a suar frio e sentir tonturas.
Não tendo achado nada, apenas apanhei dinheiro para dar ao copeiro.
Assim que deixei o trem e desci à estação, o copeiro me deixou carregar minha própria bagagem.
Sai da estação ainda com a tontura me assolando. A escuridão da noite estava impressionante.
Havia uma névoa cobrindo todo o lugar e era necessário um lampião pra se enxergar ali. Pena eu não possuir um.
Fiquei vagando pela frente do lugar por um tempo até achar um facho de luz um pouco longe da estação. Pus-me a caminhar até a origem daquela luz e encontrei uma carroça com uma lamparina presa.
Nela havia um senhor e uma senhora que me encararam por um bom tempo.
Por trás tinha um barulho incessante de um corvo grasnindo.
– Srta. Farrgut ? — voz forte e firme da mulher me assustou. Principalmente por ela saber meu nome.
– A senhora é a Elizabeth ? – disse enquanto passava a mão pela testa. O barulho estava ta alto que parecia que o som de minhas próprias palavras estava abafado.
– Sim. Está se sentindo bem, senhorita ? – ela sequer se mexeu e eu senti meu corpo balançar.
– Sim. Este barulho, esse grasnido de corvo, está me matando...
Por mais que estivesse escuro eu consegui ver a expressão assustada que o rosto dela formou.
– Estranho, senhorita. Não há barulho algum...
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