Dramione - Side Effect
62 Queria que você é quem tivesse morrido
Notas iniciais
O corredor do terceiro andar parecia anormalmente quieto e vazio. Não havia sinal nenhum de pessoas, música, ou mesmo conversa. Ninguém que passasse por ali diria que uma festa estava acontecendo a alguns metros de distância. Eu mesma só fui acreditar que Simas e Dino não tinham nos pregado uma peça depois de atravessar a segunda porta — menor, distante cerca de vinte passos da porta principal, Sala Precisa adentro, e semi-escondida pela tapeçaria — e ser engolida pela algazarra de alunos dançando, bebendo, agarrando uns aos outros e conversando aos gritos. De alguma maneira, a sala havia se adaptado para criar não apenas um salão de festas, mas também um vestíbulo — uma ante-sala, quieta e silenciosa, onde havia apenas algumas poltronas dispostas em frente a uma lareira, da qual ninguém jamais desconfiaria.
A primeira coisa que notei foi que estava quente lá dentro. E cheio, muito cheio. Havia alunos veteranos e novatos, de todos os anos, de todas as casas, misturados e se divertindo juntos. Olhei ao redor mais uma vez, encantada, para todas aquelas pessoas. Aquilo não era uma simples festa clandestina. Simas e Dino fizeram muito mais que criar uma nova maneira de burlar as regras e quebrar a monotonia. Sorri para mim mesma, sentindo-me realmente esperançosa em relação ao futuro pela primeira vez em muito, muito tempo.
O ex-namorado de Gina se aproximou de nós e, imediatamente, entendeu o que significava o sorriso no meu rosto.
— Eu disse ao Simas que vocês iam entender se viessem e vissem.
— Isso é incrível, Dino. Todas essas pessoas… — eu não conseguia parar de sorrir.
— Eu sei! Das primeiras vezes não veio quase ninguém e os que vieram nem sequer se falavam. Demorou um pouco. Mas aí… — ele coçou a nuca, como se escolhesse as palavras. — Quer dizer, eu também não acreditava que pudesse dar certo. Não depois do que… Mas o Simas queria. Ele acreditava de verdade, sabe? E eu… Eu só não entendia.
— Não entendia? — Draco ecoou de forma a fazê-lo falar mais.
— Eu estava praticamente me afogando na dor e no sofrimento, como todo o resto de nós. Eu me sentia... quebrado. E mesmo assim, não sei exatamente quando ou como… Mas agora, todas as noites em que cruzo aquelas portas… parece que… eu consigo… consigo ter esperança.
Precisei respirar fundo para impedir que as lágrimas caíssem, apesar do sorriso imenso ainda iluminava meu rosto. Para minha surpresa, Draco bateu no ombro do rapaz a nossa frente e ofereceu a ele um sorriso sincero.
— Isso aqui, com certeza, fez diferença pra muita gente. Parabéns pela iniciativa, cara.
Dino ficou tão espantado com o cumprimento de Draco, que não conseguiu dizer nada, apenas balançou a cabeça de forma positiva e saiu. O loiro deixou o braço cair ao lado do corpo e encolheu os ombros, frustrado.
— Odeio isso.
— Algumas pessoas ainda não estão acostumadas com esse novo Draco Malfoy: simpático, agradável… — fiquei na ponta dos pés e mordisquei o lóbulo da orelha do loiro antes de sussurrar próximo ao seu ouvido. — sexy…
— Ah, por Merlin! Arranjem um quarto. — a voz de Harry soou divertida.
Literalmente pulei para longe de Draco. Afastei-me como se ele tivesse me dado um choque. A risada de Gina soou acima da música e da conversa que enchiam a sala e me virei para encará-los. Neville e Luna estavam com eles e também riam da minha cara. Meu rosto estava tão quente, que a pele das minhas bochechas ia se desprender dos músculos e começar a escorrer a qualquer momento. O sonserino passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou para perto de novo, abraçando-me por trás, concentrando-se excessivamente no gesto.
— Nossa, não precisa ficar envergonhada assim... — Harry disse em tom de desculpas. — Era só uma brincadeira.
— Imagina se ele tivesse dito “arranjem uma sala vazia”... — Gina murmurou alto o suficiente para todos ouvirem.
Draco engasgou atrás de mim e enterrou o rosto na curva do meu pescoço para não rir. Luna arregalou os olhos enquanto olhava de mim para meu noivo e de volta para mim — um leve sorriso curvando seus lábios pintados de rosa. E tive certeza que, de alguma forma, ela sabia. Era como se a verdade piscasse em um letreiro de neon amarelo Lufa-lufa na minha testa.
— Sempre tão puritana, Hermione. — ela caçoou, surpreendendo a todos.
