Dream
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Tudo era completamente irreal, errado, impossível, improvável. Ao mesmo tempo em que era certo, possível, a única coisa que podia ter acontecido naquele momento. Finalmente meus sonhos mais secretos pareciam prestes a acontecer: seus olhos entregues, seus lábios entreabertos, sua respiração forte e descompassada. A cena era tão perfeita, tão inesperada, tão esperada, que demoro bons segundos para agir, não conseguindo acreditar no que meus olhos viam em minha frente. Queria guardar a cena na memória com a maior quantidade de detalhes possíveis. O que quer que acontecesse a seguir seria um momento para relembrar eternamente. Se você saísse correndo — suas intenções e reações completamente distorcidas por minha mente perturbada e cega pelo que você causava em mim — aquele momento valeria a pena da mesma forma.
Meus dedos trêmulos tocam seu rosto, observando seus olhos fecharem, totalmente entregue, antecipando o que viria a seguir. Lentamente, de forma torturante, meus lábios encostam nos seus e meu controle vai até uma realidade alternativa e se perde por lá. Minha mão delicadamente puxa sua cintura para mais perto, enquanto a outra segura sua nuca, prendendo-a nos meus braços, segurando-a como se fosse de porcelana, como fosse se quebrar, sumir, evaporar a qualquer momento.
Mas você não se afasta e, contrariando o pensamento de que sua entrega era uma alucinação minha, você corresponde. Talvez não tão intensamente, sendo mais cautelosa, experimentando, atenta às reações que tinha a cada toque meu. Reações essas que não passavam desapercebidas por mim, que tomava-as como um sinal verde para seguir em frente. Você se arrepiava quando meus dedos passavam por seus braços, suspirava quando nossas bocas se separavam e eu roçava os lábios nos seus tentando retomar o fôlego perdido. Suas costas arqueavam enquanto minhas mãos subiam por elas e exploravam a pele nua e quente por baixo da blusa, colando nossos corpos cada vez mais.
O calor era palpável, o ar era denso, os pensamentos nublados, os instintos tomando conta de cada sentido. Ali, nos seus braços, o depois não importava, não existia, não chegaria tão cedo. O agora era muito mais interessante.
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Mais uma noite em que acordo pensando em você. O cheiro do shampoo do seu cabelo impregnando um quarto que você nunca frequentou. Minha memória traiçoeira mistura o sonho com a realidade e me permite um momento de felicidade ao acordar com sua imagem tão vívida e real em uma cena que eu queria que tivesse acontecido. Claro que a realidade uma hora nubla tais pensamentos, trazendo consigo o vazio tão conhecido por mim e de certa forma, esperado. Porque não era real. Era impossível, era errado, era improvável. Era tudo o que não era permitido. Era o que nunca aconteceria.
Enquanto você chega no trabalho contando sobre sua casa, sua paixão, sua vida – que nunca pertencerá a nós duas – eu sorrio e escuto, opino, disfarço e sobrevivo. O sonho não tão esquecido, ocorrido a poucas horas atrás, empurrado para o fundo dos pensamentos enquanto seu sorriso me desarma, apenas poucas barreiras necessárias nessa relação permanecendo intactas. Sua ignorância ao que eu sentia ou sua brilhante forma de ignorar os sentimentos que por vezes transbordavam quando meu olhar recaía sobre o seu, era o que mantinha nossa amizade intacta por tantos anos.
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