— Obrigada. — devolvi no mesmo tom. Mas o lampejo nos olhos azuis da loirinha me disse que ela havia entendido o verdadeiro significado.
— Quantas cervejas amanteigadas ela bebeu? — Draco apoiou o queixo no meu ombro enquanto terminava de desviar o assunto.
— Acho que mais do que ela deveria. — Neville respondeu.
— Com toda a certeza, menos do que eu pretendo. — Luna retrucou para depois rir da careta que o namorado fez e completar. — Estou brincando. A caneca que dividi com você foi mais que suficiente.
— Ufa! — ele bufou de forma teatral.
Todos riram de novo e senti que podia respirar novamente.
— Essa passou perto. — Draco sussurrou no meu ouvido.
Dei um cutucão nele com o cotovelo, que gemeu de mentirinha e riu. Mas meus amigos estavam envolvidos demais no clima da festa para prestar atenção. Luna dançava de uma maneira só dela e parecia acompanhar uma música diferente da que tocava no salão. Neville assistia a namorada com um sorriso no rosto e se balançava ocasionalmente. Enquanto Gina e Harry se divertiam um com o outro. Joguei a cabeça para trás, apoiando-a no peito de Draco e fechei os olhos.
— Estou feliz por ter vindo.
— Não acredito que vou dizer isso de uma festa grifana, mas eu tam-
A frase Draco morreu no meio e, ao mesmo tempo, seus braços ficaram rígidos ao meu redor. Abri os olhos preocupada e avistei Ronald vindo em nossa direção.
— Ele não tinha ido dormir? — pensei em voz alta.
— Eu precisava falar com vocês. — ele respondeu a minha pergunta involuntariamente e anunciou sua presença para os outros ao mesmo tempo. Gina revirou os olhos antes de se voltar para o irmão.
— O que é que você quer dessa vez?
Harry lançou a noiva um olhar de repreensão que ela prontamente ignorou.
— Só vim avisar que não vou jogar no domingo.
Ronald fez uma pausa demorada. Acho que esperava alguma reação de Gina, mas a ruiva apenas o encarou, sem entender nada.
— Por que? — a pergunta surpreendentemente surgiu de Draco.
— Porque Gina não se sente confortável voando ao meu lado. — Ronald usou as palavras da irmã com desdém.
— Uau... Quer dizer que você vai abrir mão de jogar ao lado dos maiores jogadores de Quadribol da Europa, por mim? — ela ironizou. — Conta outra, Ron.
— Qual é o plano dessa vez? — mais uma vez foi Draco quem fez a pergunta, mas ela podia muito bem ter partido de Gina.
Ronald bufou, cansado — como sempre fazia em meio às discussões com a irmã mais nova. E por alguns segundos eu pensei estar vendo o velho Ron de novo. Mas o momento se foi tão rápido quanto veio e logo a máscara de indiferença estava de volta ao rosto sardento dele.
— Não tem plano nenhum, Malfoy. Só percebi que não quero jogar.
— Fala sério, Ron. — Harry disse.
— Ah, por Merlin, Harry. Nem vai ser um jogo de verdade. Não com todas essas crianças dos times das casas participando também.
— Falou o profissional. — desdenhou Gina. — É uma brincadeira, não uma batalha. Foi planejado pras pessoas se divertirem.
— Você tem tanto direito de jogar quanto qualquer um de nós. — Harry insistiu. — Foi sorteado.
— É, mas ele não quer. — Draco falou, a voz monótona, totalmente desprovida de emoção. — É bom demais pra uma simples partida de caridade.
Ronald levantou uma sobrancelha vermelha para Draco, surpreendentemente, concordando com a afirmação do loiro. E uma ponta de irritação surgiu na boca do meu estômago, fazendo-o embrulhar. Ele nunca iria aprender. Continuava a considerar-se melhor que os outros por causa do que fez durante a estúpida guerra.
— E a gente também não se importa. — Gina emendou.
— Percebi… — Ronald provocou.
— Inclusive, se quiser se abster das suas outras responsabilidades no evento, fica à vontade. Ninguém vai ficar surpreso, ou chateado, ou preocupado. Todo mundo sabe que como Auror você é um ótimo irmão.
— Gina… — Luna interveio.
— Fala sério. Ele já deixou claro que não dá a mínima.
— Draco, eles são irmãos. — Luna usou seu tom mais conciliador. — Não podem continuar brigando assim. Gina, você não pode ignorar o Ron para sempre.
— É claro que pode. E deve.
— Draco!
Eu não queria repreendê-lo na frente de todo mundo. Eu também não concordava com a postura egoísta e altiva de Ronald. Mas Luna tinha certa razão, eles eram irmãos. Precisavam arranjar uma maneira de se entender. Virei-me nos braços de Draco e mesmo na penumbra do salão pude notar como o olhar que ele dirigia a Ronald era duro. Havia uma espécie de ameaça velada por trás dele. O sonserino finalmente desviou sua atenção para mim, e não havia mágoa nas íris azul-acinzentadas quando nossos olhos se encontraram, apenas tristeza e preocupação.
— Desculpe. — murmurei.
— Tudo bem. Não é da minha conta mesmo. — ele beijou o topo da minha cabeça. — Quer beber alguma coisa?
— Suco de abóbora.
— Vou pegar…
— Vou com você.
Ele me segurou pelos ombros e negou com a cabeça. Draco lançou uma última olhada para a discussão que continuava atrás de mim.
— Não, fica. Parece que precisam mais de você aqui.
Segui o olhar dele até a cena às minhas costas e vi que Luna cobria o rosto com as mãos, amparada por Neville. Gina e Ron literalmente gritavam coisas um para o outro agora, enquanto Harry tentava intervir, sem sucesso. As pessoas ao redor já estavam começando a encarar e apontar. Meu cérebro trabalhava furiosamente, procurando algo para usar, algum argumento que encerrasse definitivamente a briga. Mas ouvir o que Gina disse para o irmão em seguida me fez recuar, como se eu tivesse batido em cheio contra uma parede invisível.
— Queria que você é quem tivesse morrido.
Ronald ficou pálido. Ele encarou a irmã boquiaberto e estarrecido. Os olhos azuis estavam tão arregalados que pareciam querer saltar das órbitas. Tenho certeza que perdi a cor também.
— Certo. — Ron engoliu em seco.
Os olhos de Gina estavam marejados e ela cerrou os dentes para não deixar as lágrimas caírem. Até que o irmão se virou e saiu. Então, ela desabou em prantos nos braços de Harry. Fiquei paralisada por alguns segundos, ainda sem acreditar no que tinha visto e ouvido.
— Eu não… — ela tentou dizer.
— A gente sabe. — consolei-a, enquanto acariciava os cabelos cor de fogo.
Era verdade. Eu sabia. Sabia que ela não acreditava no que tinha dito. Gina não amava os irmãos de forma ou com intensidades diferentes. Teria sido igualmente excruciante e desesperador para ela perder qualquer um deles. No fundo, eu sabia também que ela já havia perdoado Ronald, que a implicância e as brigas eram apenas uma maneira de não dar o braço a torcer, não ter de admitir todo o amor que ela sentia por ele. Por isso, eu repreendei Draco quando ele a encorajou a ignorá-lo e fazer pouco caso dele — apesar de ,às vezes, Ronald realmente merecer.
Quando Gina finalmente se acalmou a frente da camisa de Harry estava ensopada. Ele ainda tentou fazer uma piada sobre o fato, mas o clima de festa havia acabado. Era como se a música agitada, as pessoas dançando, os risos e conversas ao redor sequer existissem. Luna e Neville, agora abraçados, nos observavam atentos.
— Acho que é melhor subirmos. — a loirinha verbalizou o que estava na cabeça de todo mundo. — Temos muito trabalho amanhã.
— Só preciso achar o Draco. — olhei rapidamente ao redor procurando pelo conhecido cabelo loiro.
— A gente te ajuda. — disse Luna, pegando-me pela mão e puxando Neville com ela também.
— Vamos também. — argumentou Gina antes mesmo de sairmos do lugar. — Tudo que eu não preciso é ficar parada esperando.
— Acho que ele está lá perto das bebidas. — Neville anunciou alguns instantes depois de termos começado a abrir caminho em meio às pessoas. — Ninguém mais no castelo tem cabelos tão claros. Parece que ele está falando com alguém.
A densidade de corpos por metro quadrado diminuía conforme nos dirigíamos para o canto do salão. Até que finalmente pude vê-lo também. Draco estava de costas para nós e pela postura ereta e retesada, eu podia dizer que ele não estava gostando da conversa. Dei mais alguns passos para descobrir que ele falava com Viktor Krum. Involuntariamente apertei a mão de Luna, que devolveu o gesto.
— Fica calma. — sussurrou.
Elas estavam tão próximas aos dois, que só quando estávamos quase ao lado deles percebi a presença das duas: Pansy e Greengrass. Os olhos verde esmeralda de Astória encontraram os meus e um calafrio atravessou todo o meu corpo. Acho que foi porque pude ler neles o que ela ia fazer em seguida. Sorrindo maliciosamente para mim, ela cobriu o pequeno espaço que a separava de Draco em um passo largo, jogou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou.
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